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Modeling of different failure modes

CHAPTER 4: NUMERICAL SIMULATION OF AN ICE SHEET BENDING

4.3. Modeling of different failure modes

Como o próprio nome prenuncia, Mário Rodrigues Filho era o primogênito de uma família de jornalistas chefiada por um publicista pernambucano que, após ter trabalhado no Jornal do Recife e fundado o seu próprio periódico, o Jornal da República, ainda na capital de Pernambuco, resolve mudar-se para o Rio de Janeiro e lá continuar a aventura jornalística da família criando mais dois jornais: A Manhã, no ano de 1925, e posteriormente, Crítica, por volta de 1928. Foi nos jornais do seu pai, Mário Rodrigues, portanto, que Mário Filho iniciou sua trajetória na imprensa esportiva brasileira. Isso se deu quando com apenas 17 anos assumiu o cargo de diretor-tesoureiro de A Manhã e, em seguida, um ano mais tarde, a página literária do mesmo jornal, que ostentava o sugestivo título de “Espírito Moderno”. Arvorando-se precocemente um escritor, foi neste espaço que Mário Filho iniciou uma experiência de ficcionista ao publicar, em forma de fragmentos, seus dois primeiros romances, Bonecas (1927) e Senhorita 1950 (1928), posteriormente renegados pelo próprio jornalista, junto com a veleidade de se tornar um autor de literatura de ficção. Sua obra posterior, bem mais sólida, escrita num registro de fronteira entre o jornalístico, o historiográfico, o sociológico e o literário, reúne os seguintes títulos: os livros jornalístico-historiográficos, Copa Rio Branco, 32 (1943) e Histórias do Flamengo (1945); os ensaios memoriográficos de cunho sociológico, O negro no futebol brasileiro (1947) e Romance do futebol (1949); os volumes de analise jornalística e biográfica, Copa do Mundo, 62 (1962) e Viagem em torno de Pelé (1963); os romances, O rosto (1965), A espanhola e O Crime – estes dois últimos inacabados –, e a biografia, Infância de Portinari (1966) (SILVA, 2006, p. 163-201).

Provavelmente por ter percebido que a literatura de imaginação não fosse o seu forte, em 1927 Mário Filho abandona a página literária de A Manhã e vai dirigir a sessão de esportes do jornal, onde, entretanto, não poderia ainda desenvolver o estilo editorial que suplantaria as formas antigas da cobertura dos assuntos esportivos no Brasil. Só no ano seguinte, 1928, é que já à frente também da sessão de esportes do novo jornal do seu pai, Crítica, o jornalista concebe este espaço como um laboratório para desenvolver suas primeiras experiências com a linguagem que se estabeleceria como uma verdadeira modernização da imprensa desse ramo no nosso País. A trajetória desse processo, contudo, em que algumas precondições técnicas, econômicas e políticas lhe foram sucessivamente dadas e negadas quase que simultaneamente, não foi percorrida de forma fácil. A começar pela existência breve do seu “laboratório de pesquisa da linguagem esportiva”, o periódico Crítica, que com

as turbulências da Revolução de 1930 teve a sua redação invadida, depredada e posteriormente fechada.

Mergulhados em grave crise financeira a partir de então, os filhos de Mário Rodrigues – todos jornalistas; notadamente, o próprio Mário Filho, a quem coube a responsabilidade do sustento da família com a morte do pai, em 1930 – tiveram, na seqüência do episódio, sérias dificuldades para retomar o trabalho. Após certo tempo fora do jornalismo, portanto, só em 1931 é que Mario Filho é contratado para trabalhar no jornal O Globo, periódico comandado pelo jovem jornalista Roberto Marinho, seu amigo de papo e de rotineira mesa de sinuca. Começava aí, durante os meses que se seguiriam, através agora das páginas desse outro periódico, uma verdadeira batalha entre o velho e o novo no que concerne às formas de abordagem jornalística do tema do futebol. O pano de fundo desse processo será aqui rapidamente sintetizado, apenas para que se possa compreender adequadamente o alcance geral dos seus desdobramentos futuros.

Dizíamos um pouco atrás, quando nos referíamos às polêmicas envolvendo os escritores Coelho Neto e Lima Barreto em torno do futebol, que vários aspectos daquela controvérsia pública antecipavam uma discussão mais ampla que iria desembocar de vez nos imbróglios doutrinários e temáticos do movimento modernista brasileiro, desencadeado com a realização da Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo, cujo resultado posterior foi a remodelação paradigmática de toda a plataforma conceitual de que se alimentaria a cultura brasileira no seu sentido mais geral. Pois a atuação do jornalista Mário Filho, no campo da imprensa esportiva brasileira, no período que analisaremos agora, se insere no âmbito desse processo de redefinição de rumos da vida nacional, que se daria mais fortemente sob o empuxe dos acontecimentos da revolução de 1930.

É neste contexto, por assim dizer, no calor dos acontecimentos que culminaram com o empastelamento do jornal do seu pai, Crítica, ocorrido justamente neste ano, que a carreira do jornalista Mário Filho; os processos de popularização do futebol; o desenvolvimento da imprensa esportiva nacional e a história política e cultural da sociedade brasileira se cruzariam de um modo paradoxal, na observação do pesquisador de sua obra jornalística, Marcelino Rodrigues da Silva a quem já nos referimos e a quem voltaremos mais à frente.76 Por enquanto assinalemos, no contexto, que o panorama geral da política brasileira

76 O professor e pesquisador da área de Teoria da Literatura da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais, Marcelino Rodrigues da Silva, tem produzido estudos importantes sobre a temática do futebol no Brasil, analisando-o como um fenômeno típico da moderna cultura brasileira, em conformidade com o escopo de abordagem com que tratamos o tema nesse nosso trabalho. Nesse contexto das pesquisas brasileiras sobre o tema, destaco do autor – justamente por suas afinidades diretas com esse nosso estudo – os trabalhos:

apresentava, naquele período, os momentos finais da República-café-com-leite, com o aparato político-institucional que a sustentava começando a ruir, processo impulsionado pelos seus próprios costumes e desmandos, tais como sucessivos anos de eleições fraudulentas, abusos administrativos autofágicos, períodos de instabilidade econômica causados, sobretudo, pela manipulação do preço do café, e gerenciamento temeroso da política monetária nacional, entre outros.

Some-se a esse quadro aquele surto de industrialização e urbanização a que nos reportamos antes e que, transplantado para o Brasil, crescentemente tomava conta dos grandes centros de poder do país: as grandes capitais. Esse processo trazia aos núcleos de decisão administrativa, novos atores sociais relevantes: as classes médias e populares, transformadas agora em imensas e heterogêneas massas urbanas, aptas a adquirirem força na nova vida brasileira, e, portanto, prontas para “criarem problemas” aos governantes na forma do exercício não ordenado da cidadania inconclusa, no âmbito da vida econômica e social da nação.

Despreparadas para lidar com esse novo quadro da paisagem sócio-econômica e cultural do país, por causa de suas concepções e atitudes políticas defasadas quanto à realidade, as oligarquias regionais que sustentavam a hegemonia do poder político brasileiro, através das mãos da aristocracia cafeeira de São Paulo, entram em conflitos internos e abrem uma crise que força, por parte do alto poder dirigente, a tomada de medidas desestabilizadoras da ordem social. A repressão política, as sucessivas decretações de estado de sítio, a emergência da Lei de Imprensa de 1922, o surgimento do movimento tenentista, os levantes militares de 1922 e 1924, a fundação do Partido Comunista e a coluna Prestes, entre outros, acenderam, então, os sinais de alerta para um estado de ebulição social que a Revolução de 1930 viria consolidar, abrindo novos horizontes para a vida nacional.

Justamente por causa da emergência dessas grandes massas urbanas nas principais cidades do país, assistia-se, paralelamente, no âmbito cultural, a um vertiginoso crescimento da indústria do lazer e do espetáculo, processo facilitado pela importação de aparatos O mundo do futebol nas crônicas de Nelson Rodrigues, produto de sua dissertação de mestrado cujo objetivo era discutir os processos de produção de sentido através dos quais, tendo como base a análise das crônicas do autor citado no título, o imaginário futebolístico brasileiro foi construído, e Mil e uma noites de futebol; o Brasil moderno de Mário Filho, em que se debruçou sobre o discurso do jornalismo esportivo brasileiro na primeira metade do século XX – particularmente a imprensa carioca e, dentro dela, o trabalho do jornalista Mário Filho no jornal O Globo. Nessa sua obra, o pesquisador analisa o discurso do jornalismo esportivo tentando vê-lo como campo de disputa pela atribuição de sentidos ao jogo de futebol e busca captar sua complexidade como narrativa de construção e modernização da nação brasileira, enfoque que aproveitamos para basear nossa fundamentação desta parte do percurso do tema do futebol na sua transição do âmbito jornalístico para o campo tipicamente literário. A bibliografia pertinente deste autor está listada nas referências bibliográficas ao fim deste trabalho.

tecnológicos atualizados e novos hábitos incorporados pela modernização do paradigma da vida social brasileira. A inserção do rádio, nesse contexto, como novo e poderoso veículo de comunicação de massa; a paralela disseminação do cinema somada ao desenvolvimento da indústria fonográfica, junto com a conseqüente valorização de estilos musicais bem ao gosto do povo, como a modinha, o maxixe, o choro e o samba, foram elementos que contribuíram para o desenvolvimento cada vez maior de um correlato mercado cultural que já dava sinais de vida pulsante desde a década anterior aos acontecimentos do ano de 1930.

Já demonstramos também por essa época, no universo da dita “alta cultura”, a virada de modelo na ação cultural, ocorrida a partir do advento da Semana de Arte Moderna de 1922 e do conseqüente movimento Modernista, que marcaram o rompimento da nossa classe intelectual com as tradições elitistas e europeizadas da fase anterior. O mote agora passava a ser a construção de um panorama cultural, no Brasil, que possibilitasse a construção de uma identidade nacional a partir das raízes genuínas da nossa formação social. Isso implicaria o abandono dos formalismos e academicismos transplantados da vida européia e a focalização mais direta nas raízes locais de uma expressão nacional que tinha como fonte inspiradora o nosso folclore, as práticas culturais dos nossos indígenas e as ancestrais contribuições das interações afro-brasileiras, num cadinho de efetivação que reconhecia tanto o litoral como o interior do Brasil.

Estava em pleno curso, portanto, por esse período da vida nacional, um processo de reorganização de valores que implicava justamente a diluição das fronteiras entre a “alta” e a “baixa” cultura, baseado nas intensificações dos contatos e trocas entre essas duas esferas. No âmbito esportivo dessa paisagem cultural, por conseqüência, o decênio de 1920 apresentou o mesmo ambiente efervescente e re-estruturador. Como decorrência do processo de popularização do futebol que estava em plena marcha no Brasil e que já atraía interesses econômicos os mais diversos, o Vasco da Gama, do Rio de Janeiro, inaugurou, em 1927, aquela que seria então a maior praça de esportes do país, o estádio de São Januário, que contava com uma capacidade para 40.000 pessoas. A capacidade de acolhimento para assistência tão numerosa era por si só o signo de um momento em que o futebol já reunia multidões no Brasil e em que as pressões para a vitória dos clubes sobre seus rivais já tinham de há muito substituído o espírito amador da fase anterior deste esporte. Tais pressões pelo bom desempenho dos times chegavam agora a tal ponto que os clubes mais elitizados começaram a desejar o concurso, nos seus quadros, dos vários craques que surgiam das peladas dos campos de várzea espalhados pelas cidades ou até mesmo a cobiçar os melhores atletas dos clubes suburbanos para que eles mudassem de lado.

Esse processo teve o seu momento crítico, segundo a maioria dos historiadores do futebol – entre eles o próprio jornalista Mário Filho –, lá pelos fins do ano de 1923, quando o Vasco da Gama ganhou o campeonato carioca com aquele time composto por atletas oriundos das classes populares, a que já aludimos no início deste trabalho, desencadeando um movimento de reação, por parte dos clubes de elite, que culminou com a fundação da Associação Metropolitana de Esportes Amadores, a AMEA, entidade que endureceu as regras amadorísticas do esporte e criou sérias restrições à entrada, nas suas competições, de clubes que incluíssem em seus quadros atletas que por quaisquer meios, recebessem vantagens para jogar. A idéia reativa da entidade era barrar a existência, já naquele momento do desenvolvimento do futebol no país, do chamado “profissionalismo mascarado”, expediente através do qual os melhores jogadores (reconhecidamente, os de origem negra, mulata ou oriundos das classes populares) já “vendiam” veladamente a sua força de trabalho, prática que culminaria mais à frente com o inevitável profissionalismo formal que conhecemos hoje e para o qual Mário Filho contribuiria de forma decisiva com a sua atuação de jornalista esportivo moderno, conforme veremos agora.

Neste contexto – o da substituição, no futebol, do regime amador antigo (elitista) pelo regime profissional moderno (popular) –, o pesquisador Marcelino Rodrigues da Silva (agora voltando a ele), é também da opinião de que esse é um momento extremamente interessante da trajetória da imprensa brasileira, principalmente pelas conseqüências que implicarão a própria história da interpretação desse jogo no Brasil.

Além de registrar a convivência e a disputa entre [ ] duas maneiras de noticiar e interpretar os acontecimentos esportivos, ele marca o início da longa passagem de Mário Filho por esse jornal [O Globo], quando suas iniciativas inovadoras deslancham e ganham maior consistência. É a virada de jogo, o episódio decisivo em que a hegemonia da interpretação elitista do futebol, é posta em xeque por um novo discurso sobre o esporte (SILVA, 2006, p. 98).

Vejamos, pois, como operava simbolicamente – antes de Mário Filho –, e como passou a operar agora, depois de suas intervenções remodeladoras, o discurso social sobre o futebol no jornalismo brasileiro.

No que tange à imprensa esportiva, o que se tinha até então era a prática já cansativa de um modelo de discurso apegado ainda às formas de escrita canonizadas pelo nosso parnasianismo literário, baseado no beletrismo ostentatório e bacharelesco das elites culturais que insistiam em edulcorar a realidade com as letras e os fonemas de um olhar monolítico e auto-centrado, bem à imagem e semelhança das suas próprias formas de convivência no ambiente social. Em termos textuais, no que diz respeito à cobertura pela

imprensa dos jogos de futebol, esse modelo – já demonstrado lá atrás através das matérias do jornalista Mário Sérgio Cardim, para citar apenas um exemplo dentre outros –, não havia sofrido modificações significativas, apesar do maior espaço franqueado agora ao tema do futebol nas páginas dos periódicos cariocas e paulistas.

No geral, o modelo ainda se estruturava da seguinte maneira:

O texto geralmente começa com alguns comentários, em que o cronista apresenta sua visão geral do evento e suas opiniões pessoais sobre ele. Após esses comentários iniciais, passa-se à escalação dos teams e à narração da partida e, por fim, adicionam-se pequenas notas que retomam e concluem os temas tratados anteriormente ou acrescentam informações sobre outros assuntos relacionados ao jogo (SILVA, 2006, p. 44).

Ou seja: no que se refere objetivamente à descrição do jogo em si, o que ainda imperava era a visão particular do cronista, exposta sob a forma de comentário em que o argumento de autoridade – de quem presumivelmente conhece a fundo a matéria – apontava não para um diálogo social sobre o tema, mas, sobretudo, delineava – sob a capa oculta da representatividade lingüística do texto autoral, costumeiramente não assinado –, uma visão ético-moral do evento, o que ainda (pelo menos até por volta do final da década de 1920) reafirmava o caráter elitista do jogo de futebol, um passatempo através do qual seus praticantes – e seus assistentes – ostentavam simbolicamente seus costumes culturais e seus valores de classe. Tanto era assim que para preencher essa estrutura textual, os cronistas lançavam mão, sempre que podiam, de uma distinção –, muitas vezes expressas em marcas textuais muito claras – entre o que eles mesmos definiam como os “aspectos técnicos” do jogo e os “aspectos sociais” do acontecimento esportivo.

Correlatamente, no que se refere à visão que se tinha do jogo de futebol em si, vejam-se, definidas em três palavras, na síntese escolhida por Marcelino Rodrigues, como um cronista define, no ano de 1917, as qualidades que, conforme a opinião geral, traduziam um bom time de futebol à época: “Ordem, animação e trabalho contínuo”. A isso o pesquisador acrescentará os atributos da racionalidade e da coletividade que, ainda sob a opinião da época, deveriam estar sempre acima da intuição e do valor individual na prática do futebol. Isso nada mais é, em termos práticos, do que uma clara afirmação dos valores éticos sobre os valores estéticos do esporte, valores esses que, já mostramos, só mais tarde seriam muito mais ressaltados, no contexto da “virada de jogo” do nosso modernismo literário, fato que transplantada para o campo do jornalismo esportivo, só viria acontecer sob o influxo da abordagem também modernista implantada nesse campo por Mário Filho sob cuja formulação o jogo de futebol passaria a ser reinterpretado no Brasil.

Eram habituais os elogios ao jogo coletivo e às trocas de passes, assim como as críticas ao individualismo e ao excesso de dribblings, as equipes vitoriosas eram qualificadas como ‘homogêneas’ e de ‘adestrado conjunto’, dizia-se que faltou treino aos perdedores, valorizava-se a defesa em detrimento do ataque e até mesmo os escores elevados eram tidos como prova de que a partida não teve boa qualidade técnica (SILVA, 2006, p. 46-47).

Observa Marcelino Rodrigues, preanunciando, nas entrelinhas do seu texto, as profundas modificações que estariam por vir no âmago deste esporte.

Mário Filho irá, pois, reordenar esse panorama, como se verá. E não só quanto aos novos sentidos que o futebol incorporará na sua nova formatação como fenômeno social de caráter esportivo e espetáculo de massa ao mesmo tempo; mas, sobretudo, quanto ao novo discurso social em que ele implicará após as inovações por que passará sob o cometimento profissional desse jornalista.

Uma vez que as interveniências modernizantes no discurso do futebol empreendidas pelo jornalista Mário Filho se darão preponderantemente no campo do jornalismo, notadamente na sua especialidade do âmbito esportivo, é importante tecermos aqui algumas considerações sobre a especificidade da linguagem jornalística, já que foi – e é por meio dela – que o fenômeno do futebol opera simbolicamente como discurso pragmático através do qual os atores sociais e suas intervenções no amplo espectro do mundo da cultura ganham o espaço público. Portanto, assim como procedemos com a linguagem literária, tentando delimitar seus contornos quanto a um possível entendimento do seu campo nos seus sentidos amplo e restrito, igualmente procuraremos delimitar o jornalismo na sua abrangência conceitual compreendendo esses dois âmbitos.

Assim, reconhecida a especificidade da literatura em sentido amplo como um supra-discurso de caráter globalizante e integrador de outras linguagens, embora que auto- referenciado, apliquemos a mesma metodologia operacional em relação ao jornalismo, na tentativa de caracterizar-lhe a constituição estrutural de sua poética própria porque já é relativamente consensual a existência de uma linguagem especificamente jornalística cuja fisionomia discursiva está satisfatoriamente definida em termos teóricos.

Tal como a literatura, portanto, o discurso jornalístico tem passado por vários tipos de abordagens conceituais ao longo do tempo. Porém, esta revisão histórica do fenômeno não nos interessa aqui diretamente por causa dos objetivos do nosso trabalho. Interessa sim, por oportuno, irmos ao ponto da questão em que é necessário que se estabeleça uma distinção operacional entre o jornalismo em sentido estrito (aquele que tem na notícia a sua unidade básica de informação: o jornalismo informativo, na categorização do teórico José

Marques de Melo)77 e o jornalismo em sentido amplo, aquele que compreende já o

aprofundamento da notícia, desdobrando-se em vários outros gêneros tais como a grande- reportagem, o romance-reportagem e o livro-reportagem, por exemplo, em que o ato de narrar, nas suas mais diferentes modalidades – superando em complexidade e eficácia a mera ação de relatar 78 – está incorporado substancialmente à sua linguagem.

Nessa direção, cumpre já assinalar que a linguagem jornalística tem uma finalidade (uma função) específica: a comunicação informativa, marcada por uma enunciação que lhe é característica, associada a um meio técnico que lhe serve de suporte, a imprensa. Portanto, a atividade jornalística está assentada sobre três pilares básicos: as tecnologias, as