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Euclides da Cunha, em Os Sertões40, apresentou o nordeste como lugar inóspito e

flagelado pelas inúmeras secas, onde poucos acreditavam em seu desenvolvimento, e no próprio homem, o sertanejo, que para ele ―[...] é, antes de tudo, um forte.‖, muito embora complemente ―[...] é o homem permanentemente fatigado.‖ (CUNHA, 1901, p.447-48) Poucos compreendiam a rudeza do clima do semi-árido.

No Ceará, o clima no litoral e nas serras apresentam temperaturas amenas, com média anual entre 26º a 30º. No sertão, a média varia entre 30º a 37º nos períodos secos. Contudo, é durante o fenômeno da seca, que podemos entender a citação de Euclides da Cunha. Nesse período, as chuvas são escassas, os rios secam, as árvores perdem suas folhas, a terra resseca, o mato quebra debaixo dos solados dos pés, e com elas, a esperança desse

forte. Um triste espetáculo de desolação, que atinge não somente ao homem do sertão, mas a

todos, em todos os lugares, seja campo ou cidade.

40Ver Euclides da Cunha. Os Sertões. MINISTÉRIO DA CULTURA - Fundação Biblioteca Nacional -

Departamento Nacional do Livro, 1901, vol. 1. Disponível em:

Euclides da Cunha (1901, p.15) cita também as grandes secas que acometeram a região nordeste em ―meados do século XIX (1808-1809, 1824-1825, 1835-1837, 1844-1845, 1877-1879)‖. A seca de 1877-1879, que atingiu o Ceará, teve um papel importante no processo de desenvolvimento industrial e no aformoseamento da capital, momento em que as autoridades irão fazer obras públicas, imprimindo a ideia de trabalho honesto, de salário em vez de esmolas, assim como o controle da camada popular em crescimento desordenado na capital.

A economia do Ceará, desde a colonização, baseava-se na pecuária, com a criação de gado vacum e cavalar, além das criações de rebanho caprinos e ovelhuns. A agricultura, inicialmente, se pautava na agricultura de subsistência, com a mandioca e a farinha produzida dela, se estendendo posteriormente para a cultura da cana, do café, especialmente nas áreas serranas, e, durante a década de 1860, com a cultura do algodão, momento em que muitas mudanças ocorreram, sobretudo, na estrutura física e social da capital.

De acordo com Araripe (2002), o Ceará esteve subordinado à Bahia (1587), ao Maranhão (1624 a 1655), a Pernambuco (1655-1766) e a Paraíba (1711). De Pernambuco, separou-se pela Carta Régia, de 17 de Janeiro em 1799, tendo como primeira capital a Vila de Aquiraz, posteriormente a Vila de Fortaleza.

O nome da capital cearense, Fortaleza, como cita Koster (1942, p.165), vem da

[...] fortaleza, de onde esta Vila recebe a denominação, fica sobre uma colina de areia, próxima às moradas, e consiste num baluarte de areia ou terra, do lado do mar, e uma paliçada, enterrada no solo, para o lado da Vila. Contém quatro peças de canhão, de vários calibres, apontadas para muitas direções. Notei que a peça de maior força estava voltada para a Vila. A que estava montada para o mar não tinha calibre suficiente para atingir um navio no ancoradouro comum. O armazém da pólvora está noutro ponto da colina e é visto do porto. [...]

Pelo exposto, Fortaleza não inspirava muita tranquilidade, embora tivesse a seus pés um forte, ou seria justamente por ter um forte? Araripe (2002) acrescentou que ela teve, inicialmente, a função de área militar, utilizada inicialmente como presídio militar. Sua economia estava baseada, principalmente, no comércio e suas perspectivas de desenvolvimento eram poucas.

Em sua viagem pelo Nordeste, na década de 1820, Koster não via para Fortaleza perspectivas de desenvolvimento. Em suas palavras, Fortaleza foi

[...] edificada sobre terra arenosa, em formato quadrangular, com quatro ruas (...) as casas têm apenas o pavimento térreo e as ruas não possuem calçamento (...) os moradores devem ser uns 1200 (...) não é muito para compreender-se a razão da preferência dada a este local. Não há rio nem cais e as praias são más e de acesso

difícil (...) e a falta de um porto, as terríveis secas, afastam algumas ousadas esperanças no desenvolvimento de sua prosperidade. (KOSTER, 1942, p.164) Sua incredulidade estaria pautada no fenômeno da seca, que sempre castigou a região, e na falta de um porto por onde escoasse a produção. Corroborando com Koster, Araripe também apresentou a incredulidade no desenvolvimento econômico da capital cearense, pontuando também a necessidade de um porto para viabilizar as trocas comercias, conforme vemos abaixo:

O pouco adiantamento que teve a Fortaleza e a falta de porto cômodo para abrigo dos navios excitavam, por vezes, a idéia, de remoção da capital para a então vila do Aracati, cujo porto se oferecia mais oportuno; todavia o bom senso e critério dos governadores-gerais de Pernambuco jamais anuíram à proposta neste sentido feita por alguns ouvidores.(ARARIPE, 2002, p.103)

Tanto Koster, como Araripe, apresentam, como empecilhos para o desenvolvimento da capital, a não existência ou precariedade do porto. Koster afirmava ainda desde o início do século XIX, entre 1809 a 1820, que

O porto é exposto e mau. [...] A cadeia de recifes segue paralelamente à praia, por um quarto de milha, tendo duas aberturas, uma acima e outra abaixo da Vila. As embarcações menores podem vir ancorar entre elas e a praia, mas um navio maior deve ficar ao norte ou ao sul da Vila, numa dessas duas aberturas, acima ou abaixo delas. A abertura do norte é preferível. Um navio vindo do norte se deve dirigir à Ponta de Mucuripe, uma légua ao sul da Vila e onde há um pequeno forte, e, isto feito, poderá ir diretamente ao ancoradouro. Quando aparece um navio, o Forte da Vila arvora uma bandeira branca num mastro muito alto. Ao norte da Vila, entre o recife e a costa, há um rochedo chamado Pedra da Velha, que é visto, mesmo do mar alto, pela rebentação das vagas sobre ele. Deixando o porto, o navio pode passar entre o rochedo e a costa, evitando os baixios que estão a cem jardas, ao norte, e ainda passará entre essa rocha e os recifes. (KOSTER, 1942, p. 165-166)

Pelo exposto, as condições litorâneas não se faziam favoráveis ao tráfego de navios na capital cearense. Passados os anos, durante a década de 1860, de acordo com Brasil (1997, p. 37- 41), o Ceará contava com 15 portos, poucos estruturados, dificultando ainda o escoamento da produção. Fortaleza, nesse período, tinha três desses portos. O porto Ceará ou Barra (no rio Ceará), o porto Fortaleza (no rio Cocó) e o porto Mucuripe (na enseada da praia).

Segundo Brasil (1997), o porto Mucuripe tinha um farol, apresentava profundidade que permitia que os navios ancorassem a uma distância segura da praia, era protegido pelos recifes. Entretanto, caso o condutor do navio não conhecesse os caminhos a navegar poderia causar sérios acidentes. As ondas próximas à praia, por serem muito fortes, com marés muito altas, causavam dificuldades nos embarques e desembarques de pessoas e

carga, como descreveu Koster ao presenciar um desembarque durante sua visita a Fortaleza, na década de 1820,

Um navio estava descarregando durante minha estada. A carga consistia principalmente em pequenos sacos de farinha de mandioca. A canoa se aproximava o mais possível de terra, sem encalhar, e os sacos eram transportados na cabeça dos carregadores. Deviam pô-los no solo passando através das vagas, e quando uma

delas os alcançava, molhava completamente. (KOSTER, 1942, p.p. 165-166)

O acesso dos navios à cidade era feito mediante pequenas embarcações, no caso de Fortaleza, as jangadas, que exigiam muita habilidade, especialmente, dos pescadores, muitas vezes contratados para essa travessia, uma vez que tinham grande destreza com esse tipo de embarcação. Essa dificuldade e o apoio dos jangadeiros foram enfatizados durante as aulas práticas da Companhia de Aprendizes Marinheiros no Ceará, na década de 1864.