3. THEORETICAL AND CONCEPTUAL FRAMEWORK
3.3 Institutional approach to forest management
Antes de começar a exposição da teologia de Stott, na parte que se refere à missão mundial da igreja, quero fazer uma referência ao conceito de missão da igreja, apresentada por Santos (2008, p. 655). Para ele, Deus enviou Jesus Cristo e ambos o Espírito Santo. Logo, “sob essa perspectiva trinitária é que reconhecemos que a igreja é, por sua natureza, missionária, pois tem a sua origem na missão do Filho e do Espírito Santo, de acordo com o propósito de Deus”.
Nesta perspectiva trinitária (Pai, Filho, Espírito Santo), a missão não deve focar simplesmente a salvação de almas, porque precisa tratar o homem como um ser completo, integral que precisa ter suas necessidades do espírito e do corpo satisfeitas. O mundo compreendido para se levar o evangelho não se refere apenas a locais distantes da igreja. Devem ser observadas as carências locais e a expansão missionária, que deve cobrir o maior espaço possível de seu território alcançável. Sendo assim, o campo de missão da igreja é sempre o lugar onde ela está comprometida com a palavra de Deus e com a situação humana. É Deus quem deve estar na direção do projeto e ação da missão da igreja. Precisamos de pessoas envolvidas, que se sintam sensibilizadas com a obra missionária e dispostas a participar do serviço, de gastar suas vidas (ao menos parte)
com a obra, seja indo ou enviando, contribuindo financeiramente e orando, desde que tenham uma participação autêntica, verdadeira, comprometida com o ser humano integral.
Para Santos (2008, p. 655-658):
A igreja-em-missão está desafiada a ser um lugar de refrigério e de renascimento, de vida e esperança para quem ainda não teve a sua dignidade resgatada pelo sangue do cordeiro […] o serviço missionário não deriva do trabalho e estratégia da igreja, mas que a igreja é apenas um instrumento nas mãos de Deus. Cabe à igreja: estar atenta aos sinais dos tempos; ser peregrina como povo de Deus em marcha; ser obediente à missão e a Palavra de Deus; ser humilde e sentir-se serva diante de Deus e da humanidade.
A igreja deve ser compreendida como o espaço físico de reunião social, porém não deve se limitar a tal geografia. Para fazer sua obra missionária é necessário que ela vá ao mundo, proclame a palavra, veja de perto as necessidades das pessoas e que as acolha para que tenham condições dignas de vida. A igreja precisa ser formada por pessoas diferentes, pois Stott (1998-b, p. 25) afirma que “se Cristo morreu por nós, não somente para nos redimir de toda iniquidade, mas também para purificar para si mesmo um povo entusiasmado para realizar boas obras”, os integrantes da igreja devem proceder de forma exemplar unindo sua fé às obras, para que consigam realizar sua missão mundial.
Muita violência pautou a agenda dos colonizadores que escravizaram indígenas. No Brasil, os missionários jesuítas procuraram diminuir tal situação por meio da conversão dos nativos, mas os resultados não foram bem sucedidos como esperavam. Grande parte do fracasso missionário decorreu da falta de conhecimento e respeito à cultura dos indígenas. Para Zwetsch (2008, p. 662) “realizar no século XXI a missão de Deus (missio Dei) supõe aprender com o fracasso da missão cristã entre indígenas e buscar novas relações que dignifiquem os povos e reafirmem a credibilidade do evangelho que oferece vida plena, e não morte”.
A missão precisa trazer “vida em abundância” um mandamento do evangelho que deve estar presente em cada ação missionária. Não se pode fazer missão com um discurso assustador, levando medo e ameaças de morte (eterna) as pessoas que precisam ser alcançadas pelo evangelho. Existe um perigo muito grande quando as palavras e
ações dos missionários se baseiam em “recortes” do evangelho, em que a compreensão do todo fica prejudicado, por interpretações pessoas dos missionários, que em alguns casos, colocam o evangelho a seu serviço e não o inverso, isto é, estar a serviço do evangelho. Evangelho não é palavra de morte; é palavra de vida, em todo mundo onde o ele for pregado.
A missão urbana é tratada por Castro (2008, p. 663-665) tendo em vista a busca da consolidação de uma sociedade com maior justiça e igualdade social. A ação missionária das igrejas nas áreas urbanas, apresentam diferentes preocupações e interesses, como podemos notar:
O ecumenismo, fala sobre encarnação e inculturação do evangelho e opção preferencial pelos pobres. O fundamentalismo, fala de batalha espiritual e de ganhar as cidades para Cristo. Os evangelicais falam de uma perspectiva missionária do evangelho integral, existem ainda as igrejas missionárias que se utilizam do marketing da prosperidade, e os maniqueístas, dividem a realidade entre sagrado/profano, bem/mal e com isso, espiritualizam a realidade cotidiana e apresentam respostas mágicas e superficiais aos problemas vividos pelos cristãos no contexto urbano. A síntese da necessidade de sobrevivência humana, se encontra geralmente no suprimento das carências básicas, como a alimentação, vestimentas, moradia, higiene e saúde corporal. As carências voltadas para o espírito, se relacionam quase sempre com sentimentos familiares de pais e filhos, amorosos, entre irmãos e das amizades; é nesse contexto de necessidades que a missão deve atuar e uma organização que se apresenta com estas condições de intervir, para realizar um melhor viver, é a igreja cristã, porque tem com ela, o evangelho da salvação, da esperança e da perspectiva de uma vida melhor. Em tese, o mundo tem uma esperança focada na igreja, que tem em sua missão mundial o compromisso do amor a Deus e ao próximo.
Outro termo usual para missão é o de missio Dei (missão de Deus). Santos (2008, p. 667) apresenta uma síntese: “e assim a missio Dei foi entendida como Deus, o Pai, enviando o Filho, e Deus, o Pai e o Filho, enviando e Espírito Santo. Deste ponto de vista, Pai, Filho e Espírito Santo enviam a igreja para dentro do mundo”.
Pelo que se explanou acima, a Igreja tem como tarefa principal a missio Dei, que a torna concreta no mundo presente. Ela é uma “agência” de Deus para promover o bem entre os seres humanos, contribuindo para que a vida na terra seja melhor a cada dia. No
entanto, para que se concretize esta esperada melhora, a igreja precisa de seus agentes, os missionários, pessoas comprometidas com a obra de Deus desde já, atendendo os necessitados de coisas materiais e de valores espirituais. O uso do termo “missão” no singular, é o recomendado pelos autores acima, porque – “todo o trabalho missionário autêntico deve ser entendido como serviço dentro do propósito da participação na missão de Deus”. A missão singular de Deus contempla o ser humano integral.
Algumas vezes percebemos que o tratamento dado às questões missionárias, separa a igreja do mundo, compreendido este como o local onde os perdidos se encontram, aonde a igreja deve buscá-los ou do qual deve se afastar. Veremos neste ponto da pesquisa, qual é a teologia de J. Stott sobre a missão mundial (termo utilizado por ele).
A fundação da missão mundial (cf. STOTT, 2007, p. 321), aconteceu “depois da descida do Espírito Santo e do contra-ataque de satanás (que foi derrotado), a igreja está praticamente pronta para iniciar sua obra missionária”.
Stott (1997, p. 327-328) aponta para um mundo constituído dentro do seguinte cenário, que ele atribui à visão que Jesus e seus apóstolos tiveram:
A igreja recebe de Deus a responsabilidade de infiltrar-se no mundo, escutando de fato os desafios do mundo, mas também trazendo para o mundo os seus próprios desafios, compartilhando com ele as boas novas em palavra e em ação. O termo acertado para esta tarefa é missão. E é exatamente para isso que Deus envia a igreja ao mundo: para fazer missão. Afinal, a missão começa no coração de Deus. O Deus vivo da revelação bíblica é um Deus missionário.
Existe na teologia missionária de Stott, a compreensão de que a igreja e o mundo se relacionam e uma pode influenciar o outro. A igreja deve estar disposta e posicionada para combater a entrada das coisas do mundo em seu interior e ao mesmo tempo, influenciar as pessoas que estão no mundo, para trazê-los a si, pela missão. É uma forma de se fazer missão concentrada na proclamação da palavra, com pouca ênfase na ação social. Não quero dizer com isso, que Stott simplesmente ignora a ação pela responsabilidade social, mas quero afirmar que a prioridade em sua Teologia da Missão Mundial é a proclamação da palavra, no sentido tradicional de preocupar-se com o “ganhar almas” (salvação das almas). Ele próprio interpreta em sua obra o texto de
Romanos 10 (1978, p. 45) dizendo que é a favor de “se pregar o evangelho para que as pessoas se convertam”.
A igreja das epístolas é uma igreja missionária. Por isso, ela pode voltar-se para si própria, como nos cultos, mas deve retornar ao mundo para cumprir sua missão de levar o evangelho a todas as pessoas. Stott (1997, p. 371) ao tratar da igreja no mundo, diz que “nós nos separamos do mundo para adorar e comungar, a fim de retornarmos a ele fortalecidos para viver como testemunhas e servos de Cristo”. Toda igreja deve ser missionária, ou sua razão de existir perde-se por completo. Cada membro deve ser um missionário, sem exceção. Proclamar a palavra, cuidar dos necessitados, amar e respeitar ao próximo precisam ser compromissos de cada cristão, para que Jesus seja manifesto nas atitudes dos integrantes de cada igreja.
Um dos polos que integram a missão mundial é a proclamação da palavra, que para Stott não se deve desassociar da ação social, mas que ele compreende como sendo das duas a mais importante, por se constituir naquilo que levará o ser humano a Deus na eternidade. Ele se expressa assim (STOTT, 2003, p. 361): “[…] a tarefa da pregação hoje é extremamente exigente, à medida que procuramos construir pontes entre a palavra e o mundo, entre a revelação divina e a experiência humana […]”. O que se tem na palavra (Escritura) precisa ser vivido de forma concreta, para que o mundo perceba a diferença na vida do cristão e na postura da igreja como uma sociedade humana voltada para e compromissada com as causas divinas e com as pessoas na terra.
Na Teologia da Missão Mundial de Stott, existe a preocupação com a proclamação da palavra na tentativa de salvar almas para a vida eterna. Isto aparece de forma acentuada e prioritária. Mas existe também a preocupação social, mesmo em segundo plano, como percebemos neste texto (STOTT, 1982, p. 60) “Deus fez o homem um ser espiritual, físico e social. Portanto, a obrigação de amar o nosso próximo nunca pode ser reduzida para somente uma parte dele”. Fica clara esta preocupação com o ser humano total na teologia missionária de Stott, com as observações que ora apresentei. A missão é de Deus (missio Dei).
O Deus missionário deve ser compreendido como “Jesus, Nosso Senhor e Salvador” na forma trinitária, conforme comentado em outras partes desta pesquisa. A missão cristã, segundo Stott, é muitas vezes criticada por pessoas de religiões não
cristãs e até mesmo por membros das igrejas cristãs, por considerarem que o fazer missão pode ser uma atitude intolerante (legal, social, intelectualmente) para com outras crenças, arrogante por considerar-se o missionário o único proprietário da salvação e violenta por desrespeitar as outras crenças. Em Stott, (1997, p. 360) “a humildade é a virtude cristã preeminente e deveria caracterizar todos os nossos pensamentos, palavras e ações”. Caso a humildade permeie a missão, então estariam afastadas todas as possibilidades de intolerância, arrogância e violência.
Um fato que não se pode perder de vista, é o amor. Toda ação missionária de Deus está permeada pela caridade e esta precisa ser preservada, aprendida e ensinada a cada dia. Em Stott, (1982-b, p. 141) temos a seguinte recomendação: “o amor cristão recíproco não significa somente que Deus permanece em nós, mas também que o seu amor é em nós aperfeiçoado”. O amor serve para curar e promover tanto a proclamação da palavra, quanto para agir na vida concreta das pessoas. A missão mundial precisa ser praticada sem “violência”, isto é, com respeito e amor ao próximo, respeitando as diferentes culturas.
É na questão da “violência” que vou expor algumas ideias com base na Teologia da Missão Mundial de Stott. Muitos entendem que proselitismo é um tipo de tentativa de conversão ao cristianismo, a força. Devemos trocar o proselitismo pelo evangelismo. A principal diferença entre estas ações é a forma respeitosa e humilde como se prega a palavra do evangelho. Evangelizar é trazer uma mensagem sobre a verdade e a perfeição de Jesus Cristo, que ama e perdoa. Sem o elemento da humildade – presente na pessoa de Cristo – não se faz evangelismo. Como afirma Stott (1997, p. 363) “a verdadeira missão cristã, pois, é plenamente compatível com uma tolerância autêntica, uma humildade genuína e uma mansidão igual à de Cristo”.
Jesus é único porque ele não tem semelhantes nem rivais. Esta posição de Stott, coloca a Cristo como um ser diferente dos demais que seriam passíveis de comparação, como profetas, líderes religiosos, políticos e heróis. O único que em toda história da humanidade, foi morto e ressuscitou: é deste Deus homem que trata o evangelho. A Bíblia como um todo está pontuada de passagens que nos levam a crer que Jesus crucificado, foi e continua sendo o Filho de Deus, parte integral da Trindade, revelado
na Santa Escritura como um Deus missionário, na pessoa trinitária do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Stott (2010, p. 25), ainda tratando da missão de Deus, diz: “a missão primordial é a de Deus, pois foi ele quem mandou seus profetas, seu Filho, seu Espírito. Destas missões, a do Filho é a central, pois foi o auge do ministério dos profetas e inclui em si, como clímax, o envio do Espírito”. Portanto Jesus é o centro da missão de Deus. Stott (2006-b, p. 423) continua: “sem a unidade de Deus e a singularidade de Jesus, não poderia haver missão cristã”. Temos aqui um espelho do Deus missionário, revelado na pessoa, palavras e obras de Jesus, que devem servir como modelo para todos aqueles que abraçam a fé cristã, na qual não se podem separar as coisas do espírito das coisas da carne. Sendo o amor a Deus e ao próximo a base da missão mundial, o Deus missionário será glorificado.
Na teologia de Stott, sem Cristo não existe qualquer possibilidade de salvação, no sentido de vida eterna com Deus. Para ele, a missão universal da igreja brota da autoridade universal de Jesus. O Espírito Santo, enviado por Deus Pai e Filho, é o mensageiro que realiza a obra por meio da igreja missionária. Stott (1997, p. 369) diz que:
O Espírito Santo é o ator principal em Atos. No cenáculo, em sua última noite com os doze, Jesus havia prometido a vinda do Espírito e descrevera o futuro ministério deste, de convencer, ensinar e testemunhar. Durante os quarenta dias que se passaram entre a ressurreição e a ascensão, a repetida mensagem foi que o Espírito lhes daria poder para testemunhar e que eles deveriam esperar por sua vinda. Atualmente, segundo Stott, a manifestação divina se faz pela presença do Espírito Santo entre os seres humanos.
Compreendo que não há uma separação radical entre Espírito e Senhor, até porque seria incoerente fazer tal divisão. Se a Trindade é “uma” só pessoa em Deus Pai- Filho-Espírito Santo, importa que esta não seja dividida para se dizer quem criou a igreja. Foi o sopro de Deus que a criou, se a fé permitir ver por este ângulo. A igreja deve voltar-se à produção de coisas boas, porque do Espírito que a criou emanam tais obras. Dentre todas as obras, a principal é o amor ao próximo, o qual pode ser manifesto nas ações do Espírito, voltadas para o anúncio da palavra e o serviço social, abençoando o ser humano de forma integral. O Espírito convence a pessoa para que ela se volte a
Deus. Ensina-lhe para que cresça, aprenda a palavra, pratique-a com fé e com o intelecto e testemunhe, para que pelo bom exemplo revele o amor de Cristo e acrescente outras pessoas à igreja.
Fazendo uma síntese da teologia missionária aplicada à igreja, apontando para Deus Pai (AT), Deus Filho (NT) e o Espírito Santo – que inaugura a igreja conforme o evangelho de Lucas/Atos – Stott (1997, p. 374), diz o seguinte:
A partir deste breve panorama da Escritura, (vemos) que o Deus do Antigo Testamento é um Deus missionário – ele chamou uma família a fim de abençoar todas as famílias da terra; que o Cristo dos Evangelhos é um Cristo missionário – ele comissionou a igreja para ir e fazer discípulos de todas as nações; que o Espírito Santo dos Atos dos Apóstolos é um Espírito missionário – ele impulsionou a igreja a fim de testemunhar.
Essa família à qual Stott se refere, é a de Abraão, que na antiguidade ao deixar sua terra em busca de outra “que emana leite e mel”, representa para nós a conquista de uma vida plena e feliz, a qual pode ser obtida por meio do Deus trinitário. A religião da Bíblia é missionária e a missão deve ter um alcance global. Stott compreende isto em uma dimensão marcada pela escatologia, pela vida eterna, com pouca ênfase na ação da responsabilidade social (sem esquecê-la por completo), no atendimento aos necessitados, que precisam de ajuda material no tempo, aqui e agora. Stott (1994, p. 139) afirma que “a presença do Espírito Santo está (presente hoje) para espalhar seu povo pelo mundo”, anunciando o evangelho e levando com isto as boas novas a todos os povos. A igreja em missão, envolvida por inteiro com a palavra e as ações sociais, é o que veremos daqui em diante.