Diante das entrevistas focalizadas, percebi algumas características marcantes entre as romeiras. Enquanto umas demonstravam atitudes de liderança, outras manifestavam um viés artístico, expresso nas músicas cantadas por elas nos encontros, destacando-se aí as romeiras que gravaram CDs com benditos de sua autoria e as que compõem benditos na roça, sob o sol forte, usando a memória como fonte de registro de suas criações, como poderemos constatar na apresentação e interpretação das narrativas.
Identifiquei, ainda, as romeiras que constroem um engajamento nesse cenário, pelo prazer de pertencimento à “nação romeira”, adotando o encontro dos romeiros, também, como espaço sagrado, de partilha e celebração. Portanto, identificar essas formas de participação me ajudou a selecionar as romeiras para a construção das histórias de vida. Embora tenha contactado mulheres de vários Estados do Nordeste, como Bahia, Pernambuco e Sergipe, selecionei para a pesquisa as romeiras de Alagoas. Estas demonstraram um interesse maior, para participar do estudo e se comprometeram com o calendário de construção dos relatos, tendo em vista que a pesquisa aconteceu em movimento, pois envolveu a temporalidade previamente programada dos períodos de romarias (janeiro/fevereiro, setembro e novembro) e a espacialidade própria da movimentação romeira. Por conta disso, as entrevistas aconteceram, ora no salão ou pátio do Círculo Operário, ora nos ranchos e/ou em espaços de reuniões da Pastoral da Romaria.
Diante dessas informações, as mulheres romeiras selecionadas para a pesquisa foram cinco, que apresentarei a seguir, usando seus nomes próprios. Propus o anonimato, conforme procedimentos éticos da pesquisa qualitativa, entretanto elas optaram pela visibilidade de suas identidades. Esse procedimento foi formalizado, através do Termo de Consentimento Livre Esclarecido (TCLE)78 assinado por todas. (Ver apêndice A)
78O TCLE é um documento que informa e esclarece o sujeito da pesquisa, de maneira que ele possa tomar sua
decisão, de forma justa e sem constrangimentos, sobre a sua participação em um processo de pesquisa. É uma proteção legal e moral do pesquisador e do pesquisado, visto ambos estarem assumindo responsabilidades. Deve conter, de forma didática e bem resumida, as informações mais importantes do protocolo de pesquisa. Deve estar escrito em forma de convite e em linguagem acessível aos sujeitos da pesquisa. O TCLE é um documento único e deve ser sempre apresentado isoladamente do projeto, da maneira como será entregue ao participante da pesquisa. Deve ser entregue ao pesquisado em duas vias, que serão assinadas pelo participante e pelo pesquisador, ficando uma com cada parte. Este menciona ainda que todas as informações serão mantidas em sigilo (confidencialidade) e em anonimato. Além disso, informa que o participante da pesquisa tem a liberdade para sair do estudo, a qualquer
Ressalto que essas mulheres possuem uma vida pública ativa, no movimento romeiro, portanto, são figuras destacadas no grupo de que participam. Por conta disso e por demonstrarem uma satisfação com a visibilidade de suas identidades, seus relatos foram identificados, ao longo do texto, embora eu tenha procurado ter cuidado com o conteúdo das falas transcritas, repassando para elas suas narrativas na íntegra, fato que assegurou o conhecimento delas acerca de todo o material a ser trabalhado e, também, por constituir um passo importante, utilizado na pesquisa (auto)biográfica.
Nesse sentido, a opção delas por essa visibilidade de suas identidades ajudou a confirmar uma hipótese da tese, que sinalizava para a construção de uma figura de si, constituída pelo processo de engajamento e participação no movimento romeiro, enquanto via de empoderamento individual e coletivo. Essa discussão é retomada no capítulo seis, quando interpreto as narrativas de suas experiências sociorreligiosas, apresento os marcos fundadores e formadores de sua trajetória romeira, assim como destaco como essas experiências contribuem para o empoderamento e engajamento social. Nesse sentido, discuto o que favorece na construção de suas trajetórias romeiras uma figuração de si fundamentada na teoria de Delory-Momberger (2014).
As protagonistas da pesquisa foram cinco mulheres de Alagoas, residentes em Maceió: Lúcia Cabral, Perolina Lins, Quiterinha Tota, Renilda e Quiterinha Meyer. Todas participam ativamente da Reunião das Três Horas, além de serem engajadas no movimento romeiro, tanto em Juazeiro quanto em suas comunidades. Elas, também, atuam em grupos religiosos e atividades da Igreja Católica, em sua localidade. Estes foram os critérios de inclusão que me ajudaram a selecioná-las. Apresento essas características, no esquema sucinto do perfil biográfico das mulheres romeiras de Alagoas, selecionadas para o estudo a seguir.
Figuras 18 a 22 – Perfil Biográfico das Romeiras de Alagoas79
momento. Esse termo segue os princípios éticos da pesquisa. Estas normativas seguem a determinação da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP).
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Lúcia Cabral: a andadeira
Tem 65 anos, fez mais de 50 viagens a Juazeiro. É fretante. Presidente da Associação dos Romeiros de Maceió. Possui um intenso engajamento nas pastorais da Igreja Católica no movimento romeiro de
Juazeiro e de sua cidade. Fez o bendito "O pé de Juá".
Perolina: a que cria na dor
Tem 64 anos, vai completar 100 viagens. Filha e neta de romeiros, fez a primeira romaria, com 14 anos. É cantora de benditos, sendo que o mais conhecido é "O barco da vida". Diz que costuma criar seus benditos, em situações de sofrimento e tristeza.
Dona Quitéria Tota: a mãe do padre romeiro
Tem 73 anos, fez mais de 100 viagens. É coordenadora de romaria. Fez a primeira romaria, com 8 anos. É mãe de um padre romeiro de Alagoas. Participa da organização da Missa do dia 20 em homenagem ao Padre Cícero, em Maceió.
Renilda: a que canta para evangelizar
Tem 61 anos, vai completar as 100 viagens. Tornou-se cantora de benditos. O mais conhecido é “Cuidado Romeiro”. Considera-se uma evangelizadora, participa dos grupos e pastorais da Igreja Católica de sua cidade.
Como descrito no perfil biográfico80, essas mulheres têm uma faixa etária entre 56 a 73 anos, portanto, são idosas81, algumas já estão aposentadas. A maioria começou a fazer romarias, na infância. Todas tiveram a experiência de viajar de caminhão pau-de-arara. Três são coordenadoras de romaria, duas são cantoras profissionais de benditos, tendo gravado CDs. Uma é apresentadora de um programa de rádio. Essas informações são detalhadas no capítulo 5, quando apresento suas histórias de vida.
Apresentei às interlocutoras da pesquisa a categoria “mulheres romeiras de Alagoas”. Isso causou um impacto na percepção delas sobre sua condição sociorreligiosa. No início, elas estranharam muito essa diferenciação, em relação aos homens romeiros; elas diziam – “porque só as mulheres? E os homens? Não somos nada sem eles, sem a força deles...”. Na medida em que nosso processo de comunicação e relação avançava, elas foram compreendendo o sentido e a intenção dessa delimitação, ao ponto que foram se apropriando dessa categoria. Foram inserindo essa expressão/condição nas suas falas, nos depoimentos que davam, nos programas de rádios de que participam, enfim, incorporaram no seu linguajar romeiro.
Considero que, ao despertarem o olhar para essa condição, elas deram início a um processo de aprendizagem, que incide diretamente na formação experiencial da prática romeira, como é previsto e almejado nos processos de pesquisa-formação. Pude comprovar esse aspecto, no depoimento de Dona Lúcia, uma das interlocutoras do estudo, apresentado na Reunião das Três Horas, quando ela disse: “nós mulheres romeiras de Alagoas levamos o que aprendemos aqui para nosso povo…”82. Isso demonstra a incorporação dessa denominação/condição, na sua
80 O detalhamento desse perfil é feito no capítulo cinco, quando apresento as histórias de vida de cada uma delas. 81 Não me detive na análise da condição de idosa dessas mulheres. Considero importante essa questão, porém não
explorei empiricamente esse aspecto que por si só daria uma pesquisa.
82 Depoimento dado na reunião ocorrida na romaria de Candeias de 2016.
Quiterinha Meyer: a radialista
Tem 56 anos, fez 98 viagens.
Apresentadora do programa de rádio “a voz do romeiro”. Considera-se uma evangelizadora, participa de grupos e pastorais da Igreja Católica de sua cidade.
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expressão de fala, assim como traz elementos para refletir as implicações desse processo de pesquisa, em sua subjetividade e em sua prática romeira.
Assim, a tese foi sendo constituída das histórias cruzadas e afetadas, por esse processo de compreensão de ser-no-mundo e pelas transformações alcançadas, com a significação das experiências sociorreligiosas, vivenciadas no âmbito romeiro.