A música está presente na vida de um individuo desde muito cedo. Pesquisas apontam que a partir do útero, os bebês já reagem aos estímulos sonoros e apresentam reações a estes estímulos. Segundo Roland de Candé (2001), a história universal da música segue uma seqüência aproximada de eventos: os antropóides do terciário utilizavam batidas, com bastões, percussão corporal e objetos entrechocados; já os hominídeos do paleolítico, expressavam-se por meio de gritos e imitação de sons da natureza. No paleolítico médio houve o desenvolvimento do controle da altura, da intensidade e do timbre da voz, enquanto as demais funções cognitivas se desenvolviam, culminando com o surgimento do homo sapiens por volta de 70 a 50 mil anos atrás.
Essa teoria defende ainda que por volta de 40 mil anos atrás ocorreu a criação dos primeiros instrumentos musicais, inicialmente para imitar os sons da natureza depois para o desenvolvimento da linguagem falada e do canto. Desde então até por volta de nove mil a.C teriam aparecido os primeiros instrumentos mais
controláveis, feitos de pedra, madeira e ossos tais como xilofones, litofones, tambores de tronco e flautas. Um dos primeiros sinais da arte musical foi encontrado na gruta de Trois Frères, em Ariége, França, onde está pintado um tocador de flauta ou de um arco musical. Essa pintura foi datada como tendo sido produzida em cerca de 10 mil anos a.C. No período Neolítico, a partir de nove mil anos a.C teria se dado a criação de membranofones e cordofones, após o desenvolvimento de ferramentas dos primeiros instrumentos afináveis.
A produção de instrumentos de cobre e bronze permitiram a execução da música de forma mais sofisticada. Isso teria ocorrido por volta do ano cinco mil a.C com o desenvolvimento da metalurgia. O estabelecimento de aldeias, o desenvolvimento de técnicas agrícolas mais produtivas e de uma economia baseada na divisão do trabalho, também permitiu que uma parcela da população se desligasse da atividade de produzir alimentos e se dedicasse a música. Tais condições teriam provocado o surgimento das primeiras civilizações musicais com sistemas próprios, as escalas e a harmonia.
Existem registros, segundo Willems (1970), da história musical dos povos orientais, tais como os chineses, hindus e gregos. Os gregos atribuíram uma grande importância à música, pois acreditavam em sua união intima com a vida religiosa e cívica, e mais, que por ela seria possível controlar a sociedade através da música. A mitologia grega também é rica em informações sobre a importância da música como forma de tratamento. Homero, famoso historiador que precedeu Platão, afirmava que a música foi uma dádiva divina para o homem, com ela, poderia alegrar a alma e assim apaziguar as perturbações de sua mente e de seu corpo.
Os gregos antigos chegaram a desenvolver um sistema bem organizado de música como forma de terapia, baseado na influência de certos sons, ritmos e melodias sobre o psiquismo e a capacidade de somatização do ser humano. Esse poder que se atribuía aos sons ou à música denominava-se ethos e eram dividas em quatro tipos baseados nas formas de temperamento humano. São eles: etho frigio, que excita, gera coragem e mesmo furor; o etho eólio, que gera sentimentos profundos e amor; o etho lídio, que produz sentimentos de contrição, de arrependimento, de compaixão e de tristeza; o etho dórico, que gera estados mais profundos, de recolhimento e de concentração.
A música, ainda segundo Willems (1970), é considerada como um importante fator na formação da personalidade do ser humano, isso ocorre não
somente por fazer desabrochar um lado criativo, mas porque pode vivificar a maioria das faculdades humanas e favorecer o desenvolvimento bio-psico-social. Depois de um período menor preocupação com ela, a música está voltando a ser alvo de interesse científico em diferentes áreas da saúde. Com o surgimento da musicoterapia a música vem assumindo um papel mais ativo no tratamento de diversas doenças. Para Willems, a música favorece o impulso da vida interior, despertando as pessoas para as principais faculdades humanas tais como: a vontade, a sensibilidade, o amor, a inteligência e a imaginação criadora, por isso a música é vista como um fator cultural indispensável.
Os chineses acreditavam que, segundo Tame (1984), se alguém quisesse saber se um reino tem um bom ou mau governo, se a sua moral é boa ou má, bastaria verificar a qualidade de sua música, para obter a resposta. Acreditavam ainda que os sons eram de ordem celestial e que governava o universo inteiro. A partir desta constatação, Tame (1984), levanta questões referentes ao efeito da música sobre o comportamento humano: Seria realmente possível a música moldar os pensamentos e os padrões de comportamento, com seus próprios padrões íntimos de ritmo, melodia, moral e estado de espírito? Será que conhecendo o estilo ou tipo de música de um povo seria suficiente para conhecê-lo? Acreditava Confúcio, insiste Tame, que se a música de um reino fosse alterada, a própria sociedade se alteraria e talvez não para melhor. Por esse motivo ele supunha haver na música uma significação oculta que fazia dela uma das coisas mais importantes da vida de onde procedia energia em potencial para o bem ou para o mal.
Ainda de acordo com Tame (1984), em quase todas as civilizações avançadas da antiguidade existiram as mesmas crenças básicas sobre a música. Como exemplo disso podem ser citadas culturas distantes como a Mesopotâmia, a Índia e Grécia. Apesar de distantes, esses povos concordavam em seus pontos de vista sobre o poder da música. Nestas civilizações como em outras civilizações antigas, havia a crença que os sons organizados de forma inteligente, representavam a mais elevada de todas as artes. A música seria, portanto, a produção mais inteligente do som por meio de instrumentos musicais e de cordas vocais. Daí ser esta o caminho mais poderoso de iluminação religiosa para um governo estável e harmonioso como forma de determinar a moral de um povo.
A música influi no caráter foi a grande inspiração das vidas criativas dos maiores nomes das músicas clássicas e românticas. Motivados por um sincero
desejo de servir e espiritualizar a humanidade, os antigos viam a música como um dos meios mais poderosos de influenciar a consciência humana e seus efeitos psicológicos de suas melodias e ritmos. O segundo poder da música, ainda mais potente, é o místico, uma força inaudível e invisível, já discutida e compreendida pela filosofia antiga (TAME, 1984).
De acordo com Willems (1970), foi a partir da obra do austríaco Eduard Hanslick, “O Belo Musical”, em 1854, que numerosos estéticos-musicógrafos começam a se preocupar com o aspecto psicológico da música, abrem caminhos para outros trabalhos. A música é composta por três elementos fundamentais: o ritmo, a melodia e a harmonia. Cada um deles, por sua vez, são constituídos por elementos primeiros: o ritmo, pelos tempos, compasso e subdivisões do tempo (binárias ou ternárias); a melodia, pelos sons, pelos intervalos melódicos, pelas escalas, pelos modos e a harmonia, pelos intervalos harmônicos, acordes e cadencias.