Ainda, na fase exploratória, realizei entrevistas focalizadas75, com a finalidade de obter informações pertinentes às características das mulheres romeiras participantes da Reunião das Três Horas. Estas entrevistas tiveram como objetivo levantar informações sobre local de procedência, dinâmica de visitação a Juazeiro, tempo de participação nessa reunião, assim como a motivação para participar da programação do evento. Esse instrumental, também, foi utilizado para entrevistar membros da Pastoral da Romaria, com o intuito de conhecer: a origem dessa reunião, as atividades da pastoral, a programação institucional das romarias organizadas pela Igreja Católica e para conhecer melhor o movimento romeiro, em Juazeiro do Norte. Tais
75 Esse tipo de entrevista é descrita por Gil (1999), Minayo (2009) e por Uwe Flick (2009) como um procedimento
da pesquisa qualitativa. Tem como objetivo enfocar uma temática específica, sendo apropriada para fase exploratória, porque permite explorar a opinião das pessoas sobre um determinado evento ou situação, concentrando-se no impacto do acontecimento para a pessoa entrevistada.
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procedimentos me ajudaram a olhar com mais clareza para o campo de pesquisa, a ajustar as lentes da investigação e situar-me com mais pertinência na situação investigada.
As entrevistas focalizadas de caráter exploratório foram pautadas por conversas, muitas vezes iniciadas em novembro de 2013, na Romaria de Finados, continuadas em fevereiro e setembro de 2014, gerando relatos da experiência romeira, que foram providenciais para a realização das entrevistas-narrativas. Portanto, de suma importância para a identificação das nuances entre as participantes, possibilitando a construção de um perfil inicial delas; além de terem possibilitado conhecer aspectos, ainda não percebidos da Reunião das Três Horas e do trabalho da Pastoral da Romaria.
As entrevistas com as romeiras aconteceram, no pátio da Basílica de Nossa Senhora das Dores, ao lado do Círculo Operário, espaço onde acontece a referida reunião, durante ou após o encerramento de sua programação. Aconteceram no “calor da hora”, ali no meio da movimentação das romeiras e romeiros: reunião acontecendo em clima de festa e acolhimento, pessoas entrando e saindo, dizendo “seja bem-vindo romeiro nesse encontro de irmãos”, se abraçando e se cumprimentando, saudando a Mãe das Dores e o Padrinho Cícero. Entre testemunhos, benditos e orações, emoção e fé se confundem, e a religiosidade pede passagem, de uma forma muito própria desse espaço. Em outros momentos, o que entra em pauta são denúncias e mobilizações da luta romeira, anunciando que a resistência é, também, uma pauta romeira. Nesse cenário de expressões religiosas e sociais, o apoio social, a evangelização e a celebração da vida convergem em prol do acolhimento à nação romeira, dando um tom místico ao encontro, que é, a um só tempo, singular-plural, intenso e complexo, por tudo que cria e mobiliza.
Foi diante desse cenário que fui identificando pessoas, falas e formas de expressão. Como meu interesse era conhecer a experiência sociorreligiosa de mulheres romeiras, busquei aquelas com um discurso que denotava uma participação mais engajada na reunião e que demonstravam uma prática romeira estabelecida.
Não foi difícil essa identificação. Seus testemunhos, normalmente, falam de suas experiências, dos aspectos vivenciados nos trajetos que fazem para chegar a Juazeiro, das graças obtidas e dos grupos e comunidades a que pertencem. Assim, fui conhecendo romeiras de várias localidades, com seus relatos marcantes que instigaram, mais ainda a minha vontade de conhecer suas trajetórias de vida.
Estas entrevistas focalizadas não tinham uma duração pré-determinada: umas foram mais rápidas e sucintas, outras foram longas e profundas, pois acabavam dando início a um relato de sua trajetória romeira. Muito embora elas se detivessem mais em relatos que expressavam as motivações para se tornarem romeiras, o que girava, quase sempre, em torno de milagres alcançados, e, por ter ouvido, de diferentes formas, o chamado de Nossa Senhora das Dores e do Padre Cícero, para virem a Juazeiro. Contudo, meu interesse nesse momento da pesquisa era, também, conhecer de onde elas vinham, de quais romarias elas normalmente participavam, há quanto tempo conheciam e participavam da Reunião das Três Horas e se elas tinham interesse e disponibilidade para participar da pesquisa. Estas eram as informações necessárias para a seleção das interlocutoras do estudo.
Apesar de esse ambiente não ser o mais adequado para a realização de entrevistas, devido ao barulho e agitação do local, favoreceu uma aproximação às romeiras que participam do evento. Tive, através dessas conversas, acesso a muitas histórias e indicações de nomes de outras romeiras que elas consideravam importantes, insistindo, muitas vezes, em que eu as conhecesse e as entrevistasse. A cada romeira que eu conhecia e ouvia um pouco de sua história, mais encantada eu ficava com o universo místico-religioso das romarias, como também fui percebendo o impacto do encontro romeiro, na trajetória sociorreligiosa dessas mulheres.
Iniciou-se, assim, uma relação de afeição com o campo de pesquisa, tanto em relação às romeiras quanto em relação à equipe da Pastoral da Romaria, especialmente com Irmã Annette, que acolheu prontamente a pesquisa, disponibilizando o espaço do encontro romeiro para eu interagir com as romeiras. Indicou romeiras para serem entrevistadas e informantes-chaves de sua equipe pastoral. Aceitou, também, participar da pesquisa, narrando suas experiências mais significativas e os aspectos fundadores da Reunião das Três Horas.
Admito que essa relação de afeição e proximidade contribuiu muito para o desenvolvimento da pesquisa, ao tempo em que me permitiu ficar mais à vontade, para compartilhar as vivências religiosas oportunizadas pelo campo, como os momentos de oração, cânticos, sensibilizações e evangelizações. Muitas dessas experiências me emocionaram, tocaram meu ser religioso, gerando identificações que me fizeram sentir fazendo parte daquele universo. Considero que fui beneficiada por esses laços de afeto e amizade, que foram se estabelecendo a cada romaria, como, também, pela vinculação que passei a ter à Pastoral da Romaria. Passei a participar de reuniões e eventos realizados pela pastoral; isso me possibilitou conhecer na prática o movimento romeiro, seu alcance e extensão, pela lente institucional.
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As condições de afetação que se estabeleceram, no trabalho de campo, favoreceram o andamento da pesquisa, porque geram confiança e aceitação. Quanto mais eu me deixava afetar, mais esses laços se estreitavam. Quanto mais eu rezava e cantava com as romeiras, mais elas confiavam em mim, mais compartilhavam detalhes de suas histórias, de suas percepções de mundo.
Das histórias a que tive acesso, nessa fase da pesquisa, duas me chamaram a atenção. Uma foi de Dona Lia; na verdade, seu nome é Maria Vieira76, porém é conhecida entre as romeiras e os romeiros por Lia, nome inspirado na história contada por Irmã Annette, nos encontros, contada e recontada pelos participantes da programação, como descrito na introdução. Dona Lia contou que já havia feito, duas vezes, o percurso de sua cidade para Juazeiro, a pé, inclusive em estado de saúde debilitado. Devido a ter adoecido, fez uma promessa que envolvia sua ida a pé, como forma de sacrifício em prol de sua reabilitação. Mulher simples, agricultora e aposentada, que afirma não saber ler e nem escrever, mas que, apesar disso, cria benditos sob o sol forte da roça, quando está trabalhando com seu marido. Esses benditos são memorizados e depois transcritos por seus filhos. Ela canta esses benditos, em um programa de rádio que apresenta e nos eventos de que participa. Essa história me marcou, tanto pelos ritos de sacrifício e devoção, quanto por uma fé que parece inabalável, mesmo diante das dificuldades da vida, além das expressões criativas. Infelizmente, só voltei a encontrá-la, no final da pesquisa; por isso, tive que descartar sua participação no desenvolvimento da pesquisa.
Outra história que me marcou foi de Dona Val77, por tudo que foi revelado, quase um desabafo em tom de confidência. Exercitei uma escuta sensível e acolhedora, numa conversa que deveria ser inicial e focada, porém se transformou num longo relato de mais de duas horas seguidas. Naquele dia em que nos encontramos, ela tinha passado por mais um episódio de agressão do marido, mas que, segundo ela, não a fez desistir de estar ali vivenciando o encontro com outras romeiras e romeiros, de expressar sua fé. Disse que já tinha sido pior, mas, diante de tantas promessas e orações feitas, ele estava, a cada dia, se transformando no marido que pediu e pede a Deus para ter.
76 Deixou registrado, oralmente, que permitia que eu usasse seu depoimento.
77Não divulgo seu nome, porque não assinamos o Termo de Consentimento Livre Esclarecido, e pelo teor das
informações uso uma abreviação de seu primeiro nome. Embora, na ocasião, ela tenha registrado oralmente que permitia que eu usasse seu depoimento.
Parecia uma necessidade para ela, dividir comigo esses acontecimentos. Aproveitando a relação intersubjetiva, estabelecida na entrevista, ela olhou para mim e disse “eu sei o que você quer. Você quer que eu conte minha vida; pois bem, minha história é longa, você quer ouvir?” Eu prontamente disse que sim, e ali, no entardecer de Juazeiro, comecei a ouvir sua narrativa, contada com precisão, com algumas pausas, diante da emoção sentida, porém de um enredo dramático e perturbador. Até aquele momento, eu ainda não tinha ouvido relato de violência doméstica, entre as romeiras; isso foi tão inesperado que, por vezes, fiquei tocada e ao mesmo tempo constrangida. Aos poucos, fui acolhendo num silêncio respeitoso sua dor, mas não deixei de me surpreender, pois, após o relato dos acontecimentos difíceis e dolorosos, ela suspirou, enxugou uma lágrima, olhou nos meus olhos e pegou na minha mão, dizendo: “apesar de tudo isso, nunca perdi a minha fé, eu sou feliz e tenho alcançado muitas graças em minha vida. Ele tem mudado, já não me bate mais. Agora, vou para onde quero, faço minhas romarias em lugares diferentes do País e vou com o que tenho, ele não me impede. Não paro nunca, participo da igreja, dos grupos de pastoral, vivo minha fé...”.
Também não encontrei mais dona Val, porém sua história fez-me pensar em aspectos que ainda não são falados em contextos romeiros, como a violência doméstica contra mulheres, crianças e idosos, assim como, doenças mentais, abandono e exclusão social. Essa história me anunciou a capacidade de resiliência de muitas mulheres romeiras, sua resistência diante de contextos vulneráveis e sua superação pela fé e devoção à Mãe das Dores e ao Padre Cícero. Reencontro esses aspectos nas narrativas biográficas das romeiras selecionadas para a pesquisa, que irei explorar na análise e interpretação de suas histórias de vida.
Além dessas, entrevistei, mais longamente, duas romeiras: uma de Pernambuco, Dona Severina Juana, que participa da Reunião das Três Horas, desde 2010. Geralmente vem a Juazeiro, nas três principais romarias, o que em suas contas ultrapassa cinquenta viagens. Outra de Sergipe, Dona Jaíra, romeira de tradição que se destaca por seu canto empolgado, durante as reuniões. Vem a Juazeiro principalmente na Romaria de Finados, diz que sua forma de rezar é louvando.
Diante de trajetórias tão ricas e recheadas de resistências e fé, tive vontade de trabalhar com todas, porém, devido a suas vindas a Juazeiro se restringirem à Romaria de Finados, ou por não se enquadrarem na programação da pesquisa, optei por construir a história de vida das romeiras de Alagoas, como descrevo no próximo item.
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