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9. CONCLUSION AND RECOMMENDATION

9.2 Recommendation

Data de assinatura do TCLE: 21 de setembro de 2011

Local da entrevista: Ceilândia-DF Tempo de gravação: 1hora19min.

--- Entrevistadora: Para começar nossa entrevista, eu gostaria que o sr. me falasse seu nome e sua idade.

Ari: Meu nome é Ari Luis da Silva. A idade é... 60...

70... 76 anos. Entrevistadora: Onde foi que o sr. nasceu?

Ari: Em São Pedro da Ponte Firme, lá em Minas. Entrevistadora: Perto de Lagamar?

Ari: Sim, perto de Lagamar.

Entrevistadora: O sr. é o filho mais velho do Manoel Moises. O que o sr. pode me falar sobre a vida dele e a sua conversão? O que o sr. lembra disso?

Ari: Eu era pequeno. Eles frequentava em Lagamar e ficava distante. Era poucos domingos que eu podia ir. Então não tenho muita lembrança, como é que foi a conversão deles.

Entrevistadora: O sr. lembra, lá em Lagamar, alguém falar do José Américo?

Ari: Demais, tem até um irmão dele que mora aí na Samambaia. Entrevistadora: O seu pai, o Manoel Moises, teve alguma relação com a fundação da igreja de Lagamar? O sr. lembra de alguma coisa sobre isso?

Ari: Eu... Eu acho que o meu pai ficou crente com os cabeça de lá. O José Américo e outros. E... e depois foi minha mãe, aí que eu peguei ir tamém... mais eu era pequeno. Tenho pouca lembrança.

&&&

Entrevistadora: Por que ele saiu de Lagamar e foi lá para Cabeceira Grande? O sr. sabe o motivo?

Ari: Sei, o motivo é que ele ***. Ele sempre pedia *** pedia a Deus pra dar um lugar pra ele pregar ***. Aí o lugar indicado foi esse lá. Ninguém conhecia o evangelho. A primeira fazenda que nóis fomo morá chamava Fazenda da Bolívia.

Entrevistadora: Mas antes dele ir para a Fazenda Bolívia alguém indicou para ele ir lá para Cabeceira? Por que lá em Lagamar tinha uma missão presbiteriana, a Missão Oeste do Brasil. O sr. tem lembrança?

Ari: Não.

Imagem 11 – Ari Luiz da Silva Arquivo pessoal

Eu marquei a data e o local da entrevista por telefone com Maria Cezária, filha de Manoel Moises. A entrevista foi realizada na casa de seu irmão, Ari Luiz da Silva, diante de suas

dificuldades de

locomoção e seu estado de saúde. O sr. Ari ficou muito

emocionado, mas estava feliz em falar de seu pai. No dia e horário

marcados, a entrevista inicialmente começou somente com o sr. Ari. Depois de um tempo, a sra. Maria chegou. Ela contribuiu com o depoimento do Ari e a sua fala também foi registrada.

Imagem 12 Maria Cezária de

Souza Arquivo pessoal

Entrevistadora: O Revdo. Estevão Sloop? O sr. tem alguma lembrança dele? Ari: O Revdo. Estevão é que comandava nossa congregação.

Entrevistadora: Mas, lá em Lagamar ou em Cabeceira? Ari: Em Cabeceira.

Entrevistadora: O Revdo. Estevão Sloop também pregava lá em Lagamar por um período. O sr. lembra disso? O Manoel Moises já conhecia o Revdo. Estevão lá de Lagamar ou eles se conheceram em Cabeceira Grande?

Ari: Não ...

Entrevistadora: Se eles se conheceram lá em Lagamar ou se conheceram em Cabeceira Grande?

Ari: Eu não me lembro...

Entrevistadora: Então, o sr. lembra do Estevão Sloop somente em Cabeceira, já? Ari: É, o reverendo, né? Andava numa rural.

Entrevistadora: Então, como foi a vinda do Manoel Moises aqui para Cabeceira Grande? Ele veio com a família, certo?

Ari: Sim, nóis viemo num carro de boi. Meu pai sempre pedia a Deus pra enviar *** ele pra um lugar *** pra ele pregá o evangelho. E aí foi indicado por Deus... um lugar que ninguém conhecia o evangelho. A Neves pode dar essa informação. Mais quando é Deus que *** prepara a semente, prepara a terra tamém. Foi muito aceito o evangelho, principalmente pela família Costa que é a família da Neves. Agora primeira fazenda que nós fomo morá foi na Fazenda Bolívia. O gerente não gostô do evangelho não. Chutô ... chutô nóis de lá. Mandó meu pai caçá outro lugar para morar. O gerente disse que esse evangelho estava prejudicando ele. Isso deu uma pisada no calo de meu pai e aí meu pai disse que esse evangelho não era dele. Aí meu pai (disse): “Era de Jesus *** e que só ia pro céu *** quem entrasse por ele”. Aí foi que ele mandô nóis desocupá a fazenda. Aí que nós achemo esse pessoal Costa, que era o Juca Costa (José da Costa Vale), pai da Neves. Tinha o Antônio Costa que morava do outro lado da fazenda dele [...]. Outro pessoal também, a Dona Bela também, que era irmã deles. E aí o evangelho achou uma margem certa. ***

Entrevistadora: Quando o Manoel Moises chegou de Lagamar, além de pregador do evangelho ele era lavrador. Em Lagamar era esse o trabalho dele? Sempre lavrador?

Ari: Sim, sempre lavrador.

Entrevistadora: Ele vai para a fazenda do Antonio da Costa Vale e vai trabalhar como agregado?

Ari: Não, ele vai para a fazenda do pai da Neves.

Entrevistadora: Sei. Ele foi trabalhar lá como agregado. O sr. lembra disso? Ari: Sim, eu lembro.

Entrevistadora: Como era o trabalho dele como agregado e pregação do evangelho? Como ele conciliava as duas coisas, o trabalho e a pregação do evangelho? O que o sr. lembra disso? Ari: O Antonio Costa tinha duas fazendas. Uma ficava na Chapada e a outra lá no Vão, que a cultura lá é boa. Minha mãe num gostava de morá lá não, porque a água era saloba (rsrs). Entrevistadora: (rsrs). Ninguém gosta.

Ari: É (rsrs). Nóis morava cá na Chapada e tocava roça lá na outra fazenda que era da France, esposa do Antonio Costa. E ...

Entrevistadora: O Antonio Costa já era proprietário da terra?

Ari: Já ... a esposa dele herdou dos pais. Não, a que era dela é a outra. Era a lá do Vão. Entrevistadora: Mas eles já eram proprietários?

Ari: Era proprietários... que herdou essa terra, se não me engano dos pais, que lá os irmão era tudo reunido.

Entrevistadora: E como o Manoel Moises conciliava o trabalho e a pregação do evangelho? Como ele fazia?

Ari: A pregação era o seguinte. Era todo domingo. Entrevistadora: Isso nas fazendas ainda?

Ari: É ... nas fazendas.

Entrevistadora: A data que ele chegou lá em Cabeceira foi 1947, foi isso mesmo? Ari: Foi isso mesmo. No mês de julho.

Entrevistadora: Mês de julho de 1947. Aí ele vai trabalhar como agregado na Fazenda do Antonio da Costa Vale.

Ari: O primeiro ano foi na Fazenda da Bolívia, mas aí o gerente da fazenda não gostô do evangelho, aí mandô nóis saí de lá. Ele chamô meu pai, mandô recado pra meu pai ir lá ter uma conversa com ele. Eu era muito desconfiado, meu pai mexendo com todo mundo no bom assunto e metia cálculo como que não gostava também... E aí o gerente mandô recado pra ele ir lá, o nome do gerente era Osório Coimbra, que queira uma conversa com ele... Devido ele ter ficado muito suspeito naquele lugar, todo lugar que ele ia, eu ia junto. Aí, ele contô a história de que meu pai era muito trabalhadô, uma pessoa muito boa, mas o evangelho não dava pra ele, que aquele evangelho não dava certo com ele. Aí o meu pai falô que o evangelho não era dele, era de Jesus, que só ia pro céu quem entrasse por ele e aí cabô de pisá no calo dele (rsrs). E aí era pra nóis saí de lá e quando saísse crente não era pra cortá nem uma varinha de batê em carrapato. Varinha de batê carrapato talvez cê não sabe o que é, é uma varinha assim, mais fina que os dedo. Lá no interior quando a calça fica cheia de carrapato, afrouxa ela ali e bate com a varinha e eles cai (rsrs). Nenhuma daquela crente podia pegar pra tirar carrapato (rsrs) lá na fazenda que ele comandava.

Entrevistadora: (rsrs). Que absurdo! (rsrs)

Ari: (rsrs). Aí meu pai falou: “não tem importância não. O mundo é grande e eu vou achar um lugar prá morá”. O primeiro que ele falô foi com o Juca Costa, e eu fui mais ele, porque eu não confiava.

Entrevistadora: Ninguém era crente ainda? Ari: Ninguém... Ninguém conhecia.

Entrevistadora: Ninguém tinha ouvido falar do evangelho ainda, certo? O Manoel Moises foi o pioneiro?

Ari: É... Ele foi o pioneiro. E a única pessoa que tinha um versículo, um folheto e que mandô pra mim foi a Neves. Aquele versículo que fala “Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu filho unigênito *** para que todo aquele que crê, tenha a vida eterna” ***. E aí começô, que quando meu pai contô que tava sendo expulso lá da Fazenda Bolívia, ele disse que ia lá na

fazenda do Juca e eu fui junto. E aí ele contô pro Sô Juca e o Sô Juca falô que nóis tinha muito lugar pra morá e aí indicô o irmão dele que tinha fazenda cá em cima na chapada e tinha lá no Vão, cultura boa pra tocá roça. Aí nóis fomo lá e ficô tudo certim.

Entrevistadora: Como é que era o trabalho dele lá?

Ari: Era só os cultos ao meio-dia, aos domingo. E depois que firmô na casa do Lé, lá em Cabeceira Grande era assim, se ninguém pedisse o culto na cada deles, continuava lá mesmo. Agora, se alguém pedisse já ficava o anúncio que no próximo domingo era na casa daquele irmão que pediu.

Entrevistadora: A parte da religião todo mundo fala. Eu gostaria que o sr. me dissesse como era o trabalho dele como lavrador. Como foi tudo isso lá?

Ari: Nós tocava roça, distante três léguas de lá. Entrevistadora: O sr. ia pra roça com ele? Ari: Ia com ele.

Entrevistadora: Na época, o sr. tinha quantos anos?

Ari: Era 12 anos que nos fomo pra lá... E com um espaço de tempo eu já tinha uns 13. E trabalhava na semana até sábado de tarde.

(Neste momento, a Maria entra no quarto e cumprimenta o Ari e eu. Eu explico que já estava gravando a entrevista e ela pede desculpas pela demora. Logo em seguida, ela sai do quarto).

Ari: Póis é, aí nóis ia segunda cedim, e passava a semana na roça trabalhando. Quando era sábado, nóis trabalhava até meio-dia e ia embora pra casa pra domingo ir dirigí o culto.

Entrevistadora: Na roça, eu sempre escuto o pessoal falar que pede a Deus pra abençoar a plantação. Ele fazia isso? Ele tinha esses costumes? O sr. lembra disso?

Ari: É, ele orava, pedia pelas roça, pelas *** as criação.

Entrevistadora: Como lavrador, o Manoel Moises, devia conhecer muito as plantações, o tempo certo de plantar, de colher. O que o sr. lembra em relação a isso? Que roça ele plantava?

Ari: Era milho, arroz, feijão. Teve um ano, se eu não me esqueço foi o ano 1950, nós já tava tirando madeira pra fazê a igreja e a casa pastoral (na Fazenda Centro). Ainda não tinha chuvido, aí o Juca Costa (José da Costa Vale), que era o pai da Neves falô: “É Sô Manoel, por esse ano nóis não vai plantá roça, não. Hoje já é o dia de Natal e continua limpo que nem nuvem não tem”. Nois tinha ido derrubar umas madeira na fazenda dele, arrancá uma madeira. Eles tinha uma serraria. Nós já tinha derrubado umas madeira e ele disse: “É Sô Manoel, esse ano nóis num planta roça. Hoje é o dia mais chuvoso do ano. Não tem nenhum nuvem. . *** Eu lembro direitim o tempo de lá. Aí meu pais falô: “ela vai chover, ela vai chover, nem que seja atrasado”. Quando nóis andô a metade da distância, armô uma nuvem do lado de cá, do lado do açude e aí foi fechando e nóis chegô lá na fazenda já com a água no meio da canela, na enxurrada e aí foi chuva. Sim, o primeiro culto que nóis saímo pra dirigir, foi o mais sofrido. Nois saimo de casa, lugar pobre igual aquele eu nunca tinha visto. E a gente chegou pobre também.

Entrevistadora: O sr. está falando quando saiu de Lagamar e veio pra cá?

Ari: É, pra Fazenda Bolívia. A distância que nois andemo pra dirigir o primeiro culto (na região de Cabeceira Grande), eu me lembro até os hinos. Tem um hino... você é evangélica?

Entrevistadora: Sim.

Ari: “Oh, quão cego eu andei”, lá eles já chamam o hino do Manoel Moises (rsrs). Entrevistadora: (rsrs)

Ari: (rsrs). Foi o primeiro que cantou lá.

Entrevistadora: E ele aprendeu todos esses hinos, na comunidade presbiteriana, lá em Lagamar?

Ari: Foi... Aí nóis fomo lá para Retiro dos Porcos que é a primeira vereda que cai na lagoa e fomo a pé sem por nem água na boca. Lá pertim de Cabeceiras de Goiás e dirigimo o culto. Entrevistadora: E como era o culto quando ele pregava? Fale-me um pouco sobre isso. Tinha os hinos, a pregação.

Ari: E tinha mais um detalhe. Eu falava: “pai vamo prepará a lição em casa”. Ele (dizia): “não, a lição nóis prepara é lá”. E também ele não aceitava abrir a *** Bíblia sem levantar. Tinha que ser em pé.

Entrevistadora: Na hora de ler a Bíblia, ele sempre pedia para se levantar?

Ari: Eu já sabia que do início ele já pôs o regulamento. Pra abrir a Bíblia tinha que ser de pé. Entrevistadora: Antes de começar o culto ele dava essas regras?

Ari: Não, ele só falava: “vamo começá o culto e vamo cantá o hino tal”. Aí cantava os hino. Entrevistadora: Na hora de ler a Bíblia, ele pedia pra ficar de pé. E era só o sr. que lia? Ari: Era. Só eu da nossa turma sabia ler.

Entrevistadora: O sr. aprendeu a ler na escola presbiteriana em Lagamar?

Ari: É, a escola era nas fazendas. Na fazenda do José Américo, mas era pago. Ele (Manoel Moises) vendeu um mucado de coisa pra me sustentar na casa dos outro e pagá professor. Aí ...

Entrevistadora: Nessa época, o sr. lembra da missão lá em Lagamar? A Missão Oeste do Brasil quando o sr. aprendeu a ler?

Ari: Eu tenho pouca lembrança, porque tem muito tempo. Entrevistadora: Mas o sr. lembra dessa missão lá em Lagamar? Ari: Lembro sim.

Entrevistadora: Nos cultos lá na região de Cabeceira, o sr. sempre lia a Bíblia, certo? Ari: É... Ele já levava a Bíblia.

Entrevistadora: O Manoel Moises indicava para o sr. os textos para serem lidos?

Ari: É ... Eu falava: “pai, vamo prepará a lição em casa, pra chegar lá e não ter o vacilo”. Ele dizia: “não, a lição prepara é lá, na hora”. Aí chegava na hora, ele falava o livro, o capítulo e o versículo. Aí ...

(Nesse momento a Maria entra no quarto e puxa uma cadeira. Fica ali sentada, atrás do Ari e um pouco emocionada).

Ari: Aí, chegava lá ele falava o livro, capítulo e versículo e enquanto eu ia procurar na Bíblia, ele falava o assunto da lição.

Ari: Ele falava o assunto, o tipo da lição. E o medo que eu ficava dele dá um vacilo, pequeno que fosse? Mas, graças a Deus nunca deu um vacilo pequeno que fosse, nunca aconteceu. Entrevistadora: Esses primeiros cultos foram nas fazendas. E o sr. lembra quando os primeiros pastores chegaram?

Ari: É .

Entrevistadora: O sr. Juca foi até Formosa e depois chegaram os primeiros pastores americanos, dentre eles o Alfredo Marien. O sr. lembra disso?

Ari: Lembro e foi verdade.

Entrevistadora: E qual foi a reação deles vendo o trabalho do Manoel Moises lá?

Ari: É... Esse pastor Alfredo Marien parece que foi feito pra mandá nessa viagem. Ele comia lá debaixo dos ranchos de capim com nóis. Dormia nos ranchos. Eu tô falando isso, mas a Neves também pode te contar que eles também dormiam nos rancho cheio de paia de milho. Ele se comportava do mesmo jeito das pessoas, como se fosse acostumado lá. E todo mundo chorô quando ele foi transferido de lá.

Entrevistadora: O sr. lembra quando eles chegaram no avião? O sr. lembra disso? Ari: É... Foi nóis que fizemo a pista. Pro avião da missão.

Maria: Dentro da Fazenda da dona Izabel. Entrevistadora: Lá na Fazenda Centro, certo? Ari: É... Lá de frente da fazenda da dona Izabel. Maria: Dentro da fazenda.

Ari: É... Em frente a casa da fazenda.

Entrevistadora: O sr. lembra qual missão esses pastores pertenciam? Maria: Não era Igreja Presbiteriana do Brasil?

Entrevistadora: Sim, mas qual das missões? Na época, a IPB tinha quatro missões.

Ari: Lembro. Porque no começo, até começô dá uma até uma pequena encrenca porque meu pai, toda vez que a dona Izabel ia pra Paracatu e meu pai achasse oportunidade, mandava eu escrevê uma carta e mandava pra lá.

Entrevistadora: Para Paracatu? Ari: Porque lá pertencia a Paracatu.

Entrevistadora: Aquele campo pertencia a Paracatu? Ari: Isso...

Maria: Não era Unaí, não? Ari: Paracatu.

Entrevistadora: Naquele tempo não tinha a igreja ainda em Unaí. Em Unaí estava começando. Ari: Eu tô achando que da missão não tinha ninguém lá em Unaí.

Entrevistadora: Mas me explica como foi esse conflito? Me conte como foi essa história? Ari: Nós vamo chega lá (rsrs).

Ari: Aí mandaram... Sim, a resposta que eu tava pelejando pra achar é que a resposta deles é que o campo era muito grande. Até onde o campo ia então não dava pra eles tomá conta. O certo é que eles pensô que não tinha resultado.

Entrevistadora: Essa foi a resposta do pessoal lá de Paracatu?

Ari: Que num dava pra eles tomá conta desse trabalho lá, porque o campo deles já era grande demais. Aí a dona Izabel veio em Formosa e meu pai mandô uma carta. Aí foi feito pra o Alfredo Marien. Ele dormia nos colchão de paia igual nóis. Andava a cavalo... Era sopa pra ele. Ele até queria, ele pediu eu e a a Zoete, pra mandá nóis pra estudá. Eu esqueci como que chamava o estudo evangélico. E aí, devido, quando o pessoal de Paracatu viu que o trabalho lá era coisa séria, aí mandô um pastor que chega bem na hora, no dia, que o Alfredo Marien tava lá.

Maria: Desse detalhe eu não lembro, eu era muito criança.

Entrevistadora: O Alfredo Marien estava lá e daí chegaram os pastores de Paracatu. O Sebastião Tillman?

Ari: Aí ele (o Sebastião T.) falô o que ele (Alfredo Marien) tava fazendo lá. Que aquele campo não pertencia a ele. E aí ele disse (Alfredo Marien): “eu fui chamado como se não tivesse ninguém pra tomá conta. Mas sendo de vocêis eu não quero fazer conflito não”.

Entrevistadora: E aí o Alfredo Marien ficou pouco tempo por lá? Ari: Foi...

Entrevistadora: O Alfredo Marien foi o primeiro pastor, certo?

Ari: Sim, aí depois chegou o Sebastião Tillman que era gente muito boa também. Todo esse pessoal que eles prepara pra mandar pra esses lugar, assim, como diz, palavra grosseira, cru, eles sempre preparam.

Entrevistadora: Aí eles foram embora, o Alfredo Marien e os outros americanos. E aí? Ari: Eles foram embora

Entrevistadora: Daí a igreja de Paracatu dava assistência ao pessoal lá de Cabeceira? Maria: Mandou o Clodoveu ...

Ari: Aí tinha de mandá evangelista, professor... A Ana Correa tinha sido noiva dum sobrinho do meu pai... Ela até ficou beata, não quis casar, com paixão ainda. Ela foi a primeira professora lá. Aí tinha que mandar um casal pra tomar conta do campo e a professora. Aí que mandaram o Clodoveu e a esposa. Fizeram um ótimo trabalho também.

Entrevistadora: Como era a relação do Manoel Moises e os pastores americanos? Maria: Ótima.

Ari: Ótima.

Entrevistadora: Quem pregava quando estavam presentes os pastores e Manoel Moises? Quem mais pregava

Ari: Era o seguinte, meu pai entregava o trabalho pra eles. Mas eles mandavam ele fazer a abertura (do culto) e eles fazia a pregação. O pessoal do lugar era tão acostumado com a palavra do meu pai que ele tinha que pregar ao menos um pouco. Era aquela pregação mal falada e tudo (rsrs) é que ele gostava.

Ari: Deus quando prepara a semente, ele já prepara a terra também. Entrevistadora: Com certeza.

Ari: Então, capaz foi a simplicidade dele que todo mundo gostava. Se ele chegasse debaixo de chuva, porque ele andava até cinco léguas a pé pra dirigir o culto. Igual um dia nóis chegamo da roça. Ele ia tomá banho e nóis ia almoçá pra ir. Eu não tava bem de saúde e ele me dispensô, foi só. E já tinha uns vinte dia que ninguém via o sol... era chuva direto. Ele falô: “roupa eu num vô levá, porque vai chegá lá tudo molhado”. Lá não tinha nem roupa suficiente nem nada. Quando nois chegamo minha mãe tava chorando porque não deu conta de enxugar a ropa, num tinha sol. Ele falou: “não, deixa de besteira, que quando eu saí e andá um ou dois quilômetro ninguém vai saber se eu saí enxuto de casa ou molhado”. Ele tomou banho e vestiu a roupa molhada dele.

Maria: Era roupa de algodão cru que mamãe fazia. Ari: Era.

Entrevistadora: Que a sua mãe fazia... Maria: Ela fiava e tecia.

Ari: É. Aí ele foi. Chegou lá, o pessoal deu roupa do fazendeiro pra ele vestir. Depois, pôs a dele pra enxugar e no outro dia era um dia de domingo, aí ele dirigiu o culto e aí ele vestiu as roupa e veio embora. Eu tenho detalhe que eu sei que você ainda não escutô. Nem a Maria acho que não sabe. Nessa viagem quando ele vinha passava rodeando um capão de mato, lá do Galhinho...

Entrevistadora: Lá em Cabeceira?

Ari: É na nossa região mesmo. Galhinho era um olho d’água num campo, coisa mais linda.