4.1 Organisering og sikkerhetsantakelser
4.1.5 Personvern
Assim como a classificação do Guató no tronco Macro-Jê é ainda uma hipótese a ser testada, também são necessários mais estudos comparativos que reúnam um número maior de evidências para termos mais clareza sobre a real situação do Rikbáktsa no referido tronco. Em todo o caso, decidimos comparar dados lexicais do Guató com
45 Conforme Jeffers & Lehiste (1979), em estudos comparativos colaterais, selecionam-se línguas cujos
dados comparáveis são de uma mesma época, enquanto que estudos comparativos lineares de línguas fazem uso de dados que pertencem a momentos diferentes na história das línguas comparadas.
dados do Rikbáktsa devido à proximidade geográfica entre as duas línguas. Essa aproximação física nos fez pensar em duas possibilidades pré-históricas de relacionamento. A primeira é genética, supondo que o Guató seja realmente um membro do tronco Macro-Jê, como é postulado também para o Rikbáktsa. Logo, poderíamos supor que, em um momento no passado remoto, o que hoje são dois povos com duas línguas distintas, poderiam ter sido um povo que se desmembrou e se distanciou, diminuindo cada vez mais o contato e, consequentemente, a necessidade de ajustes comunicativos entre eles, surgindo dialetos que produziram inovações independentes, resultando no que conhecemos hoje como Guató e Rikbáktsa. Se esse for o caso, espera- se que haja vestígios de características comuns às duas línguas que nos sirvam de evidências para comprovar a relação genética entre elas.
A segunda possibilidade de relacionamento não é genética, supondo que esses dois grupos, em algum momento da pré-história, estiveram em situação de contato por um certo período de tempo, propiciando a interferência de um sistema linguístico no outro que resultasse em empréstimos e substituições lexicais.
Em último caso, se não houver evidências que favoreçam um possível relacionamento histórico entre o Guató e o Rikbáktsa, somos levados a considerar as semelhanças como sendo meramente acidentais.
Apresentamos, na tabela 4.16, os pares de palavras que encontramos em nossa investigação à procura de possíveis cognatos entre o Guató e o Rikbáktsa.
Tabela 4.16 – Comparação lexical: Guató e Rikbáktsa
Nº Glosa Guató Rikbáktsa
1. „acender‟ pO pok
2. „bravo‟ ikirO kIri
3. „cavar‟ ogI$ ukuru
4. „coçar‟ okoro hIri
5. „cortar‟ kI$ kare
6. „doer‟ pa pa (dor)
7. „dormir‟ kIni hinipy$
8. „fígado‟ pE pI
9. „grosso‟ agI$ aka
10. „ovo‟ kI kare
11. „pássaro‟ bIdI piIk
12. „pato‟ ibO ubaik
Tabela 4.17 – Correspondências sonoras: Guató e Rikbáktsa
Guató Rikbáktsa Exemplos
p p 1, 6, 8
b p 11, 13
k k 2, 5, 10
g k 3, 9
Como pode ser visto na tabela 4.16, somente 13 pares de palavras supostamente cognatas foram encontrados em nossa investigação. Mas para chegarmos a essa lista tão reduzida, fizemos uma busca no dicionário bilíngue Rikbáktsa-Português / Português- Rikbáktsa (2007) de palavras que correspondiam em significado com os dados lexicais do Guató (cerca de 600 palavras). Através dessa primeira busca, encontramos cerca de 300 palavras disponíveis em todo o vocabulário do dicionário do Rikbáktsa utilizado para esta pesquisa.
Prosseguindo em nossa investigação, passamos a olhar, dentro desse conjunto de palavras, quais se assemelhavam, em termos de som, com as palavras do Guató. A partir disso, excluímos um pouco mais da metade da lista de palavras do Rikbáktsa que havíamos feito anteriormente. Do que restou (cerca de 120 pares de palavras), verificamos a possibilidade de correspondências sonoras regulares com as formas da lista do Guató que correspondiam em significado. Dessa forma, nossa lista sofreu mais uma redução: de 120 pares de palavras, apenas 41 apresentavam algum tipo de correspondência sonora. Desses 41, 28 pares apresentavam correspondências pouco consistentes; restando, portanto, os 13 pares de palavras (apresentadas na tabela 4.16) para avaliarmos quais deles poderiam, realmente, servir de indícios de possível relacionamento genético do Guató com o Rikbáktsa.
Analisando cada par de palavras, com suas respectivas correspondências sonoras, notamos que as semelhanças são interessantes devido à presença de alguns pares que se correspondem de forma sistemática não só com respeito às consoantes, mas também com respeito às vogais que as seguem (como veremos com mais detalhe adiante).
No entanto, se argumentássemos de pronto a favor de uma afinidade genética entre essas línguas, estaríamos sendo precipitados, pois não temos como provar as irregularidades das vogais em parte dos pares que consideramos como possíveis
cognatos, já que não temos outros dados para identificar ao certo os ambientes que poderiam condicionar as mudanças sonoras.
Além disso, diante dos resultados a que chegamos nesta comparação, poderíamos ainda supor que as semelhanças lexicais encontradas nesse recorte que fizemos seriam resquícios de um tempo anterior, em que essas línguas estiveram em contato, pois é possível também encontrarmos correspondências sonoras regulares em empréstimos linguísticos (cf. CAMPBELL, 1998).
Como se isso não bastasse, temos ainda a informação de que não é incomum, em propostas de relações genéticas distantes, encontrarmos formas em uma língua que exibem similaridades com as formas de outra língua, devido a prováveis mudanças recentes na história individual de uma das línguas (cf. CAMPBELL, 1998). Portanto, como não conhecemos a história de desenvolvimento das línguas aqui comparadas, não podemos excluir essa hipótese como forma de justificar as similaridades identificadas na comparação que realizamos entre o Guató e o Rikbáktsa.
Não queremos ser redundantes em nossas palavras; entretanto é preciso enfatizar que comprovar relacionamento genético distante entre línguas não é uma tarefa fácil, pois, quando encontramos indícios de um possível relacionamento genético, deparamo- nos com a possibilidade de que as semelhanças encontradas podem ter ocorrido por causa de empréstimo ou por acidente. Por isso, além de termos que encontrar correspondências sonoras regulares em um conjunto de cognatos e postularmos explicações para as mudanças ocorridas de uma língua para outra, devemos encontrar também explicações para as irregularidades que são identificadas na comparação; logo, o trabalho de investigação de relação genética distante precisa, realmente, seguir o rigor do método histórico-comparativo, a fim de não produzirmos resultados duvidosos em relação à possibilidade de relacionamento genético de línguas que podem não pertencer ao mesmo agrupamento, mesmo que o nível considerado seja o de tronco (cf. JEFFERS & LEHISTE, 1979; HOCK, 1991; CAMPBELL, 1998).
Cientes de tudo o que foi exposto até este momento, cabe fazer aqui uma breve discussão em torno dos pares de palavras apresentados na tabela 4.16, a fim de eliminarmos os que não se encaixam na metodologia adotada para encontrar evidências apropriadas à classificação genética de línguas.
Dos 13 pares de palavras, três já constam como possíveis cognatos nos trabalhos de Rodrigues (1986, 1999): „fígado‟, „pé‟ e „ovo‟. Resta-nos, portanto, avaliar os outros
10 pares de nossa lista: „acender‟, bravo‟, „doer‟, „cavar‟, „coçar‟, „cortar‟, „dormir‟, „grosso‟, „pássaro‟ e „pato‟.
Os pares 1 e 6 da tabela 4.16 („acender‟ e „doer‟, respectivamente) apresentam formas bastante semelhantes entre as duas línguas: Gu pO : Rk pok „acender (por fogo)‟ ; Gu pa : Rk pa „doer‟. Trata-se de palavras que podem ser consideradas como parte do vocabulário básico; logo, a hipótese de empréstimo é enfraquecida. E se fôssemos considerar as semelhanças encontradas como resultado de possíveis mudanças individuais em uma das línguas, não conseguiríamos explicar as correspondências de Gu b : Rk p ; Gu b : Rk b, também encontradas em alguns dos pares de palavras selecionados, como Gu bIdI : Rk piIk „pássaro‟ e Gu abO : Rk pIrI „pé‟ (exemplos 11 e 13 da tabela 4.16).
No par para „bravo‟ (Gu ikirO : Rk kIri), a possibilidade de harmonização vocálica em Rikbáktsa é validada com base no que deve ter ocorrido também nos pares para „cavar‟ e „grosso‟:
Tabela 4.18 – Possíveis casos de harmonização vocálica em Rikbáktsa
Glosa Guató Rikbáktsa Exemplos
„bravo‟ ikirO kIri 2
„cavar‟ ogI$ ukuru 3
„grosso‟ agI$ aka 9
Ainda sobre os pares „cavar‟ e „grosso‟ (exemplos 3 e 9, repetidos na tabela 4.18), verifica-se a correspondência regular g e k em Guató e Rikbáktsa, respectivamente.
As formas em Guató e em Rikbáktsa para „pássaro‟ (Gu bIdI : Rk piIk) apresentam uma correspondência sonora regular com relação à consoante inicial, atestada em outros dados disponíveis, tais como em Gu abO : Rk pIrI „pé‟ (lembrando que este dado já havia sido considerado por Rodrigues (1986, 1999) como um possível candidato a cognato através do tronco Macro-Jê). Ainda com relação às formas para „pássaro‟, a consoante final que ocorre em Rikbáktsa contrasta com a ausência de um segmento consonantal em Guató nessa posição, como pode ser visto em outros pares de palavras: Gu pO : Rk pok „acender‟ ; Gu ibO : Rk ubaik „pato‟ (exemplos 1 e 12 da tabela 4.16, respectivamente).
Outros dois processos fonológicos que podem ter ocorrido em Rikbáktsa para explicar as diferenças encontradas na forma que ele apresenta para „pássaro‟ comparada ao Guató são (1) a elisão da consoante medial e, consequentemente, (2) a dissimilação da vogal central alta da primeira sílaba, impedindo sua fusão com a vogal procedente. Contudo, devido à limitação dos dados comparáveis, não temos como testar essas hipóteses.
Para „cortar‟ (exemplo 5 da tabela 4.16), temos as seguintes formas nas línguas comparadas: Gu kI$ : Rk kare, que são facilmente validadas devido à correspondência encontrada para „ovo‟ Gu kI : Rk kare (exemplo, 10). Como as formas para „ovo‟ já haviam sido consideradas como prováveis cognatos por Rodrigues (1999), tal possibilidade reforça a hipótese de que em „cortar‟ temos também formas cognatas.
Quanto às formas para „coçar‟ Gu okoro : Rk hIri e „dormir‟ Gu kIni : Rk hinipI (exemplos 4 e 7 da tabela 4.16), para explicar as correspondências das vogais, voltamos a cogitar a hipótese de que se trata de uma harmonização vocálica ocorrida em Rikbáktsa. Entretanto, desconsideramos a possibilidade de que essas formas sejam cognatas porque não conseguimos verificar qual ambiente condiciona a mudança de k do Guató para h em Rikbáktsa. Desconsideramos também o par para „pato‟ (Gu ibO : Rk ubaik – exemplo 12 da tabela 4.16) embora apresente correspondências regulares já testadas em outros pares aqui analisados, mas, como se refere a um nome específico de animal, ela não faz parte do vocabulário básico de uma língua, por isso deve ser descartada. Sua ocorrência nas duas línguas pode ser, então, devido a empréstimo lexical ou trata-se de formas casuais (coincidência).
Conforme os resultados apresentados nesta seção, consideramos plausível a possibilidade de que as palavras do Guató para „acender‟ pO, „doer‟ pa, „bravo‟ ikirO, „cavar‟ ogI$, „grosso‟ agI$ e „cortar‟ kI$ sejam formas cognatas daquelas encontradas no vocabulário do Rikbáktsa, pois exibem respectivamente formas e significados semelhantes e correspondências sonoras regulares:
Tabela 4.19 – Pares possivelmente cognatos: Guató e Rikbáktsa
Nº Glosa Guató Rikbáktsa 1. „acender‟ pO pok 2. „bravo‟ ikirO kri 3. „cavar‟ og$ ukuru 5. „cortar‟ k$ kare 6. „doer‟ pa pa (dor) 9. „grosso‟ ag$ aka