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O conceito de interdisciplinaridade carrega consigo a marca de terminologias que lhe são próximas por semelhança ou contraposição de ideias. Por este motivo, começo este capítulo buscando apresentar os termos mais recorrentes a ela relacionados, para em seguida procurar esclarecer o que se tem entendido propriamente por interdisciplinaridade.

Posto que a noção mais superficial da interdisciplinaridade já remeta à ideia de integração entre diferentes disciplinas, entendo importante iniciar por formalizar uma

concepção do que seja disciplina. “Disciplina pode ser definida como o procedimento

resultante da delimitação dos discursos em um corpo de objetos, métodos, técnicas e instrumentos; em outras palavras: o saber fragmentado” (SOUZA, 2002, p. 19). A necessidade dessa fragmentação do saber é decorrente de uma visão de mundo construída a partir da Primeira Revolução Científica. Esta revolução favoreceu uma forma de organização escolar do conhecimento que envolve a justaposição de várias disciplinas: a multidisciplinaridade.

A expectativa multidisciplinar tem sido a de contemplar um conjunto de conhecimentos vistos como fundamentais para o currículo de modo que a formação escolar e profissional atenda às necessidades prementes. No entanto, o interesse dos educadores em revelar que nem sempre o objetivo multidisciplinar tem alcançado êxito leva a considerar a recorrência com que “nenhuma tentativa de síntese seja realizada [no âmbito multidisciplinar e trazendo a imagem de um] saber fragmentado em disciplinas estanques” (SOUZA, 2002, p.19).

Assim, a pretensão multidisciplinar subentende o “uso de contribuições de

diferentes disciplinas, porém tal colaboração é fortemente localizada e limitada, sendo que cada disciplina mantém seu próprio campo de estudo, com autonomia de seus métodos” (AMATO, 2010, p. 36).

Entre a multidisciplinaridade e a interdisciplinaridade identifica-se a

“pluridisciplinaridade como o estudo de um mesmo objeto por diferentes disciplinas,

mas sem a unidade de conceitos e métodos” (AMATO, 2010, p. 37). Mas a adoção do conceito de pluridisciplinaridade não é consensual entre os pesquisadores. Suas mesmas

características podem ser encontradas, por exemplo, em escritos de Schäffer (1995, p. 29) sob uma categoria de interdisciplinaridade que a autora chama de ID22 Instrumental, na qual “se agregam ciências, mas estas permanecem isoladas”.

A constituição do currículo por disciplinas canonizou um método de trabalho que influenciou a própria organização de cada disciplina. Nestes termos, surge a noção de intradisciplinaridade que “se origina da particularização de um objeto de pesquisa, que passa a ser o foco de uma subdisciplina, a qual, entretanto não obtém autonomia” (AMATO, 2010, p. 36). Inicialmente favorecida pelas mesmas orientações metodológicas da disciplina da qual partiu, torna-se posteriormente passível de orientações independentes.

O último principal conceito relacionado à interdisciplinaridade é o de transdisciplinaridade. Trata-se de um termo com que se pretende reportar ao ideal interdisciplinar.

A interdisciplinaridade manifesta-se, pois, como um esforço de correlacionar as disciplinas, [haja vista] a impossibilidade de eliminá- las. Os defensores da interdisciplinaridade descobrem que todas as disciplinas são inter-relacionadas, afirmando, [no entanto], que a via interdisciplinar é insuficiente para reorganizar o caos causado pela multidisciplinaridade. Para tanto, seria necessário avançar no processo de recuperação do todo através da chamada Transdisciplinaridade (SOUZA, 2002, p. 26).

Amato (2010, p. 36) acrescenta que a transdisciplinaridade se distingue ainda da interdisciplinaridade por significar a “elaboração de um novo objeto, estudado por um método comum a várias disciplinas, processo que culmina com a criação de uma nova ciência, constituída por contributos de diversos campos”.

A interdisciplinaridade coordena disciplinas de diferentes áreas, adaptando seus métodos em direção a um objetivo comum, mas não culmina no advento de uma ciência original, embora seja o primeiro passo em direção a um novo objeto de estudo.

“Quanto à transdisciplinaridade, trata-se do resultado natural da síntese dialética

provocada pela interdisciplinaridade; é o reconhecimento da interdependência entre todos os aspectos da realidade” (SOUZA, 2002, p. 19).

A interdisciplinaridade pode abranger uma síntese de disciplinas que desenvolva um tipo de discurso norteado por tema único, a partir do qual se estabelecem

as relações estruturais ou pode adotar como problema a própria identificação dos pontos de encontro, as interações e reciprocidades entre diferentes disciplinas (SOUZA, 2002). Porém, o termo interdisciplinaridade já foi usado para descrever tanto uma grande unidade do conhecimento humano, característica que a confunde com a própria ideia de transdisciplinaridade, quanto como uma colaboração limitada entre duas ou mais ciências, particularidade capaz de aproximá-la mais à pluridisciplinaridade.

[Portanto], cabe identificar a interdisciplinaridade como um conceito

aberto, que diga respeito a vários graus de integração entre

disciplinas. Uma densa integração entre áreas do saber, que seja tão profunda a ponto de poder criar uma nova ciência, é fenômeno quantitativamente limitado no campo científico. Esse seria um nível avançado de interdisciplinaridade. O que costuma ocorrer, entretanto, é a junção ocasional de várias disciplinas para estudar determinado objeto, em determinada pesquisa; ou, no plano pedagógico, a exploração do estudo de várias matérias com foco num determinado tema (AMATO, 2010, p. 38, grifos meus).

Lima (2007, p. 54-55) categoriza esse conceito aberto de interdisciplinaridade de acordo com três vertentes de pensamento originárias de diferentes países. A autora chama a primeira vertente de interdisciplinaridade acadêmica, situando-a na França. O

objetivo dessa vertente seria a “unificação do saber científico, a [busca pela]

superciência [capaz de] uma reflexão cognitiva dos saberes disciplinares em interação”. A segunda vertente, americana, seria de ordem instrumental e buscaria “respostas operacionais para as questões sociais ou tecnológicas [visando] um saber imediatamente

útil”. Souza (2002) liga essa interdisciplinaridade de ordem instrumental ao modelo

fabril instaurado pela civilização industrial. Sobre a terceira vertente, originada no Brasil, Lima (2007, p. 55) especifica dirigir-se ao “professor introjetado na sua pessoa e no seu agir”. Neste sentido, a autora referenda o trabalho da pesquisadora Ivani Fazenda, no sentido de construir uma metodologia de trabalho educacional que se apóie na análise introspectiva da própria docência e das práticas de ensino.

Apesar da distinção apresentada, na visão de Lima (2007) tais vertentes devem ser consideradas como componentes que se complementam em direção aos objetivos da ação interdisciplinar.

4.2 Multidisciplinaridade e Interdisciplinaridade: contexto histórico e ideológico