Tem-se constatado que nem sempre a infância assumiu visibilidade social. Na verdade, a importância que este grupo social tem adquirido é relativamente actual. Segundo Sarmento (2006:2), o interesse histórico pela infância surgiu em tempos mais próximos da actualidade, quando Phillipe Ariès, em 1973, afirmou, na sua tese, que até ao início da modernidade inexiste o
sentimento da infância. Até então só subsistiam referências autobiográficas de
crianças em testamentos, diários e registos funerários, entre outros. Ariès globalizou toda a categoria social da infância, porém centrando a sua pesquisa nos registos documentais do clero e da nobreza, e assim não referenciando as crianças do povo, motivo pelo qual é criticado pelos investigadores que lhe sucederam. Não obstante, este autor conseguiu com que a infância fosse objecto de estudo e que as interrogações sobre a relação entre a infância e a sociedade se assomassem.
É a partir dos séculos XVII e XVIII que se começa a modificar a ideia de infância. Passou a encarar-se como uma fase própria do desenvolvimento humano e a criança deixou de ser vista como um ser imperfeito ou como um
homúnculo. Para Ariès (1988:182),
“Na sociedade medieval (…) o sentimento da infância não se confunde com a afeição pelas crianças: corresponde a uma consciência da especificidade infantil, essa especificidade que distingue essencialmente a criança do adulto, mesmo do adulto jovem. (…) assim que a criança era capaz de viver sem a solicitude constante da sua mãe, da sua ama ou da sua aia, passava a pertencer à sociedade dos adultos e deixava de se distinguir dela”.
Ariès (1988:189-190) salienta, igualmente, que “o apego à infância e à sua especificidade já não se exprime pelo divertimento com as «tontices», mas pelo interesse psicológico e pela preocupação moral.”
Contudo, o conceito de infância é algo discutível, pois num mesmo espaço cultural subsistem definições diferenciadas mediante a classe social, a etnia, o género e a geração. Sobressaem, ainda, os estigmas baseados no facto de, ao longo de muitos anos de história, a criança ter sido encarada pela negatividade por parte dos adultos, tendo sido subjugada ao adultocentrismo.
De facto, a concepção da infância tem sido profundamente alterada ao longo dos tempos, devido a todas as transformações históricas, sociais, antropológicas e culturais que a sociedade tem experimentado, como salienta Sarmento (2006:3) “(…) na Idade Média e na pré-modernidade existiam concepções que foram profundamente alteradas pela emergência do capitalismo, pela criação da escola pública e pela vasta renovação das ideias coma crise do pensamento teocêntrico e o advento do racionalismo”.
A infância tem vindo a adquirir cada vez mais evidência social, todavia só por volta da data em que apareceu a obra de Ariès, é que o interesse por um conhecimento mais aprofundado deste tema como categoria social, e pela sua respectiva história, despontou na sociedade. É a partir dos anos 60, do século XX, que se iniciam diversos estudos e respectiva elaboração de documentos científicos e académicos, referentes à componente social da infância. Hendrik (2005:33-34) salienta que,
“durante os anos noventa, o interesse pela história das crianças e da infância continuou a crescer e as publicações tornaram-se mais ambiciosas nos seus objectivos, bem como mais analíticas. (…) um número significativo de estudos tentou encontrar um lugar para a voz da criança ou, pelo menos, imaginar a condição da infância de uma posição de simpatia informada.”
Actualmente, e apesar do incremento da visibilidade social da infância, falta ainda implementar determinados direitos às crianças. Sobre tal aspecto, constitui certeza que a evolução tem sido grande, muito embora o mundo adulto ainda não lhes tenha reconhecido capacidades suficientes, ou razoavelmente desenvolvidas, para desempenharem dadas funções ou mesmo para tomar certas decisões, no que concerne à vida pública e a alguns aspectos da vida familiar. Dizemos alguns aspectos da vida familiar, porquanto é certo que outras situações há em que a família recorre à opinião da criança com vista à satisfação de necessidades que esta apresente. Posto isto, se nesta altura não são reconhecidos direitos políticos e de expressão no que concerne à vida pública, na privacidade do lar muitos serão os casos em que a opinião da criança é solicitada, com vista a comprazê-la.
É comummente aceite que a infância não é vivida da mesma forma por todas as crianças, daí vários autores se referirem a infâncias e não a infância.
No nosso país, e por todo o globo, podemos constatar perfeitamente a existência de realidades distintas para cada criança, realidades essas em que umas são completamente actuais, inseridas na sociedade contemporânea dita de consumo, e outras que parecem transportar-nos para tempos já longínquos.
Como destaca Almeida (2000 [1]):
“ (…) pensando em infância ou infâncias no nosso País, estamos em presença de um terreno empírico onde se cruzam e co-existem, no presente, realidades, representações ou imagens que parecem pertencer a histórias, a tempos diferentes: Tempos da pré-modernidade, sem dúvida: situações em que a criança é um braço de trabalho para a família, um adulto em miniatura; abandona precocemente o sistema educativo para entrar na vida activa, permanente ou sazonalmente, em casa ou fora dela, vitima ainda das grandes negligências sociais da alimentação, da higiene ou da saúde, típicas das bolsas de pobreza e dos contextos de exclusão social; ou mesmo tempos da pós-modernidade: a criança na linha da frente da construção da sociedade de informação, consumidora e utilizadora voraz e activa do computador, das novas tecnologias multimédia; a criança viajante do ciber-espaço, das redes digitais, desterritorializadas, que é capaz de comunicar em inglês, a língua franca da globalização, com cidadãos anónimos do mundo”.
Numa realidade ou noutra, das anteriormente expostas pela autora, o facto é que, em ambas as situações, as crianças são fonte de notícia nos meios de comunicação social, quer seja pelos melhores quer pelos piores motivos.
Toda a realidade social se tem ajustado às necessidades que as crianças representam e trazem para o seio familiar: a proliferação de instituições, dos mais diversos tipos, direccionadas para a criança e inclusivamente para sua protecção; o próprio surgimento de produtos especificamente concebidos para as crianças e o direccionamento do mercado para a infância são disso uma forte evidência. A própria Convenção dos Direitos da Criança é, de per se, elucidativa da preocupação da sociedade para com as crianças evidenciando, de forma muita marcada, a proporção que a componente social da infância atingiu junto do colectivo de indivíduos que partilham o mesmo espaço e tempo. Como refere Leandro (2001:15), “as mentalidades aderem mais aos
valores da modernidade…”, valores esses que se foram transformando e, na actualidade, são distintos dos de antigamente. Nesta esteira, a criança assume uma relevância fundamental, quer na sociedade, quer nas famílias.
1.3.1 A crescente importância da criança no seio da família
Os valores actuais são, efectivamente, distintos dos de antigamente, sendo certo que a posição que a criança ocupa no seio familiar alterou-se radicalmente. É impensável, para muitas famílias, encarar a criança como mais um braço de trabalho, manter uma distância afectiva da criança ou considerar tal indivíduo simplesmente como alguém que cuidará dos pais na velhice. Na família moderna a criança é o símbolo dos sentimentos que unem o casal, é o centro para onde convergem todas as atenções. Como refere Almeida (2000[2]:15),
“face à família tradicional de Antigo regime, a família moderna transmite de si a imagem de um espaço de proximidade afectivas, de troca de sentimentos, e menos a de um grupo de trabalho, onde os seus membros… se juntam e organizam por razões instrumentais de sobrevivência. Ao processo de sentimentalização, junta-se ainda a imagem da família como bastião da vida privada, virando costas à vida pública, fechando laços que a abriam antes ao espaço envolvente da comunidade”.
A descoberta da infância trouxe um modo comportamental distinto do existente no passado, entre adultos e crianças. Esta descoberta da infância foi concomitante ao desenvolvimento e engrandecimento da função afectiva da família e do sentimento amoroso que funda o casal, de acordo com Segalen (1999:174). Como expõe Almeida (2000[2]:15),
“emerge um novo sentimento da infância num contexto onde os casais ensaiam um controlo de fecundidade e em que, graças à melhoria das condições higiénico–sanitárias, aos progressos do regime alimentar, os índices de mortalidade (sobretudo infantil) começam a regredir. A criança, no centro dos afectos do universo familiar, é agora encarada como alguém com estatuto e personalidade próprios, como fruto gratificante do amor dos pais, e portanto reconhecida como ser único e vulnerável, a merecer carinho e protecção. (…) entende-se agora que a sua socialização deve decorrer no lar(…) e na escola; aqui junto dos pares, são-lhe transmitidas competências
técnicas, sociais e morais que lhe permitirão aceder, mais tarde, à força de trabalho e ao mundo dos adultos”.
O acentuar da função afectiva fez com que, na era actual, os pais se demonstrem bastante mais permissivos do que no passado. A atenção voltada para a criança tem-se alargado, tendo vindo a ser valorizada pela alegria que dá a outros familiares. Enquanto incentivadora espontânea de afectos, a criança torna-se um elemento chave na reiteração dos laços familiares e do espírito de família – “… assiste-se a uma grande valorização das relações humanas e à construção da própria identidade, intensificando os contactos com outros seres humanos, no caso, de idades e estatutos diferenciados no interior da família”. (U. Bjornberg, 1997 in Leandro, 2001:281)
A relação dos pais com a criança está, na contemporaneidade, fortalecida pela componente afectiva. Por isso, a satisfação dos desejos da criança surge como algo inato e intrínseco à própria relação pais – filhos. O facto é que o sentido autoritário de que se revestia a educação dada na família foi-se desvanecendo, passando para um estilo de educação muito mais baseado nos afectos e na compreensão. Alguns pais mostram-se, portanto, mais disponíveis para ouvir as solicitações dos filhos e satisfazer os seus desejos para que a criança se sinta confortável e feliz. Deparamo-nos com uma nova situação, quiçá, totalmente impensável no passado - a influência dos filhos sobre os pais. Como refere Schor (2006:86), do ponto de vista dos pais, comprar o que as crianças pedem é completamente lógico, não faria sentido gastar dinheiro e tempo a adquirir coisas que os seus filhos não gostam e que não iriam usar.