A prática musical está ligada a movimentos geradores ou propagadores de determinados gostos como pode ser visto em Bourdieu. Assim a música popular brasileira é resultado de interesses de grupos que queriam de alguma maneira impor sua cultura. Na sua formação a música popular brasileira é influenciada pelos os cantos, danças, rituais dos índios e os batuques dos escravos que eram a base de percussão: tambores, atabaques, tantãs, palmas, apitos, etc., e as cantigas dos europeus colonizadores que tinham origem nos burgos medievais dos séculos XII e XIV.
Segundo Ricardo Cravo Albin (2004), a consolidação da música popular constitui uma criação que é contemporânea ao aparecimento das cidades e é uma musica acompanhada da viola, cantada, dançada como hábitos e prazeres presentes nos tempos do império. Isto corre quando a música deixa os lugares que não eram bem vistos como quartéis, bares e ao escapar das igrejas e da ordem social, ganha as rodas públicas (ALBIN, 2004). Essa população agora, com ingrediente urbano demandavam novas formas de lazer ou de produção cultural. A música foi a nova produção. Assim, gêneros iniciais como lundu, a modinha e o maxixe, passam a fazer parte da expressão musical de uma parcela da população brasileira, enquanto que a música ouvida pelas elites era a opera, as operetas e a música leve de salão. (ALBIN, 2004).
Neste contexto cultural, as pessoas, em especial as pertencentes das camadas baixas executavam e ouviam os estribilhos acompanhados por sons de palmas e violas. A tímida classe média que começou a se formar no Segundo Império ouvia apenas os gêneros europeus, ou seja, música dos salões da elite, a “polca”, chegada no Brasil e a partir de 1844, a “valsa”, a “schottisch”, a “quadrilha”, a “mazurca”. Em meio a divulgação desses estes estilos europeus, nasce o primeiro gênero musical do Brasil, os “choros”. Enquanto isso, nasce da percussão e de palmas produzidas pelos negros vindos de Angola e do Congo, o “samba” que nada mais era que uma dança que seguiam o batuque do tambor e das palmas, produzindo um ritmo que mais parecia tristeza, melancolia, assim como ao “Blues” nos Estados Unidos. O que se viu após isso foram muitos outros músicos e gêneros musicais que iriam marcar a história musical brasileira.
Vários movimentos foram surgindo na passagem dos anos 1920 para aos anos 1930, inaugurando-se uma década que passaria para a história como a Era de ouro da Música Popular Brasileira, e não por acaso, o país estava vivendo anos de intensas mudanças. Depois daquela revolucionária década, com a fundação do Partido Comunista do Brasil, da Semana de Arte Moderna e das revoltas tenentistas, veio a revolução de 1930 que colocou Getúlio Vargas no poder. O país passaria de uma nação agrária e pré-industrial a uma sociedade urbana industrial.
Getulio Vargas usou o rádio para se comunicar com as massas desfavorecidas. Era a primeira mídia na cultura ocidental a ter acesso direto e imediato aos lares das pessoas. A família se reunia em torno do rádio ligado na sala que se tornou o centro gerador de modas e sonhos (1930-1940). A “Era do rádio” produzia uma integração nacional. No inicio da década de 1940, o Brasil passava pelas dificuldades da
Segunda Guerra prejudicando a parte musical do povo. As emissoras que integravam todo o pais, com suas músicas, agora se ocupavam em transmitir as noticias da guerra. A música expressava naquele momento a dor e o sentimento.
Para consolidar esse crescimento da música popular brasileira, foram necessárias modificações essenciais que se tornaram importantes para a projeção da música brasileira: a mudança do sistema de gravação mecânica para a gravação elétrica, o que permitiria o registro fonográfico das vozes de curta extensão e o aparecimento e a espantosa expansão do primeiro veículo de comunicação de massa de nossa história, o rádio.
Após a guerra, os Estados Unidos saiu como o principal vencedor do confronto mundial e passou a impor a sua economia, indústria de entretenimento, exportando tudo que representava a consolidação de hegemonia cultural no mundo. Os objetos culturais dessa dimensão simbólica e econômica norte americana podem ser vistos nos filmes, discos e musica pop, com todos os seus modismos, os quais se tornaram mais sedutores por meio do marketing e da propaganda com que eram apresentados (ALBIN, 2004).
Os brasileiros passaram a ser embalados pela MPB, nos anos (1940- 1950), agora não pelo samba canção, mas pela explosão do baião que representava uma ruptura com os gêneros oriundos da metrópole e assim exprimia a influência da migração nordestina para os grandes centros do Sul do pais (ALBIN, 2004). Para o autor, o que se procurava era divulgar o gênero musical e a cultura moderna. A diversidade se tornou a marca daquele momento, e a Música Popular Brasileira, começa a ter vários gêneros, caracterizando a música a partir da década de 1960. Entre elas a Bossa Nova que, se referia a um jeito de cantar e tocar samba com maneiras jazzísticos. As letras das canções tinham temas leves e descompromissados. A Bossa Nova nasce, fruto de encontros de jovens de classe média carioca em apartamentos ou casas residenciais da zona sul, onde se reuniam para fazer e ouvir música (ALBIN, 2004). A Bossa Nova surge no momento em que as transformações e o desenvolvimento aconteciam no Brasil. O governo de Juscelino Kubitschek (1956- 1960) foi época de otimismo, esperança no futuro, fixação no presente urbano e lírico, prometia 50 anos de desenvolvimento em cinco, começava a construção de Brasília, abriu estradas de rodagens e a implantar parques industriais pesados, uma década de crescimento. A música se tornou uma música de espetáculo, que se abriu para a exportação com o concerto histórico, em 1962, no Carnegie Hall de Nova York com a
presença de Tom Jobim, João Gilberto, Vinicius de Moraes e outros. No público que ouvia os músicos e vocalistas norte americanos estavam os universitários, que logo se renderam ao novo gênero, a Bossa Nova.
Já em 1967, vivendo a ditadura militar, músicas como “Pra não dizer que não falei de flores”, de Geraldo Vandré ou “Cálice” de Chico Buarque de Holanda, tornavam-se hinos na luta contra a ditadura. A música de Vandré era proibida pelos comandantes militares, mas que sempre foi cantada às escondidas como desafio à repressão. Outras músicas surgem como resposta a ditadura militar no Brasil, como “Sabiá” de Tom Jobim em parceria com Chico Buarque, que viria a se tornar um outro símbolo da luta pela volta da democracia. Esta música é uma paráfrase da “Canção do Exílio” de Gonçalves Dias. A música ganhou enorme influência como forma de protesto e de expressão do anseio por liberdade e democracia.
Entre os anos de 1956 e 1958, nos Estados Unidos temos o fenômeno Elvis Presley o rei do rock. A partir de 1959, um fenômeno na Inglaterra, os Beatles, que iriam estourar na década seguinte e se tornar uma referencia musical do século XX. Por meio de uma explosão musical, que a juventude expressava o seu desejo diante das guerras mundiais, Guerra do Vietnã e a da Coreia, assim diante da Guerra Fria, buscava sua identidade em algo e por meio da música. Os jovens adotavam a música que representava o jeito de vestir e usar os cabelos colocados em moda pelos Beatles. A cultura jovem se estruturava preparando o caminho para o final do século XX. No Brasil como em outros países se vivia um período duro marcado pelo controle da ditadura militar e de muitas revoluções. Na França no ano de 1968, ocorre a insurreição da juventude, quando os estudantes ergueriam barricadas contra o exército da República e tomam o Quartier Latin, Paris. Na Tchecoslováquia, houve a então conhecida “Primavera de Praga”, quando boa parte da população, principalmente estudantes, tentam impedir o avanço dos tanques russos na invasão que tinha como o objetivo liquidar com o governo reformista de Dubcek. No Brasil, o que se absorvia era a identidade rebelde da música estrangeira. As músicas da Bossa Nova aos poucos foi atropelada por uma realidade hostil, enquanto o governo se tornava autoritário, os problemas sociais se agravariam.
A música ganhava um espaço de protesto, com o engajamento explicito de vários dos nossos artistas, na tentativa de deter o avanço do autoritarismo, buscando resgatar o que se consideravam raízes de nossa nacionalidade ameaçada pelo imperialismo cultural, econômico e político, mas, de um lado, segmentos da classe
média, para os quais o viés político da contestação pouco significava, escolheu uma maneira mais leve de viver o dilema de ser jovem em um período dominado por formas arcaicas de percepção cultural. A música se tornaria o instrumento dessa alternativa. A Jovem Guarda surgiu e passou a ser mais que um estilo musical, se torna um movimento sociocultural. A música jovem contribui para mudanças na maneira de se vestir, de se comportar diante dos conflitos de gerações. Marcam um novo estilo de vida, e com um poder de penetração mais intenso em segmentos da sociedade jovem de consumo (ALBIN,2004).
A Jovem Guarda abre as portas da música de consumo para a juventude, em quase oposição aos músicos e compositores da Bossa Nova. Na década de 60, surgem também os primeiros roqueiros que antecederam até mesmo a Jovem Guarda, identificando se com os hippes dos anos de rebeldia. Estes se identificavam com os solos de guitarra e os novos recursos e instrumentos eletrônicos, que iriam determinar o que seria produzido nas décadasseguintes. Temos que relembrar de Jimmy Hendrix e o festival de Woodstock, em 1969, é uma marca histórica, tanto musical quanto comportamental, que pregava três dias de amor livre, protestos contra a Guerra do Vietnã, mas também o maior encontro de música do planeta (ALBIN, 2004). Quase no final daquela década, em 13/12/68, foi promulgado o Ato Institucional nº 5. O ato era a demonstração que o regime militar já não mais podia se manter sem repressão diante da crescente oposição da sociedade. Entre estes opositores estavam segmentos das classes médias, principalmente estudantes que se mobilizavam contra o governo. Muitos artistas da música foram presos ou expulsos do pais e sua obra mutilada, outros escreviam através de figuras, metáforas e assim transmitiam suas mensagens.
Em 1967 surge o Tropicalismo, com a proposta de exercer uma intervenção crítico musical na cultura brasileira. Este movimento buscava desacreditar a sociedade de consumo, a política brasileira do golpe de 64. Já nos anos 70 e 80, no meio acadêmico, o que se pretende é fazer desse movimento uma referencia e renovação de alto impacto com a preocupação nacionalista de buscar nossas raízes e rechaçar a influencia estrangeira repetindo ou melhor atualizando o que se tinha vivido na Semana de Arte Moderna (1922).
Depois disto o que se vê são os fenômenos musicais como o da música sertaneja, axé, a cultura hip-hop, funk e rap, que nasce e ganha força na e entre as periferias, sem necessitar de consentimento das classes médias. O funk e o rap logo
conquistaram amplo espaço na classe média, o que demonstra um trânsito mais fácil e aberto entre estratificações sociais. A cultura hip-hop estaria ligado a uma demanda de inclusão social de setores em que é marcado pela ausência do Estado e de políticas públicas. Fornecendo para estes setores o incentivo para se construir uma identidade social autônoma, assumindo-se como excluído, como demonstrado entre outras maneiras pela musica dos gigantescos bailes rap-funk. O hip-hop tem suas origens na cultura desenvolvida pelas populações excluídas. Ao chegar no Brasil ganha jeito próprio, da mesma forma que o jazz ao chegar adicionado a outros ingredientes tropicais deu origem a Bossa Nova.
Ora, a música cantada nas comunidades evangélicas brasileiras não poderia passar sem modificações desses períodos dinâmicos da cultura e da música brasileira. O cântico de corinhos, que eram pequenas músicas cantadas e repetidas pelos jovens, em especial a partir dos anos 1950, se tornariam na primeira forma de adaptação da cultura protestante tradicional dos novos ventos culturais.