O terceiro encontro foi organizado de modo que os participantes repensassem as experiências que marcaram suas trajetórias profissionais pela rememoração aleatória de fatos, acontecimentos, pessoas, lugares, tempos e espaços significativos para a formação.
Nesse momento inicial da escrita de si, conforme Passeggi (2011b, p. 151):
Todas as evocações são lançadas e aceitas, evitando-se qualquer tipo de direcionamento. Já se inicia aqui o processo de escrita da história, a qual pode, ou não, ser lida no grupo. Essa unidade corresponde à dimensão iniciática da mediação biográfica, assim denominada em alusão ao ritual de ingresso na experiência da reflexão sobre si mesmo e à adesão ao trabalho comum, questões decisivas para a constituição do grupo reflexivo.
Para iniciar o processo de ingresso na experiência de reflexão sobre si mesmo e de adesão ao trabalho vinculada à prática judicante, recorri à Conferência do Ministro Carlos Ayres de Britto, do Supremo Tribunal Federal (STF), intitulada "Novo Humanismo e Nova Justiça do Trabalho", proferida durante o XIV Congresso Nacional de Magistrados da Justiça do Trabalho (CONAMAT), em 04/05/2008, e publicada no site do Conselho Nacional de Justiça. A Conferência, dirigida aos magistrados, traz profundas reflexões sobre a formação e a prestação jurisdicional. É importante ressaltar que o Ministro Ayres é reconhecido como um humanista e ardoroso defensor de um pensar dialético da realidade do direito, da prestação jurisdicional justa, imparcial e célere. Consciente da atuação dos magistrados, da responsabilidade de um bem julgar pessoal e intransferível, da responsabilidade embutida em cada sentença, Ayres de Brito vê na jurisprudência um instrumento de reforma sociojurídica, onde instala sua preocupação com a formação dos profissionais do Direito. Nessa conferência, propõe que, paralelamente à formação acadêmica, os magistrados devem cultivar a sensibilidade (Poesia), ilustrar-se e sonhar também com textos não jurídicos (Romances), mergulhar nas mazelas sociais e conhecer a sociedade (Jornais). O Ministro arremata sua argumentação afirmando: “Eu não sou ácaro de processo, sou um ser de vida”.
O propósito deste texto no “Ateliê biográfico de formação profissional” foi levar os Oficiais de justiça a realizarem uma reflexão sobre seu percurso no TRT, suas competências e inscreverem sua formação num projeto pessoal e profissional. As discussões resultantes desse processo reflexivo sobre o humanismo na atividade judicante trouxeram revelações pertinentes sobre o modo como vivenciam as experiências profissionais. A reflexão do texto permitiu retomar situações, fatos e relacionamentos estabelecidos no cenário do trabalho que, para os Oficiais de justiça, constituíam-se em espaços de reflexão sobre o trabalho e a formação, como discutido no diálogo entre eles, que retomo abaixo:
Israel: - Acho que ele [Ministro Ayres de Britto] está se referindo ao
dinamismo e à interação do profissional com o ambiente de trabalho, e isto está relacionado ao trabalho do Oficial de justiça, pois é ele que dá vida ao processo. É somente com o dinamismo da atuação do Oficial que o processo avança.
Helena: - Eu já vejo diferente. Ele [Ministro Ayres de Britto] pede que a
gente capte a intuição, a justiça, os nossos parâmetros de justiça. Só que a gente, quando está cumprindo o mandado, não pode está interagindo com as partes, saber se é justo ou se não é justo. [..]
Israel: - Eu particularizei, talvez, porque o oficial de justiça atua com a
celeridade do processo. Quando eu falei, eu quis dizer que o oficial de justiça é o que dá vida ao processo. Quando os processos vão à fase de execução, é por quê? Porque os executados não quitaram os débitos. Então, neste contexto, é que eu me refiro ao dinamismo do oficial de justiça para cumprir o Mandado.
Ulisses: - Eu vi aqui nesta mensagem do Carlos Ayres de Brito, um poeta,
filósofo, um grande jurista, ele está querendo arejar o judiciário no sentido de humanizar. Tanto é que ele fala que se devem usar as duas partes do cérebro, não somente o racional. Na verdade, é sobre essas duas vertentes que ninguém pode ser pura razão e nem puro sentimento, não é? Então, a Norma é uma diretriz, mas o juiz tem que humanizar e usar os dois lados do cérebro. Agora, vamos ver isto aí na prática com o oficial de justiça. [...] (Transcrição do terceiro enconto no Ateliê, 30/09/2009)
Por certo, a reflexão, a partir do debate sobre o humanismo na atual conjuntura do Poder Judiciário, permitiu verificar a relação entre narrativa, trabalho e formação dos oficiais de justiça. O diálogo acima possibilita observar como os participantes compreendem as especificidades de sua profissão e as aproximações com o que diz o ministro Ayres de Brito sobre a formação dos profissionais de Direito. As reflexões e narrativas no grupo apresentaram-se como dispositivos para compreender as experiências vividas nos acontecimentos, nas atividades, nos deslocamentos e nas relações contínuas de encontros e desencontros vivenciados pelos Oficiais de justiça, como narrado a seguir.
Reginaldo: Eu gostaria de destacar no texto sobre a celeridade da Justiça do
Trabalho, porque eu acho que nós estamos tentando contribuir para a celeridade na Justiça do Trabalho [...] E também acho importante o que todo mundo já abordou sobre o humanismo. Mas, acho que os que estão aqui dentro das Varas do Trabalho são mais „frios‟ do que nós que estamos lá na base [...]
Nani: Deve ser uma grande lição, resta para quem escuta aceitar ou não, mas
um mandado, de como escrevemos, cada um tem uma maneira de chegar e fazer uma Certidão. Mas, o juiz não dá cabimento a isso, não é? Ou seja, eu acho que 99% não dão cabimento e 1% ainda lê a justificativa ali. Mas, quando ele acha que está ‟passando‟... Então, num dos despachos do juiz foi
dito a mim: “Você não é advogada das partes, omita-se de tomar partido seja
de qual for a parte, principalmente do executado” (Transcrição do terceiro enconto no Ateliê, 30/09/2009).
Assim, as experiências vividas e narradas entre os pares como verificado no processo dialógico e reflexivo, durante esse encontro, levam a perceber que as interações nas trajetórias profissionais ocorrem marcadas por acontecimentos que afetaram cada pessoa no ambiente do trabalho.
Clot (2007) considera que a análise do trabalho revela-se um bom dispositivo de formação na condição de se tornar um instrumento de transformação da experiência para o sujeito. O que é formador, quer dizer, o que aumenta o seu raio de ação e o seu poder de agir, corresponde a tentativa de mudar o estatuto do vivido: de objeto de análise, o vivido deve tornar-se meio para viver outras vidas. Como discute Fonseca (2010, p.117), em linhas gerais, “Yves Clot entende que é premissa básica ouvir os trabalhadores a respeito de seu próprio trabalho, por meio do que ele chama a autoconfrontação, que seria uma atividade de reflexão sobre a atividade rotineira.”
Desta maneira, o espaço do grupo reflexivo como prática socioeducativa está direta e intimamente relacionado à produção de conhecimento e permite ouvir e dar voz aos sujeitos no ambiente do trabalho. Essa foi a intenção primordial que guiou a concepção dos „Ateliês biográficos de formação profissional‟.
Ao tratar sobre o tema “Biografia e Formação continuada: a experiência e o projeto”, Delory-Momberger (2008) afirma:
À individualização dos percursos e à subjetivação da atividade profissional, à concepção da competência compreendida como conjunto indissociável de qualificações profissionais e qualidades pessoais, responde uma biografização da formação que se traduz pelo reconhecimento progressivo do capital de saberes e de saber fazer, acumulado ao longo da experiência e pela contextualização das ações de formação nos itinerários individuais (DELORY-MOMBERGER, 2008, p. 88).
Nesse sentido, o que a autora propõe é romper com os procedimentos e as práticas de formação individualizado e técnico para ceder lugar ao conceito de formação ao longo da vida, introduzindo o reconhecimento de uma estreita relação entre biografia e educação. Nesse direcionamento, as narrativas produzidas nesse terceiro encontro, apresentaram-se como o esboço, o primeiro rascunho da autobiografia que produziram posteriormente. As histórias foram ora contadas, às vezes lidas, ora discutidas no seio do grupo. A finalidade desse encontro era dar início ao traçado que foi progressivamente se ampliando no grupo e se configurando como autêntico processo de biografização.
Aos poucos fomos observando (os participantes e eu) as contribuições das narrativas biográficas para melhor articular formação e trabalho. Os Oficiais de justiça foram destacando sua imersão na profissão, as transformações ocorridas, os conflitos, encantos e desencantos do trabalho, o envolvimento afetivo, a identificação com o outro, os enredos dramáticos e cômicos, os aprendizados, a imagem institucional, a tomada de consciência necessária à reconstrução de si e do outro.
Para o encontro seguinte, solicitei aos participantes fotos das experiências vividas ao longo da vida. A inteção era permitir que observassem as práticas de reflexão sobre si e o outro como dispositivos para pensar a condição da prática judicante em sua vida, numa concepção da construção permanente da identidade profissional.