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Beskrive av valgt konseptuell løsning med anbefaling

VIII. Nomenklatur / Forkortelser / Symboler

2.2 Konseptfasen

2.2.6 Beskrive av valgt konseptuell løsning med anbefaling

Antes de retornar a campo em janeiro de 2010 pude acompanhar os jornais da cidade de São Luís a fim de tomar conhecimento das transformações que ocorriam no universo dos pescadores do Boqueirão, uma vez que a concessão da licença ambiental já havia sido obtida pela empresa.

Os dados fornecidos pelos jornais informavam que o grupo identificado pela empresa contava com a presença de cinquenta e quatro pescadores como beneficiários da atividade da pesca. A medida de compensação já havia sido eleita e aplicada no final de 2009, sendo expressa por meio de auxílio financeiro mensal, que varia de um até três salários mínimos,

limitado ao período de execução da obra (2 anos e 7 meses). Além disso, a entrega da bolsa está submetida ao ingresso dos pescadores em cursos oferecidos pela empresa por meio de parcerias com outras instituições. Os jornais também informavam que a área de pesca havia sido restringida. Fiz contato com o presidente da Colônia Z-10 Almirante Barroso, ele informou-me que estava movendo um processo contra a empresa.

Retornei a campo a fim de investigar não apenas possíveis comportamentos de resistência, mas também a elaboração de novos projetos de vida frente à possibilidade de interdição da pesca.

 

Figura 14 Av. Dos Portugueses em direção a Praia do Boqueirão

Meus acessos à Praia do Boqueirão se deram por meio do transporte coletivo vivenciei, portanto, as dificuldades enfrentadas pela população que depende desse veículo. Além da longa espera, há sempre lotação nos terminais. Aliado a isso há apenas um único ônibus que parte do Terminal Praia Grande, localizada no Centro Histórico de São Luis em direção à Praia do Boqueirão.

Após 13 meses de distância absoluta do local e dos pescadores cheguei a Praia e encontrei o casal que havia acompanhado na pesca em 2008 Sr. Hugo e sua esposa, fui alegremente surpreendida ao ser recebida literalmente de braços abertos. O Sr. Hugo chegou a dizer que sua esposa havia falado de mim pela manhã. Convidaram-me para tomar um café em seu rancho e, enquanto caminhávamos, chegou um dos pescadores mais antigos osr. Thiago que para minha surpresa chamou-me pelo meu nome.

Tendo em vista que, para a realização da pesquisa nos moldes que eu havia eleito da pesquisa etnográfica e pesquisa-ação, o estabelecimento de vínculos com o grupo a ser

estudado é condição sine qua non para o seu desenvolvimento. Dessa forma, foi uma grata surpresa ser recebida da forma que fui pelos pescadores. Pareceu-me que da mesma forma que eles, os pescadores, haviam marcado a minha trajetória eu também havia marcado a deles assim, o passaporte que se configura, por meio do vínculo entre pesquisadora-pesquisado garantindo a continuidade da pesquisa, havia sido emitido.

 

      Figura 15 Praia do Boqueirão

Naquela manhã ao sentarmos para tomar o café, disse a eles o motivo de minha visita, explicando que realizava uma pesquisa em Psicologia Social e que meu objetivo era o de investigar como estava a situação dos pescadores do Boqueirão em relação à medida aplicada, como estavam avaliavam a medida, como estava a pesca, enfim, quais as mudanças que haviam ocorrido desde minha partida em 2008 e, também, se tinham projetos para o futuro. Compartilhei com eles que havia lido nos jornais sobre as notícias do Boqueirão, disse também que gostaria de poder registrar e analisar, bem como para ajudá-los – naturalmente naquilo que estivesse ao meu alcance. Eles disseram que haviam entendido, dispondo-se a conversar comigo e responder perguntas. Enquanto conversávamos mais pescadores chegaram e aproximaram-se de nós.

De início, contaram do acordo feito com a empresa, relatando que o grupo de pescadores do Boqueirão havia sido dividido em três subgrupos variando, dessa forma, o valor da bolsa. Disseram-me também que estavam cansados de assinar papéis:

“Todo mundo vem aqui mandar a gente assinar e vai embora, ninguém explica nada, na hora da reunião é a maior confusão, ninguém entende nada...depois entende mas, já não dá mais tempo de dizer”.sr. Thiago.

A fala do pescador releva seu sofrimento, em ser desconsiderado num acordo, sente-se lesado por ser “obrigado” a assinar um documento cujo conteúdo não havia entendido a priori. Esse sofrimento é entendido como sofrimento ético-político, termo cunhado por Sawaia (1999), que implica na forma que o sujeito é tratado na sua relação com outra pessoa, cuja dinâmica é definida pela organização da sociedade.

Considerando que grande parte desses pescadores construiu sua vida na Praia do Boqueirão, pelo prisma do sistema vigente eles estão localizados numa esfera a margem da sociedade. Pois, muito embora, tenham desenvolvido um sistema que possibilitou sua existência em perfeita harmonia com o meio ambiente, não se pode desconsiderar que foram privados dos serviços básicos oferecidos a todo e qualquer cidadão, entre esses destaco a educação formal, a possibilidade de aprender a ler e, igualmente, de poder tecer uma leitura crítica de sua vida. Nesse sentido, os pescadores do Boqueirão desprovidos de sua capacidade de leitura e submetidos à pressão da expansão do sistema capitalista sofrendo mudanças radicais em sua organização, não encontrando possibilidades de enfrentamento. Na medida em que não sabem ler os documentos estão a mercê de quem colhe sua assinatura. Assim, defendo que o pedido de assinatura, a partir das palavras do pescador Thiago, configurou-se como um comportamento agressivo que compõe o fenômeno do sofrimento ético-político, “revela a tonalidade ética da vivência cotidiana da desigualdade social” Sawaia (1999, p.104).

Diante dessa manifestação avaliei que não seria oportuno pedir que assinassem o termo de consentimento para a realização da pesquisa, uma vez que a autorização verbal já havia sido dada. Além do mais, como pesquisadora bolsista da CAPES e como mestranda inscrita no Programa de Pós Graduação da PUC é meu dever assumir uma postura ética e respeitar a comunidade que está contribuindo com o meu trabalho.

Dando continuidade a conversa da praia os pescadores reclamaram também da oferta da bolsa vinculada ao ingresso do grupo em cursos oferecidos por instituições parceiras, cursos que não lhes interessavam. Aliado a isso, relataram seu desagrado por receberem bolsas de valores diferentes por critérios desconhecidos.

“Tem gente que está recebendo três salários e nem pesca aqui e nunca pescoutem gente que nasceu aqui é Filho do Boqueirão e está recebendo um salário...”sr. Juca.

Questionei o porquê da diferença de valores, mas eles não souberam explicar. Indaguei sobre quais eram as temáticas ou conteúdo dos cursos, e, também não souberam dizer.Torna-se evidente na fala dos pescadores o sentimento de prejuízo em virtude das medidas eleitas e, igualmente, por serem desconsiderados no processo de decisão de suas vidas a beira-mar.

De acordo com, Furtado (2002), a realidade é um processo historicamente determinado, sendo assim, a configuração subjetiva é produzida a partir de um processo dialético por meio da objetivação e subjetivação.

Em princípio me pareceu que estavam todos insatisfeitos com as medidas aplicadas pela empresa. Primeiro em decorrência da alternância de valores, segundo pelo fato de não saberem os nomes do curso, nem tampouco os conteúdos, dessa forma, presumi, para depois investigar, que os cursos oferecidos eram privados de sentido aos pescadores do Boqueirão, isto é, não enxergavam aplicabilidade dos conteúdos em seu mundo concreto.

No entanto, o sr. Hugo relatou que a medida expressa pela oferta financeira era bem aceita pois, mesmo recebendo o dinheiro da empresa, ainda não estava proibidos de pescar. Dessa maneira, todo o dinheiro oriundo da bolsa estava sendo poupado com o objetivo de se adquirir um barco, para que quando a pesca findasse, ele pudesse realizá-la em alto mar. Desta maneira, o sr, Hugo tinha elaborado um projeto de vida pós pesca no Boqueirão. Enquanto que o pescador mais velho, seu Thiago, entretanto, disse que não concordava com a medida aplicada pela empresa, julgando-a injusta. Além disso, relatou que ele e outros dois pescadores haviam sido chamados para negociar com a empresa de forma diferenciada, já que seu local de pesca coincidia com a área em que a empresa, para realizar a obra, precisava passar com uma draga. Assim, foi oferecida a cada um desses três pescadores a quantia de R$6.000,00. Embora os outros dois pescadores já tivessem acordado com a empresa a forma de pagamento dessa indenização, seu Thiago argumentava:

“Se a Vale esta tirando meu modo de vida, tem que me garantir outro, assim tem que me pagar R$170.000,00 e aí eu consigo viver, vou montar um restaurante para viver com a minha mulher...mas, sabe depois que a Vale começou a distribuir dinheiro, mudou tudo...”. sr. Thiago, 69 anos.

Deste modo, o sr. Thiago também apresentava seu projeto de vida, gostaria de estar junto de sua esposa e montar um restaurante para garantir sua sobrevivência uma vez que, a pesca no Boqueirão, de acordo com o conhecimento empírico do grupo estaria prejudicada.

Entretanto, a inserção de valores financeiros na vida dos pescadores implicou na alteração das relações sociais dentro do grupo.

O desenraízamento causa terríveis males e, portanto, é considerado doença por Simone Weill (1979) sendo causada pela dominação via processos de colonização territorial ou via em processos que o dinheiro se faz presente, pois na medida em que ocorre sua circulação “é

capaz de penetrar as raízes substituindo todos os motivos pelo desejo de ganhar mais” Os

pescadores verbalizavam a mudança nas relações sociais dizendo que aqueles que recebiam bolsa de maior valor não estavam dispostos a se unirem com os que recebiam menor valor. O sr. Thiago repetia que a alteração física da praia implicava, necessariamente, na destruição da pesca e, portanto, de seu modo de vida e, por conseguinte, em sua própria destruição.

Fiquei muito interessada e, igualmente, curiosa por entender quais eram os motivos que faziam com o que o senhor Thiago assumisse uma postura divergente do grupo. Levei em consideração a idade dos presentes, o senhor Thiago com 69 anos dizia não ter mais condições físicas para aprender a pescar em alto mar, fato que segundo, o pescador, não havia sido considerado pela empresa e tampouco pelos outros dois pescadores que embora também estivessem em idade próxima a de sr. Thiago “não resistiram quando viram o dinheiro” . O sr. Hugo, mais jovem, que ele teria condições de iniciar uma nova jornada profissional, vislumbrando a possibilidade de realizá-la a partir da pesca em alto mar.

Entretanto, na proposta apresenta pelo sr. Hugo reside uma característica que parece ter sido desconsiderada. A pesca em alto mar requer uma mudança radical no estilo de vida dos pescadores artesanais pois, na medida em que os tira de um cenário de subsistência os conduz a um cenário industrial construído nos moldes capitalistas, portanto, em prol do lucro. Assim, o pescador diante da imposição de um novo cenário marcado, pela hegemonia do capital, não considera que essa alternativa, apresentada para fugir das pressões capitalistas pode se configurar as avessas.

Nesse sentido, as preocupações futuras pareciam ser modeladas a partir das particularidades de cada pescador. Desse modo, se num primeiro momento, na ausência da oferta financeira eles haviam conseguido reunir algumas reivindicações que beneficiariam a coletividade como o fornecimento de água tratada, nesse segundo contato, as reivindicações apresentavam-se de forma individualizada de acordo com as particularidades que cada pescador vislumbrava em um novo universo, mais particular e, portanto, mais distante da história da coletividade que havia encontrado em 2008.

Assim, é interessante analisar as contradições do sistema visto que os pescadores, embora privados do acesso de serviços básicos não se percebem excluídos do sistema mas, lado-a- lado, pois conseguiram perpetuar um estilo de vida fundamentado numa atividade que independe da economia globalizada. Dessa forma, as crises do capital que atingem de alguma forma a todos que estão incluídos nesse emaranhado de redes que configura a economia globalizada não atinge os pescadores pois, eles estão protegidos dessas teias. No entanto, na medida em que o capital mostra-se de forma imperiosa e avança no território a medida de compensação ao impacto social oferecido ao grupo não poderia ser de outra ordem que não a do capital, pois é a partir dessa lógica que ela é pensada. Como resultado os pescadores são inclusos no sistema que instantaneamente os exclui, trata-se, portanto, mais uma vez da manifestação do fenômeno denominado de inclusão perversa por Sawaia (2010).

O fenômeno da exclusão é apresentado pela autora pelo prisma da injustiça social ultrapassando, portanto as esferas de pobreza e discriminação. A Sawaia (2010) autora defende a exclusão como um “processo complexo e multifacetado, uma configuração de

dimensões materiais políticas, relacionais e subjetivas, sutil e dialético que só existe em relação à inclusão como parte constitutiva dela”

Nos próximos dias em campo os pescadores relataram repetidas vezes que a organização social do grupo havia sido alterada em função da distribuição arbitrária de bolsas financeiras de distintos valores aos pescadores identificados na praia. E, da mesma forma passaram a repetir que não estavam contentes por serem obrigados a cursar e concluir cursos que não lhe despertava interesse.

“A gente estava aqui na praia pescando aí vem a Vale de novo, tirar a gente da nossa pesca, da nossa praia...paga mais pra quem não é daqui e menos para quem é daqui...não ouve o que a gente tem pra dizer... e ainda a gente obrigada a gente a fazer curso se a gente faltar perde a bolsa...agora a gente tem que ficar fora da nossa praia, mas nem perguntou se a gente nem sabe ler” João.

O sr. Juca validou a fala de seu companheiro sr. João e prosseguiu destacando que os impactos que havia sofrido na década de 1970, anunciou também que o senhor Hugo era bastante jovem na época em que a empresa havia se instalado no Boqueirão e, por isso não podia se recordar com a riqueza de detalhes que ele próprio se recordava a ponto de não querer vivê-los novamente. O pescador demonstrava sinais de tristeza ao falar sobre a

transformação concreta na praia e, assim, convidou-me para andar à beira mar e observar os sinais da obra. Naturalmente aceitei o convite e outros pescadores nos acompanharam.

 

Figura 18 Praia do Boqueirão. Outubro de2008        Figura 19. Praia do Boqueirão. Janeiro de 2010. Decidi colocar ambas as figuras lado a lado, pois embora não tenham sido registradas exatamente do mesmo ponto acenam para a mesma direção. Dessa forma, o leitor pode constatar a transformação no cenário local. A ameaça de destruição do cenário físico já estava materializada, portanto, não era mais ameaça, da mesma forma as relações sociais haviam se transformado.

Enquanto caminhávamos, o pescador Thiago narrou histórias vividas à beira mar. Contou de seu casamento, de como havia conhecido sua esposa, dona Ana,citava também o nome de seus companheiros, inclusive, o nome do pai do pescador presente na caminhada.Outros pescadores aproximaram-se e prosseguiram a conversa trazendo dados que complementavam a fala de sr. Thiago.

Nas narrativas dos pescadores era anunciado o sofrimento em virtude da alteração física do espaço e o que isso lhe representava. Ou seja, além das questões vivenciadas no passado em virtude do re-assentamento, a relação que desenvolviam com a natureza era marcada pelo sentimento de pertencimento, no sentido de depositar nessa uma qualidade simbiótica. São diversos os personagens folclóricos os quais os pescadores recorrerem para apresentar o universo de seu trabalho bem como suas crenças e seus conhecimento, isto é, seu mundo objetivo e subjetivo. Quando avistavam marcas da destruição na praia pareciam absorver essa destruição, como destruição deles próprios, não apenas em decorrência da relação de integração com a natureza mas, também por seu histórico vivido a beira-mar. Ao contrário da Companhia, defendem de forma unânime que a pesca será finalizada pois, em

virtude da diminuição do pescado não terá mais peixes para todos. Preocupam-se com o futuro, sentem-se desprotegidos e ameaçados.

“É triste ver o Boqueirão assim, aqui tudinho tinha casa de pescador e criança correndo e agora...estão acabando com o mar...eu não sei como vai ser, mas desse jeito vai acabar tudo, primeiro foi o píer I depois o II, o III e agora IV vai acabar tudo, e ninguém pode ajudar a gente...também não espero nada da Vale não espero de Deus...”Zé de Souza.

Em alguns instantes eu percebia o comportamento dos pescadores pelo viés fatalista e mesmo de desamparo, argumentam que nada podem fazer, não atribuem ao momento presente como algo decorrente de um destino pré-determinando, porém falam de sua impotência diante da força empresa. Tendo em vista a realidade do grupo marcada por um histórico de privações, aliada a presente fragmentação do grupo, as circunstâncias concretas, de fato, configuravam-se de forma bastante adversas. Entretanto, considerando que na modalidade da pesquisa-ação eu tinha espaço para colaborar com a transformação do grupo incitei-o a buscar ajuda jurídica nas universidades, partilhei com eles as minhas incansáveis tentativas de buscar parcerias e repetidamente dizia a eles sobre a necessidade de unir o grupo, de resgatar os laços colaborativos que marcavam a atividade pesqueira e, da mesma forma, o registro do grupo no Boqueirão. Eles sempre me ouviam atentamente, concordavam comigo mas, não acreditavam na possibilidade de mudança depositando muitas vezes em mim a responsabilidade de transformar o grupo, pois, embora eu estivesse presente no dia-a-dia do grupo participando de suas atividades eu era uma pessoa de fora, a quem eles atribuíam respeito e ao mesmo tempo expectativa. Eu sempre repetia que podia ajudar em tudo que estivesse ao meu alcance mas, que não poderia fazer as coisas sozinhas, que precisava da parceria deles. Argumentava que nossa relação tinha que ser construída na parceria e não na dependência, eles concordavam verbalmente com as minhas palavras, mas, não concretizavam ações em virtude, em minha opinião, porque já vislumbravam a transição do cenário em que viviam “protegidos” do sistema a um cenário que os incluiria para excluí-los, essa composição lhes garantia uma condição de existência em que se encontram “fixados em modo rígido de estado físico e

mental que diminui a potência de agir em prol do bem comum” (SAWAIA, 1999).

Em vários encontros fui convidada para fazer refeições como grupo, ora almoços, ora cafés da tarde assim, fui conhecendo um número cada vez mais elevado de pescadores que às vezes nos surpreendiam com sua presença meio as refeições que partilhávamos. Sempre que

possível expunha o motivo de minha presença, quando por ventura eu não dizia, alguém do grupo se encarregava de anunciar minha presença bem como meus objetivos.

Em uma das ocasiões enquanto aguardávamos pelo almoço os pescadores começaram a discutir a indenização que o senhor Thiago havia solicitado a empresa em decorrência de sua armadilha de pesca estar localizada na rota da draga, um deles dizia:

A rede de Thiago não vale R$170.000,00 ele sabe disso, a Vale quer pagar R$6.000,00 e ele por que é bobo, por que a rede não vale nem R$ 6.000,00 vai acabar ficando sem nada...é isso que vai acontecer...sr. Ze de Souza

Os demais ficaram em silêncio concordando com movimentos com a cabeça intervi argumentando que o valor que sr. Thiago cobrava da empresa não estava limitado ao material de sua rede, mas sim ao que a interdição da pesca representava, isto é, aoestilo de vida que mantinham no Boqueirão. Assim, questionei os pescadores presentes acerca do valor que atribuíam a suas vidas. O pescador prontamente respondeu-me que sua vida não tinha valor financeiro e os demais concordaram. E continuou:

“Minha filha minha vida não tem dinheiro que pague, mas se fosse na minha área, já tava com o dinheiro no bolso, por que se ele não aceitar o que eles estão falando ele vai acabar sem nada, eu sei o que estou dizendo minha filha”.

Fundamentam suas ações a partir de um sentimento marcado pelo fatalismo, eu conseguia compreender embora não concordasse com a lógica que eles defendiam para garantir “ao menos algum dinheiro”. Porém, há de se considerar que essas ações eram tecidas a luz do cotidiano e sua superação implica um avanço além do cotidiano. A partir das