5. EXPLAINING ECONOMIC GROWTH
5.1 T HE THEORY OF ECONOMIC GROWTH : A HISTORICAL PERSPECTIVE
É também na ENS da Rue d’Ulm que o Seminário de Lacan irá se instalar, em 1964, após sua “excomunhão” da Sociedade Francesa de Psicanálise (SFP), graças a Althusser, ele também um recém excluído do PCF. Althusser e Lacan constituem, conforme Dosse, “uma parelha tão curiosa quanto fascinante para uma geração que se tornará, em boa parte, althusseriano-lacaniana” (DOSSE 2007, v.I, p. 381), e que tem nos “Cahiers pour l’analyse” seu principal veículo de expressão. Cada um ao seu modo, Lacan e Althusser travam o mesmo combate contra o humanismo e o psicologismo, em nome da ciência. Ambos propõem um trabalho de releitura dos textos fundadores. O artigo “Freud e Lacan”, publicado por Althusser em 1964 ― no mesmo ano do Seminário “Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise” ―, se insere no contexto de renovação do freudismo que havia sido fortemente rechaçado pelos marxistas franceses desde 1948, sob o argumento de que a psicanálise seria uma “ideologia reacionária” (ALTHUSSER 1985, p. 47). Althusser se empenha em demonstrar que esse diagnóstico se baseia mais nos efeitos produzidos pelo revisionismo, do qual o freudismo foi vítima, do que na descoberta revolucionária de Freud. O artigo dialoga em vários pontos com o Seminário pronunciado por Lacan na ENS, que, por sua vez, se dirige aos “normalistas”, alunos de Althusser, examinando com eles “o que são os fundamentos da psicanálise [...] e o que é que a funda como práxis” (LACAN 1964/1985, p. 14). Althusser retoma nesse artigo, ponto por ponto, o caminho de Lacan, mostrando como a psicanálise se estrutura como uma ciência que tem por objeto o inconsciente, e como esse objeto vem a ser tratado a partir dos dados da lingüística estrutural. Ele enfatiza que, para Lacan, o sujeito se constitui por referência à Ordem Simbólica, que Althusser considera como formalmente idêntica à ordem da linguagem e na qual se fundamenta para pensar a dominação ideológica.
Na ENS, Althusser anima um seminário dedicado aos fundamentos da psicanálise, em 1963 – 64, do qual participa, dentre outros, Jacques-Alain Miller. Althusser “lê Lacan, mas também faz ler Lacan” (ALBERTI 1994, p. 169). Mas confessa, anos mais tarde, “nunca ter compreendido Lacan” (ibid, p. 176). Essa ambigüidade se deixa transparecer nos textos dedicados à psicanálise, reunidos postumamente, em 1994, sob o título de “Écrits sur la
psychanalyse”. Faltaria à psicanálise, segundo Althusser, a teoria geral da qual ela seria uma teoria regional. Conforme nota redigida para a edição inglesa de “Freud e Lacan”, em 1969,
(ALTHUSSER 1993, p. 54)7. Esse desejo de anexação, no qual o materialismo histórico ocupa o lugar de uma ciência régia, parece ter como efeito que Althusser passe ao largo da descoberta freudiana e desconheça grande parte da produção de Lacan a partir do momento em que ele se afasta da ENS, justamente em 1969, ano de seu Seminário sobre os discursos, “O avesso da psicanálise”. Para Lacan, ao contrário, e a despeito de seu interesse em pensar a psicanálise sempre em relação com o campo da ciência, não se trata nunca de buscar a filiação ou subordinação da psicanálise a uma ciência ideal qualquer, mas da ineliminável questão do desejo de Freud que funda, por si mesmo, a psicanálise. Esse desejo é um ponto fora da epistemologia, uma vez que é excluído do discurso da ciência. Por isso, como assinala Lacan na lição do dia 05 de fevereiro de 1964 do Seminário “Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise”, a psicanálise só pôde advir um tempo depois do corte da ciência moderna representado pelo cogito cartesiano ― “penso, logo sou” ―, operando, portanto, sobre o sujeito da ciência, chamando-o de volta para casa, no inconsciente: Wo es war, soll Ich
werden8. Segundo Alberti (1994, p. 178), o que Althusser recusa é justamente o sujeito da
ciência, ao confundi-lo com o “homem da ciência”, recusando no mesmo ato o sujeito dividido. “Ora, é precisamente a idéia do sujeito cartesiano, de um sujeito dividido entre saber e verdade, que Althusser não pode admitir, recusando fundar o Ich-Spaltung9 sobre a divisão subjetiva” (ibid). Desta forma, levando em conta sua própria formulação, Althusser reconhece apenas o sujeito da ideologia em seu estatuto jurídico:
Não existe sujeito dividido, cindido: há uma outra coisa: do lado do Ich, (...) há uma falta, uma hiância. Este abismo não é um sujeito, mas o que se abre do lado de um sujeito, de um Ich, que é bem um sujeito e que depende do ideológico (ALTHUSSER 1993, p. 165)10.
As mesmas dificuldades e ambigüidades de Althusser em relação à psicanálise se fazem notar, também, na articulação teórica entre inconsciente e ideologia. Ela passa de uma assimilação simplista, que postula uma quase equivalência ― “o inconsciente está estruturado como essa linguagem que é a ideologia” (apud ALBERTI 1994, p. 176) ―, a um
7
“On ne peut produire de théorie de la psychanalyse sans la fonder sur le matérialisme historique”.
8
Máxima freudiana que Lacan traduz como: “Lá onde isso era, como sujeito devo advir”.
9
Ich-Spaltung, termo freudiano que designa a divisão constitutiva do sujeito. Para Lacan, em seu comentário sobre o cogito cartesiano, essa divisão separa o pensamento e o ser: “sou onde não penso; logo penso onde não sou”.
10
“Il n’y a pas de sujet divisé, scindé: il y a tout outre chose: à côté du Ich, (...) il y a um manque, une béance. Cet abîme n’est pas um sujet, mais c’ est ce qui s’ouvre à côté d’um sujet, à côté d’um Ich, qui est bien sujet et qui relève de l’ idéologique”
distanciamento progressivo que recusa a aproximação ― “há aí um limite não franqueado” (ALTHUSSER 1993, p. 12) ―, até à tentativa de pensar sua diferença constitutiva como diferença entre discursos. Essa última formulação permanece incipiente e não desenvolvida por Althusser, mas ela parece reconhecer a discrepância entre o discurso ideológico e o discurso do inconsciente. No discurso ideológico, o sujeito se faz presente em pessoa (en
personne); a estrutura é centrada e especular; seus elementos são representações ou práticas.
No discurso do inconsciente, o sujeito estaria ausente por lugar-tenente (“par lieu-tenant”); a estrutura é uma estrutura de hiância; seus elementos são fantasias primárias (“fantasmes
primaires”) (ALTHUSSER 1993 apud ALBERTI 1994, p. 177-178). Mas é preciso
considerar que a essa distinção segue-se um movimento de recuo: se Althusser invoca que a
noção de sujeito não pode ser utilizada de modo unívoco, é para melhor concluir que, em
última instância, “ela depende somente do discurso ideológico do qual ela é constitutiva” (ALTHUSSER 1993, p.164)11, anulando assim a dimensão do sujeito do inconsciente.