Comunicar passa incontornavelmente pela construção de uma relação social entre os interlocutores.
No âmbito do nosso estudo o conceito de relação interpessoal é tomado no sentido que lhe dão Marc e Picard (2008) : “a forma e a natureza do laço que une duas ou mais pessoas” (p. 9).
O carácter eminentemente relacional do discurso é defendido nas referências teóricas que fundamentam o nosso projecto. Já o afirmamos, de Palo Alto provém o reconhecimento de que o discurso é simultaneamente comunicação de um conteúdo informativo e construção de relação. Um dos cinco axiomas da comunicação saídos de Palo Alto estipula que “não se pode não comunicar”. Assim sendo, torna-se evidente que a relação é inerente a toda a comunicação verbal. Bakhtin defende, pelo seu lado, que qualquer discurso é por essência dialógico, isto é, contém intrinsecamente uma “orientação social”, uma orientação para o outro. Esta orientação reflecte as relações interpessoais entre os interlocutores que
13 A relação ou laço interpessoal foram amplamente estudados em perspectivas diversas: sociológica
, psicológica (clínica e patológica), aprendizagem, desenvolvimento ontogenético, educativa, discursiva etc.).
participam no discurso. Para Bakhtin (1990), “A interação verbal constitui assim a realidade fundamental da língua” (p. 123). Vygotsky atribui ao discurso (linguagem) um papel mediador nas relações interpsicológicas. Bakhtin e Vygotsky (Fernandes & Campos, 2012) enfatizam sobremaneira a dimensão interactiva da actividade humana, destacando a sua importância para o estudo da linguagem (Bakhtin) e da educação (Vygotsky). Goffman destaca que os participantes envolvidos no discurso transportam para ele um “desejo” e “necessidade” de “face” (“face-want”). Esse “face-want” impele-os a realizarem, nas suas intervenções, um trabalho de “figuração” (“facework”), que mais não é do que a mobilização de mecanismos discursivo-textuais, para preservar as auto-imagens que os participantes projectam na interação discursiva, e garantirem, desta forma, a harmonia interacional. Um amplo conjunto destes recursos são designados na investigação, estratégias de “cortesia” ou “polidez”. O discurso torna-se, pois, um espaço onde os participantes aspiram a obter reconhecimento social, reforçando a suas auto-imagens e seu bem-estar psicológico. Quando este reconhecimento social é efectivo, fácil é admitir que o discurso é um espaço no qual se vivenciam emoções positivas motivadoras.
Nesta breve introdução14 fizemos referência a um conjunto de pressupostos que têm vindo a
alimentar imensas investigações disciplinares, no campo das ciências sociais.
Nesta parte da nossa investigação, pretendemos comprovar, com uma metodologia exploratória, aplicada a cada um dos discursos, a validade dos pressupostos teóricos que suportam as propostas interacionistas fundacionais que seleccionamos para servirem de enquadramento ao nosso trabalho:
Que o discurso é um espaço de construção de relação.
Que na construção dessa relação intervêm processos de figuração (facework).
Que a construção da relação se desenvolve em dois eixos: um horizontal (de proximidade vs. distância) e outro vertical ou hierárquico (“lugar” alto vs. “lugar” baixo.
Nesta parte do nosso trabalho comprovaremos igualmente a validade da proposta metodológica de Kerbrat-Orecchioni, para explorar os processos discursivo-textuais implicados na validação dos pressupostos referidos.
14 Na nossa exposição teórica apresentamos uma ampla informação sobre o funcionamento do discurso
5.4.2.1 Dimensão 3: O trabalho de figuração ou imagem, com procedimentos de cortesia.
Esta dimensão procede directamente das propostas teóricas de Goffman, Brown & Levinson e Kerbrat-Orecchioni. Inspirados nestes autores, são sem conta os trabalhos de investigação publicados.
No nosso trabalho, retivemos o quadro teórico-metodológico formulado por Kerbrat- Orecchioni sobre a cortesia linguística (1988; 1989; 1990;1992; 1994, 1995; 2005; 2006) para analisarmos a dimensão relacional dos discursos, porque a reformulação teórica que esta autora apresenta, corresponde (Rodrigues, 2003) a um “modelo teórico de análise altamente eficaz para a descrição linguística e discursivo-textual dos fenómenos de cortesia que os interlocutores utilizam nas diferentes interacções verbais que realizam, tendo em vista, mais que a transmissão de informação, o estabelecimento duma relação equilibrada e harmoniosa a nível interpessoal” (p. 155).
Para a identificação da realização discursivo-textual dos processos de cortesia relevantes para o desenvolvimento da “figuração”, recorremos preponderantemente ao inventário proposto por Kerbrat-Orecchioni (1992, pp. 195-127; 1996, pp. 55-59 e pp. 46-47). Embora em menor medida, inspiramo-nos também em outros trabalhos15 que investigaram a utilização da
cortesia em discursos variados.
Realizamos a nossa análise exploratória dentro do perímetro estabelecido pela definição dos dois tipos de cortesia que Kerbrat-Orrechioni (1992, p. 177; 1996, p.54:) oferece para dar conta do fenómeno discursivo da figuração (facework):
Cortesia Negativa: “La politesse négative est de nature abstentionniste ou compensatoire:
elle consiste à éviter de produire un FTA, ou à en adoucir par quelque procédé la réalisation – que ce FTA concerne la face négative107 (ex.: ordre) ou la face la face positive (ex.: critique)
du destinataire”.
Cortesia positiva: “La politesse positive est au contraire de nature productionniste: elle
consiste à effectuer quelque FFA pour la face 107négative107 (ex.: cadeau) ou positive (ex.:
compliment) du destinataire”.
5.4.2.2 Dimensão 4: A gestão da relação interpessoal.
Juntamo-nos a Winkin (1998, pp. 134-136) que considera que uma vez imersos numa situação de interação, ficamos sob o controlo uns dos outros. Parece-nos, pois relevante analisar o tipo de relação que se instaura entre os interlocutores ao longo da interação discursiva. São
numerosas as investigações que abordam este tema16. Para operarmos no âmbito desta
dimensão, continuaremos a recorrer ao quadro teórico-metodológico oferecido por Kerbrat- Orecchioni (1992,1995, 1996), também adoptado por outros, nas suas abordagens ao discurso, (inter alia Carreira,1997; Rodrigues, 2003; Almeida, 2009). A relação interpessoal neste quadro metodológico é investigada tendo em conta a distância horizontal (relação proxémica) e a distância vertical (relação taxémica ou hierárquica), que se mantêm ou são construídas discursivo-textualmente, ao longo da interação discursiva. Conexos a estas duas formas de distância, Kerbrat-Orecchioni define dois tipos de marcadores discursivo-textuais, os “relacionemas horizontais”, e os “relacionemas verticais” (ou “taxemas” de “posição alta” ou de “posição baixa”).
Para a identificação da realização discursivo-textual dos dois tipos de relacionemas, recorremos, principalmente, ao inventário proposto por Kerbrat-Orecchioni (1992, pp. 45-57 e pp.82-101; 1996, pp. 42-44 e pp.46-47). Embora em menor medida, inspiramo-nos também em outros trabalhos17 que investigaram sobretudo os conectores pragmáticos, em discursos
variados.