3. Teorikapittel
3.5 Motivasjon
Nesse sétimo encontro, procurei organizar a sala com formato propício para a dinâmica em pequenos grupos de três participantes (tríades), nos quais realizaram o trabalho reflexivo de planejamento do projeto de si e alternaram os papéis de autor, leitor e ouvinte. Após a formação de três grupos constituídos por três participantes cada, utilizei uma mesa e três cadeiras, para cada grupo, facilitando o apoio para escrita e o espaço adequado à escuta das narrativas entre eles. Como forma de iniciar a reflexão, dividi o encontro em três momentos constituídos de espaços de reflexão do sujeito em projeto. No primeiro momento, os participantes escreveram sobre si (processo autobiográfico) e apresentaram mediante um Quadro o planejamento de um projeto em curto, médio e longo prazo, destacando: o que; com quem; quando; por que; onde e como realizariam o projeto de si.
No segundo momento, os participantes socializaram em pequenos grupos a leitura do planejamento de seus projetos e nesse ambiente, configurado como espaço de partilha, desenvolveram a escuta sensível do outro, presntando-se a esclarecimentos e interpretação do projeto original, permitindo a cada um a reelaboração de seu próprio projeto (processo heterobiográfico).
No terceiro momento, cada participante explicitou o projeto no grande grupo, sem qualquer restrição de tamanho, entremeados pela participação e reflexão dos integrantes do grupo, respeitando o protagonismo e as interpretações de cada um, numa dimensão formativa, de invenção do sujeito na direção de lançar-se no futuro (DELORY-MOMBERGER, 2008).
A formação das tríades permitiu a construção de vínculos de confiança e segurança para elaboração e socialização dos projetos por meio de um ambiente descontraído, interativo e acolhedor. No entanto, enquanto pesquisadora-formadora percebi que o campo de observação ficara comprometido pela dinâmica interativa que se estabeleceu na sala e em virtude dos diálogos que ocorriam simultaneamente, o que comprometeu a qualidade da gravação e o registro posterior das falas e das observações. A minha atenção voltou-se então para a qualidade das narrativas compartilhadas posteriormente, no grupo, bem como, o modo de explorar as temáticas, organizar as ações, construir as narrativas, argumentar a própria construção biográfica para o futuro em curto prazo, médio e longo prazo.
Segundo Delory-Momberger (2008, p. 103), “O estatuto das narrativas autobiográficas produzidas no coletivo, as define, explicitamente, como materiais de trabalho para um projeto de si profissional”. Nessa perspectiva, o/a narrador/a utiliza saberes da
experiência que envolvem o conjunto dos espaços sociais dos quais participa, em graus diversos mediante as atividade de revisar, retorcar e transformar um modo de ser no mundo com os outros e consigo mesmo.
Ao buscar compreender os projetos elaborados pelos participantes, percebi que as reflexões estavam apoiadas no conjunto de experiências adquiridas ao longo da vida, conforme se pode observar na narrativa de Ulisses a seguir:
Meu grande sonho era adquirir uma formação jurídica, pois venho de uma escola pública (supletivo). Passar no Curso de Direito foi minha maior realização. O sonho de exercer a advocacia foi acalentado por seis anos, e hoje como Oficial culminou em minha realização profissional e vocacional. Meu projeto é permanecer trabalhando no TRT 21, desempenhando as funções do meu cargo e continuar merecendo o respeito e a estima dos meus pares, enquanto aguardo o ócio justo e necessário da aposentadoria, quando me dedicarei apenas a cultivar o espírito. Meu lema será: a noite ficou para o sono e o dia para o descanso. O homem é seu ser estilo. Que representa um conjunto de atitudes, um comportamento, um modo de ser pessoal que o diferencia dos demais. Cada homem é um ser único, mas está inserido em um ser maior que o absorve. Existe em mim o ser institucional, que não ignora a existência do outro e tudo que é humano me interessa e me diz respeito. Preocupa-me o destino de todos os homens e o sentimento de impotência me invade quando não posso ajudar aos outros em seus problemas (ULISSES, 2009).
Meu projeto real é continuar trabalhando a contento; criar os filhos; concluir a monografia; participar de novos cursos de aperfeiçoamento; ser muito mais útil com os que me rodeiam e com a sociedade; colaborar com a Igreja na evangelização; e, ler mais a Bíblia e outros livros de Elle G. White. Minha utopia é abarcar muitas realizações desejadas. Pretendo continuar a trajetória, como Oficial de Justiça, sem sobressalto, ou seja, sem incidentes. Apesar de faltar alguns anos para aposentadoria, tenho 55 anos de idade, ela passa a ser lembrada de vez em quando. E, sendo lembrada, vem os planos à mente, tais como: ver os filhos crescidos e, profissionalmente, ocupar um lugar ao sol; viajar e conhecer mares dantes navegados; outra utopia possível, ver o Brasil trilhar o caminho da lei eficaz (punidade a contento), educação para todos, validade de vida para todos os cidadãos destes pelegos achocalhados pelos amus administradores durante séculos; levar a palavra profética ao mundo em trevas, pois as pessoas neecessitam do conhecimento do Salvador; a utopia da justiça e do juízo. Aproveito para deixar neste
espaço um pensamento: “O tempo, o mesmo tempo de si chora” (Camões).
(ISRAEL, 2009).
Trabalhar para manter a mente ativa e trabalhar fazendo o que gosto, é assim, a cada dia, é mais animador, satisfatório, saber acompanhar, com bom humor, responsabilidade e sabedoria a vida adulta das minhas filhas; saber transmitir as mensagens que a levará ao melhor caminho, torcendo, rezando
que lhes dê satisfação e felicidade. Que além das filhas, também possa saber conviver bem com tantos irmãos e irmãs, sempre torcendo e rezando para que as palavras a eles e elas ditas por mim sejam sempre cheias de sonoridade como uma linda canção que sempre é prazerosa ouvir. Pretendo ainda ter uma „Maison‟ – uma casa de boa aparência, com toda a estrutura para oferecer um serviço estético: beleza exterior e satisfação pessoal. O grande sonho produzir a satisfação pessoal das mulheres através de um serviço estético, realizado num local especial. O serviço deve ser gratuito. Tendo isso seria satisfeita, após a aposentadoria (NANI, 2009).
Transmitir minhas experiências, boas ou ruins, para o meu filho. Procurando ou tentando ensinar-lhe a fazer coisas ou tomar atitudes na vida que o tornem um ser humano mais feliz e seguro de si. Quanto a mim, cometer menos erros, além dos que já cometi (REGINALDO, 2009).
Sinto-me bastante contemplada em minhas aspirações profissionais e emocionais. Mais como gosto de desempenhar atividade associativa e sindicalista, tenho um projeto real desempenhar adequadamente meu cargo de Coordenadora Regional Nordeste e para tanto quero realizar o III Encontro Regional em São Luiz-MA e o IV CONOJAF (Congresso Nacional dos oficiais de justiça), em Natal-RN, em 2011. São projetos reais, nos quais me empenharei com minha determinação como é de minha índole. Hoje, me sinto muito feliz e realizada em ter aceitado contribuir na Federação, me sinto muito feliz em participar deste momento atuante na minha Federação, e nem quero pensar em quando não fizer mais parte, e me lembro ainda de que vacilei muito até aceitar o convite!!! (HELENA, 2009)
Minha utopia é a reunião de toda a família para uma grande celebração: celebração da vida, viver com saúde e sanidade mental, para ver o que Deus fará para a vida dos meus familiares. Meu projeto real é cuidar da minha saúde física e mental; procurar contato com os meus familiares que estão distantes; procurar uma ocasião especial para reunir os meus irmãos; juntar dinheiro para ajudar os meus três irmãos. Chegar até mim ou em algum outro local onde todos nós possamos estar; ajudar minha filha no seu crescimento físico, emocional e espiritual para que ela cresça de forma saudável e se torne um adulto responsável e feliz. Mas, o meu sonho é reunir minha família: meus irmãos, minha filha e meu marido numa grande celebração; continuar vivendo de uma forma saudável e equilibrada para ver o que Deus fará na vida da minha filha (ALEGRIA, 2009).
Meu projeto é após a aposentadoria trabalhar voluntariamente numa ONG ligada ao meio-ambiente rural (sertão), por exemplo – recuperar as margens do Rio Seridó (começa na Paraíba e termina no Vale do Açu-RN). Para concretizar meu sonho farei um planejamento inicial. Primeiro, criar uma ONG ambiental (estudar a forma prática de fazê-lo); estudar o Rio Seridó, da nascente ao Vale do Açu para conhecer os aspectos geográficos, sociais e econômicos. Estudar a forma de recuperação do rio (origem da degradação e a recomposição da mata ciliar e o assoreamento do leito do rio). Na execução, visitar as comunidades que vivem às margens dos rios e angariar simpatizantes à causa; dar palestras nas escolas que estão nas cidades que margeiam o rio, sobre a importância da preservação da natureza e do Seridó; promover o replantio de árvores nativas; trabalhar junto à Prefeitura, outras
ONG‟s, Ministério Público, para diminuir os fatores poluentes do Rio; Criar
uma forma de trabalho sustentável para a população à margem do Rio; angariar recursos para por em prática as ações acima. Prazo de execução: 20 anos (MATEUS, 2009).
Assim, podemos perceber nos projetos dos Oficiais de justiça novos olhares sobre seu passado, no presente, e como se projetam no futuro com o propósito de biografar-se de outro modo numa dimensão formativa (DELORY-MOMBERGER, 2008). Do ponto de vista epistemológico e metodológico o “Ateliê biográfico de projeto”, como apresentado por Delory-Momberger (2008, p. 103), “[...] inscreve-se numa perspectiva estritamente formativa.” Conforme afirma em seu livro „Biografia e Educação: figuras do indivíduo- projeto‟: “A “vida” oferece uma multiplicidade de momentos, espaços, situações e inter- relações, dos quais resultam efeitos de formação e “aprendizagens” (idem, 2008, p. 108, grifos da autora). Essa concepção, como já apontada neste estudo, também é partilhada por Dominicé (1988b) e Josso (2008), quando consideram as reflexões sobre a biografia educativa, bem como referem-se à condição do sujeito como autor e ator de sua própria história. Numa perspectiva semelhante, Passeggi (2012) considera que
A disposição do humano a se tornar sujeito, mediante o ato de narrar a história de sua vida, constitui um postulado da pesquisa (auto) biográfica, fundamentado numa concepção filosófica do sujeito como ser capaz e pleno de potencialidades para se apropriar do seu poder de reflexão (PASSEGGI, 2012, p. 6).
Assim, realçando o caráter formativo da condição do sujeito que narra sua história e narra seu projeto, a formação das tríades permitiu o trabalho de reescrita na perspectiva da coerência narrativa e favoreceu a compreensão do outro e o distanciamento de si mesmo. No momento de encerramento de cada encontro do „Ateliê biográfico de formação profissional‟, os participantes da pesquisa revelavam seu envolvimento, o encantamento e as descobertas de si, do outro e do grupo. Ainda destacavam a satisfação pela disponibilidade do tempo para ouvir, narrar e reviver as experiências com perspectivas de lançar o olhar para frente e projetar o profissional do futuro, considerando a condição humana de ser e conviver no trabalho.
Em cada encontro, como mediadora-pesquisadora-formadora, interagi com o grupo e sentia também o acolhimento e o cuidado dos participantes com o trabalho que estava
narrativas e de formação no “Ateliê biográfico” transformava o vivido em possibilidades de aberturas para o convívio solidário no ambiente do trabalho. E, ainda, permitia a tomada de consciência do sentido de cada um em suas atribuições e atividades jurisdicionais, na perspectiva de melhoria do relacionamento consigo mesmo, com o outro e com o ambiente do trabalho.
Nesse penúltimo encontro, o grupo organizava projetos coletivos em curto prazo como, por exemplo, o encerramento das atividades do Ateliê biográfico e programavam a confraternização da categoria, mobilizando a Associação dos Oficiais de Justiça do Rio Grande do Norte - ASSOJAF. Assim, esse encontro do „Projeto de vida: o sujeito em projeto‟, configurou-se como um espaço-tempo de interação, construção e fortalecimento de si, do outro e do grupo, como um valor humano em si mesmo, reveladores da dimensão formativa do „Ateliê biográfico de formação profissional‟.