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CHAPTER 6: SUMMARY, CONCLUSION AND RECOMMENDATIONS FOR

6.3. Recommendations for further work

Nelson Rodrigues Falcão, o dramaturgo, o jornalista, o ficcionista, o irmão de Mário Filho, o “profissional do jornal”, mais do que qualquer outra classificação que se possa lhe acrescentar, na observação do pesquisador de sua obra de cronista esportivo, José Carlos Marques (MARQUES, 2000, p. 23), é outro escritor cuja obra, no que tange às suas intervenções no âmbito do vasto assunto do futebol, leva ao paroxismo – senão a sua potencialidade máxima – as contribuições literárias emprestadas ao tema pelo seu amigo José Lins do Rego.

Nascido no dia 23 de agosto do ano de 1912, no Recife, mas tendo a infância toda vivida no subúrbio do Rio de Janeiro – precisamente na rua Alegre, Aldeia Campista, na zona norte carioca –, foi já aos quinze anos de idade que o menino Nelson teve que abandonar o mundo apaixonante das peladas de futebol que o cercava na periferia da então capital da República, para trabalhar no jornal A Manhã, de propriedade do seu pai, Mário Rodrigues, juntando-se aos irmãos mais velhos, Milton Rodrigues e Mário Filho, numa empreitada familiar que marcaria para sempre a sua vida de escritor, dramaturgo e jornalista de sucesso.89

89 As informações biográficas sobre Nelson Rodrigues, utilizadas neste trabalho, têm como fonte principal duas obras importantes escritas sobre ao autor, que tomei como referência para citação direta ou indireta. São elas: CASTRO, Ruy. O anjo pornográfico: a vida de Nelson Rodrigues. São Paulo: Companhia da Letras, 1992 e ANTUNES, Fátima Martins Rodrigues Ferreira. Com brasileiro não há que possa: futebol e identidade nacional em José Lins do Rego, Mário Filho e Nelson Rodrigues. São Paulo: Ed. UNESP, 2004.

Inicialmente trabalhando na reportagem policial de A Manhã, passando, em seguida, às páginas editoriais do mesmo periódico, onde assinava um artigo por semana, Nelson Rodrigues finalmente chega ao espaço do jornalismo de esportes, agora nas páginas do semanário Crítica, recém lançado também pelo seu pai e em cuja redação ficou até 1937 quando resolveu assumir o cargo de redator de O Globo Juvenil, um tablóide de histórias em quadrinho do jornal O Globo, de propriedade do jornalista Roberto Marinho. Em 1941, escreve a sua primeira peça de teatro, A mulher sem pecado, e a partir daí sua carreira de jornalista, cronista e dramaturgo, passa a ser uma só.

Entretanto, a volta ao tema do futebol como matéria de sua atuação como jornalista só se dá em definitivo no ano de 1955, quando se torna o redator chefe da revista Manchete Esportiva, um empreendimento editorial arrojado do empresário Adolfo Bloch de que também participa ao lado dos irmãos Augustinho, Paulo Rodrigues e Mário Filho. Esse seu trabalho de jornalista esportivo, no entanto, que se estenderia a vários outros órgãos da imprensa carioca se desenrola paralelo ao de colunista do jornal A Última hora, também do Rio de Janeiro, onde assinava a coluna “A vida como ela é...” em que publicava diariamente histórias curtas, criadas e escritas bem ao gosto popular, assim como bem ao gosto popular eram também as crônicas de futebol do amigo José Lins do Rego, publicadas pelo periódico esportivo dirigido pelo seu irmão Mário Filho – O Jornal dos Sports –, a que lia com freqüência e por cujo autor nutria uma “exasperada e alvar” admiração. Isso, pelo menos, é o que podemos depreender desse texto escrito por ocasião da morte do escritor paraibano, e que resolvemos dar a conhecer em parte, para assinalar a relação de simbiose – e de continuidade em termos orgânicos – da colaboração de ambos quanto à elevação do fenômeno do futebol à condição de arte de representação digna de nota e de registro estético, conforme veremos adiante.

O meu personagem de hoje90 não é um jogador, nem um time, nem uma torcida. É um morto. E será inútil acrescentar-lhe o nome, porque todos já o identificaram.Trata-se, com efeito, de José Lins do Rego ou, como era universalmente conhecido – Zé Lins. Homem da literatura, do esporte e, sobretudo, homem, em toda a plenitude desta condição. Morto e, no entanto, parece mais vivo do que muitos que andam por aí, que circulam, que batem nas nossas costas e contam piadas.

[...] Geralmente, o bom escritor brasileiro não acredita em futebol, é um desconfiado do futebol. E conta-se o caso daquele poeta que, levado à força para um jogo, apontava o campo, aos berros: –, "Que é aquilo? Que é aquilo?". Foi socorrido e descobriu-se que "aquilo" era a bola.

90 Invariavelmente, era assim que Nelson Rodrigues iniciava a sua famosa coluna intitulada, “Meu personagem da semana”, que escrevia na revista Manchete Esportiva. Sua coluna estreou na revista em novembro de 1955 e se encerrou em setembro de 1959, numa colaboração produtiva que durou cerca de quatro anos.

[...] Zé Lins não pertencia a esse tipo de intelectual, de laranja, e fez-se íntimo do esporte que é a paixão do povo. E não ia para o campo com a displicência superior de quem se coloca muito acima da plebe ululante, da plebe alvar. Absolutamente. Ele torcia tanto ou mais que qualquer torcedor ignaro. E ninguém mais passional, ninguém com maior capacidade de se entregar à torcida, como se um gol do Flamengo fosse a coisa mais transcendente do mundo (RODRIGUES, 1996, p. 34- 35).

À parte o tom de homenagem póstuma do texto – onde mesmo assim não se escondem traços de estilo – observe-se a princípio que ele serve para evidenciar certas qualidades (do homem e do escritor) que ele via no amigo e que, conforme já anunciamos, também integrará a própria personalidade controversa e criativamente renovadora do dramaturgo e homem de imprensa Nelson Rodrigues; do cronista que revolucionou de modo radical a linguagem do futebol quando incorporada à arte da literatura. Ou seja: quando neste campo de expressão, exercitou, com rara genialidade, aquela potencialidade da linguagem deste esporte que reputamos plena de narratividade e que, por isso mesmo, “chama” uma aplicação transcendente do seu universo temático,91 a que fizemos menção no início deste

capítulo.

À maneira também de José Lins do Rego, a obra de Nelson Rodrigues entra para a história da literatura brasileira por outras motivações estéticas que não a de contumaz escrevinhador de crônicas sobre futebol. Sua entrada se dá, segundo os historiadores de nossas letras, pela sua condição de autor de uma vasta e relevante obra de teatro. Condição esta, contudo, que não afasta de modo algum a contaminação da sua obra literária pela sua vivência como homem de jornal. Contaminação essa, por conseguinte, que já podia ser antevista na sua peça de estréia, A mulher sem pecado (1941), onde “já se podia perceber a estreita vinculação entre teatro e crônica jornalística, drama e folhetim, enredo e fait-divers”, na avaliação do crítico de teatro e estudioso de sua obra cênica, Sábato Magaldi (COUTINHO, 2001, p. 1393). Para este mesmo crítico teatral, que posteriormente (a partir de 1981) coordenou, pela Editora Nova Fronteira, a publicação da dramaturgia do autor (MAGALDI, 1981-1989), essa peça seria, nesse sentido, uma das numerosas histórias com que o dramaturgo nutriria,

91 Nelson Rodrigues explorou à exaustão, em sua obra de cronista esportivo, essa dimensão do jogo de futebol, ou seja, a potencialidade que esse jogo tem de ir além de si mesmo; de servir de metáfora total e abrangente de representação da vida mesmo, em sua lógica pragmática e fugidia a um só tempo. Nesse sentido, por considerar no jogo de futebol não a bola, mas o homem que corre atrás da bola, o dramaturgo, segundo a pesquisadora Fátima Antunes, quase que desliga o futebol da vida real e o coloca numa dimensão de eternidade, transformando pessoas em personagens fascinantes, quase herói míticos. Tal impulso estético aplicado ao tema do jogo em sua obra ocorre, na opinião do crítico de teatro, Sábato Magaldi, porque Nelson “se apega particularmente aos mistérios insondáveis da aventura humana, ao sentido metafísico da finitude e suas implicações éticas, à razão de ser da passagem terrena”. Cf. ANTUNES, Fátima Martins Rodrigues Ferreira. Op. Cit. p 212, e MAGALDI, Sábato. Nelson Rodrigues: dramaturgia e encenações. 2.ed. São Paulo: Perspectiva, 1992, p. 191.

mais tarde, a sua coluna diária de imprensa, rubricada sob o título, “A vida como ela é”, publicada durante dez anos no jornal Última Hora, do Rio de janeiro, como já frizamos:

Algumas simples crônicas apressadas; outras, embrião de obras de fôlego; ainda umas terceiras, contos elaborados com extremo poder de síntese e força literária. Em toda a dramaturgia, aliás, Nelson parece comprazer-se com entrechos ralos, de cuja aparente fragilidade extrai sugestões poderosas (COUTINHO, 2001, p. 1393).

Pois são justamente essas “sugestões poderosas” que constituem, em nosso julgamento, o núcleo das inovações estéticas com as quais Nelson Rodrigues vai revitalizar a linguagem do futebol, submetendo-a às motivações da arte da literatura, a partir de sua rica experiência com as técnicas do jornalismo.

Se expressando por meio da crônica – um gênero híbrido, como já assinalamos –, que além da referencialidade do jornalismo nutre-se de características de expressão típicas da literatura, como a ambigüidade em relação aos fatos, a abertura ao impressionismo e ao subjetivismo do escritor e o tratamento estético da linguagem, entre outras, Nelson Rodrigues praticou à exaustão, no espaço da imprensa diária, aquilo que propôs para o ofício do cronista de futebol como corolário da compreensão particular que tinha do fenômeno futebolístico. Nesse sentido, o dramaturgo advoga, numa crônica sua publicada em 1956, que o cronista desse campo deveria “retocar o fato”, “dramatizá-lo”, “transfigurá-lo”, emprestando-lhes “uma dimensão nova e emocionante”, e se possível, “pentear ou desgrenhar o acontecimento, e, de qualquer forma negar sua imagem autêntica e alvar” (RODRIGUES, 1996, p. 11).

Na prática da crônica esportiva, portanto, uma série de questões novas surgem dessa démarche rodriguiana com as atividades do jornalismo e da literatura, simultaneamente. A ficcionalização do fato futebolístico; a parcialidade da sua abordagem não apenas francamente assumida, mas tornada motivo discursivo; a emocionalidade como fonte de procedimentos retóricos; o expediente do diálogo levado ao seu rendimento extremo e a utilização do suspense como arma dialogal para com o leitor, apenas esboçadas ou sugeridas na crônica esportiva de José Lins do Rego, por exemplo, ganha, na pena do dramaturgo pernambucano, uma realização acabada e definitiva, por isso mesmo incorporada – ao sabor de estilos e apropriações pessoais – pela melhor contística do tema do futebol posterior a ele, na literatura brasileira.

Tal como José Lins do Rego, mais uma vez – e bem ao seu estilo e humor –, Nelson Rodrigues também sugeriu uma classificação pessoal para as suas obras. Dizia o dramaturgo que suas peças se dividiam entre as desagradáveis e as interessantes e vitais. “Com Vestido de noiva, conheci o sucesso; com as peças seguintes, perdi-o, e para sempre.

Álbum de família inicia o meu ciclo do ‘teatro desagradável’. Quando escrevi a última linha, percebi uma outra verdade. As peças se dividem em ‘interessantes’ e ‘vitais’. [...] A partir de Álbum de família, tornei-me um abominável autor. Por toda a parte só encontrava ex- admiradores. Para a crítica, autor e obra estavam justapostos e eram ambos ‘casos de polícia’”, conclui, irônico, sua interpretação pessoal para a inusitada repercussão que, à época, o seu teatro causou no público (COUTINHO, 2001, p. 1393).

Para o crítico Sábato Magaldi, todavia, a obra de Nelson Rodrigues revela, no seu conjunto, um raro dramaturgo de “imaginário tão coeso e original, e com um espectro tão amplo de preocupações psicológicas, existenciais, sociais e estilísticas” de maneira que seu trabalho de escritor poderia receber, contudo, uma classificação diferente e mais didática.

Assim entendido o conjunto de sua obra, em termos de conteúdo e de proposta estética, viriam, precedentemente, as peças que exploram um filão mítico: A mulher sem pecado (1941); Vestido de noiva (1943) e Álbum de família (1945), primeiro; Anjo negro (1946); Senhora dos afogados (1947) e Dorotéia (1949), depois; e com estas relacionadas, as peças psicológicas: Valsa nº 6 (1950); Viúva, porém honesta (1957) e Anti-Nelson Rodrigues (1973) e, por fim, as chamadas tragédias cariocas: A falecida (1954); Perdoa-me por me traíres (1957); Os sete gatinhos (1958); Boca de ouro (1959); O beijo no asfalto (1960); Bonitinha, mas ordinária (1962) e Toda nudez será castigada (1965), depois das quais Nelson interrompeu por quase dez anos a sua obra teatral, concluindo-a com A Serpente (1978), sua última peça escrita (COUTINHO, 2001, p. 1393).

Dito isto, vamos agora a algumas considerações sobre a sua obra de cronista esportivo, que nos interessa mais diretamente. Antes, contudo, é oportuno explicarmos sob que bases conceituais se assenta esta parte da produção intelectual e artística de Nelson Rodrigues, uma vez que já antecipamos a relação da sua obra com o universo do jornal e deste com o mundo temático do esporte, explicitando o lugar privilegiado do futebol nas preocupações estéticas e literárias do cronista. Pois bem! Num dos itens do segundo capítulo deste estudo, demonstramos a conceituação de jogo com a qual iríamos trabalhar e a ela relacionamos as particularidades intrínsecas da linguagem como características comuns que poderiam ligar – ao menos do ponto de vista teórico – os conceitos de esporte, jogo, linguagem e literatura. Ampliando os desdobramentos desta abordagem, que inicialmente baseamos nas contribuições do historiador Johan Huizinga, acrescentaremos a ela as

contribuições de outros dois intelectuais importantes ao estudo dos fenômenos esportivos: os sociólogos Norberto Elias e Eric Dunnig. 92

Para estes pensadores, os esportes no geral estão intrinsecamente ligados ao desenvolvimento do processo civilizador da humanidade – particularmente, no caso da Inglaterra –, no sentido de que eles vêm substituir e se sobreporem às formas e práticas arcaicas de jogo, tomadas como passatempos do lazer desinteressado dos povos. É neste contexto, por exemplo, que estão inseridas as alterações na prática do futebol, esporte que, na sua fase moderna, se originou do rugby, uma prática com bola de feitio mais arcaico e que, por isso mesmo, foi também remodelado em sua face mais dura e violenta. Nessa mesma direção, outras alterações se seguiram no críquete, na luta livre, no boxe, no tênis, no atletismo e até mesmo na caça às raposas – práticas todas de origem inglesa – cujo objetivo tácito era desvincularem-nas dos exercícios físicos oriundos do mundo do trabalho, dos rituais e das festas camponesas. Ora, na caracterização conceitual do jogo, feita por Johan Huizinga, está justamente a idéia do conceito de trabalho ser diametralmente oposto ao significado do jogo, dentre as chamadas dicotomias crônicas (esporte e jogo; lúdico e competitivo, amador e profissional, por exemplo) com o que tem se valido as explicações sociológicas dos fenômenos esportivos no âmbito das ciências sociais (HOLLANDA in ENFOQUES, 2008, p. 81).

Compreendendo-se, pois, o trabalho como um assunto sério – no sentido de que o homem não pode dele prescindir sob a ameaça de não poder subsistir – e o jogo como uma brincadeira não-séria no qual o impulso lúdico vem se manifestar como característica a ele inata e pulsante, é assim mesmo, nessa direção, que Huizinga define o fenômeno do jogo como uma entidade autônoma. “O conceito de jogo enquanto tal é de ordem mais elevada do que o de seriedade. Porque a seriedade procura excluir o jogo, ao passo que o jogo pode muito bem incluir a seriedade”, observa (HUIZINGA, 1971, p. 51).

O fenômeno do jogo, portanto, como elemento da cultura (e até mesmo anterior a ela) não deixa de estar presente na prática dos esportes, estes sim, embora não afastados de todo da condição lúdica, pertencentes ao mundo do trabalho por causa da fração de rendimento e resultado sob o que se constituem no mundo moderno.

Ressalvando que, no Brasil, os intelectuais modernistas vão perseguir uma fusão entre esses dois conceitos (de esporte e de jogo) e que Gilberto Freyre levará isso às últimas conseqüências em termos do seu pensamento social – “para ele, o futebol tornou-se uma

92 Ver, especialmente, nesse sentido, a obra Em busca da excitação, de autoria dos dois sociólogos. Cf. ELIAS, N; DUNNING, E. Em busca da excitação. Lisboa: Difel, 1992.

instituição nacional própria da fase urbana de desenvolvimento da sociedade e teve o mérito de canalizar os elementos irracionais da formação histórica do país e os elementos primitivos de sua cultura que estariam sediados junto aos contingentes negros e ameríndios da área rural” (HOLLANDA in ENFOQUES, 2008, p. 81) –, a assimilação do futebol pelo Brasil se dá sob um prisma que o torna, graças à peculiar integração sócio-racial que promoveu, o fórum de um verdadeiro “teatro social” onde o sério e o não-sério da nossa cultura se misturam, pois aqui – não há como negar – o futebol é, simultaneamente, drama e representação; tragédia e comédia; festa e religião.

Quanto a este último aspecto (do fenômeno do futebol se aparentar com o fenômeno religioso), diríamos, para chegarmos de vez à apropriação temática do futebol pelo cronista Nelson Rodrigues , que Huizinga aproxima o conceito de jogo do conceito de culto, que também é um espetáculo e uma representação dramática, e que se dá num local e num tempo próprios, consubstanciando-se, em suma, como uma figuração imaginária de outra realidade; uma legítima representação, enfim (HUIZINGA, 1971, p. 33).

Outra circunstância peculiar presente no jogo e digna de nota aqui é o fato de o êxito alcançado por determinado jogador passar diretamente do indivíduo (ou da equipe) para o grupo que aí se vê representado. Essa substituição estende-se exatamente para a dimensão ritualística dos jogos, uma vez que os competidores “representam” os espectadores, isto é, os jogadores “jogam” em nome daqueles que lhes prestam assistência, saindo desta particularidade a sua dimensão épica, tal como a entendemos em termos da teoria da literatura.93 Em síntese: o futebol é, no seu limite fenomênico, uma espécie de representação teatral, embora se constitua num teatro operativamente diferente.

O desenvolvimento do drama na arena ou no estádio não nos leva sempre ao mesmo final, ao contrário do ator, que se depara, fatal e irremediavelmente, sempre com o mesmo enredo, em cena, no palco. Portanto, mesmo que as regras de cada jogo possam ser mutáveis, mesmo que os competidores voltem a se encontrar no mesmo espaço, para uma mesma disputa, o resultado nunca pode ser conhecido de antemão: a representação do jogo, cada vez, será sempre carregada de ineditismo.

Observa José Carlos Marques (2000, p. 35), apontando um possível sentido também trágico no esporte, decorrente do fato de que nele há sempre uma contradição inevitável no desejo dos oponentes em disputa, o que resulta no aparecimento do que já

93 Em termos de teoria da literatura, podemos dizer que um dos elementos estruturais da epopéia, enquanto gênero literário, é a existência de um herói que é capaz de feitos grandiosos em nome de sua comunidade. Ou seja: o herói épico, assim como os atletas no jogo, age sempre, nas narrativas épicas, como representante de outrem; da sua comunidade de origem; do seu país; da sua nação. Daí a aludida dimensão épica do esporte de que falamos há pouco. Cf. MOISÉS, Massaud. Dicionário de termos literários. São Paulo: Editora Cultrix, 1999, p. 181.

chamamos, no início do capítulo, de “uma violência ritual”, uma vez que, particularmente no caso do futebol, por exemplo, a morte do outro – representada pela vitória do time adversário – é apenas simbólica, ou seja: objetivamente ele permanecerá vivo e apto para competições futuras.

É assim, pois, sob essa capa conceitual rica e multidimensional, que Nelson Rodrigues vai compreender e abordar o futebol em suas crônicas esportivas. Não apenas como um esporte moderno em que prepondera mais o sentido do rendimento técnico, auferido em resultados numéricos, estatísticas ou recordes. Mas, pelo contrário. Para ele o futebol é muito mais do que isso: é um jogo de caráter social e cultural (com possível representação lingüístico-literária) que se insere dentro das práticas lúdicas e agonísticas do homem e cuja dimensão extrapola os seus resultados em termos de competição. Vejam-se, a propósito, dois trechos de suas crônicas em que isso fica bem claro. Uma em que sobressai a sua valorização humanística do jogo e outra em que a ênfase na sua concepção deste esporte recai na sua dimensão teatral e, por isso, rigorosamente dramática:

Texto 1:

Certo e brilhante confrade dizia-me ontem que ‘futebol é a bola’. Não há juízo mais inexato, mais utópico, mais irrealístico. O colega esvazia o futebol como um pneu, e repito: – retira do futebol tudo o que ele tem de misterioso e patético. A mais sórdida pelada é de uma complexidade shakesperiana. Às vezes, num córner mal ou bem batido, há um toque evidentíssimo do sobrenatural. Eu diria ao ilustre confrade ainda