• No results found

Policy alternatives for improving the pension system

7. THE ANALYSIS OF THE POLICY ALTERNATIVES

7.2 P ENSION REFORM

7.2.6 Policy alternatives for improving the pension system

Em 1966 ― mesmo ano de publicação dos “Écrits”, a primeira coletânea de artigos de Lacan ― aparecem simultaneamente o primeiro número de “Langages”, revista de lingüística na qual Pêcheux publica importantes artigos, e os “Cahiers pour l’analyse”, publicados pelo Círculo de Epistemologia da ENS. O anúncio de lançamento deste último, assinado por J-A Miller, “atribui-se o ambicioso objetivo de constituir uma teoria do discurso a partir de todas as ciências de análise: a lógica, a lingüística e a psicanálise” (DOSSE 2007, v. I, p. 414). Em um artigo anterior, datado de setembro de 1964, J-A Miller, então um aluno de Althusser, esclarece que sua adesão à École Freudienne de Paris, fundada por Lacan em junho do mesmo ano, havia se dado sob a forma de um cartel cuja rubrica era a “teoria dos discursos”. O interesse pelo discurso parecia assim provocar uma série de iniciativas. Ele representava, conforme assinala Miller neste mesmo artigo, a tentativa de elaborar uma teoria unitária: “sustentamos que os discursos de Marx e de Freud são susceptíveis de se comunicarem por meio de transformações regulares e de se refletirem em um discurso teórico unitário” (MILLER 1964/1996, p. 20). Para tanto, é preciso dar conta da relação do sujeito com a estrutura, preservando a ordem que vai da estrutura ao sujeito e que concebe como espontânea “a orientação do sujeito para o engodo” (ibid, p. 14). Mas é importante perceber que, neste

11

momento em que a filosofia de Althusser e a psicanálise lacaniana se cruzam, habitando por um pequeno lapso de tempo uma mesma região do espaço intelectual, uma diáspora separa aqueles que seguem com Althusser e aqueles que se “desviam” para se juntar a Lacan, como se no escopo dessa “teoria unitária” uma divisão se insinuasse. Ela perpassa os interstícios em que o reconhecimento do inconsciente freudiano como abertura integral ao equívoco, para além da estrutura de desconhecimento que ele reparte com a categoria althusseriana de ideologia, reabre aquilo que a ideologia tende a suturar. Neste sentido, o texto de Miller nos parece exemplar de uma separação que já se prenunciava:

A distribuição tópica que se esboça separa o plano onde o sujeito se efetua na primeira pessoa e o lugar desse código onde ele é dado, mas onde justamente, como sujeito-agente, é elidido e de onde sua palavra se origina para se inverter ao ser proferida e aí retornar definitivamente, posto que este é o lugar que garante sua intelecção e sua verdade. A falta do código ao nível da palavra e a falta do sujeito-agente no lugar do código, que são correlatas, abrem no interior da linguagem a fissura do inconsciente. Podemos dizer agora: o sujeito é capaz de um inconsciente (ibid, p. 17 – 18).

Dizer, como Miller, que “outros circuitos se ramificam sobre essa fissura” (ibid, p. 18), como a Outra-cena da luta de classes, é reconhecer a primazia formal da estrutura. Dizer, como pretende Althusser, que as formações ideológicas exercem uma “influência determinante na estruturação do inconsciente” (ALTHUSSER 1993, p. 110) é reconhecer a supremacia do Materialismo Histórico como a ciência a partir da qual essa unidade seria presumida.

O diálogo entre marxistas e psicanalistas tem uma história que remonta às discussões entre Freud e Adler nas sessões da Sociedade Psicanalítica de Viena, como dão provas seus estatutos, já em 1909. Ele já concernia à oposição, sempre mantida por Freud, entre civilização e moções pulsionais, tanto amorosas como agressivas. Freud atribui então os sentimentos altruístas, que os marxistas enxergam no proletariado sob a capa da exploração capitalista, a uma forma de idealização. Compreende-se que a postulação, anos mais tarde, da pulsão de morte, selará a distância que opõe marxistas e psicanalistas. O humanismo marxista é assim recusado pela psicanálise nas suas origens. Os destinos da revolução russa, que Freud

acompanha com um interesse prudente, não deixam de lhe dar razão, embora não possam ser explicados por um puro efeito de retorno das moções pulsionais agressivas.

Segundo Pierre Bruno (1993), pode-se isolar como um traço deste diálogo a assimetria que faz com que sejam sempre os marxistas que demandam a psicanálise. Essa demanda se caracteriza, como vimos com Althusser, pela tentativa de preservação das fronteiras do marxismo, convocando a psicanálise como disciplina auxiliar a ser aí incluída. Com Reich, por exemplo, a psicanálise é convocada para dar conta da irracionalidade da ação humana, da qual o marxismo fornece a parte racional representada pela luta de classes. A recíproca não é verdadeira: não encontramos, do lado dos psicanalistas, a mesma demanda dirigida ao marxismo. De um modo geral, as tentativas de composição e de anexação entre Marx e Freud sempre partem daqueles que chegaram à psicanálise a partir de referências marxistas.

Lacan seria, neste sentido, uma exceção (BRUNO 1993, p. 21). Sem ter sido declaradamente marxista, Lacan demonstra ter lido O Capital em sua juventude, conforme ele mesmo revela em uma das lições do Seminário, livro 17, mostrando em sua mesa o livro surrado e desgastado pelo tempo. As referências a Marx no ensino de Lacan são “precoces e regulares” (ibid). Marx torna-se um interlocutor privilegiado de Lacan entre os anos de 1968 e 1970, à época dos Seminários, livro 16, “De um Outro ao outro”, e livro 17, “O avesso da psicanálise”, particularmente em torno das noções de sintoma, mais-de-gozar e discurso. A articulação é, portanto, pontual e crítica, em nada fazendo lembrar as tentativas freudo- marxistas.

Podemos ressaltar, como problemática que perpassa, ao mesmo tempo, os empreendimentos de Reich e Lacan, a percepção de uma espécie de “função parasita” que afeta a racionalidade econômica. Mas, enquanto Reich vê nessa função efeitos de um excesso de repressão sexual, que é necessário desfazer para liberar a potência revolucionária do proletariado, ancorando-se em um naturalismo das pulsões, Lacan atribui essa função parasita à causa significante, em si mesma produtora de uma entropia. Para Lacan, essa causa é diferente de uma pura injunção ideológica; ela não se limita aos efeitos da Ordem Simbólica, como quer ver Althusser, mas convoca os efeitos de gozo na própria estrutura do discurso que organiza o laço social, via que teria sido aberta por Marx em sua descoberta da mais-valia. Segundo Bruno (ibid, p. 28), a noção althusseriana de sujeito seria assim um efeito de uma operação, obtida pela “redução de seu ser ao seu conceito”, da qual emerge uma espécie de

“sujeito jurídico” que desconhece seu estatuto de alienação e que exclui, de sua gênese conceitual, todo saber não-ideológico. A saída para esse desconhecimento só pode ser alcançada, segundo Althusser, a partir do conhecimento verdadeiro propiciado pela ciência, que ele remonta à idea vera de Spinoza, definida como adequação do entendimento à coisa. Para Lacan, em contrapartida, a necessária alienação do sujeito à ordem simbólica o condena, ao mesmo tempo, a se dividir no processo de sua afânise, reunindo-se ao objeto na fantasia, a este objeto do qual não há idéia (ibid, 31). Não existe, portanto, homologia possível entre a noção de alienação em Althusser e Lacan.