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CHALLENGES FACING SOMALI FAMILIES

4.3 Other Challenges facing Somalis in Norway

4.3.1 Khat: Social remedy or self medication

No Brasil, conforme atesta a organização temática da IV Conferência Brasileira em Representações Sociais, acredita-se que a Escola Brasileira de Representações Sociais se estrutura, principalmente, em torno de três abordagens teóricas que se desenvolveram a partir da Teoria das Representações Sociais: a abordagem processual, liderada por Denise Jodelet; a abordagem estrutural, liderada por Jean-Claude Abric, e também conhecida como a Escola do Midi; e, a abordagem societal, liderada por Willem Doise, identificada nos meios acadêmicos como Escola de Genebra. Propõem-se deter aqui sobre esta última, em razão de uma das características do grupo de Genebra: a busca de articulação de explicações de ordem individual com explicações de ordem social (societal), evidenciando que os processos que os indivíduos dispõem para funcionar em sociedade são orientados por dinâmicas sociais (interacionais, posicionais, ou de valores e de crenças gerais) (ALMEIDA, 2009).

Segundo Staerklé e Spini (2004 apud ALMEIDA, 2009 p. 719), Doise, ao se instalar em Genebra, em 1972, levou em sua bagagem,

a ideia que a Psicologia Social deveria, antes de tudo, buscar 'conectar o individual e o coletivo'. Sua motivação fundamental de estudar as relações entre os grupos e os indivíduos, de enfatizar e empiricamente colocar em relevo a influência de fatores sociais sobre o funcionamento cognitivo

individual está na base do que mais tarde será conhecido como a escola de Genebra de Psicologia Social [...]

ou, como ele próprio prefere, a abordagem societal das representações sociais..

Assim, entende-se como abordagem societal uma opção pautada numa abordagem psicossocial, evidenciando como os indivíduos dispõem de processos para funcionar em sociedade. Ressalta-se o legado de Doise, no que diz respeito ao redimensionamento do que se entende por experimentação em Psicologia Social, e também, complementando o histórico, conforme Almeida (2009, p. 719 ):

[...] em outubro de 1972, Doise tornou-se professor de Psicologia Social Experimental na Universidade de Genebra, após ter se apresentado a um concurso. Foi necessário pouco tempo para que se formasse, com Doise, um grupo de pesquisa em Psicologia Social Experimental: Gabriel Mugny, Claude Deschamps, Anne Sinclair, Anne-Nelly Perret-Clermont e Marisa Zavalloni. Com os anos, a esse grupo se agregaram outros pesquisadores, como Alain Clémence, Fabio Lorenzi Cioldi, Dario Spini, Monique Herrera, Christian Staerklé, Fabrice Buschini.

Ainda, segundo Almeida (2009) inspirados inicialmente nas ideias de Piaget e Vygotsky, os psicólogos sociais de Genebra tiveram como objetivo mostrar, através de métodos experimentais, que as interações sociais podem favorecer o aparecimento e o desenvolvimento de certas operações cognitivas. Procuraram mostrar ainda que elementos do ambiente social, como as normas, as representações e as regras, organizam as relações e agem como reguladores de atividades.

O grupo de Genebra sustentava que os conflitos sociocognitivos suscitados pela interação social é que representam uma fonte de progresso cognitivo. Ou seja, se referenciaram, na perspectiva da Psicologia Social Experimental que vinha sendo estudada. De acordo com a referida corrente, o conflito é um fator desencadeante de mudanças – estudo da dissonância cognitiva em Festinger (1957), efeito das divergências de opinião sobre a polarização coletiva em Doise e Moscovici (1984), e efeitos da influência minoritária em Moscovici (1979) – e seguimento das ideias de Piaget (1965), demonstram que o conflito pode ser um fator desencadeante de mudanças (ALMEIDA, 2009 p.720).

Mediante o exposto, é possível deduzir que a situação conflitiva de lidar com cognições contraditórias, motiva e instrumentaliza a pessoa para mudar, ou seja, a substituir sua cognição. De acordo com Festinger (1957 apud ALVARO, 2006), dissonância e consonância são relações entre cognições, ou seja, entre opiniões, crenças, conhecimentos sobre o ambiente e conhecimentos sobre as próprias ações e sentimentos. Segundo Doise (1991 apud ALMEIDA, 2009 p. 720),

[...] há um conflito sociocognitivo quando, em uma mesma situação [de interação social], são produzidos socialmente diferentes enfoques cognitivos para o mesmo problema. Em condições adequadas, a presença desses diferentes pontos de vista pode favorecer sua coordenação dentro de uma nova solução mais complexa, porém mais conveniente que qualquer dos enfoques prévios considerados isoladamente.

Neste sentido, a situação de conflito obriga uma pessoa a se colocar no lugar da outra, provocando maiores progressos no desenvolvimento. A confrontação entre ideias contrapostas, expressas de forma simultânea e consistente, pode fazer o indivíduo questionar suas próprias respostas, o que a leva a elaborar instrumentos cognitivos mais complexos, conforme o enfoque psicossocial sobre o desenvolvimento cognitivo apresentado pelos representantes da Escola de Genebra. De acordo com Doise e Mugny (1991 apud ALVARO, 2006, p. 302),

[...] quando pontos de vista diferentes entram em conflito, as crianças progridem mais do que quando não existe esta oposição social. Mas, sobretudo, os progressos são de natureza construtivista: para que essa confrontação seja fonte de desenvolvimento, não se requer necessariamente que o enfoque oposto seja cognitivamente mais avançado do que aquele do qual a criança já é capaz; é suficiente que seja conflitivo. A criança pode assim aproveitar-se de respostas relevantes de um nível semelhante ao seu, e até mesmo de um nível inferior, com a condição, porém, de que os enfoques que delas resultem sejam opostos aos seus.

Faz-se ainda importante discorrer sobre o conceito de marcação social. Os estudos experimentais acerca do conflito sociocognitivo conduziram Mugny e Doise (1983 apud ALMEIDA, 2009) a elaborar o conceito de "marcação social": uma tarefa cognitiva é marcada socialmente quando as respostas cognitivas implicadas em sua resolução estão impregnadas dos significados sociais que esta tarefa pode ter. De acordo com Doise (1991 apud ALMEIDA, 2009 p. 721), três aspectos definem a concepção atual de marcação social:

1. A marcação social define qualquer situação onde se dá uma correspondência entre as respostas que derivam das regulações sociais e as respostas que resultam da organização dos esquemas cognitivos [...]; 2. Para dar lugar a um desenvolvimento cognitivo, esta correspondência deve levar o sujeito a comparar efetivamente respostas de diferentes naturezas;

3. O mecanismo pelo qual a marcação social garante a elaboração de novas respostas cognitivas é o conflito sócio-cognitivo, ou seja, é a confrontação de respostas contraditórias que pode dar lugar a novas respostas.

Conclui-se que em relação ao grupo de Genebra, suas principais contribuições se concentraram em seus estudos experimentais sobre as RS e, especificamente, em relação à Willem Doise: o desenvolvimento social da inteligência, integração dos quatros níveis de análise das RS (processos intraindividuais, interpessoais, intergrupais e societais), as relações grupais e a apreensão das RS dos direitos humanos em análise tridimensional.

Desse modo, evidencia-se o grande legado teórico-metodológico construído por Doise e seus colaboradores para o estudo das RS. Em consonância com tais pressupostos,

Doise, Clémence e Lorenzi-Cioldi (1992) e Clémence, Doise e Lorenzi-Cioldi (1994) propuseram uma abordagem tridimensional para estudar as Representações Sociais. Palmonari (2009) considera esta abordagem – por ele denominada, “o paradigma das três fases - como uma das contribuições importantes de Doise e colaboradores, sobretudo entre aqueles que visam uma elaboração teórica das RS” (ALMEIDA, 2009, p. 727).

De acordo com Almeida (2009) para elaborar este modelo metodológico, Doise se inspirou pontualmente na obra seminal de Moscovici (1961), particularmente nas dinâmicas de comunicação (difusão, propagação e propaganda), no interior das quais as RS são fabricadas. De acordo com Palmonari (2009 apud ALMEIDA, 2009 p.727), “o paradigma das três fases pode ser interpretado como uma resposta crítica de Doise aos estudos que se concentraram na identificação dos elementos consensuais das Representações Sociais”. Doise exprime a exigência de uma concepção "mais completa" das RS. Neste sentido, Doise (2002 apud ALMEIDA, 2009 p. 728) relata:

O modelo tridimensional ou das "três fases" pressupõe uma hipótese específica para cada fase (Doise, 2002). A primeira hipótese é que há uma partilha de crenças comuns, entre os diferentes membros de uma população, acerca de um dado objeto social, visto que as RS se constroem em relações de comunicação que supõem linguagem e referências comuns àqueles que estão implicados nessas trocas simbólicas. Estudar as RS nesta fase significa identificar os elementos dessa base comum e a forma como eles se organizam, ou seja, tratar-se do campo comum das representações sociais.

A segunda hipótese refere-se à natureza das diferenças, das heterogeneidades nas tomadas de posições em relação a um dado objeto de representação. Trata-se de explicar como e porquê os indivíduos se diferenciam entre si nas relações que eles mantêm com esses objetos de representação. Nesta fase, estudar as representações equivale a identificar os princípios organizadores das variações individuais.

A terceira hipótese considera que as Representações Sociais, além de exprimirem um consenso entre indivíduos, marcado por certas modulações ou oposições individuais, são também caracterizadas por ancoragens das tomadas de posição em outras realidades simbólicas coletivas. Elas se explicitam nas hierarquias de valores, nas percepções que os indivíduos constroem das relações entre grupos e categorias e nas experiências sociais que eles partilham com o outro, em função de sua pertença e posição. Nesta fase, a ênfase do estudo das RS recai sobre a ancoragem das diferenças individuais.

Segundo Doise (2001 apud ALMEIDA, 2009, p. 728), “[...] entendimento comum, organização das tomadas de posição individuais, figuras de ancoragem [...], são estas as três fases que ritmam nossas pesquisas sobre representações sociais [...]".

De acordo com Almeida (2009, p. 721), “[...] ao se admitir esta ideia, pode-se considerar o desenvolvimento sociocognitivo como resultante, ao mesmo tempo, da apropriação da herança cultural e do questionamento de respostas que fazem parte dessa mesma herança”. O que se registra é que o grupo liderado por Doise na Suíça articula o individual ao coletivo, evidenciando experimentalmente que os processos de que os indivíduos dispõem para funcionar em sociedade são orientados por dinâmicas sociais (interacionais, posicionais ou de valores e de crenças gerais).

Percebe-se no ambiente interno dos condomínios um contraditório dialético processual de desenvolvimento, localizado no confronto da necessidade de conciliação cognitiva e ética entre o público e o privado, ou seja, a conciliação sociocognitiva do conflito que surge entre o que é de um, mas também é do outro. Indubitavelmente, a situação de conflitos sociocognitivo que emerge nestes espaços,

pode se materializar, caso não seja resolvida positivamente, em forma de violação de normas da convivência social e/ou em formas de banalização dos atos de violência.

Percebe-se o quanto se torna necessário buscar apreender as RS que moradores de condomínios formulam sobre o medo urbano e suas relações com os sentidos que estruturam em relação às normas sociais do Regimento Interno de seus espaços de interação social, com o intuito de compreender e analisar seus níveis de concordância, responsabilidade e respeito para com estas normas. Também a busca pela compreensão das figuras de ancoragem nas quais recaem as representações sociais desses grupos, bem como desvelar as características dessas RS, para que se possa propor, em outra fase do presente estudo, medidas de intervenções baseadas em propostas sócio cognitivas que sejam capazes de atenuar os efeitos negativos da violação de normas internas, tornando a convivência social mais salutar nos ambientes internos de condomínios.

Na pesquisa em curso, destaca-se a importância de alguns conceitos, a saber: conflito cognitivo, interação, marcação social, entre outros que são trazidos pela Escola de Genebra (ALMEIDA, 2009). Acredita-se que diante dos conflitos cognitivos que se apresentam na vida de moradores de condomínios fechados, os referidos moradores procuram resolvê-los com os elementos que se encontram presentes em sua estrutura social. No caso específico do grupo analisado, infere-se uma estrutura social interna ao condomínio, composta de uma enormidade de normas rígidas, de valores individualistas e de representações cristalizadas em sentimentos de ameaças à privacidade.

A ótica da existência de uma situação marcada socialmente para o morador de condomínio fechado desperta as seguintes proposições:

1) Nas expectativas anteriores dos moradores de condomínio, percebe-se

que as mesmas são carregadas de conteúdos pré-existentes que identifica o condomínio com o imaginário do protótipo de um lugar repleto de segurança, tranquilidade e de possibilidades de separação e isolamento daquilo que é considerado ameaçador, diferente e incômodo.

2) Tais conteúdos são desenvolvidos com base em conhecimentos sociais e

culturais utilizados nas propagandas comerciais, que logicamente, fundamentam o desejo de consumo e a opção de morar em um condomínio.

3) Presume-se que o conhecimento social pré-existente fundamentado em

crenças idealizadas pelas propagandas, e que cria naquele local um mito, um estereótipo de lugar apropriado para a satisfação dos desejos; pode estabelecer uma relação de dissonância entre cognições, explicada pelo conflito que ocorre diante do real condomínio.

4) Real condomínio – lugar que apresenta características individualistas, que apresenta possibilidades de insegurança, que propicia proximidade acentuada com vizinhos, ameaças à privacidade, obrigatoriedade do uso de espaços compartilhados, de impossibilidade de isolamento, de necessidade de convivência com o diferente, com crianças, animais, etc.

5) Portanto, lugar onde coexistem duas opiniões, ou crenças, ou itens de

conhecimentos dissonantes entre si, que não se encaixam, que são incompatíveis, e que provavelmente podem gerar impactos de não aceitação, de irresponsabilidade e de desrespeito às normas internas de convivência social, que são impostas legalmente pelo Regimento Interno, e que representam a medida fundamental para a harmonização das relações interpessoais em condomínios.

Neste sentido, segundo a teoria de dissonância cognitiva de Festinger (1957), existe uma tendência nos indivíduos de procurar uma coerência entre suas cognições (convicções, opiniões). Quando existe uma incoerência entre atitudes ou comportamentos (dissonância), algo precisa mudar para eliminar a dissonância. No caso de uma discrepância entre atitudes e comportamento, é mais provável que a mudança de atitude para acomodar o comportamento.

De acordo com o acima exposto, um indivíduo sente conflito antes da escolha e dissonância quando pelo menos dois elementos cognitivos (conhecimentos, opiniões ou crenças) não são coerentes. Em outras palavras, quando uma pessoa tem uma opinião ou um comportamento que não é consistente com o que pensa de si, das suas opiniões ou comportamentos, esta sentirá

dissonância. Quando os elementos dissonantes são igualmente relevantes ou importantes para o indivíduo, a magnitude da dissonância vai depender do número de cognições inconsistentes.

Dois fatores afetam a força da dissonância, a saber: o número de convicções dissonantes e a importância atribuída a cada convicção. Existem três maneiras de eliminar a dissonância:

1) Reduzir a importância das convicções dissonantes;

2) Acrescentar convicções mais consoantes que se sobreponham às

convicções dissonantes; e

3) Mudar as convicções dissonantes para que estas não sejam mais

incoerentes.

A teoria da dissonância se aplica a todas as situações envolvendo formação e mudança de atitude; é especialmente relevante para a tomada de decisões e a resolução de problemas diversos. A dissonância ocorre mais frequentemente em situações onde um indivíduo precisa escolher entre duas convicções ou ações incompatíveis. A maior dissonância é criada quando as duas alternativas são igualmente atraentes. Além disso, a mudança de atitude está mais provavelmente na direção de menos estímulo, já que isto resulta em menor dissonância.

Torna-se, então, de grande relevância, procurar desvelar e compreender qual o nível de aceitação, responsabilidade e respeito existente para as normas de convivência social local, e em que figuras de ancoragem recaem as representações sociais que implicam sobre as mesmas.