aprobatório dos alunos, que realiza a selagem de um duplo acordo).
A intervenção 1., textualiza uma eventual pergunta dos alunos, aquela pergunta que o professor gostava que os alunos formulassem, porque dela precisa para desenvolver dialogicamente a sua exposição. Esta pergunta diafónica tem uma função ilocutiva de iniciação.
Segue-se a intervenção 2., com a função ilocutiva de reacção à intervenção 1., em que o professor reassume a pilotagem da exposição.
A intervenção 3., destina-se a a confirmar que a intervenção 2., está dotada de suficiente completude monológica. Esta intervenção 3. sela a completude dialógica e autoriza o encerramento do intercâmbio e transição para um novo tema, se o professor assim o entender Com a intervenção 4., após registar o silêncio aprobatório dos alunos, o professor prossegue com a sua pilotagem.
A diafonia é definida como a ventrilocução da voz do alocutário. Acontece quando o emissor incorpora a voz (Roulet, 1985) mas também a mente (Wertsch,1991; Leal & Sánchez, 2000; Acuña & Sánchez, 2005) do destinatário, no seu próprio enunciado, na sua própria enunciação, rejeitando-se assim a perspectiva de autoria absoluta do locutor. Numa perspectiva interacionista, o uso deste recurso, significa que o emissor convoca o destinatário para a sua enunciação, fazendo ecoar a voz e mente do destinatário na sua enunciação, incrustando ou não um intercâmbio na composição da sua intervenção. Mediante a observação destes episódios discursivo-textuais pode-se apreciar a dinâmica de co-construção do discurso entre locutor e alocutário.
5.5.1.2.3 Sub-dimensão 3: a “dialogalidade”
Apressamo-nos a prevenir qualquer confusão conceptual que poderia resultar da semelhança lexical que as palavras “dialogismo” e “ diálogo” exibem. Vejamos como os dois termos cobrem realidades diferentes, embora ambas tenham subjacente um mecanismo de interação discursiva.
Na concepção bakhtiniana (Bakhtin, 2003), o dialogismo é um princípio constitutivo de qualquer forma de discurso, estipulando que todo o discurso está duplamente orientado para outros discursos. A figura mitológica de Jano, cuja face dupla olha em duas direcções, o passado e o futuro, pode ilustrar este tipo de orientação
.
Todo e qualquer discurso está orientado para discursos anteriores à sua enunciação, mas também para a resposta que ele antecipa, nos seus destinatários síncronos ou potenciais.O reconhecimento deste princípio constitutivo levou à consideração de três modalidades de dialogismo (Bres & Mellet, 2009; Bendinelli, 2011; Authier-Revuz, 1995):
1. O dialogismo interdiscursivo: quando o discurso do locutor entra em interação com outros discursos ou “vozes” anteriores.
2. O dialogismo interlocutivo: quando o discurso do locutor entra em interação com a compreensão-resposta do destinatário. Bendinelli (2011) distingue três modalidades de manifestação deste dialogismo interlocutivo: o dialogismo interlocutivo de “citação”, quando o locutor cita enunciados atribuídos ao interlocutor/co-enunciador; o dialogismo interlocutivo de “antecipação”, quando o locutor antecipa enunciados atribuídos ao seu interlocutor/co-enunciador; o dialogismo interlocutivo “responsivo” quando o enunciado do locutor contém a resposta a uma interrogação explicita ou não do seu interlocutor/co-enunciador. 3. O autodialogismo ou dialogismo intralocutivo: quando, no seu discurso, o locutor
entra em interação com o seu próprio discurso.
Seguindo Bres e Mellet (2009) “dialogismo” e “dialógico” relevam da “problemática da orientação do discurso para outros discursos” e, enquadram-se numa dimensão dialógica. O dialogismo assim formulado, conecta-se ao “diálogo interno”, segundo a terminologia de Bakhtin, para quem, relembramos, todo o discurso é, em alguma medida, constitutivamente, ou seja por essência, dialógico. Isto é, não pode deixar de ser dialógico, seja qual for a sua organização externa: seja um artigo de jornal, uma conferência, uma lição magistral, uma conversação, etc., etc. .
Pelo seu lado, o termo “dialogal” e o termo derivado “dialogalidade” relevam da organização ou estrutura discursiva externa de um tipo de discurso, cuja principal característica decorre da existência de alternância de turnos de fala. Estes dois termos, “dialogal” e “dialogalidade” enquadram-se numa dimensão “dialogal”, e conectam-se ao “diálogo externo”, segundo a
terminologia de Bakhtin. A dimensão dialógica e a dimensão dialogal têm marcadores próprios no discurso e, cobrem, tal como acabamos de expor, realidades diferentes.
A dimensão dialogal, marcada fundamentalmente pela existência de turnos de fala alternados reais ou diafónicos (comunicação digital, segundo a tipificação da comunicação de Palo Alto), possui à partida maior visibilidade interacional. No entanto essa visibilidade pode não ser tão evidente quando o turno do interlocutor, por exemplo do(s) aluno(s) ou dos assistentes a uma conferência, tem a forma de um silêncio aprovativo ou de outro tipo de realização não linguística (comunicação analógica, segundo a tipificação de Palo Alto) que o locutor (professor ou conferencista) descodifica. A dimensão dialogal é importante para o analista do discurso, porque constitui uma fonte a partir da qual é possível extrair indicações importantes sobre a pilotagem da dinâmica discursiva interacional:
Qual a participação dos interactantes no processo de co-construção ou negociação do sentido.
Quem ocupa as “posições” interacionais.
Como evoluem as relações entre os interactantes.
Nesta parte do nosso trabalho, propomo-nos explorar a dimensão dialogal dos discursos para observar a dinâmica de co-construção do sentido, ao longo da interação discursiva. A observação desta dinâmica de co-construção permitir-nos-á descobrir, mais uma vez, a forma como o locutor orienta o discurso para o seu interlocutor.
Para concretizarmos esta nossa intenção, operaremos com algumas ferramentas metodológicas fornecidas pelo Modelo genebrino (Roulet, 1991; Roulet, 1999; Roulet & al. 1985; Roulet & al., 2001; Filliettaz & Roulet, 2002). Inspiramo-nos nestes investigadores para caracterizar os discursos. Os investigadores da Escola de Genebra, liderados por Roulet, seguem a linha bakhtiniana relativamente às dimensões “dialógica” e “dialogal”. Caracterizam qualquer tipo de discurso, monologal ou dialogal, do ponto de vista da sua forma e da sua estrutura externa (Roulet & al., 1985) do seguinte modo. Quanto à sua forma um discurso é monologal quando é produzido, oralmente ou por escrito, por um único locutor ou escritor. O discurso é dialogal quando é produzido por pelo menos dois locutores. Quanto à sua estrutura, o discurso é monológico quando reveste a forma de uma única intervenção. O discurso é dialógico se possui uma estrutura de intercâmbio.
Com estes elementos, estes investigadores concebem quatro tipos possíveis de discursos:
O discurso monologal-monológico: um editorial de jornal, em forma de intervenção única, produzida por um único locutor/escritor.
O discurso dialogal-monológico: uma sequência IRE, que muito embora possua uma estrutura externa de diálogo, apenas faz ouvir a mente do docente.
O discurso monologal-dialógico: aquele discurso que se apresenta em forma de uma intervenção, mas que simula ou encena um diálogo com o destinatário.
O discurso dialogal-dialógico: aquele discurso em forma de diálogo, em que os diversos intervenientes fazem ouvir, pelo menos com alguma autonomia, as suas posições.
A estes investigadores fomos também buscar as duas unidades com que segmentamos o nosso discurso.
A “Intervenção” e o “intercâmbio” correspondem a duas das unidades com que estes investigadores segmentam e analisam os discursos. São estas duas unidades que retemos para operarmos nesta parte do nosso trabalho.
A intervenção é a unidade monológica máxima e pertence a um locutor. O intercâmbio é a unidade dialogal menor e compõe-se de pelo menos duas contribuições (intervenções) de locutores diferentes.
Para estes investigadores, o discurso é co-construído por locutor e interlocutor, através de uma dinâmica de “negociação”, isto é, o discurso resulta de uma co-construção negociada. Esta dinâmica de negociação desenvolve-se mediante um intercâmbio com estrutura tripartida, simples ou complexa. Simples quando a intervenção proposta pelo locutor é de imediato ratificada por uma resposta de apreciação positiva que o interlocutor sinaliza ao locutor. Consideram os investigadores genebrinos que, nesta situação, a intervenção do locutor está dotada de completude monológica. Porém, o interlocutor pode sinalizar uma reacção desfavorável a algum aspecto da intervenção do locutor, confessando não a compreender. Esta reacção desfavorável tem a pertinência interpsicológica de um alerta que o interlocutor dirige ao locutor, para o informar que o seu discurso não está tendo a suficiência mediacional para que ele, interlocutor, possa realizar uma internalização significativa do sentido. Não se trata em nenhum caso de um comportamento de rebeldia ou conflitivo, mas antes de um pedido de ajuda. Nestas condições, o intercâmbio não pode ser encerrado e, o locutor da intervenção apreciada pelo interlocutor como insuficiente deve relançar a sua iniciativa até que o interlocutor expresse uma validação positiva. Do ponto de vista estrutural, o intercâmbio deixa de ser tripartido, já que passa a integrar outros intercâmbios secundários que configuram negociações secundárias. Quando a unanimidade entre locutor e interlocutor quanto á completude monológica é alcançada, através de um duplo acordo, os investigadores genebrinos consideram que o intercambio apresenta completude interacional ou dialógica, isto é, que estão criadas condições para a interação discursiva prosseguir com uma nova negociação, em forma de um novo intercâmbio tripartido.
5.5.2 Plano da relação interpessoal
5.5.2.1 Dimensão 3: Trabalho de figuração ou imagem (facework)
Na tabela 4 a seguir, antecipamos o esquema analítico desta dimensão.
Tabela 4
Esquema analítico da dimensão 3: trabalho de figuração ou imagem (facework) Plano Dimensão 3 Categorias Plano da relação interpessoal Trabalho de figuração ou imagem FTA directo FFA suavizado FFA
As categorias de análise seleccionadas para estudarmos o trabalho de figuração (“facework”) desenvolvido no nosso discurso em análise, procedem de fontes reconhecidas pelos investigadores desta área (Kerbrat-Orechioni, 1992,1995, 1996; Rodrigues, 2003; Goffman, 1973a; 1973b; Brown & Levinson, 1978; 1996), pelo que parece-nos evidente a sua validação para o nosso trabalho. Estas categorias são as seguintes:
Categoria: O FTA (directo ou suavizado) (“Face Threatening Act”)/“acto de ameaça à
imagem”. Esta categoria inclui os mecanismos discursivo-textuais que representam uma ameaça ou trazem perigo à imagem de algum dos interlocutores, assim como os mecanismos discursivo-textuais mitigadores que o autor do FTA usa para atenuar os efeitos ameaçantes. Os FTA’s (Rodrigues 2003) consistem regra geral em “insultos e os actos directivos directamente formulados, descorteses por natureza, mas também as observações deselegantes, as críticas duras, as refutações radicais, as admoestações violentas…” (p. 139)