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Prospective FPSO operation at Shtokman field

CHAPTER 2: OVERVIEW OF FPSO OPERATIONS IN ICE ENVIRONMENT

2.3. Prospective FPSO operation at Shtokman field

O primeiro escritor brasileiro a encarar o jogo como assunto sério, digno de nota e discussão pública, foi o romancista, poeta e cronista, Coelho Neto, que se notabilizou como o maior dos seus adeptos, o mais vibrante entusiasta do novo esporte, vindo mesmo a se tornar um verdadeiro ideólogo do futebol. A atração que este jogo exerceu sobre ele manifestou-se já em seu romance Esfinge, publicado em 1908, em que o personagem James Marian, um inglês hóspede da pensão de uma tal miss Barkley, tinha o hábito de “aos domingos, sair cedo com seu material de tênis e com roupa para o foot-ball”. O tema do futebol, portanto, passaria a

ser, a partir daí, assunto onipresente não só nas crônicas e discursos, mas, também – e com muito destaque – na vida pessoal de Coelho Neto (PEREIRA, 2000, p. 205).

Com relação a este tratamento já ficcional do tema do futebol no gênero romance, que se dá em 1908 (ver nota 54) – em que pese entrar o assunto aí apenas de forma pontual; residual mesmo, diríamos –, o historiador social do futebol carioca, Leonardo Affonso de Miranda Pereira, aponta três explicações para os sentidos que a ficção emprestaria ao jogo naquele momento:

Em primeiro lugar, nota-se ainda o estranhamento, entre os jovens brasileiros, do fato de que James Marian praticasse esporte regularmente – o que pode nos lembrar a desconfiança que a educação física gerava nos primeiros anos do século entre as altas rodas cariocas, acostumadas a valorizar apenas as atividades do intelecto. Por outro lado, o fato de que a discussão se dê entre os círculos elegantes da pensão de miss Barkley mostra o caráter restrito que o jogo ainda tinha naquele período, que fazia dele um assunto de jovens endinheirados. Por fim, a força e a beleza ‘apolínea’ com a qual o autor caracteriza seu personagem – descrito como “um formoso mancebo, alto e forte, arrumado como uma coluna” – nos permite intuir o valor que ele começava a enxergar no esporte (PEREIRA, 2000, p. 205-206).

As duas coisas, com efeito: o valor intrínseco do novo esporte e a sua conseqüente e febril popularização na capital da República foram justamente os motivos principais que impeliram outro escritor, o autor do consagrado Triste fim de Policarpo Quaresma, Lima Barreto, a cerrar fileira contrária não só a importação do jogo inglês para as plagas brasileiras, mas, também, à defesa apaixonada que dele fazia parte considerável da intelectualidade brasileira de então; notadamente escritores e jornalistas muito respeitados em seu tempo.64

Com espaço e reconhecimento já assegurados nos círculos literários, com três romances publicados – Recordações do escrivão Isaías caminha (1909); Triste fim de Policarpo Quaresma (1915) e Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919) – e um monte de crônicas já também vindas a público, Lima inaugurou seus ataques em 15 de agosto de 1918, no artigo “Sobre o Foot-ball”, no jornal Brás Cubas:

Diabo! A cousa é assim tão séria ? Pois um divertimento é capaz de inspirar um período tão gravemente apaixonado a um escritor? [...] Reatei a leitura, dizendo cá com os meus botões: isto é exceção, pois não acredito que um jogo de bola e sobretudo jogado com os pés, seja capaz de inspirar paixões e ódios. Mas, não

64 O historiador Leonardo Affonso de Miranda Pereira elenca pelo menos sete renomados intelectuais brasileiros (entre escritores e jornalistas), influentes nessa época, que polarizavam o debate público acerca da popularização do jogo de futebol no Brasil e suas conseqüências sociais, para o bem ou para o mal. Do lado dos que defendiam a prática do futebol, vendo-o com bons olhos, estavam, pelo menos, Paulo Barreto (o João do Rio), Coelho Neto e Afrânio Peixoto, enquanto que Gilberto Amado, Bastos Tigre, Carlos Sussekind de Mendonça, e, como já frisamos, Lima Barreto, formavam a turma dos que combatiam veementemente a introdução do futebol em nossa terra. Cf. PEREIRA, L. A. de Miranda. “O jogo dos sentidos: os literatos e a popularização do futebol no Rio de Janeiro”. In: CHALHOUB, Sidney; PEREIRA, Leonardo Affonso de Miranda. (orgs.) A história contada – Capítulos de História Social da Literatura no Brasil. p. 195-224.

senhor! A cousa era a sério e o narrador da partida, mais adiante, já falava em armas...

Não conheço os antecedentes da questão; não quero mesmo conhecê-los; mas não vá acontecer que simples disputas de um inocente divertimento causem tamanhas desinteligências entre as partes que venham a envolver os neutros ou mesmo os indiferentes, como eu, que sou carioca, mas não entendo nada de foot-ball (BARRETO, 1956, p. 147).

Como Coelho Neto, embora em outra direção, Lima Barreto estava atento, desde o princípio, para a força social do jogo: longe de ser um mero passatempo sem sentido, o escritor intuíra que o novo esporte era capaz de inspirar “paixões e ódios”. O futebol adquiria para ele, por decorrência, um caráter sério, que o obrigaria como “crítico de costumes” a dedicar-se profundamente ao novo fenômeno. Transformando-se no arauto do combate ao jogo da bola aos pés, Lima elegeria justamente Coelho Neto como o principal adversário. Iniciou-se então um acirrado embate pelas páginas da imprensa carioca, logo depois de mais um empolgante discurso de Coelho Neto, por ocasião da inauguração da piscina do Fluminense em 1919 – discurso que para Lima soava como um verdadeiro pecado, manifestado na crônica “Histrião ou literato”, na Revista Contemporânea, de 15 de fevereiro de 1919:

O senhor Neto esqueceu-se da dignidade do seu nome, da grandeza da sua missão de homem de letras, para ir discursar em semelhante futilidade... Os literatos, os grandes, sempre souberam morrer de fome, mas não rebaixaram a sua arte para simples prazer dos ricos. Os que sabiam alguma coisa de letras e tal faziam, eram os histriões; e estes nunca se sentaram nas sociedades sábias (BARRETO in Revista Contemporânea, 15 fev. 1919).

Para além dessa polêmica inicial, que se sustentava nos sentidos do jogo; ou em apropriações desses sentidos por diferentes extratos da sociedade carioca – os escritores e intelectuais incluídos entre eles –, e que ganhava força na forma de uma disputa ideológica entre visões distintas sobre um mesmo fenômeno (a implantação, e suas conseqüências sociais, de uma prática esportiva estrangeira), atente-se para as inflexões que o assunto futebol vai experimentando enquanto matéria representativa de preocupações e expressões pessoais ou coletivas.

Intensificando cada vez mais seu embate com Coelho Neto – e com o assunto futebol, claro –, Lima Barreto empresta ao jogo, nessa discussão, a imagem de um esporte brutal e sem sentido, totalmente diferente do elemento de regeneração social preconizado por Coelho Neto,65 para desespero da imprensa carioca, quase toda ela empenhada já então em

65 Coelho Neto em sua defesa do futebol, segundo o historiador Leonardo Pereira, incorpora-se à fileira daqueles que, no Brasil, a exemplo de Afrânio Peixoto, Gilberto Amado e Fernando Azevedo, entre outros, se empenharam em defender as qualidades inerentes aos esportes que, como o futebol, eram praticados a céu aberto e que, pouco comuns no século XIX, começavam a ser preconizados pelos entusiastas da educação

prestigiar o futebol. Na contramão dessa tendência, pois, eram raríssimas exceções as intervenções contrárias como, por exemplo, a do jornalista e escritor Carlos Sussekind de Mendonça, que incorporou-se à luta de Lima Barreto contra o futebol, que ele, Lima, considerava entre outros aspectos “micróbio de corrupção e imbecilidade”, “estrangeirismo estéril e inútil”.66

Fosse como fosse, além do reforço do escritor Carlos Sussekind, de cujo livro “O Sport está deseducando a mocidade brasileira” (MENDONÇA, 1919) sai a orientação dos ataques ao futebol, a campanha de Lima Barreto contra o jogo se intensifica e ganha novos adeptos, além de uma nova estratégia. Passando a contar com a solidariedade de outros adversários do jogo, entre eles o médico Mário de Lima Valverde — de quem, cerca de dois meses antes, Lima ouvira uma preleção sobre os malefícios à saúde provocados pela prática do futebol —, o jornalista Antonio Noronha Santos e o “homem de letras” Coelho Cavalcanti, o escritor lidera o processo de criação, em março de 1919, da “Liga Contra o Futebol”, cuja constituição é discretamente anunciada em pequena nota na edição do Rio-Jornal de 12 de março daquele ano (RIO-JORNAL, 12 mar. 1919).

Esse ato político objetivo de Lima Barreto tem, nessa questão, um significado claro. Ele demonstra que por trás da contestação estava muito mais do que uma querela literária ou mera oposição ao papel de redenção social que Coelho Neto atribuía ao futebol. O escritor via nele um fator potencial de degeneração cultural da pátria, pois patrocinava uma injusta e gritante diferenciação social e regional, como declarou em entrevista ao Rio-Jornal em 13 de março de 1919:

– Está aí, uma grande desvantagem social do nosso foot-ball. Nos dias em que, para maior felicidade dos homens, todos os pensadores procuram apagar essas diferenças acidentais entre eles, no intuito de obter um mútuo e profundo entendimento entre as várias partes da humanidade, o jogo do ponta-pé propaga sua separação e o governo o subvenciona (Rio-Jornal, 12 mar. 1919).

Lima criticava os favores que os clubes de futebol recebiam do governo para “criar distinções idiotas e anti-sociais entre os brasileiros, e longe de tal jogo contribuir para o congraçamento, para uma mais forte coesão moral entre as divisões políticas da União, física por serem mais saudáveis ao corpo e à mente. Eles seriam, para o romancista, verdadeiras fontes de energia, que poderiam ser colocadas a serviço do ideal nobre da regeneração da “raça” brasileira – em um raciocínio pautado pelos ideais eugênicos que, nos primeiros anos do século, começava a se fazer presentes nas discussões médicas, pedagógicas e políticas. Cf. PEREIRA, Leonardo Affonso de Miranda. Footballmania: uma história social do futebol no Rio de Janeiro – 1902-1938. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000, p. 208.

66 Muitas dessas idéias contrárias ao futebol estão expressas, por exemplo, nos seus artigos virulentos, “Vantagens do foot-ball” e “ Uma partida de foot-ball”, escritos para a revista Careta, respectivamente, de 19 de junho de 1919 e 4 de outubro de 1919.

separa-as” (Rio-Jornal, 12 mar. 1919). Segundo ele, os clubes de futebol seriam “portadores de uma pretensão absurda, de classe, de raça, etc” (Rio-Jornal, 12 março 1919). Isso porque os defensores do futebol, ainda Coelho Neto à frente, sustentavam ser o jogo “um sport que só pode ser praticado por pessoas da mesma educação e cultivo” e reclamavam “que alguns jogadores não tinham o nível social de há uns anos atrás” (Jornal do Brasil, 3 maio 1920).

Todavia, não eram apenas econômicas e sociais as distinções combatidas por Lima Barreto, mas principalmente raciais, pelo fato de o novo esporte estar vedando aos negros a participação, como jogadores, nos grandes clubes de futebol cariocas (BARRETO in Jornal ABC, 1 outubro 1921).67 Vendo nos sócios dos grandes clubes os herdeiros – de prática e de ação – dos antigos senhores de escravos, Lima enxerga no futebol “uma das formas de continuação da dominação exercida durante décadas pelo regime escravista, onde se troca a violência pela humilhação de quem paga impostos para sustentar, com subvenções oficiais, um jogo ao qual não tem acesso” (Idem, ibidem).

O futebol aparece nos textos de Lima Barreto, portanto, (veremos isso adiante, nos seus contos de ficção – pág. 324 a 327) como, por exemplo:

[...] um poderoso instrumento de domínio utilizado por uma raça que se julga eleita por Deus graças às suas habilidades nos pés; como a escravidão, sua única finalidade é criar uma separação idiota entre os brasileiros, perpetuando as desigualdades e continuando um passado de diferenciação e segregação (BARRETO, Jornal A.B.C., 26 ago. 1922).

Esse, resumido nas palavras do próprio escritor, era o teor do combate ao jogo de futebol sustentado na controvérsia pública mantida com Coelho Neto.

A professora e pesquisadora do campo da literatura Heloísa Buarque de Hollanda,68 que estudou detidamente – e confrontou ideologicamente – as principais teses desses dois escritores sobre o futebol, após elencar os argumentos e pressupostos teóricos que as fundamentaram por ocasião da citada polêmica, nos apresenta conclusões relevantes sobre

67 Em 1921, por exemplo, numa ocasião em que o então presidente Epitácio Pessoa teria proibido jogadores negros de fazerem parte do selecionado brasileiro que ia à Argentina disputar o 2º Campeonato Sul- Americano de futebol, Lima Barreto foi duro nas críticas, publicando no mesmo dia 1 de outubro de 1921 dois artigos – “O meu conselho” e “Bendito foot-ball” – no jornal A.B.C., onde afirma que “quando não havia foot-ball, a gente de cor podia ir representar o Brasil em qualquer parte” e aponta o caráter nocivo do futebol para o país. “É o fardo do homem branco: surrar os negros, a fim de trabalharem para ele. O foot-ball não é assim: não surra, mas humilha, não explora, mas injuria e come as dízimas que os negros pagam”. Cf. Jornal A.B.C. Rio de Janeiro, 1 de outubro de 1921.

68 Apoiamo-nos aqui, integralmente, nas idéias expostas no seu artigo, “O futebol no imaginário da intelectualidade brasileira de inícios do século XX: o embate teórico entre Lima Barreto e Coelho Neto”, em que esta professora e pesquisadora do campo da cultura faz uma série de ilações com as quais concordamos sobre o cerne da polêmica citada, envolvendo esses dois escritores, acerca das questões que envolviam, na virada do século XIX para o XX, a chegada do futebol no Brasil. Cf. Enfoques – Revista dos alunos do Programa de Pós Graduação em Sociologia e Antropologia da UFRJ, n. 7. p. 77-90. Disponível em: <http://www.enfoques.ifcs.ufrj.br>. Acesso em: 18 nov. 2008.

o assunto, atualizando seus desdobramentos e os estendendo à prática social do futebol na contemporaneidade. Primeiro ela aponta as fundamentações teóricas – de ordem científica ou filosófica – do debate, expostas parte a parte.

Quanto a Coelho Neto:

Diz ela que as idéias do escritor, ao enfrentar a cultura de valorização do intelecto em detrimento das atividades físicas em voga no século XIX, se inspiravam no ideal grego da mens sano in corpore sano. Isto é, as duas dimensões, a do corpo e a da mente, não poderiam mais ser compreendidas isoladamente, mas a partir de uma perspectiva de complementaridade. Em sua concepção, observa, todavia, o cultivo do corpo não é pensado como um fim em si mesmo. Mas, muito pelo contrário, o conceito de força aparece imbuído tanto num ideal estético – que o associa à noção de beleza – como num ideal moral – que limita seu potencial, uma vez que o vincula à necessidade de respeito à pátria e aos mais fracos. Sendo assim, o homem forte, portanto, não está desvinculado do mundo do belo e da ética, mas constitui-se em seu próprio mecanismo propulsor. Deriva daí, segundo a pesquisadora, que a identidade que se constrói nesse ambiente delineado por Coelho Neto é essencialmente referencial.

Nesse contexto, os laços de fidelidade para com um time de futebol não devem, sob qualquer circunstância – na visão do escritor –, suplantar aqueles devidos à nação. Muito pelo contrário, operam justamente no sentido de reforçá-los e, desta maneira, o ideal de competitividade é esvaziado de qualquer sentido degenerador. A glória particular do time é diluída na glória maior da nação, sendo por isso louvável. O amor e a dedicação a um clube configuram, neste sentido, uma espécie de ensaio cívico para o exercício do amor e da dedicação à pátria. O esporte, por causa de suas potencialidades associativas, figura nesse universo como elemento que reforça o sentido de coletividade e possibilita o aperfeiçoamento do povo, ou melhor, até mesmo a transformação desse povo – entendido aqui num sentido essencialmente negativo, vinculado à idéia de massa desordenada, impura e desprovida de força – em nação. Estando, então, inserido nesse propósito de vitalização de princípios físicos e morais, o futebol cumpriria, segundo Coelho Neto, um papel de promoção da consciência cívica.

Quanto a Lima Barreto:

Sua linha de raciocínio afasta de início, segundo a pesquisadora, qualquer corroboração com o ideal eugênico por considerar que assertivas sobre raça não poderiam constar no repertório de possibilidades da ciência. Segundo Barreto, cada autor, portanto, ao tecer elaborações em torno do termo raça, utiliza-se de critérios descritivos próprios,

desvinculados dos demais, o que denota uma heterogeneidade de definições e, assim, uma total ausência de rigor científico. Quaisquer concepções subjetivas oriundas do potencial de abstração do homem (dentre elas o próprio conceito de raça), apenas com muito cuidado deveriam, segundo o escritor, recair sobre o mundo dos objetos.

Partindo de tal observação, o autor afirma não serem legítimas quaisquer incursões científicas que impliquem a definição de uma escala de valores entre os homens. O ódio inexplicado dos americanos pelos negros, por exemplo; dos turcos pelos armênios e de certos russos pelos judeus não poderia apoiar-se, senão indevidamente, na ciência.69 Ao conceber o homem indistintamente, a partir de sua unicidade, Barreto distancia-se inteiramente das expectativas de purificação racial concentradas em torno da prática esportiva. Longe de identificar no esporte a possibilidade de progresso social, o autor atribui a ele um potencial degenerativo e propagador do preconceito.

A tal perspectiva, segundo ele – que legitima um discurso de valorização do “estrangeiro” em detrimento do “nacional” – traria, portanto, “no seu bojo ofensa a uma fração muito importante, quase a metade, da população do Brasil”,70 o que o levaria a elaborar o elemento central de sua crítica ao futebol. Segundo o autor, o papel de tal esporte seria unicamente o de gerar dissensões no seio da vida nacional. Para corroborar sua tese, Barreto ressalta o acirramento do espírito de rivalidade entre os diversos competidores, sejam eles bairros, cidades ou países. Ao cultivar o amor à luta e à competição, o esporte dividiria os homens e os povos, tecendo animosidades entre eles. Além de destacar as distorções morais que lhe seriam inerentes, o autor enfatiza a mediocridade intelectual que caracterizaria os jogadores de futebol. Ao afastar-se do princípio do mens sana in corpore sano, Barreto estabelece mais um ponto crucial de distanciamento de Coelho Neto e dos demais adeptos de suas teorias. Ao invés de representar benefícios intelectuais, o futebol seria, por fim, um entrave ao aprimoramento mental de seus praticantes.

À parte essas questões de fundo, tão bem sintetizadas na análise da professora Heloísa Buarque de Hollanda, essa polêmica inicial sobre o futebol envolvendo Coelho Neto, um escritor até certo ponto conservador em matéria de estética e de costumes, e Lima Barreto, um literato ativista e engajado em causas de fundo político-social, já traz em si elementos que antecipam uma discussão bem mais ampla que vai se desenrolar posteriormente, em termos intelectuais, no movimento modernista brasileiro, iniciado com a Semana de Arte Moderna de

69 Tal comentário encontra-se na crônica “Considerações Oportunas”, publicada no volume Feiras e Mafuás. Cf. BARRETO, Lima. Feiras e Mafuás. São Paulo: Editora Brasiliense, 1956, p. 192.

70 Já este outro comentário encontra-se na crônica “Bendito Foot-ball”, publicada também no mesmo volume. Cf. BARRETO, Lima. Feiras e Mafuás. São Paulo: Editora Brasiliense, 1956, p. 95.

1922, em São Paulo, e não apenas por causa da proximidade cronológica desses fatos de suma importância para a reelaboração posterior da cultura brasileira. Essa, como se sabe, se renova e se reestrutura em bases paradigmáticas completamente diferentes da sua fase anterior com o advento do modernismo, e isso se dá porque ali, naquele momento anterior, o elemento popular, arcaico e primitivo da sua formação se não era rechaçado em sua importância e potencial formador e estruturante, era, no mínimo, negligenciado ante as posturas idealizadas da fase do Romantismo; forçadamente mimetizadas pelo período do Naturalismo e ideologicamente matizadas sob o fundo do nosso Realismo literário.

Este é o caso, por exemplo, da nossa música popular, que mesmo tendo sido motivo de preocupação intelectual por parte dos escritores do Romantismo, dentro da pretensão inicial do movimento romântico em valorizar os aspectos ligados à terra brasileira, (corolário do ideal de resgate dos bens culturais que representariam os primeiros traços fundadores da nação), só vai ter a sua eleição como símbolo nacional propriamente dito num processo que apenas se consolida ao longo e ao cabo das cinco primeiras década do século XX. Este é o caso também do futebol, que guarda com a nossa música popular certo paralelo nesse sentido, tendo o processo de sua constituição também como símbolo nacional acontecido em momentos distintos da história cultural brasileira.