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3. Teorikapittel

3.4 Ledelse

O Ateliê foi programado para ser um espaço em que os oficiais de justiça podiam compartilhar histórias, sentimentos e saberes. Nele, como mencionei anteriormente, os participantes precisavam se sentir confiantes e seguros para dialogar, narrar, experimentar, conhecer a si mesmo e o outro. Nesse quinto encontro, inclui um momento de acolhimento com a música „Depende de nós‟, do cantor e compositor brasileiro Ivan Lins, como dispositivo para retomarmos o processo reflexivo com as narrativas biográficas no grupo e ao mesmo tempo, promover um ambiente acolhedor para fzer emergir o sujeito autor, leitor e ouvinte que habita cada um de nós.

Assim, continuamos compartilhando as narrativas sobre a execução de mandados. Israel (2009) iniciou a leitura de seu texto, descrevendo como ele se percebia no exercício da profissão. Assim, evocou múltiplas identidades profissionais, múltiplos saberes e práticas vinculadas a cada uma delas. Suas reflexões apontaram para novas configurações do sujeito

conforme a situação enfrentada, se apresnenta como um exercício necessário à formação do Oficial de justiça?

Ser Oficial de Justiça Avaliador Federal é como ser vários em um, pois é ser motorista, a serviço da capital e/ou da CAEX, ser carteiro, ser cobrador de dívidas, quando se é executado para que pague em 48horas, ser policial, quando dou voz de prisão acompanhada por policiais ou não, é raro, mas já aconteceu. Ser investigador, quando diligencio uma busca de informações para melhor cumprir notificações e mandados. Ser oficial de justiça propriamente dito quando realizo as atividades acima referidas e as demais, todas únicas e exclusivas da função, tais como penhora, remoção de bens, busca e apreensão de autos e de CPTS, bloqueio, emissão de impostos, entrega de bens, avaliação e reavaliação de bens, enfim cumprir as mais diversas determinações contidas nos Mandados judiciais, dando vida aos processos, efetivando a prestação jurisdicional e certificando as diligências positivas ou negativas e o cumprimento do dever. Finalmente, ser Oficial de Justiça Avaliador Federal é também ser fotógrafo, quando retratado os bens penhorados, que é a última determinação legal (ISRAEL, 2009).

O texto de Israel assume o caráter de revelação das evidencias de uma profissão implicada com adversidade da atuação profissional que não se resume à execução dos mandados, mas compreende uma prática profissional que agrega múltiplas atribuições ao cargo, clarificando o que e como realizam o cumprimento de uma diligência. Nesse encontro, a leitura da escrita biográfica de Israel (idem) assumiu um espaço de ação reflexiva sobre o trabalho, centrado no impacto da narrativa sobre o grupo. A tomada de consciência desses saberes múltiplos, dessas identidades múltiplas, advindos da experiência adquire um espaço de reflexão significativo na formação profissional e permitiu que o grupo construisse um novo conhecimento sobre a prática a partir da análise de situações vivida no ambiente de trabalho.

A oficiala de justiça Helena (2009) compartilhou também a leitura do seu texto intitulado “Uma cena curiosa”. Trata-se da narrativa de uma cena do cotidiano, que ela presenciou, envolvendo a relação amorosa entre uma mãe idosa e o filho, com síndrome de down, o que lhe permitiu chegar a seguinte conclusão:

Pois é, gente simplória aquela, tão simples, mas tão consciente de que a felicidade é, de fato, algo muito ingênuo mesmo. Ainda pensei que jamais presenciaria uma cena daquelas num shopping, num sábado à tarde, com tanta gente se esbarrando, mas, tão preocupadas consigo, com seus mil afazeres, talvez. Uma lástima que nem todos tenham tal percepção, uma lástima mesmo, que não consigamos retirar destes fragmentos tão simplórios

do nosso cotidiano, o essencial para nossa existência. E, é preciso que isso se registre, que saí dali mais leve, mais feliz, mais consciente da minha própria existência e que devo tudo isto ao Amauri (o jovem com síndrome de down), que nem deve ter percebido que estive ali a contemplar-lhe a existência. (HELENA, 2009)

Arfuch (2010, p. 198) ressalta que “É possível reconhecer aqui outra dimensão do modo biográfico, que se detém nos detalhes da “pequena história” para amenizar e “humanizar” os relatos dos acontecimentos.” A narrativa de Helena possibilitou transportar o grupo para o outro lado do acontecimento público, olhar pela ótica do protagonista e compartilhar a cena vivida, remetendo a compreensão da mensagem anunciada pela oficiala. Ao final, a narrativa foi aplaudida pelos oficiais numa expressão de aprovação e elogio público à interpretação da cena registrada por Helena que prosseguiu sua fala.

Mas a gente tem que estar aberto a isso ao que Paulo Freire diz: Tudo é uma aprendizagem. Para mim, a aprendizagem é o que está naquele momento, na experiência. Às vezes, nós, na nossa diligência, a gente não quer está fazendo aquilo, mas conforme eu disse pra nossa colega oficiala. Hoje, constatei que a Zona Norte tem um lado curioso, é o lado das pessoas que são humanas. Quando eu chego a uma casa simples, pobre, termino lá minha

diligência e a mulher diz: “Bom dia, que Deus a acompanhe!” [risos]. Parece

que a gente lida com o ser humano numa dimensão muito maior. Então, são nessas experiências que aprendemos o valor humano e da vida (HELENA, 2009).

O processo reflexivo da experiência compartilhada por Helena (idem) sensibilizou o grupo e colocou em destaque a busca de referências para atribuir um sentido às suas vidas, diante da exigência de produtividade e de celeridade impostas pela sociedade e instituições. Dessa maneira, as pessoas não podem perder tempo, não podem parar, escutar e conversar, pois no dizer popular “o tempo vale ouro!”. Sobre isso, o sociólogo Zygmunt Bauman (2010), no livro “Capitalismo parasitário”, analisa o mecanismo civilizatório que gera sobre a existência a condição da sensação do vazio existencial, onde acumular não é recomendado, o que mais atrai é o conhecimento criado para usar e jogar fora. Bauman (idem) chamou de „mundo líquido‟ as relações e comunidades que geram compromissos instantâneos e flexíveis, os quais podem apagar, adicionar e até deletar o vivido.

faz sentido para nós e para os outros de uma forma que permita compreender as experiências vividas e as mensagens escondidas, para assegurar a dignidade da pessoa humana. A narrativa de Helena (idem) permitiu revisitar o vivido e refletir sobre a experiência para dela perceber o sentido do saber da experiência partilhada no grupo. Assim como, despertou também no grupo múltiplas interações e reflexões. Na ocasião, compartilhei algumas reflexões com o grupo, retomando a conferência do ministro Ayres de Britto para resgatar na atividade judicante: a humanidade e o humanismo nas relações. E, Helena, introduziu possibilidades de descobertas, quando refletiu no grupo sobre as próprias experiências. Ao mesmo tempo, ela continuou aprofundando suas reflexões em torno das experiências adquiridas durante o trabalho do Ateliê biográfico, conforme ela afirma:

Eu quis dizer o seguinte, que eu tenho vários relatos do meu trabalho, eu queria chegar e contar uma coisa diferente, mas não uma coisa chata. Eu quis mesmo chegar em casa e escrever uma experiência. No outro dia, após o fato, no domingo, eu escrevi. Na semana passada eu tinha trazido, mas não estava me sentindo com vontade de passar, naquele dia eu estava meio amarrada. Mas, hoje, saiu mais normal. E levei sim para o meu dia-a-dia da profissão e estou levando este conhecimento (HELENA, 2009).

Os saberes tácitos dos oficiais de justiça foram ganhando forma e força, no espaço-tempo dos Ateliês Biográfico, e eles próprios foram se configurando como sujeitos históricos, portadores de conhecimentos ainda não trabalhados e que se revelavam em suas narrativas no grupo. Essa forma de conceber a experiência é afirmada por Passeggi (2011, p. 13) quando destaca que:

O novo modelo que tenta se impor, atualmente, é para eles “o do adulto plural” em busca de unidade. O adulto vive em espaços cada vez mais complexos e nos quais é convidado a “se dizer” e a demonstrar o que

adquiriu com a experiência. Ter experiência, pensar sobre a experiência, fazer experiência são expressões que se encontram no centro das preocupações da vida adulta.

Nesta perspectiva, os participantes da pesquisa foram realizando reflexões em torno das experiências da vida adulta no trabalho e se apropriando de suas histórias de formação, como observado nas narrativas e no diálogo entre Helena e Israel (2009). E, ainda, observa-se o modo como os participantes da pesquisa avançaram na construção do conhecimento acerca das relações de trabalho, buscando a compreensão dos acontecimentos.

Helena: - Sem querer monopolizar, mas uma coisa lembra a outra. Num desses cursos que nós fizemos aqui (TRT), há algum tempo atrás, tivemos a oportunidade de aprender sobre a importância do abraço nas relações de trabalho. Esta experiência foi importante para mim. A partir daí quando a gente chega para abraçar o outro, muitas vezes, eu não sinto receptividade, pois as pessoas estão distantes. E, ainda, tem pessoas piores que nem abraçam você! Outro dia, eu cheguei em casa e contei pra alguns amigos meus. Eu vejo como uma rejeição, o outro não quer se aproximar. Mas na dinâmica do grupo, você dá e recebe o abraço. É a oportunidade que você sente a pessoa, aceita como ela é.

Nani: - Mas, muitas vezes, nós somos mal interpretadas, não é?

Helena: - Geralmente, é com familiares que a gente permite o abraço, mas

as pessoas não estão preparadas. É esta a conclusão que eu cheguei para abraçar. Outro exemplo: Eu não tenho muito contato com o juiz, mas no encontro que tivemos, eu observei o pessoal saindo e eu resolvi cumprimentá-lo. Mas fui sentindo que eles ficavam com medo, ansiosos, porque a nossa cultura, principalmente do juiz, não permite a aproximação e o contato, e eles não se permitem também. (Transcrição do 6 encontro, 21/10/09).

Helena e Nani dialogam sobre as dificuldades, resistências, medo e ansiedade nas relações de trabalho. De fato, é nas relações com o outro que podemos observar os valores socioculturais de um determinado grupo, organização e ambiente, que interferem no modo de ser, de conviver, de aprender e de fazer (DELORS, 2006), nessas comunidades.

O diálogo entre Helena, Israel e Sarah (2009) continua essa reflexão:

Helena: - Eu me lembro de um encontro com um promotor, foi nosso juiz, e eu trabalhei com ele, mas ele me abraçou com espontaneidade e foi um abraço assim verdadeiro/inteiro. Mas eu percebo que as pessoas ficam indecisas: eu abraço ou não abraço?

Israel: - Esta questão do abraço está ligada à afetividade, quem não foi habituado a abraçar?

Sarah: - Nós mulheres, temos medo de ser mal interpretadas.

Helena: - Eu acho que não existe mais diferenciação entre homem e mulher

não. A mulher já atingiu um patamar com nível igual. Eu acho que é mais cultural. Aqui no Tribunal, diferentes de outros locais, a igreja, através do seu grupo, aqui no nosso grupo, no jantar dos oficiais, todo mundo se abraça, se beija, é normal. E aqui existe um formalismo, que sempre existiu. Aquele formalismo do seu superior e de vários outros. Apesar de, em cima disso, nós já tivemos juízes, gestores da CAEX, muito amigos e nos deixaram muito à vontade. (Transcrição do 5 encontro, 14/10/09).

Retomando o que discuti no Capítulo 2, o „aprender a conviver‟ consiste a adotar um modo de viver igualitário, em que as realções se realizam de forma horizontal, permitindo que os agente se olhem nos olhos, planejem objetivos e projetos em comuns, assumam uma colaboração serena, busquem a amizade, a empatia, reconhecer o outro na sua singularidade e pluralidade. “Sem dúvida, esta aprendizagem representa, hoje em dia, um dos maiores desafios da educação”, é o que afirma o Relatório para UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o século XXI (DELORS, 2006, p. 96). Ideias com as quais corrobora Josso (2004),

Nessa reflexão também encontramos a dialética entre o individual e o coletivo, mas desta vez sob a forma de uma polaridade; de um lado, empenhamos a nossa interpretação (nos auto-interpretamos), e, por outro, procuramos no diálogo com os outros uma co-interpretaão da nossa experiência. É neste movimento dialético que nos formamos como humanos, quer dizer: no pólo da auto-interpretação, como seres capazes de originalidade, de criatividade, de responsabilidade, de autonomização; mas, ao mesmo tempo, no pólo da co- interpretação, partilhando um destino comum devido ao nosso pertecer a uma comunidade. É nessa polaridade que vivemos plenamente a nossa humanidade, nas suas dimensões individuais e coletivas (JOSSO, 2004, p. 54, grifos da autora).

O que posso concluir provisoriamente do exposto é que o “Ateliê biográfico de formação profissional” proporciou um espaço para interpretação e cointerpretação do vivido, que contribuiram para o conhecimento de si, do outro e das relações de trabalho. Nesse espaço, os participantes foram observando a descoberta progressiva das semelhanças e da interdependência entre suas narrativas. Essa visão do saber construído a partir da reflexão sobre trabalho é igualmente destacada por Delors (2006)

O mundo do trabalho constitui, igualmente, um espaço privilegiado de educação. Trata-se, antes de mais nada, da aprendizagem de um conjunto de habilidades e, a este respeito, importa que seja mais reconhecido, na maior parte das sociedades, o valor formativo do trabalho, em particular quando inserido no sistema educativo (DELORS, 2006, p. 113).

Nesse sexto encontro, que tinha como temática Narrativas de si: compartilhando histórias, vida, sentimentos e saberes, os oficiais de justiça, os participante puderam reconhecer os espaços e tempos da formação continuada, coextensivo à vida e ao ambiente de trabalho, que favoreceu oportunidades para pensar as experiências e reconhecer o valor da experiência adquirida no exercício da profissão. Ao mesmo tempo, entendo que a partir das análises de transcrições e narrativas, que as interações estabelecidas no grupo reflexivo enriqueceram a relação entre os Oficiais de justiça, impulsionaram a sua formação e forneceram novas referências que lhes permitiram ressignificar a si, ao outro e a sua profissão num processo da compreensão mútua.

Tentando acolher as narrativas e a motivação de cada um, no processo de reflexão-ação, proposto por Paulo Freire (1987), o grupo anunciava a necessidade de realizar um diálogo com os juízes para compartilhar com eles os saberes das experiências e discutir novas práticas judicantes no ambiente do trabalho. Nesse sentido, no dia posterior ao Ateliê biográfico, encaminhei ao Diretor da Escola Judicial a proposta dos oficiais de justiça para realizar uma “Sexta Dialogada” sobre o tema: O oficial, o juiz e o servidor na efetividade da Justiça do Trabalho.

A recepção do pedido, pela equipe da Escola Judicial, e a aceitação da proposta, pela Direção, evidenciavam os resultados alcançados pelos Oficiais de justiça no trabalho de reflexão realizado no Ateliê, bem como uma nova percepção, da parte da instituição, da real necessidade de uma ação voltada para abertura de diálogos promotores de melhorias das práticas judicantes. No dia 06 de novembro de 2009, foi realizada a “Sexta dialogada” como atividade da Escola Judicial, promovendo o primeiro diálogo entre a categoria dos Oficiais, os Juízes e servidores do TRT. Um momento revestido de muitos acertos e negociações para viabilizar uma melhoria nos relacionamentos e nas condições de trabalho.

No encontro seguinte do “Ateliê biográfico de formação profisisonal”, o grupo avaliou o esforço de todos para realização do evento e os direcionamentos que foram fundamentais para ampliar novas perspectivas. Esse momento marcou uma nova possibilidade para o grupo prosseguir com entusiasmo e na expectativa de rever os conhecimentos para os