• No results found

A criança não é, decididamente, indiferente aos media, bem pelo contrário. Como salienta Pinto (1999:11) “a vida das crianças não se compreende, hoje, se não incorporar a realidade ambígua e complexa dos meios de comunicação e informação”. Desde a primeira infância que a criança demonstra o seu interesse pelos media, mas este interesse tem-se mostrado recíproco, já que nos apercebemos, diariamente, de conteúdos mediáticos direccionados para a infância. Aliás e como salienta Buckingham (1999 In Pereira 2007[2]:63) “o estudo da televisão para crianças levanta inevitavelmente questões sobre as funções culturais e sociais da televisão, bem como sobre a forma como a infância é definida e construída”.

Autores como Greenfield (1999) ressalvam que existem estudos indicadores de que a televisão tem influência na opinião que as crianças constroem acerca da realidade social. A autora salienta, ainda, que a televisão pode fazer muito mais do que reforçar estereótipos. Posto isto, os media terão funções sociais, culturais e até educativas relativamente à criança e restante família, tendo por base o contexto sócio-cultural em que estão inseridas.

Já em 1982, na Declaração de Grunwald, se referia que os media estavam omnipresentes e que “um elevado número de pessoas passa grande parte do dia a ver televisão, a ler jornais ou revistas, a ouvir música ou a escutar rádio. Em alguns países, as crianças passam mais tempo a ver televisão do que na escola”. Desde a altura em que esta declaração foi redigida até à actualidade, que muitas transformações sociais e culturais ocorreram, mas a omnipresença dos media não diminuiu, bem pelo contrário, já que com os novos media a referida omnipresença foi acentuada. Com efeito os media grande parte das nossas vidas, estão presentes na maior parte dos espaços que frequentamos e, estando já tão habituados aos mesmos, já seria de certa forma impensável a vida sem eles. Os media estão tão intrinsecamente enraizados nas nossas vidas que dificilmente se encontrará um lar sem televisão. Como ressalva Pereira (2007[2]:11) “instalada num lugar privado, familiar e quotidiano, a televisão é para a maioria da população o principal

instrumento de percepção do mundo, contribuindo para construir e modificar as representações de e sobre o mesmo.”

Como refere Greenfield (1999), os sentimentos constituem uma conexão entre a televisão, o conhecimento e o comportamento. É desde tenra idade, como já referimos, que a criança começa a prestar atenção à televisão, muito certamente devido ao apelo que este médium faz à fantasia e ao imaginário - “para além do seu papel de babysitter, a TV é, para as crianças, uma contadora de histórias, apelando à sua fantasia e imaginação, mostrando-lhes acontecimentos, pessoas, lugares, a que dificilmente teriam acesso de outro modo, permitindo-lhes viajar no tempo e no espaço.” (Pereira, 1999:30)

Estando a televisão e os media tão associados ao imaginário infantil será, deveras, importante que os adultos esclareçam as crianças quando aos conteúdos que são passados por estes, com o intuito de os tornar cidadãos mais esclarecidos, com um sentido critico suficientemente elaborado, que lhes permita evitar excessos que possam ser prejudiciais. Os adultos têm, portanto, um papel mediador de extrema importância. Consoante Pereira (1999: 23;80)

“Numerosos estudos desenvolvidos noutros países, indicam que a interacção presencial e directa com os ‘adultos significativos’, especialmente com os pais, a discussão, os comentários e a explicação dos conteúdos, ajudam as crianças a interpretar e a compreender as mensagens televisivas recebidas. (…) Através da mediação, a criança com a ajuda dos ‘outros significativos’, selecciona, interpreta, critica, reforça, complementa, contradiz, transforma, organiza, estrutura as informações provenientes do meio envolvente permitindo-lhe assim abordar com mais eficiência os ‘assuntos’ da vida quotidiana.”

A mediação relativamente aos conteúdos dos media, para além de ajudar as crianças a terem uma visão mais consciente do que lhes é transmitido, é também uma excelente oportunidade de discussão e conversa em família, possibilitando certamente um conhecimento mais aprofundado sobre as ideias de cada um. Educar para os media passará, assim, pela educação e mediação relativamente aos conteúdos visionados, quer por parte dos pais, quer por parte da escola. Esta última, têm atribuída uma função educativa, concomitante à transmissão de conhecimentos académicos, posto isto, é-lhe outorgado um papel fundamental na educação dos jovens, a todos os níveis, não se podendo

excluir, nem descurar a educação para os media, que se afiguram como constituintes e integradores das nossas vidas, na sociedade actual. “É sobretudo através destas vertentes de acção que todos nós, cidadãos, podemos, de algum modo, ter (ou conquistar) alguma margem de manobra em relação à televisão.” (Pereira, 2007[1]:204)

É certo que os media representam a realidade social, no entanto apresentam-na com algum embelezamento, apelam à fantasia e imaginação, pelo que a transmissão de determinados conteúdos, para a sociedade poderá trazer novas representações dos factos sociais para os indivíduos. Este efeito será, eventualmente, intensificado nas crianças se estas não tiverem uma educação para os media, suficientemente estruturada, que sirva para enfrentar, com consciência crítica, as alterações incutidas. Consoante Pereira (2007[2]:139)

“(…) a televisão é, simultaneamente, expressão e agente das culturas infantis. Por um lado, a sua programação reflecte e (re) produz ideias e representações sobre a infância, as crianças e os seus mundos sociais e culturais; por outro, ela é um agente que participa no processo de socialização das crianças e influencia a forma como elas percepcionam o mundo em que vivem e a visão que têm de si próprias e dos outros”.

Para alguns esta influência no processo de socialização das crianças é de tal forma relevante que em alguns países, como é o caso do Reino Unido, existe já legislação regulamentadora dos conteúdos televisivos, especialmente da publicidade. Consoante Pereira, Pinto e Pereira (2009: 30-31)

“Portugal é, todavia, um dos países em que não há legislação ou resoluções específicas sobre a televisão para as crianças. Há apenas legislação relativa à actividade televisiva em geral e que, pontualmente, faz referência ao público mais novo. De salientar que estas referências não se limitam à programação que lhe é dirigida, antes se estendem à programação geral que é vista, com frequência, também pelas crianças. De acordo com o quadro legislativo português, no que às crianças diz respeito, apenas o Serviço Público de Televisão se encontra expressamente obrigado a considerar a produção e emissão de programas dirigidos à geração mais nova”.

Ainda que existindo esta legislação, será importante assegurar de alguma forma que a mesma é cumprida. Pereira (2007 [2]:125) ressalva que se debate “ (…) não só a necessidade de mais legislação que regule os conteúdos e proteja os interesses dos telespectadores mais novos, com vista a uma programação de qualidade, como também a necessidade de cumprimento da legislação existente.”

Segundo autores como Cádima (1997:1) “a televisão e o mundo da criança cruzam-se muitas das vezes de forma não tão equilibrada quanto seria desejável”. É importante ressalvar, contudo, que sendo a criança um actor social que age e interage no mundo, não a podemos ver como um mero receptáculo da informação que lhe é dirigida. Se os media formam e socializam a criança, esta também interpreta e modifica os significados que lhe são transmitidos por estes.