VIII. Nomenklatur / Forkortelser / Symboler
1.4 Metode
“Algumas coisas são eternas e imutáveis por algum tempo.” (BYSTRINA) A velocidade e a aceleração do tempo é uma das principais característica da mídia terciária e foi atenuada no que se chamou de cibercultura. O cibermodismo lança tendências que passam a ser eternas durante um curto período de tempo. Tudo na internet é eterno e imutável por um tempo, um tempo que, muitas vezes, não nos damos conta de que acabou antes mesmo de começar. Presentificamos o futuro, e vivemos nessa imagem de futuro ultrapassado.
O Coletivo Anonymous foi algo que começou como uma ideia de um pequeno grupo de usuários de internet, dentro do imageboard 4chan, que foi apropriado pela mídia. O que começou como algo em busca de diversão, acabou se transformou na imagem de um enorme coletivo ciberativista de cunho político.
Percebemos que, com o fato de a mídia ter tomado o Coletivo para si, atribuiu uma série de características do filme V de Vingança, transmitindo uma nova experiência midiática para quem quisesse fazer parte daquele coletivo. As pessoas iriam para as ruas protestar não contra alguma coisa, mas para experimentar atuar como um personagem de um filme de Hollywood.
Dessa forma, pudemos perceber o ciberativismo como, além de uma mera imagem do ativismo, um discurso midiático, uma fantasia. A sincronização executada pela mídia gera, acima de tudo, previsibilidiade. E toda previsibilidade gera controle. Tudo o que foi chamado de protesto feito dentro da internet, ou ciberprotestos, não passam de meras imagens de protesto que vão desaparecer antes de piscarmos e se, na pior das hipóteses, causarem conseqüências indesejáveis ao mundo real, podem ser controlados apenas com o apertar de um botão.
Por isso, não se pode tratar como ativista todos aqueles que mudam seus avatares ou compartilham fotos relacionadas a protesto pelo simples fato de fazê-lo. No Facebook é comum vermos uma infinidade de usuários postando mensagens de protesto em meio a
103 imagens de gatos ou outros assuntos banais, porém, nenhum deles levantará de sua cadeira para levar o assunto a diante. Sob hipótese alguma isso pode ser considerado como protesto.
Trocar a foto do perfil de alguma rede social por uma máscara de Fawkes, ou postar fotos com mensagens de protesto, pode até trazer um sentimento de dever cumprido, do “fiz minha parte”; ao usuário, porém, não significa absolutamente nada, muito menos qualquer envolvimento com causas ativistas.
Figura 32: Figura utilizada no Facebook por usuários que “querem o fim da corrupção” através do botão “curtir”
Clicar no botão curtir não é um protesto e não modificará em nada a realidade. O único botão que realmente faz a diferença é aquele capaz de cortar a energia elétrica de uma sociedade. Basta desligar um botão para que tudo se apague. Não existe nada mais fácil no mundo do que destruir a internet.
Além disso, apesar de a internet parecer uma técnica que permite uma comunicação mais livre, ela também acaba trazendo também um maior controle. É muito mais simples controlar uma manifestação, independentemente de qual seja ela, através da internet do que em uma praça pública.
104 Dessa forma, nos atentamos para o fato de que a forma como o Anonymous é noticiado mais parece uma sedação social, uma possibilidade de controle. Essa imagem midiática construída para o Anonymous que vemos hoje, mais se parece com uma materialização do filme V de Vingança, sem os efeitos especiais de Hollywood. Fazer parte de Anonymous torna o usuário de internet como ator do filme e lhe permite achar que toda e qualquer ação que cometa na internet vai acabar modificando a realidade, o que não acontece.
“A construção midiática da realidade, a partir das quais cresce o entendimento, por exemplo, de que só o global pode representar o local, só o futuro antecipado pode representar o presente e só o virtual é realidade” (PELEGRINI, 2008, p. 25). Tudo o que vivemos é mediado, por isso, a verdade torna-se relativa e a realidade subjetiva.
Dizem-se livres, mas todo e qualquer usuário da Internet está sob forte censura, principalmente do ponto de vista comercial. A internet é panóptica. Tudo o que é feito dentro da rede mundial de computadores deixa registro, não existe qualquer forma de anonimato. Por isso, não se pode encarar a internet como a solução de todos os problemas já que ela somente soluciona os problemas que ela mesma trouxe a sociedade.
Isso tornou-se mais claro no dia 26 de novembro de 2012 quando a ferramenta de busca Google ficou fora do ar e instável por algumas horas. Os usuários de internet se perderam em sua navegação cotidiana já que não podiam procurar no Google as respostas daquilo que estava acontecendo com o próprio Google. Hoje, os mecanismos de busca, principalmente o Google, funcionam como uma espécie de deus: é onipresente e parece possuir, dentro de si, “todo o conhecimento da humanidade”. “A internet e sua feição dromocrática se fazem por meio de incorporação da onipotência do poder dromocrático” (MIKLOS, 2012, p. 79).
Google é a coisa provada científicamente mais próxima da onisciência, ao indexar 9,5 bilhões de documentos on line; Google é onipresente, você consegue acessar de qualquer lugar; Google responde às suas dúvidas; Google é imortal. Não é orgânico, seu algoritmo pode sobreviver por séculos, apenas mudando de servidores; Google é infinito. Pode crescer infinitamente, apenas ligando mais computadores a ele; Google lembra-se de tudo e de todos. Suas opiniões expressadas na internet, pode vir parar dentro do Google e serem lembradas para sempre; Google é benevolente. Faz parte da filosofia da empresa fazer dinheiro sem praticar atos danosos; O nome “Google” é mais procurado pela humanidade que os termos “Deus”, “Jesus”, “Buda”, “Alah”, “Criatianismo”,
105
“Islamismo”, “Judaísmo”, juntos; É abudante as evidências que Google existe.98 (Apud MIKLOS, 2012, p. 86).
Apesar de ser tão grande, a força de mobilização da internet ainda é muito pequena se comparada com a da televisão. As mobilizações somente ocorrem em grande escala quando disseminada através de dispositivos do século XX, pré-internet. São infinitas as manifestações que se organizam na internet para tomar as ruas e milhares de pessoas confirmam presença através das redes sociais. Porém, quando chega o dia da mobilização, o que realmente aparece não passam de dezenas, sendo que, desses, uma grande parte são curiosos.
O Coletivo Anonymous não é anônimo, já que toda a tentativa que se vê no grupo é a de se criar justamente uma identidade. Quando todos passam a utilizar a máscara de Guy Fawkes para fazer parte do grupo, deixam de lado sua identidade e passam a vestir uma nova personalidade no lugar de sua própria. Anonimato é justamente o oposto, quando cada um mantém a sua identidade e todos assumem uma mesma postura.
Notícias de que os Anonymous são contra a mídia são tão contraditórias quando a adoção da máscara de Fawkes como símbolo. Em primeiro lugar porque não faz sentido um grupo criticar a liberdade de expressão e também criticar um grupo de mídia, sendo o mesmo que tentar estabelecer uma censura. Depois, utilizar a máscara do filme V de Vingança, que já deixou de ser do Guy Fawkes, envolve pagar créditos de direitos autorais à Time Warner.
Até o presente momento constatamos que aconteceu com a cibercultura o mesmo que ocorreu com a modernidade: a promessa de liberdade submeteu-se à onipotência do capital. Dessa maneira, a promessa da cidadania democrática que exige que os cidadãos estejam informados para que possam opinar e intervir politicamente transformou-se em mercadoria subordinada aos interesses do grande capital presente na mídia. (MIKLOS, 2012, p. 106)
Ratificando, o Anonymous, como é midiatizado hoje, é uma imagem meticulosamente construída pela mídia. E essa imagem ainda continua sendo desenvolvida e readaptada de acordo com as necessidades midiáticas. Publicações de cunho político de esquerda, colocam Anonymous como um grupo contra o capitalismo, tal que o discurso midiático sempre utilizar-se-á dessa imagem do ciberativismo contra seus próprios demônios.
Porém, nada pode ser comparado à ciberguerra citada por VIRILIO (2000). Vende-se uma guerra que não existe, pelo menos não da maneira como é exposto pela mídia
106 hegemônica. O que VIRILIO (2000) chamou de ciberguerra não tem qualquer relação com o que é associado ao Coletivo Anonymous pelas mídias de massa. A real guerra está na
Deepweb, nas camadas mais baixas, onde poucos tem acesso, e que somente se tornará
107