VIII. Nomenklatur / Forkortelser / Symboler
2.3 Definisjonsfase
2.3.4 Justert designløsning med endrete parametere
Meu intento como pesquisadora foi o de buscar suporte metodológico que me permitisse contextualizar o cenário em que vive o grupo de pescadores artesanais, bem como registrar as transformações objetivas e subjetivas que decorrem da obra de implantação do píer IV. Nesse sentido, a apresentação da pesquisa conta com uma parte descritiva de elementos sociais e individuais, anunciados a partir das histórias de vida e do grupo.
O método eleito para realizar a pesquisa foi o da etnografia, também chamado de observação participante, que, aliado ao uso do diário de campo, compõe o conjunto dos instrumentos de coleta de dados de acordo com Guimarães (1990). O objetivo da pesquisa realizada nesses moldes está em conhecer a visão que os sujeitos estudados constroem a respeito de seu próprio mundo, isto é, seus valores, seu modo de vida, sua cultura. Para tanto, exige-se a presença da pesquisadora em campo, de forma que possa se inserir no contexto cotidiano do grupo a ser estudado. A partir da coleta de dados realizada segundo esse modelo, é possível a construção de hipóteses acerca do cenário estudado, bem como sua verificação. Também recorri à metodologia da pesquisa-ação de Thiollent (2007) que, igualmente, pressupõe a presença da pesquisadora em campo, permitindo, porém, que a mesma atue de forma a contribuir para a transformação do cenário.
Dessa forma, busquei alternativas para inserir-me, de acordo com os limites permitidos pela pesquisa acadêmica, no contexto cotidiano dos pescadores. Convivi com os pescadores artesanais tornando possível minha participação na realização de suas ações diárias, sem que para isso fosse necessário esconder meu posicionamento ou minhas inquietações a partir da realidade vivida e partilhada com o grupo. Acredito que, dessa forma, em parceria com os pescadores, construí um cenário espontâneo em que foi possível realizar a valiosa coleta dos dados.
Assim sendo, meu trabalho de campo configura-se como principal foco de coleta de dados para análise, sendo a conversa conduzida de modo informal ou por meio de entrevistas dirigidas, isto é, com roteiro pré-determinado de perguntas objetivas referentes a idade, sexo, escolaridade etc., correlata ao eixo central de análise, complementada pela observação participante, pelo diário de campo, bem como por registros fotográficos e filmagens. Alguns dos registros fotográficos eu mandei revelar e os ofereci como presentes aos pescadores.
Considerando-se que para a vertente da Psicologia Sócio-Histórica o homem é tido como ser sócio-histórico, fruto de seu desenvolvimento com o meio circundante, estudá-lo significa, portanto, observá-lo e analisá-lo em seu movimento histórico e social, que é marcado por mudanças. Assim sendo, o trabalho de campo foi dividido em três momentos distintos.
O contato inicial foi realizado entre os meses de outubro e novembro de 2008, ocasião em que se privilegiou a busca de dados quantitativos. O objetivo foi o de desenhar o perfil socioeconômico e, paralelamente, investigar a forma como as relações interpessoais do grupo estavam estabelecidas, bem como identificar o número de famílias que eram beneficiadas pela pesca na região da Praia do Boqueirão. Nesse primeiro contato, a obra ainda não havia sido implantada. Com isso, buscou-se também examinar quais medidas poderiam ser apresentadas como forma de compensar os impactos que seriam ocasionados pela realização da mesma.
O segundo momento em campo foi realizado entre os meses de janeiro e fevereiro de 2010, quando a licença ambiental já havia sido conquistada pela empresa. Sendo assim, a medida de compensação socioambiental já havia sido eleita e aplicada. Tal medida se expressou por meio da oferta financeira de bolsas, limitadas ao período da obra (31 meses) e submetidas ao ingresso e conclusão, por parte dos interessados, em cursos oferecidos por instituições parceiras. Dessa forma, nesse momento o objetivo foi o de investigar não apenas possíveis comportamentos de resistência, mas também a elaboração de novos projetos de vida frente à restrição da pesca na área. Para a realização da pesquisa hospedei-me no centro histórico da cidade e procurei estabelecer contatos com ONGs e conselhos municipais da cidade.
Meu propósito ao procurar ONGs e conselhos municipais estava em encontrar aliados para acolher e transformar a situação. Confesso que tinha dentro de mim um desejo enorme de transformar aquela realidade, que, a meu ver, já se revelava marcada pelo sofrimento. Assim, busquei contatos, desenvolvi estratégias para estabelecer parcerias com diferentes organizações. No entanto, em meio a incansáveis tentativas, compreendi que, naquele momento, era indispensável consolidar a parceria já estabelecida com o grupo de pescadores do Boqueirão, pois, sem essa, o desenvolvimento da pesquisa não seria possível e, inclusive, seria por meio dessa parceria que, de fato, eu poderia contribuir com o grupo - mesmo que minimamente, pelo menos em relação às minhas expectativas - na medida em que procurava
fomentar neles a possibilidade de transformação da realidade, vivida uma vez e já marcada pelo sofrimento.
Retornei do campo em fevereiro de 2010 sem ter estabelecido nenhuma parceria ou convênio na cidade de São Luís. Entretanto, ainda que geograficamente distante, mantive-me atenta a potenciais parcerias e não me restringi em estabelecer contatos limitados às fronteiras maranhenses. Mesmo em São Paulo busquei ajuda e, aos poucos, fui dando visibilidade e viabilidade à pesquisa. Assim, em meados de março recebi via correio eletrônico a divulgação do I Encontro Internacional de Comunidades Atingidas pela Vale, que seria realizado em abril, na cidade do Rio de Janeiro. O email não informava o local exato da realização do encontro, as informações indicando apenas os dias em que estariam reunidas diversas organizações para discutir os impactos que a mineradora vinha causando no mundo. Embarquei rumo ao Rio de Janeiro sem sequer ter o endereço do evento. Contudo, por incrível que pareça, uma sucessão de fatos extraordinários ocorreram em minha vida; o estabelecimento de uma rede de apoio mútuo, como aquela que é propagada pelo Movimento de Resistência Global, fez-se presente ao meu redor e, assim, tecendo com eles, consegui todos os dados que precisava para chegar ao Encontro.
No I Encontro pude conhecer diversas pessoas de diferentes nacionalidades: brasileiros, chilenos, canadenses, moçambicanos e um senhor da Indonésia. O objetivo de reunir todas essas pessoas era proporcionar, a partir da troca e do acúmulo de conhecimento, a divulgação dos fatos que vêm ocorrendo com a população e com o meio ambiente, fatos esses relacionados a empreendimentos da companhia e, da mesma forma, fazer conhecer os impactos gerados aos seus trabalhadores. Todos os depoimentos do Encontro estão expressos no Dossiê dos Impactos e Violações da Vale no Mundo14
. Diante daquela manifestação na qual eu havia me inserido, só pensava em como poderia ser transformadora para a vida da coletividade do Boqueirão a participação de ao menos de um dos pescadores naquele contexto que estava me transformando por completo. Experimentei a potência do encontro, do agir, pensar e existir, a possibilidade de perseverar em minha existência, como anunciado por Espinosa (1995).
Quando retornei a campo entre os meses de janeiro a fevereiro de 2011, pude realizar diversos contatos com profissionais de distintas áreas, podendo contar com o especial auxílio
14 Disponível em: http://atingidospelavale.wordpress.com/2010/04/27/dossie-dos-impactos-e-violacoes-da-vale-
dos professores Dr. Ricardo Franklin e Mestre Amilton Camargo, ambos da Universidade Federal do Maranhão – UFMA, e de suas alunas: Evelyn Costa, Elyoneide Lima, Gleiciane Costa, Larissa Rabello, Amanda Borba e Maiara Bentivi, que me acompanharam a campo.
Com o objetivo de investigar a perspectiva futura dos pescadores, bem como a elaboração de novos projetos de vida, busquei analisar não apenas as mudanças ocorridas entre fevereiro de 2010 e janeiro de 2011, mas também as transformações ocorridas durante o momento de pesquisadora em campo.
Diferente do que eu havia imaginado, a apresentação da pesquisa, bem como sua análise não seria tecida a partir da eleição de sujeitos emblemáticos, pois, no desabrochar do trabalho em campo, foi estabelecido contato com um número elevado de pescadores que contribuíram, cada um à sua maneira, para fornecer valiosos dados de sua realidade e, igualmente, das transformações oriundas de suas subjetividades. Assim, no esforço de apresentar ao leitor a configuração de distintas transformações no espaço sociocultural desse grupo e também o sofrimento partilhado por uma coletividade, a análise da pesquisa é tecida em paralelo à sua apresentação, não sendo evidenciadas características das histórias individuais, mas sim aquilo que diz respeito à coletividade do Boqueirão.
Muito embora o trabalho de campo tenha propiciado o contato com diversos pescadores, optou-se por priorizar a fala dos Filhos do Boqueirão em virtude de serem nascidos e criados na praia. Entretanto, também destacamos a fala de mais dois sujeitos, uma vez que se apresentam de forma diferenciada no contexto vivido, sendo considerados como importantes objetos de análise. Os Filhos do Boqueirão desenvolvem a atividade como forma de garantir sua sobrevivência. Assim, o pescado é direcionado para o consumo e o excedente é eventualmente comercializado.
Todos os sujeitos eleitos viveram o processo de reassentamento das famílias entre as décadas de 1970 e 1980, período em que a Companhia Vale instalou-se na região. Assim que foi liberada a pesca, os Filhos do Boqueirão retomaram a atividade e construíram, por meio de mutirões, seus ranchos, em princípio compartilhados. Os sujeitos apresentam idade acima de 67 anos. Tendo sido privados do acesso ao ensino formal, são analfabetos. Como estratégia, escolhemos não divulgar os verdadeiros nomes dos pescadores.