CHAPTER 5: NUMERICAL SIMULATION OF FPSO BEHAVIOUR IN LEVEL ICE
5.3. Description of the numerical model of FPSO surge motion in level ice
Discípulo também do sociólogo Gilberto Freyre (em termos ideológicos e estéticos), José Lins do Rego, na condição de um escritor tipicamente modernista (e moderno) vem dar continuidade à obra do escritor pernambucano no tratamento exploratório do futebol brasileiro.84 Segundo o pesquisador da sua obra cronística, o historiador social Bernardo Buarque de Hollanda – que se debruçou sobre as crônicas esportivas publicadas por Zé Lins no Jornal dos Sports entre 1945 e 1957 (um total de 1.571 textos) na sua coluna Esporte e Vida –, a incorporação do futebol ao projeto de construção de um Brasil moderno a partir da década de 1930, plataforma comum a todos os intelectuais modernistas, também “pode ser identificada de maneira exponencial nos romances, ensaios e, principalmente, nas crônicas esportivas desse escritor em cuja obra – diferentemente do caso dos outros autores do modernismo – o tema do futebol se apresenta de maneira sistemática e cristalina”, na observação literal de suas próprias palavras.
Considerado por boa parte da crítica literária brasileira como um “estilista” original, José Lins do Rego tomou contato com o movimento modernista de 1922, através de conversas com Graciliano Ramos, Jorge de Lima e Raquel de Queirós, quando morou em Maceió. A princípio reticente quanto ao Modernismo, por influência do amigo Gilberto Freyre, que pregava um “regionalismo tradicionalista”, o escritor acaba por fim se incorporando ao grupo que consolidaria o chamado Romance do Nordeste, dando uma feição mais social e política à abordagem regional da sua literatura. Romancista de uma obra panorâmica e orgânica quanto à interligação temática e propositiva de sua cosmovisão de trabalho, distribuída e conscientemente organizada em cada obra individual, perfazendo no todo um conjunto representativo das questões que elegeu como núcleo de suas preocupações com os problemas brasileiros – o ethos social regionalista em destaque –, o próprio autor destacou como desejaria que a sua obra ficcional fosse dividida. O ciclo da cana-de-açúcar, com Menino de engenho (1932); Doidinho (1933); Bangüê (1934); Fogo morto (1943) e Usina (1936). O ciclo do cangaço, misticismo e seca, com Pedra Bonita (1938) e
84 Segundo Bernardo Buarque de Hollanda, José Lins do Rego assumia sem vaidades e com rara honestidade intelectual uma franca filiação às teorias mais gerais de Gilberto Freyre e Mário Filho, fato, aliás, carinhosamente acalentado pelo sociólogo pernambucano, que considerava o romancista uma espécie de discípulo e de filho pródigo, quase que partejado por ele, o que tornava Zé Lins uma espécie de materialização literária do seu pensamento antropológico e sociológico. Quanto a esse aspecto, segundo Bernardo Buarque, “se, por um lado, mostrava-se fiel à problemática originária do modernismo, por outro, ao aceitar ainda a condição de acólito intelectual de Mário Filho, José Lins do Rego tornava possível também a observação da experiência de proximidade entre o cronista e o leitor no processo de constituição de uma crônica esportiva moderna”. José Lins do Rego fala dessa influência poderosa do pensamento do sociólogo pernambucano sobre ele – e da relação muito próxima entre ambos – num depoimento incluso num dos livros de Gilberto Freyre. Cf. REGO, José Lins do. – Notas sobre Gilberto Freyre. In: FREYRE, Gilberto. Região e tradição. Rio de Janeiro: José Olympio, 1941, p. 9 e 10.
Cangaceiros (1953). As obras independentes: a) com ligações nos dois ciclos, O moleque Ricardo (1935), Pureza (1937) e Riacho doce (1939), e, b) desligadas dos ciclos: Água-mãe (1941) e Eurídice (1947).85 A este conjunto de natureza romanesca, junte-se esse outro, que
segundo o poeta alagoano, Ledo Ivo, “comprovam que o grande romancista brasileiro não possuía apenas uma admirável natureza criadora”, mas também dispunha de “uma natureza ensaística” com a qual é possível aquilatar, pela vasta abrangência de suas intervenções como homem de letras, o interesse do autor pelos problemas da expressão literária, bem como suas preocupações com os destinos do homem e da sociedade: Gordos e magros (1942); Poesia e vida (1945); Homem, seres e coisas (1952); A casa e o homem (1954) e as publicações póstumas, O vulcão e a fonte (1958), e Dias idos e vividos (1981), organizado pelo poeta e crítico Ivan Junqueira. Conjunto este que entremostra menos o homem de reclusão criadora com a qual consagrou definitivamente o seu nome na história da grande ficção brasileira e mais o homem de jornal, na acepção publicista do termo, função através da qual partilhava diretamente com o público leitor as suas idéias e conjecturas sobre as coisas do mundo, através do ensaio e da crônica.
Diariamente ele escrevia artigos de jornal, que freqüentavam os assuntos mais vários: livros, conversas com amigos, fatos da realidade urbana ou rural, a vibração e a densidade da atualidade política nacional ou internacional, todo esse complexo de acontecimentos que formam o pecúlio humano e ideológico de cada dia. Assim, os leitores de sua obra de ensaísta e cronista são conduzidos a um mundo vivaz, dinâmico, que prima pela sedutora diversidade de seus temas e que se inicia num gabinete de trabalho para terminar num estádio ululante. José Lins do Rego foi uma criatura de diálogo – fora da ficção, ele conversa interminavelmente com o leitor, contando-lhe casos, abrindo seu coração com uma espantosa sinceridade (IVO Apud COUTINHO; CASTRO, 1991, p. 139).
Inserida no contexto desse novo momento por que passava a imprensa, a atuação do cronista esportivo José Lins do Rego, já em pleno curso e vigência do processo de renovação da crônica esportiva brasileira – comandado pelo jornalista Mário Filho na página 8 do jornal O Globo, processo que descrevemos anteriormente, caracterizado no geral pela implantação de uma nova linguagem e de uma nova narrativa, assim como pelo estabelecimento de uma nova relação do jornalista com o leitor – se dá, nesse sentido, num
85 Cf. Enciclopédia de literatura brasileira. Direção Afrânio Coutinho. J. Galante de Sousa. 2 ed. rev. ampl. atual e il. Sob a coordenação de Graça e Rita Moutinho. São Paulo: Global Editora : Rio de Janeiro, RJ: Fundação Biblioteca Nacional/DNL : Academia Brasileira de Letras, 2001, p. 1353-54. Para uma análise mais acurada do conjunto dessa obra, assim compreendida, ver: AZEVEDO, Neroaldo Pontes de. José Lins do Rego: trajetória de uma obra. In: José Lins do Rego. Seleção de textos Eduardo F. Coutinho (UFRJ) e Ângela Bezerra de Castro (UFPB). Col. Fortuna Crítica n. 7. Dir. Afrânio Coutinho. Coedição – Funesc: Fundação Espaço Cultural da Paraíba. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1991, p. 208-224.
período em que a crônica objetiva, fria e impessoal das primeiras décadas do século,86
limitada à informação, passava a ser gradativamente substituída, ao longo das décadas de 1930, 1940 e 1950, por uma crônica esportiva de cunho pessoal, fincada nos processos de narração e que abre espaço para a manifestação da subjetividade do cronista, assim como para a formação de um estilo marcadamente autoral de cada um deles, emprestando ao gênero uma feição mais estética e menos referencial ou noticiosa.
Pois foi justamente através deste tipo de crônica – na sua forma híbrida, ao mesmo tempo jornalística e literária –, que o escritor José Lins do Rego pôde realizar na prática um dos mais caros ideais do movimento modernista brasileiro: a simplicidade de estilo na escrita, e, com isso, a comunicação direta com os extratos mais amplos da população, com o que exercitou a tão propugnada liberdade de expressão para o artista, que os modernistas tanto reivindicavam. Como cronista esportivo, uma variante especializada do cronista de variedades, ofício que exerceu por 12 anos, ocupando as páginas de importantes veículos de imprensa do Rio de Janeiro, Zé Lins pôde intervir no debate público sobre um Brasil genuíno para os brasileiros em que o futebol fosse visto como um elemento de sua cultura e onde o povo em geral melhor se via representado. E a esse debate acrescentou, nessa direção, sob a influência anterior das idéias do sociólogo Gilberto Freyre e do jornalista Mário Filho, três questões que a representação ficcional sobre o tema viria mais tarde incorporar como um dos seus aspectos mais ricos e constantes: a importância do legado étnico negro para a matização nacional do jogo de futebol, a incorporação da música na forma brasileira de jogá-lo e uma original re-elaboração – só possível graças à maneira como o futebol foi institucionalizado no país – da idéia de nação brasileira, criando uma proposição peculiaríssima de nossa formulação identitária.
Os rapazes que venceram em Montevidéu eram um retrato de uma democracia social, onde Paulinho, filho de família importante, se uniu ao negro Leônidas, ao mulato Oscarino, ao branco Martins. Tudo feito à boa moda brasileira, na mais simpática improvisação. Lendo este livro sobre futebol, eu acredito no Brasil, nas qualidades eugênicas dos nossos mestiços, na energia e na inteligência dos homens que a terra brasileira forjou com sangues diversos, dando-lhes uma originalidade que será um dia o espanto do mundo (REGO, 2002, p. 63).
86 É possível perceber nesse período a vigência de uma crônica sobre os esportes e não uma crônica dos esportes conforme concebemos hoje. A aversão modernista à fala empolada e ornamental, bem como aos recursos retóricos dos parnasianos, afinava-se com as mudanças promovidas na crônica esportiva, cuja narrativa encontrava-se igualmente presa até a década de 1920 aos cânones greco-romanos e especialmente ao estilo elevado da retórica sublime clássica. Mário Filho vai neste sentido, como vimos, mobilizar seus esforços para a reformulação dos paradigmas do jornalismo esportivo brasileiro. Um cotejo histórico-bibliográfico sobre os primórdios da crônica esportiva no Brasil está na nota 57.
Aqui, por exemplo, numa reafirmação explícita das teorias raciais e culturais do seu amigo Gilberto Freyre, por ocasião do prefácio que escrevera ao livro “Copa Rio Branco de 32”, do seu outro amigo, Mário Filho, o cronista Zé Lins se abastece de argumentos para explicitar, em seguida – mediada pela lógica da miscigenação e do propugnado convívio democrático entre as três raças da nossa formação social – a sua idéia da necessária simbiose, no plano da nossa construção identitária, entre a identidade nacional e a identidade clubística: “Porque não há clube que [mais] seja de todo o Brasil, verdadeiramente da nação, do que o Flamengo. Em todos os sentidos, é o Flamengo o clube do povo brasileiro”, escreve, na crônica de título sugestivo, “Servir ao Flamengo é servir ao Brasil”, em que comenta um decreto do presidente Eurico Gaspar Dutra criando facilidades para os clubes de futebol construírem seus estádios para treinamento e jogos oficiais. (REGO, 2002, p. 64). E arremata o assunto, no dia seguinte, em outra crônica publicada no mesmo jornal, intitulada, “O Flamengo merece muito mais”:
O Flamengo, como todos os clubes desta cidade, é um elemento de preparação do espírito nacional. E mais do que qualquer um vive, por todos os recantos do Brasil, nos entusiasmos de seus adeptos que são uma verdadeira legião.
Se há um clube nacional, este será o Flamengo, criação do mais legítimo espírito de brasilidade. Flamengo são brasileiros de toda as cores, de todas as classes, de todas as posições. Flamengo é o Sr. Eurico Gaspar Dutra, é o Sr. Nereu Ramos, é o Sr. Juraci Magalhães, é o meu rapaz do jornal, é o meu apanhador de bolas no tênis, é o Grande Otelo, é o pintor Portinari, é o Brasil de todos os partidos.
E se o Flamengo tiver o seu estádio gigante é porque merece muito mais (REGO, 2002, p. 65).
Essa operação narrativa de José Lins do Rego tinha um sentido muito claro, na avaliação do estudioso da sua obra cronístico-esportiva, Bernardo Buarque de Hollanda, que era o de fundir na idéia de pátria, nação, o Clube de Regatas do Flamengo, que, para o escritor paraibano, era o clube que detinha todas as potencialidades de irmanar indivíduos os mais diversos, heterogêneos e dispersos, num verdadeiro congraçamento nacional, conferindo-lhes, pelo sentimento comum de pertencimento a ambos (à pátria e à nação), não obstante o afastamento geográfico ao longo de diferentes regiões territoriais do país, um senso de suprema e verdadeira brasilidade.
Tal profissão de fé de Zé Lins, digamos assim, se espraiava ao longo de toda a sua escrita de cronista esportivo por intermédio de recursos retóricos sofisticadíssimos – a nosso ver –, que vão desde a refinada ironia com o que aproveitava para tirar uma “onda” subliminar com os clubes rivais do Flamengo – caso do Vasco da Gama, que é tema de uma crônica sua, “Lá o Vasco é como se fosse o Flamengo”, por ocasião de uma excursão que o time fizera à Europa em 1947, oportunidade entrevista pelo escritor para contrapor, na sua lógica
interpretativa sobre a nossa brasilidade futebolística acima referida, as representações da pátria brasileira com o elemento estrangeiro, dentro de uma peculiar escala de valor que apontava o nacional (naquela ocasião, representado pelo Vasco); o mais nacional (o seu Flamengo – ver a crônica, “O Brasil era o Flamengo”) e, ambos, acima do europeu em qualidade e supremacia. Vejam-se os dois textos-exemplos:
Lá o Vasco é como se fosse o Flamengo
Continua o Vasco a honrar com brilho o futebol brasileiro. Em duas partidas ganhas, pela bravura e pela classe de sua equipe, mostrou o tricampeão do Municipal que é, de fato, uma verdadeira seleção de valores. E assim Flávio Costa acrescenta às suas glórias de técnico mais as vitórias que vem obtendo em campos de Portugal. A jornada do Vasco há de terminar como começou. Todos nós, aqui do Brasil, estamos ao lado de nossos aparelhos de rádio para torcer pelos rapazes do Almirante. Lá o Vasco é como se fosse, para mim, o Flamengo (REGO, 2002, p. 82).
*** O Brasil era o Flamengo
Chego da Suécia convencido de que o futebol é hoje produto tão valioso quanto o café, para as nossas exportações. Vi o nome do Brasil aclamado em cidades longínquas do norte, vi em Paris aplausos a brasileiros com o mais vivo entusiasmo. Disse-me o meu querido Ouro Preto: "Só Santos Dumont foi tão falado pela imprensa desta terra, sempre distante a tudo que não é europeu, como os rapazes do Flamengo”.
Este fato, os milhares de franceses que permaneceram no estádio, mesmo com o término da partida, aplaudindo os nossos rapazes, queriam demonstrar uma quente admiração por essa turma de atletas que tinha feito uma exibição primorosa. E a nossa bandeira tremulava no mastro do estádio, naquela noite esplêndida de primavera. O futebol Brasileiro deu aos mil brasileiros que ali estavam a sensação de que éramos os primeiros do mundo. Para mim, mais ainda, porque ali estava o meu Flamengo de todos os tempos (REGO, 2002, p. 129).
Como se vê, nas suas crônicas, o escritor passou a fazer do futebol “uma forma de pensar o próprio sentido de afirmação de uma nação”, conforme a observação do historiador Leonardo Pereira para uma conclusão interessante da pesquisa sobre a atuação do cronista esportivo José Lins do Rego, feita pelo historiador e sociólogo Bernardo Buarque de Hollanda. Só que ao contrário dos seus pares, que viam a nação como a expressão unívoca do perfil de um país, observa Pereira, o romancista buscaria, na experiência de torcedores comuns, segundo a conclusão da tal pesquisa, a afirmação de outra lógica.
A nação aparece, em suas crônicas, como fruto dos sentimentos que, ao mesmo tempo, sustentam a identidade daqueles que o compartilham e a construção da diferença com os demais. Resulta daí a afirmação dos próprios clubes como nações, como a “nação rubro-negra” ou a “nação vascaína”, – em imagens que se tornariam cada vez mais comuns nas décadas seguintes. Tratava-se assim de uma nação extra- oficial, que era a representação e o resultado do povo, não do Estado. Inverte-se, nesta formulação, o sentido da afirmação nacional: o futebol, na pena de José Lins do Rego, dava forma não a uma identidade nacional unívoca capaz de englobar todo o país, mas a uma identidade continuamente reconstruída que juntava diferentes
parcelas geográficas e sociais da nação (Leonardo Pereira. Prefácio, in HOLLANDA, 2004, p. 17).87
Mas vamos ver diretamente como essas inovações no tratamento do tema do futebol se dava na prática textual do cronista esportivo José Lins do Rego, que, então “se sentia à vontade, em sua atividade de colunista e cronista esportivo, para traçar pontos de fuga, rememorar fatos e para propor curiosas analogias entre a poesia e as notícias ordinárias do mundo do futebol” (HOLLANDA, 2004, p. 193), constituindo, assim, na forma e no conteúdo dos seus textos, uma espécie de transição estética do tratamento meramente informativo do tema para a sua abordagem propriamente ficcional levada a efeito posteriormente pelos contistas futebolísticos, por assim dizer, da literatura brasileira.
Mesmo encarnando o tipo específico de “cronista-torcedor”, caracterização que em si mesmo demonstra a confluência, na mesma personalidade literária, do escritor e do jornalista, mediada pela paixão e “desabrido apego ao Clube de Regatas do Flamengo”, por quem torcia fervorosamente – numa “confusão conceitual” que parecia fazer quanto à utilização dos fundamentos jornalísticos da crítica e do comentário, da isenção e do engajamento e, por conseqüência, da timbragem, nos seus textos, da questão da parcialidade ou imparcialidade,88 alimentando uma polêmica, comum na sua época, em relação às funções do cronista esportivo –, José Lins do Rego, no entanto, vem, por isso mesmo, emprestar a esse gênero de escrita jornalística contribuições que vão além, em termos da relação conteúdo/linguagem, da mera formatação de um diálogo entre torcedores sobre o futebol. Ele, na esteira das possibilidades estilísticas facultadas ao gênero da crônica esportiva por força das inovações postas em curso através da “revolução modernista” de Mário Filho, impregna este tipo de texto jornalístico das mais autênticas elaborações típicas do campo da literatura.
87 Como já sugerimos, essa idéia é tributária da plataforma de modernização – em forma e em conteúdo – do jornalismo esportivo brasileiro levada a efeito pelo jornalista Mário Filho, que, por isso mesmo, implicava a conseqüente modernização do próprio futebol do País. Nesse sentido, a meta do jornalista incluía também o favorecimento da popularização e nacionalização dos clubes brasileiros mais tradicionais com sede no Rio de Janeiro. “Decorrência da larga expansão que vinha sendo operada no futebol desde o início do século, o abrasileiramento clubístico constituía mais uma etapa a ser cumprida na evolução dos esportes e, notadamente, do futebol do país, devendo ser iniciada, como era de supor, por um clube do então Distrito Federal. Ao estado-nação, que reconfigurava suas bases na década de 1930, com o processo de industrialização e urbanização do país, haveria de corresponder também um Clube-nação, representante fidedigno e unificador dos torcedores dispersos por todo o país”. Cf. HOLLANDA. Op. Cit., p. 199. Não é necessário dizer, para concluir, que o clube que encarnava tal perfil, na opinião de José Lins do Rego, era o Clube de Regatas do Flamengo.
88 Embora acreditasse na possibilidade objetiva da exposição e apreciação dos fatos esportivos, em que o cronista não poderia se deixar levar pelas afeições clubísticas na abordagem de um jogo, José Lins do Rego ficou marcado em sua época por um desbragado apego ao Clube de Regatas do Flamengo, o que denunciava ainda mais o potencial polêmico que alimentava (e sempre alimentou) o gênero jornalístico da crônica esportiva. Ver seus princípios éticos de cronista esportivo expressos na crônica, Em honra do cronista, e cotejar isso com os fundamentos defendidos por Antonio Candido para a crítica literária, na nota 95.
Assim, sentindo-se francamente livre para efetuar uma ampla abertura quanto ao conteúdo dos seus textos e intelectualmente à vontade para promover uma larga despadronização quanto às normas uniformizadoras e convenções costumeiramente impostas às prescrições dos gêneros textuais, José Lins do Rego variava sua atuação como cronista esportivo conforme suas próprias deliberações e podia tanto escrever sobre fortuitos estados d’alma, num andamento a um só tempo lírico e de denúncia social, tendo o futebol como pretexto – ver a crônica O cronista, as borboletas e os urubus, abaixo – quanto prolongar ao seu bel prazer esses exercícios de procedimentos típicos da escrita literária (tais como as intertextualidades e metapoetizações da visão estética do mundo por seus pares escritores), algo que sustentará, como veremos, a própria escrita de ficção sobre o futebol no segmento da literatura de estórias curtas no Brasil – ver a crônica, A batalha de Itararé e o Vasco, completando os dois últimos exemplos: