• No results found

CHALLENGES FACING SOMALI FAMILIES

4.1 Pre-migration stressors

Para conhecer como a comunidade do Núcleo Rural do Córrego do Urubu adquiriu capacidade de mobilização social para a prevenção e o combate aos incêndios florestais, foram realizadas entrevistas com algumas lideranças locais e moradores comuns. Essas pessoas foram escolhidas por indicação dos próprios habitantes da comunidade, pelo tempo que vivem na região e por participarem ativamente dos movimentos sociais ali existentes.

Segundo as lideranças entrevistadas, para entendermos a questão da organização social da região do Córrego do Urubu, é necessário entender como iniciou o povoamento da região.

Até a década de 1940, essa região era uma fazenda, que foi desapropriada e utilizada durante a década de 1950 para o fornecimento de madeira e minérios para a construção de Brasília. Por ser uma área próxima às construções, algumas famílias se instalaram ali.

Existe certa discordância entre os entrevistados sobre se nos anos que se seguiram à construção de Brasília a área foi destinada ou não pelo Governo Distrital

para ser uma zona rural com finalidade de produção, porém, todos concordam que a região não tem esse perfil, principalmente por questões de solo e topografia não propícias. Independentemente da finalidade da terra, no início da ocupação foi provado que essa região não tem potencial para a produção em escala significativa, fazendo com que muitas pessoas deixassem suas propriedades.

Apesar dessa migração, algumas famílias começaram a morar na região e, com o passar do tempo, o local foi sendo ocupado, gerando um conflito entre moradores e o Governo Distrital sobre a propriedade da terra. Os moradores alegam ter comprado a terra e o Governo Distrital alega ser o proprietário legítimo.

Para facilitar o diálogo dos vários moradores com o Governo, a população começou a se organizar, criando a Associação dos Chacareiros do Paranoá Norte (APAN), no início a década de 1980.

Essa associação congregava os moradores de todos os núcleos rurais, desde a estrada DF-015 até a região dos Olhos d´Água, e tinha como objetivo a regularização fundiária das chácaras existentes. Uma das entrevistadas, Sra. Consuelo do Monte Rosa, afirma que a Apan também tinha como objetivo a proteção ambiental da região, chegando ela mesma a ser diretora de meio ambiente da associação.

A preocupação ambiental na época era bastante voltada à proteção das nascentes, pois na região existem nove córregos que são tributários do Lago Paranoá e sempre se acreditou que, ao degradá-los, também seria degradado o lago. O problema dos incêndios florestais já existia na época, mas era relegado a um segundo plano, uma vez que a baixa concentração de moradores fazia com que houvesse poucos incêndios ou eles não eram tão ameaçadores às propriedades.

Com o passar do tempo, mais pessoas começaram a se mudar para a região, aumentando a pressão para a regularização da posse das terras. Esse aumento populacional e a grande extensão da área, fez com que apenas uma associação não conseguisse mais atender aos anseios de todos os moradores, começando, assim, a surgir associações em cada um dos núcleos rurais.

Um dos entrevistados, o Sr. José Roberto Furquim da Silva, ressalta que com o aumento populacional, começaram a surgir novas lideranças e também novos objetivos, que incentivaram a criação de novas e diferentes associações. Assim, hoje em dia, praticamente todos os dez núcleos rurais possuem alguma associação de moradores, não estando mais ligados à Apan.

O surgimento desses movimentos, segundo os entrevistados, foi muito bom para a região, pois permitiu novas visões de como se tratar os problemas existentes, além de aproximar as associações dos moradores, pois as lideranças moravam nos próprios núcleos rurais que defendiam. Um dos exemplos mais importante sobre essa mudança no modo de ver os problemas foi em relação à questão ambiental.

Associações como a Aldeia do Urubu, Aguanaru ou São Sepé surgiram com o objetivo de congregar algumas chácaras vizinhas de maneira a não ‘recortar’ as propriedades, ou seja, os moradores construiriam nas bordas e partes altas dos terrenos, mantendo uma parte central e as baixadas comuns como áreas de preservação. Essas áreas de preservação, que tinham como objetivos a proteção dos recursos naturais, do solo e da qualidade de vida, permitiram a manutenção do tamanho das propriedades e serviram como uma demonstração ao Governo de que era importante a permanência desses moradores na região, para preservar o que já existia e recuperar as áreas degradadas.

Assim, a questão ambiental ganha uma nova perspectiva dentro das associações da região – a importância da preservação como mais uma forma de pressionar o Governo para conseguir a regularização definitiva dos terrenos.

Alguns dos entrevistados alegam que a região hoje está em melhores condições ambientais do que há 20 anos, pois os moradores que chegaram, apesar de terem desmatado pequenas áreas para construir, começaram a plantar e trabalhar para a recuperação do Cerrado, uma vez que a área estava degradada devido à exploração na época da construção.

Segundo alguns entrevistados, o ambiente da região, com muitas áreas verdes e nascentes, é considerado um diferencial à realidade do DF, pois é possível morar em uma região com características rurais, bem próximo à cidade. Esse diferencial fez com que migrassem para esses núcleos rurais pessoas que comungam com a questão ambiental,e que trabalham efetivamente para a proteção da região. As características locais foram um chamariz para essas pessoas que gostam de estar junto com a natureza e que se mudaram para trabalhar com a preservação. Essas informações obtidas nas entrevistas corroboram com os dados apresentados pelo ecomapeamento no início desse estudo de caso.

Assim, dessas associações anteriores que batalhavam para a posse da terra, mais a migração de pessoas imbuídas da preocupação ambiental, foram surgindo outros movimentos e associações, que já não tinham no seu discurso só a

regularização fundiária, mas a proteção ambiental, a melhoria na qualidade de vida, a formação e a disseminação de conhecimentos.

Um dos exemplos de movimentação popular da região é o Instituto Salvia que, desde 1998, trabalha com a recuperação de áreas degradadas e investe em tecnologias para a proteção ambiental. Por ser uma instituição que surgiu dentro do Núcleo Rural do Urubu e por trabalhar com a proteção ambiental, tem uma aceitação popular muito boa, o que permitiu que esse tipo de trabalho com tecnologia para a proteção virasse exemplo, atraindo pessoas de outras regiões para conhecer o trabalho.

Os proprietários que migraram para a região são provenientes de áreas urbanas, não possuindo aptidão agrícola. Essa característica faz com que o Instituto Salvia trabalhe principalmente com os caseiros, que possuem origem rural, entre eles quilombolas e kalungas, que são peças fundamentais para cuidar das propriedades.

Outras instituições e organizações já existiam na região e pregavam a importância da questão ambiental, como a Oca do Sol, que tem por objetivo congregar pessoas com as mais diversas vocações e estudiosos para tratar dos impactos das mudanças atuais (OCA DO SOL, 2012).

Durante o ano de 2007, entrou em atividade o Movimento Salve o Urubu, que trouxe uma identidade aos movimentos da região, ampliando o diálogo existente entre eles, fortalecendo e impulsionando-os. O Movimento Salve o Urubu apresentou uma proposta diferente para a questão fundiária, expressas nas palavras da entrevistada Solange, que diz que “estamos aqui por que estamos fazendo um bom serviço, a gente quer ficar por que tem tino para ficar, a gente não quer ser proletário. Queremos ficar aqui pela qualidade de vida”.

A mobilização social que existe na região pode ser entendida como o resultado da junção de diversos fatores como a busca da regularização da posse da terra, a migração ocorrida por vontade dos moradores – escolheram esses núcleos rurais pelos seus atributos e não por não ter condições de morar em outras áreas – a identificação e o reconhecimento dos moradores como integrantes do ecossistema local e o elevado acesso à educação formal, que permitiu a eles se estruturarem em associações e movimentos.

4.3.4 A rede social para a prevenção e o combate aos incêndios