É um pouco antes da primeira Copa do Mundo, no Uruguai (precisamente três anos), no entanto – que o futebol é apropriadamente tematizado em termos estético-literários por um outro escritor modernista de destaque. Trata-se de António de Alcântara Machado, que em 1927 publica o conto Corinthians (2) VS Palestra (1) em que o jogo se impõe literariamente não apenas pela sua inserção no dia-a-dia da cidade de São Paulo, mas, fundamentalmente – e eis a virada de mudança de enfoque do tema na prosa de ficção –, como motivo dramático, narrativo e performático próprios. À feitura de um verdadeiro conto de situação, entram em cena, nesta narrativa, as reações coletivas das duas grandes torcidas de São Paulo em embate futebolístico, mas, também, as ações, intervenções e observações individuais do elemento humano, que, no jogo, interage para dar a ele o caráter de espaço ritual onde o lúdico e o rigorosamente sério da condição humana se misturam. Com um conto em forma de crônica, observa o pesquisador Bernardo Buarque, o escritor Alcântara Machado efetua nele as experiências lingüísticas que tanto fascinavam os modernistas, pois lá estão presentes a oralidade dos torcedores e as circunvoluções dos atletas em torno da bola, assim como provavelmente pela primeira vez na narrativa de ficção sobre o tema – ao menos na forma conto – “o jogo ocupa o centro de uma história e a sua linguagem se instila no fluxo do próprio texto” (HOLLANDA, 2004, p. 57-58).73
A originalidade étnica da nação brasileira, percebida nessa época no futebol graças à presença bem sucedida em campo de atletas mestiços (negros e mulatos), primeiro no torneio sul-americano da Copa Rio Branco de 1932, e, exitosamente, na terceira Copa do Mundo, a de 1938 na França, em que o Brasil obteve o terceiro lugar e fez o artilheiro da competição na figura do negro Leônidas da Silva, também se afirma e abre espaço para a associação entre a identidade esportiva e o diferencial étnico de constituição do povo brasileiro e, assim, estreita o sentimento esportivo de comunhão com a pátria, o que se
73 Já dissemos que o primeiro conto tematizando o futebol no Brasil, intitulado, A Biblioteca, foi escrito por Lima Barreto em 1915. Queremos ressaltar quanto a este fato, em adendo às observações de Bernardo Buarque de Holanda, que indica o conto de Antonio de Alcântara Machado, Corinthians (2) VS Palestra (1), só publicado em 1927, como sendo uma narrativa em que o jogo pela primeira vez ocupa o centro da história, que há entre as duas obras diferenças de procedimentos estéticos fundamentais a orientar o processo de suas composições. Enquanto Lima Barreto toma o tema do futebol como motivo político para defender suas idéias sobre o jogo, Alcântara Machado o enfoca como elemento cultural já incorporado às formas de ser e de agir de uma parcela considerável do meio urbano de São Paulo e a ele dá força e forma literária correspondente, bem à maneira do que propugnava para a tarefa da arte, dali por diante, os modernistas de 1922. Ver Guia de leitura do tema do futebol no conto ficcional brasileiro, páginas 269 e 270.
tornaria um dos principais motes temáticos da representação do futebol na literatura brasileira de ficção no seu formato de histórias curtas. Isso acontece, a nosso ver, porque os escritores modernistas – e a partir da incorporação futura e definitiva da plataforma estético-doutrinária do movimento às nossas letras, todos os demais escritores – passam também a ver o futebol, assim como fizeram com a música, como fenômeno integrante da nossa cultura popular, a despeito de sua condição de esporte urbano até certo ponto incorporado ao fenômeno mais abrangente da comunicação de massa. Tal integração, é bom que se ressalve, vem de encontro ao projeto modernista de construção de símbolos nacionais, que a música popular e o folclore já haviam tornado possíveis e que, naquele momento, através da consolidação intelectual de uma brasilidade esportiva, o futebol também já permitia realizar.74
Pela via do futebol, portanto, o Brasil teria o sortilégio de inverter, então, ao menos na prática simbólica e representativa de um jogo, a tradicional relação de dependência ante as potências da Europa, o que, nos seus termos culturais, era programaticamente combatido pelo nosso Modernismo. Por decorrência direta, os modernistas vislumbravam agora um meio em que a congênita idéia da inferioridade brasileira (tão bem tematizada posteriormente por um cronista de futebol como Nelson Rodrigues) finalmente podia ser superada.
Depois de Oswald de Andrade, que em 1924, se curvou ao futebol como tema para registrar num poema seu, E a Europa curvou-se ante o Brasil (ANDRADE, Oswald, 1990, p. 65.), os êxitos futebolísticos do país no estrangeiro, Mário de Andrade, por sua vez, volta ao tema deste jogo em uma crônica publicada em 1939, intitulada Brasil vs Argentina, na qual registra essa transformação verificada em torno do futebol dentro da perspectiva antropofágica preconizada ideológica e esteticamente pelo próprio movimento: “Dezenas de tribos diferentes se organizando, se entrosando, recebendo mil e uma influências estranhas, mas aceitando dos outros apenas o que era realmente assimilável e imediatamente
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A nosso ver, essa nova percepção do fenômeno futebolístico incorporada pelos modernistas tem a ver com a fusão conceitual, operada teoricamente por Gilberto Freyre, entre esporte e jogo (ver a pormenorizada discussão dessa questão conceitual feita pelos os sociólogos Norberto Elias e Eric Dunnig na obra Em busca da excitação, de autoria dos dois sociólogos. Cf. ELIAS, N; DUNNING. Lisboa: Difel, 1992). Apesar de uma certa incongruência teórica, segundo Bernardo Buarque de Hollanda, os modernistas vão perseguir a fusão entre esses dois conceitos e Gilberto Freyre levará isso às últimas conseqüências. Para o sociólogo, portanto, o futebol tornou-se uma instituição nacional própria da fase urbana de desenvolvimento da sociedade e teve o mérito de canalizar os elementos irracionais da formação histórica do país e os elementos primitivos de sua cultura que estariam sediados junto aos contingentes negros e ameríndios da área rural. Na sua discussão da assimilação do futebol pelo Brasil, por conseguinte, Gilberto Freyre tem em mente o encontro de um denominador comum para elementos em princípio tão díspares como os esportes, urbanos e modernos, e o jogos, rurais e tradicionais. Veja-se, a respeito, o prefácio ao Negro no futebol brasileiro, de Mário Filho. Cf. FREYRE, Gilberto. Prefácio. In: RODRIGUES FILHO, Mário. O negro no futebol brasileiro. 4. ed. Rio de Janeiro: Mauad, 2003, p. 24-6.
conformando o elemento importado em fibra nacional” (ANDRADE, Mário in PEDROSA, 1967, p. 182).
Outro ponto de inflexão importante na abordagem do assunto futebol pela literatura brasileira é incorporado também pelos modernistas e flagrado nessa mesma crônica de Mário de Andrade. Trata-se da passagem do discurso da ética – que consistia até aqui apenas na valorização dos seus aspectos disciplinares, propedêuticos e pedagógicos, que naquela “polêmica inicial”, já vista, orientara a posição dos defensores da implantação desse esporte no Brasil – para o discurso da estética – caracterizado pela constatação da incorporação, no jogo, de potencialidades típicas da arte, o que nas teorizações de Gilberto Freyre significava o seu conteúdo, no caso brasileiro, ao mesmo tempo apolíneo e dionisíaco caracterizador da nossa maneira de jogar, conforme também já vimos.
A relação entre o futebol e a arte é um tema caro aos modernistas na medida em que ela permite a associação das percepções de harmonia, ritmo e o conjunto dos movimentos espaciais dos jogadores em campo. Um exemplo desse processo se verificaria na própria linguagem. O universo lingüístico esportivo, eivado de expressões táticas, bélicas como defesa, ataque e contra-ataque, passa a coexistir com expressões de origem artística, como lances, firulas, fintas e floreios (HOLLANDA, 2004, p. 95-103).
Estas observações constatadoras do historiador Bernardo Buarque em adendo ao que estamos querendo dizer quanto à nova percepção do fenômeno do futebol, por parte dos modernistas, portanto, se juntam à própria visão estética do jogo, expressa entusiasticamente por Mário de Andrade quando registrou suas impressões sobre a partida entre o Brasil e a Argentina, realizada em 15 de janeiro de 1939, no estádio de São Januário, no Rio de Janeiro, e que motivou a sua crônica aludida acima: “Eu é que já estava de longe, me refugiando na arte. Que coisa lindíssima, que bailado mirífico um jogo de futebol” (ANDRADE apud PEDROSA, 1967, p. 184).
Como se vê, o que se depreende dessas elocubrações marioandradinas em torno do jogo era já a capacidade de o futebol encarar as representações coletivas em torno da nação, depurando-a do elemento importado, assim como também, no mesmo movimento de releitura crítica, valorizar agora o elemento artístico autóctone a ele incorporado pelos brasileiros: “Foi, portanto, dentro desse contexto (no direito permanente à pesquisa estética) que os modernistas, depois de verificarem que o futebol havia sido quase sempre reservado à esfera esportiva e educativa, passaram a tratar o assunto pelo reconhecimento de suas
propriedades também no âmbito cultural e artístico”, completa Bernardo Buarque de Hollanda.75
Outra vez, numa autêntica e mesma virada de percepção, as interpretações modernistas – de que é exemplo claro, no campo da ficção, a abordagem do tema feita no aludido conto de António de Alcântara Machado – ganham contornos próprios e passam a enxergar também no futebol, conforme já dissemos, uma forma de adequar o jogo às concepções de brasilidade do próprio movimento.
O contexto dessa virada de percepção, cabe aqui frisar, é reforçado entusiasticamente pelas observações de Gilberto Freyre sobre a Copa de 1938 em que, segundo o sociólogo, foi possível identificar a existência, já em franca prática e desenvolvimento, de um estilo autêntico de se jogar futebol no Brasil, algo que também já exploramos no primeiro capítulo deste trabalho. Ao contrapor, no seu livro Sociologia, publicado em 1943, em que trata dessas questões, o futebol-arte brasileiro ao futebol- científico europeu, e ao o privilegiar, por exemplo, a noção de exibição em detrimento do foco na simples competição esportiva, o sociólogo queria expor os aspectos positivos que lhe interessava ressaltar no futebol brasileiro, enquanto igualmente enfatizava um diferencial que lhe permitia singularizar tal esporte ante o praticado por outras nações. Todas essas questões – veremos ainda – se tornariam também, posteriormente, tema literário da nossa prosa de ficção do gênero conto.
Como que preparando o terreno futuro (retornando ao âmbito da imprensa) em que o tema do futebol deixaria de ser tratado apenas como discussão pública para se tornar grande narrativa –, mudanças fundamentais ocorrem no espaço do jornalismo esportivo, campo em cujo domínio esse jogo ancorou historicamente seu desenvolvimento como esporte no Brasil. Não foi por acaso, portanto, que o nome do artífice que comandaria esse processo de redimensionamento do futebol no espaço público brasileiro seria o mesmo que nomearia, futuramente, o seu maior palco de expressão local com repercussão mundial: o estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, arena em que este esporte se consagraria como um emocionante, envolvente e lucrativo espetáculo de massas do Brasil dos tempos modernos.
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Cf. HOLLANDA, B. B. B. Op. Cit. p. 103-4. Na seqüência desta sua argumentação, o pesquisador Bernardo Buarque sugere que a mudança do entendimento dos modernistas sobre o futebol como sendo também um fenômeno estético, se insere no contexto geral do movimento, explicitado por Mário de Andrade na sua famosa conferência de 1942, intitulada, O movimento modernista, em que ele elenca como sendo três os princípios que nortearam o movimento: o direito permanente à pesquisa estética; a atualização da consciência artística brasileira e a estabilização de uma consciência criadora nacional. Ver a íntegra da citada conferência em: TELES, Gilberto Mendonça. Vanguarda européia e modernismo brasileiro: apresentação e crítica dos principais manifestos vanguardistas, Petrópolis-RJ: Vozes, 1997, p. 308-10.