A inclusão de minorias e grupos sub-representados na esfera política e aprimoramento da democracia deliberativa são temas recorrentes nos trabalhos de Iris Young. A autora de- fende que além da representação de seus interesses e opiniões dos grupos sub-representados, deve existir também a representação de suas perspectivas sociais. Estas podem auxiliar a per- cepção da sociedade e seus problemas de um modo mais abrangente, através da expressão das diferenças - que não devem ser superadas, mas compreendidas (YOUNG, 2006). Além disso, deve ser garantido o reconhecimento das especificidades de comunicação dos grupos sociais dentro dos espaços de deliberação.
A representação da perspectiva social está ligada ao modo de expressão dos grupos marginalizados nos espaços deliberativos e é definida pela autora da seguinte forma:
A perspectiva social é o ponto de vista que os membros de um grupo man- tém sobre os processos sociais em função das posições que nele ocupam. As perspectivas podem ser vivenciadas de um modo mais ou menos autoconsci- ente. As experiências culturais de povos ou de grupos religiosos diferencia- dos, bem como de grupos que reagem a uma história de injustiças ou de opressão estrutural, frequentemente lhes confere interpretações refinadas acerca de suas próprias situações e de suas relações com outros grupos. A perspectiva pode se revelar em histórias e em canções, em brincadeiras e em jogos de palavras, assim como em formas de expressão mais assertivas e analíticas (YOUNG, 2006, p. 164).
Young (2001) propõe, assim, um novo conceito de democracia deliberativa denomina- do de democracia comunicativa, pelo qual devem ser valorizados outros recursos de comuni- cação como a retórica, a narração e a saudação, além da argumentação racional.
A autora aponta dois problemas em relação ao conceito tradicional de democracia de- liberativa de Habermas: a suposição de que o processo de discussão tem que acarretar a supe- ração das diferenças ora partindo de um elemento comum (democracia baseada nos interes- ses) ora tendo como objetivo o bem comum, compartilhados entre todos os grupos e a res- trição da discussão à argumentação crítica racional, que tende a desvalorizar determinados tipos de expressão normalmente utilizados pelos grupos excluídos. Tais premissas do conceito tradicional passam a ser esmiuçadas por Young que procura mostrar como elas acarretam a exclusão dos grupos marginalizados e como geram a parcialidade nas deliberações.
Young (2001) descreve a argumentação dos autores que defendem a concepção delibe- rativa de democracia e normalmente partem da ideia de que os participantes, livres e iguais, chegariam às discussões com a mente aberta e buscariam atingir um consenso através da ar- gumentação racional. Na sua visão tais teóricos deliberativos:
[...] tendem a supor que isolar o poder político e econômico é o suficiente para que haja igualdade entre os interlocutores. Essa presunção não leva em consideração o fato de que o poder social capaz de impedir que as pessoas se tornem interlocutores em pé de igualdade deriva não apenas da dependência econômica e da dominação política, mas também de um sentido internaliza- do do direito que se tem de falar ou de não falar, da desvalorização do estilo de discurso de alguns indivíduos e da elevação de outros. O ideal deliberati- vo tende a supor que, quando é eliminada a influência do poder político e do poder econômico, a maneira de falar e de compreender será idêntica para to- dos; mas isso se verificará apenas se eliminarmos também as diferenças cul- turais e de posição social. O modelo da democracia deliberativa tende, por- tanto, a presumir que a deliberação é culturalmente neutra e universal. Uma teoria da democracia deliberativa que trata das diferenças sociais e da manei- ra em que o poder entra no discurso em si reconhece a especificidade cultu- ral das práticas deliberativas e propõe um modelo mais inclusivo da comuni- cação (YOUNG, 2001, p, 370).
A autora passa então a defender a diferença como um recurso a ser explorado de modo que, pelo conceito de democracia comunicativa, o entendimento não implique identificação. Young (2001) apresenta três condições necessárias para o exercício da democracia comunica- tiva: a interdependência significativa dos membros da sociedade, o respeito mútuo no sentido do reconhecimento de que todos têm direito de expressar seus pontos de vista e que todos devem escutar e, por fim, que os participantes concordem sobre as regras da discussão e pro- cessos justos de tomadas de decisão (YOUNG, 2001, pp. 376-377).
Assim, a autora defende a integração, além da argumentação crítica, de recursos de comunicação como a saudação, a retórica e a narração. A saudação teria a função de estabele- cer a confiança e respeito mútuo entre os participantes e decorre não somente da fala, mas de gestos não linguísticos. A retórica tem papel importante para restabelecer o caráter situacional da comunicação e sua ligação com o desejo, exercendo o papel de estabelecer a conexão com os ouvintes prendendo o pensamento por meio do desejo. A narrativa pode promover o enten- dimento por meio da diferença, sem igualar os pontos de vista diferentes, por evocar simpa- tia ao mesmo tempo em que mantém distância porque carrega uma sombra latente inexaurí- vel, a transcendência do outro, ou seja, o fato de que sempre haverá mais a ser contado ; por revelar uma fonte de cultura e significado e já que:
[...] a narrativa não exibe apenas a experiência e os valores do ponto de vista dos sujeitos que os têm e detêm, revela também um conhecimento total do ponto de vista daquela situação social. A narrativa exibe o conhecimento si- tuado do coletivo de acordo com cada perspectiva e a combinação das narra- tivas dos diferentes pontos de vista produz a sabedoria social coletiva que não seria obtida de nenhuma das posições isoladamente (YOUNG, 2001, pp. 384-385).
A ideia da democracia comunicativa de Young pode servir para a análise de espaços deliberativos em curso no Brasil hoje, como, por exemplo, as conferências e seminários e principalmente fornecer elementos para análise das condições de comunicação de espaços deliberativos e capacidade de comunicação de grupos que participam diretamente ou através de representantes nesses espaços. Ademais, pode ser ligada ao conceito de capital social de Bourdieu que passa a ser trabalhado a seguir.
Pode-se aferir em um trabalho empírico como e se os grupos e participantes das confe- rências utilizam outros recursos além da argumentação racional e se tais recursos influenciam na sua capacidade de comunicação e inclusão de demandas nas políticas que estão sendo dis- cutidas. Também é interessante verificar em alguns casos práticos se o espaço deliberativo formado apresenta em alguma medida as condições que seriam necessárias para o exercício norteado pelo ideal da democracia comunicativa, se existe o respeito mútuo, a interdependên- cia e o acordo sobre as regras de discussão e deliberação entre os participantes.