Apresento, nesta parte, como foi vivenciado o percurso metodológico da pesquisa e descrevo as etapas e os procedimentos do processo investigativo. Na condição de caminheira- pesquisadora, iniciei esse trajeto, com o intuito de compreender a construção da experiência sociorreligiosa das mulheres em romarias. Para tanto, fui identificando cenários e informantes, à medida que eu mesma vivenciava a experiência de estar em romaria.
Em busca de investigar as histórias de vida de mulheres romeiras, no contexto sociorreligioso de Juazeiro do Norte, elegi como método a pesquisa (auto)biográfica, com fundamento nas histórias de vida articuladas às observações etnográficas, que deram suporte às descrições dos cenários da pesquisa, inclusive os aspectos “imponderáveis da vida real”, ou
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seja, o que não pode ser registrado, de forma sistemática, por pertencer aos aspectos “ocultos” ou “submersos” das situações observadas.
Para compreender as experiências sociorreligiosas das mulheres romeiras, enquanto autoras de seus processos formativos, na “globalidade do ser, em todas as suas dimensões de ser-no-mundo [...] e de suas transformações”, tomei como referência o enfoque da formação experiencial como conceito básico das Histórias de Vida e Formação69. Essa abordagem de formação é baseada na descoberta e valorização da singularidade do sujeito, que tem, nas narrativas de si, uma forma de expressar sua individualidade, em articulação com o contexto coletivo, configurando, assim, as diferentes dimensões do indivíduo, o que pode revelar uma sabedoria de vida.
A pesquisa está inserida no campo da educação, entendido aqui como espaço de formação para além das dimensões formais, o que me possibilitou enfocar os saberes da experiência, a partir da compreensão de como as mulheres romeiras transformam, ao longo de suas trajetórias, os aprendizados sociorreligiosos em experiências formadoras de suas identidades e subjetividades. Assim, se evidencia a construção de si, através dos aprendizados mobilizados nesse contexto, que, ao serem expressos em narrativas biográficas, apontam para um cenário de formação e ressignificação de suas experiências religiosas.
Tomei como referenciais empíricos as experiências sociorreligiosas de mulheres romeiras, que participam da Reunião das Três Horas70, através, inicialmente, do acompanhamento de seus testemunhos e outras formas de participação nesses encontros. Foi, porém, através das entrevistas-narrativas que pude conhecer e compreender as experiências fundadoras e formadoras de suas trajetórias romeiras, a partir de suas próprias concepções e interpretações. Nesse sentido, a pesquisa é centrada na problemática do sujeito como produtor de conhecimentos e aprendizagens, o qual, ao ser mobilizado pelas experiências, pode construir sentidos e significados para o vivido (JOSSO, 2004).
Ressalto que a intenção da pesquisa foi utilizar as narrativas biográficas como instrumental de pesquisa e formação, por considerar que essa via propicia aprendizagens experienciais e favorece o processo de autoformação, como pontuado por Josso (2004 e 2010). Esse movimento de narrar a própria vida viabiliza a construção de conhecimento de si, do
69 Essa categoria teórico-metodológica foi apresentada por Josso em sua obra Experiência de Vida e Formação,
publicada no Brasil em 2004 pela editora Cortez e reeditada em 2010.
mundo e das relações, à medida que traz à tona as experiências fundadoras e formadoras da dinâmica existencial. Para Souza e Passeggi (2010, p. 12), “essa perspectiva de trabalho configura-se como investigação, porque se vincula à produção de conhecimentos, às relações do sujeito com a experiência: ter experiência, fazer experiência e pensar a experiência”, esse movimento autoformativo pode ser considerado como modos de elaboração da experiência.
Na pesquisa com as mulheres romeiras, esses aprendizados se dão, a partir das experiências sociorreligiosas vivenciadas por elas, na itinerância romeira, como foi possível perceber nas suas narrativas. Ao analisar essas narrativas, procurei relacionar esses três modos de elaboração da experiência com três categorias de análise e interpretação, que expressam a experiência sociorreligiosa vivenciada por essas mulheres: o ser romeira, o estar e o permanecer em romaria em correlação com o tornar-se romeira, o ser romeira devota e o fazer-se romeira devota e engajada. Estes são os marcos fundadores de seus aprendizados.
Portanto, na pesquisa realizada em contexto romeiro faz-se necessário “entender a experiência religiosa, na globalidade da experiência humana” (OLINDA; OLIVEIRA, 2016, p 21), remetendo-nos à perspectiva da historicidade e da subjetividade que as histórias singulares nos revelam, ao tempo em que apontam vivências totalizantes, enquanto vivências coletivas, como destacado por Ferrarotti (2014, p.46), ao tratar das especificidades do método biográfico, segundo ele:
A noção de práxis humana totalizante (que tiramos de Sartre, mas que reencontramos em Tarde e Simmel, para nos limitarmos a sociólogos) recusa- se a considerar os comportamentos humanos (atos, biografias) como reflexos passivos de um condicionamento que provém do geral, exprimem uma práxis sintética que desestrutura-reestrutura os determinantes sociais.
Essa perspectiva é revolucionária na pesquisa nas Ciências Sociais, pois coloca os sujeitos investigados no centro do processo, com papel ativo na construção das informações e conhecimentos; de sujeitos passivos, tidos como “objeto”, passam a uma atuação ativa e relacional, uma vez que “não temos um sujeito que conhece e um objeto que é conhecido. O observador encontra-se radicalmente implicado no campo do seu objeto” (FERRAROTTI, 2014, p.47).
Existe nesse movimento uma reciprocidade mediada pela interação entre observador e observado que pude constatar, na medida em que aprofundava o trabalho de
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campo e me implicava no cenário romeiro, deixando-me afetar e afetando essa dinâmica intersubjetiva: que é, a um só tempo, criativa e desestabilizadora, pois se move conforme o contexto vivenciado e as interações estabelecidas. Assim, dei-me conta de que, quanto mais eu me deixava ver, mais eu podia aprofundar o olhar em direção aos aspectos significativos das experiências narradas pelas romeiras.
Portanto, a escuta (atenta), diante da palavra dada (ABRAHÃO, 2014, p. 58 a 62), foi imprescindível para o processo de construção das histórias de vida delas. Nesse sentido, posso dizer que a escuta e a palavra dada são “dois constructos de inegável potência operativa” (ABRAHÃO, 2014, p. 61).
Além disso, o olhar etnográfico permitiu adentrar as características multidimensionais do espaço observado, possibilitando observar a dinâmica hodierna do movimento romeiro, em contraponto com as dimensões simbólicas e práticas de seus participantes. Busquei, assim, tornar inteligíveis as práticas sociorreligiosas manifestadas nesse espaço, visando a recompor a trajetória romeira, a partir da significação da experiência religiosa articulada com as vivências sociais.