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No início do ano de 2008 aconteceu a primeira grande operação onde o Anonymous obteve a atenção da mídia norte-americana e mundial. No dia 14 de janeiro, um vídeo de nove minutos e meio que exibe uma entrevista com Tom Cruise rindo e falando sobre a doutrina da Igreja de Cientologia vazou na internet tendo sido publicado no YouTube. Alegando violação de direitos autorais, a gravação foi rapidamente removida do site a pedido da igreja, atitude considerada como violação da liberdade de expressão por parte de um grupo de usuários de internet.

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Figura 16: Protesto na porta de uma Igreja de Cientologia nos EUA. No cartaz: “Scientology Destroys Lives”54.

A retirada desse vídeo foi tida como censura à internet dentro do 4chan, iniciou-se um jogo entre Anonymous e a igreja. Por um lado, Anonymous tentava publicar o vídeo na maior quantidade de sites possíveis, enquanto a igreja os removia com uma velocidade impressionante. Além disso, os freqüentadores do 4chan se organizaram no /b/ para enviar uma enorme quantidade de retaliações fora da internet, como: envio de faxes em branco para as igrejas, diversos pedidos de pizza em nome da igreja sendo entregues nas suas sedes e uma quantidade de trotes suficientes para deixar todas as linhas da Cientologia ocupadas.

Para finalizar, publicaram um tutorial de como derrubar um website através de ataques de DDoS na página do 4chan e, no dia combinado, todos iniciaram os ataques até conseguirem deixar a página inacessível. Para um pequeno grupo de usuários de internet que nunca haviam sequer se conhecido pessoalmente, promover essa ação de suas próprias cadeiras foi uma vitória épica.

80 Foi exatamente nesse momento que tudo o que era conhecido como Anonymous mudou radicalmente. Com essas ações, o assuntou acabou por ser noticiado em diversos veículos midiáticos e tomou proporções maiores do que se previa. Exatamente sete dias depois do ato de remoção do vídeo original do YouTube, em 21 de janeiro, um novo vídeo foi publicado com o título “Message to Scientology”55, assinado somente como “Anonymous”. O

vídeo possuía um discurso narrado por uma voz gerada virtualmente:

Hello, leaders of Scientology. We are Anonymous. Over the years, we have been watching you. Your campaigns of misinformation; your suppression of dissent; your litigious nature, all of these things have caught our eye. With the leakage of your latest propaganda video into mainstream circulation, the extent of your malign influence over those who have come to trust you as leaders, has been made clear to us. Anonymous has therefore decided that your organization should be destroyed. For the good of your followers, for the good of mankind—and for our own enjoyment—we shall proceed to expel you from the Internet and systematically dismantle the Church of Scientology in its present form. We recognize you as a serious opponent, and we are prepared for a long, long campaign. You will not prevail forever against the angry masses of the body politic. Your methods, hypocrisy, and the artlessness of your organization have sounded its death knell. You have nowhere to hide because we are everywhere. We cannot die; we are forever. We’re getting bigger every day—and solely by the force of our ideas, malicious and hostile as they often are. If you want ano ther name for your opponent, then call us Legion, for we are many.

Knowledge is free. We are Anonymous. We are Legion. We do not forgive. We do not forget. Expect us. (STRIKER, 2011, p. 242 e

243)56

55 Tradução livre: Mensagem para a Cientologia.

56 Tradução livre: Olá, líderes da Cientologia. Nós somos anónimos. Ao longo dos anos, temos observado vocês. Suas campanhas de desinformação; sua repressão da dissidência; sua natureza litigiosa, todas essas coisas chamaram nossa atenção. Com o vazamento de seu vídeo mais recente de propaganda em circulação popular, a extensão de sua influência maligna sobre os que confiam em você como líderes, ficou clara para nós.

Anonymous decidiu que sua organização deve ser destruída. Para o bem de seus seguidores, para o bem da humanidade e para o nosso próprio prazer, vamos expulsar vocês da Internet e sistematicamente desmantelar a Igreja da Cientologia na sua forma atual. Nós reconhecemos você como um adversário sério, e estamos

preparados para uma campanha longa, longa. Vocês não vão prevalecer para sempre contra as massas furiosas do corpo político. Seus métodos, hipocrisia e ingenuidade da sua organização soaram como a sua sentença de morte. Vocês não têm onde se esconder, porque estamos em todos os lugares. Nós não podemos morrer, somos eternos. Estamos ficando maior a cada dia e unicamente pela força de nossas ideias, maliciosas e hostis, como muitas vezes elas são. Se vocês quiserem um outro nome para o seu oponente, pode nos chamar de Legião, porque somos muitos.

O conhecimento é livre. Nós somos anónimos. Nós somos legião. Nós não perdoamos. Nós não nos esquecemos. Esperam de nós.

81 A imagem de “hackers com esteróides” já não fazia mais sentido para descrever o Anonymous, que passou a figurar na mídia como um grupo pseudo político de usuários de internet que se mobilizou em busca de uma causa mais nobre e poética como a liberdade de expressão. Com isso, um número maior de pessoas passou a se engajar com a causa, querendo fazer parte de tudo aquilo.

Quando optaram por usar a máscara de Fawkes para esconder seus rostos no protesto que ganhou as ruas, facilitaram muito o papel da mídia em associá-los ao enredo do filme V de Vingança. Anonymous agora possuía objetivos, era anárquico; qualquer um poderia se tornar parte do coletivo e ir às ruas protestar por um mundo melhor e livre de qualquer forma de censura.

Diante de toda a cobertura feita pela imprensa, principalmente da TV, o evento se tornou global e protestos internacionais fora dos centros de Cientologia foram realizados no dia 15 de março atraindo milhares de pessoas em todo o mundo para protestar contra as práticas da igreja. Cidades como Boston, Dallas, Chicago, Los Angeles, Londres, Paris, Vancouver, Toronto, Berlim e Dublin tiveram protestos simultâneos que resultaram em uma participação estimada entre 7 e 8 mil pessoas57.

Figura 17: Diversos manifestantes ocupando a porta de uma Igreja de Cientologia com a máscara de Fawkes.

57 Disponível em <http://www.news.com.au/technology/second-round-of-anonymous-v-scientology/story- e6frfro0-1111115818537>. Acesso em 16 de abril de 2012.

82 Defender que não havia a presença clara de um líder fazia com que mais manifestantes mascarados distribuíram panfletos e exibissem placas na porta das seitas tornando aquela a sua causa. A classificação como não hierárquico, independentemente de ser ou não realmente organizado, forneceu aos Anonymous uma maior facilidade de engajamento. Os americanos, e não só eles, estavam cansados de cumprir ordens de seus superiores, sejam chefes, familiares ou quem quer que seja. Poder fazer parte de algo que não havia líderes era a oportunidade de vestir a camisa de uma ideia muito vendida pela mídia hegemônica: a liberdade. Nas manifestações, fizeram discursos, recrutaram novos membros e obtiveram destaque na imprensa; concedendo entrevistas e sendo noticiados, em suma, atuaram em uma experiência digna de um filme de Hollywood. Ao final dos protestos, os manifestantes cantaram a música de Rick Astley, chamada Never Gonna Give You Up, de 1987, um dos

memes mais famosos do 4chan.

Esta ação foi um marco para o Coletivo Anonymous que passou a assumir uma nova imagem midiática, levando o coletivo às manchetes de jornais e revistas de todo o mundo, atribuindo um caráter pseudopolítico, nunca declarado oficialmente, às suas operações. Agora a imagem do Anonymous já era conhecida globalmente e com isso, um número maior de causas foi defendido em nome do Coletivo. Casos como a denúncia de tortura de animais também foram combatidos por anons, como o do garoto de 14 anos de Oklahoma que postou dois vídeos no YouTube, em fevereiro de 2009, torturando um gato. Seguidores da ideologia anônima identificaram o garoto, conseguiram seu endereço e informaram à polícia local (STRIKER, 2011, p. 251).