Como já sabemos, línguas comparadas que possuem semelhanças entre si podem descender de uma língua ancestral comum. E para que se demonstre essa descendência, durante o desenvolvimento dos estudos comparativos, os comparativistas foram estabelecendo critérios que justificassem os agrupamentos linguísticos.
O Método Histórico Comparativo, assim como este é definido e caracterizado por linguístas como Rodrigues (1986), Kaufman (1990), Hock (1991) e Campbell (1998), trata-se de um método de natureza indutiva cuja aplicação na identificação de relações genéticas entre línguas se dá mediante análise comparativa de dados linguísticos da mesma natureza – lexical, fonológica, morfológica e morfossintática. Os princípios que caracterizam esse método são bem definidos e fundamentados pelo conhecimento acumulado sobre o porquê e o como de as línguas mudarem, e sobre os tipos e direções das mudanças linguísticas que ocorrem ao longo da história de cada língua em particular ou de um grupo de línguas aparentadas.
Entre os requisitos do Método Histórico Comparativo que o fazem ser um método eficiente para o diagnóstico de parentesco genético entre línguas, citamos aqui os seguintes:
(a) as línguas mudam com o passar do tempo (CAMPBELL, 1998);
(b) a proto-língua sofre mudanças linguísticas nas diferentes regiões onde a língua é falada, e os dialetos iniciam o processo de diferenciação das línguas (idem);
(c) há mudanças regulares e isso nos capacita a fazer correspondências sistemáticas entre línguas, tornando possível a reconstituição da história da língua (cf. HOCK, 1991);
(d) os sons mudam em uma certa direção, e isso pode ser constatado através de uma análise comparativa entre as línguas que possuem relação genética (idem);
(e) o proto-fonema é postulado a partir da análise dos fonemas encontrados nas línguas irmãs, e por isso deve ser reconstruído de maneira que seja possível explicar as mudanças ocorridas nas línguas, já que a reconstrução deve estar pautada nas amostras encontradas nas línguas comparadas (CAMPBELL, 1998);
(f) precisa-se ter cuidado com o empréstimo linguístico, pois trata-se de uma verdadeira fonte de similaridades que pode trazer complicações na identificação de verdadeiros cognatos; portanto, deve-se eliminar os empréstimos da comparação (cf. CAMPBELL, 1998);
(g) há certas partes do vocabulário de uma língua, como os nomes de partes do corpo humano e ospronomes pessoais, entre outros, que são menos sujeitos a empréstimos (idem);
(h) deve-se também eliminar palavras que são formadas a partir da imitação de sons (onomatopéias), posto que formas dessa natureza podem ser semelhantes em diferentes línguas; sem ser, contudo, oriundas de um ancestral comum das línguas comparadas (idem);
(i) formas pronunciadas por bebê geralmente são semelhantes entre línguas não- aparentadas, portanto, não podem ser usadas na comparação de línguas (idem);
(j) é incoerente apresentar formas semelhantes foneticamente com significados diferentes como evidência potencial de relação genética remota sob a concepção de que mudanças semânticas ocorrem (idem);
(k) palavras monossilábicas podem ser verdadeiros cognatos, mas eles são tão curtos que a similaridades delas com as formas em outras línguas poderiam também facilmente ser devido à coincidência; portanto, têm mais peso, em um diagnóstico sobre parentesco genético, formas longas do que formas breves (HOCK, 1991);
(l) similaridades ou correspondências não devem ser reduzidas a poucos itens, mas recorrentes em um amplo conjunto de outros dados linguísticos (idem); (m) acidente é outra possível explicação das similaridades entre línguas
comparadas e necessita ser evitada em questões de relações genéticas entre famílias separadas em um alto grau de profundidade temporal (CAMPBELL, 1998);
(n) somente comparações que envolvem tanto som quanto significado juntos são aceitos, pois somente semelhanças sonoras ou somente significados semelhantes não são confiáveis (idem);
(o) um estudo comparativo reunindo apenas informações linguísticas como evidências de relações genéticas é o suficiente, já que as afinidades
linguísticas podem ser independentes de conexões culturais e biológicas (cf. GREENBERG, 1963, apud CAMPBELL, 1998);
(p) seria importante conhecer a história individual de cada língua comparada, pois não é incomum, em propostas de relações genéticas distantes, encontrar formas de uma língua que exibam similaridades de formas com outra língua onde essas semelhanças são conhecidas devido a mudanças recentes na história individual de uma das línguas (CAMPBELL, 1998);
(q) quando palavras comparadas são analisadas como sendo compostos de mais de um morfema, é necessário mostrar que os morfemas segmentados (raízes e afixos), de fato, existem no sistema gramatical (idem).
Como podemos ver, e como é afirmado por Hockett (1958), a comparação exige que escolhamos palavras que possuem som e significado similares, no entanto essa semelhança pode ser ocasionada por acidente, por empréstimo ou por herança genética. Ainda a esse respeito, Campbell e Poser (2008) reafirmam que as línguas podem compartilhar características mesmo que estas não sejam heranças de um ancestral comum (língua geneticamente relacionada), isto é, elas podem se assemelhar por (a) acidente (coincidência); (b) devido a empréstimos (situação de contato); (c) onomatopéia; (d) simbolismo sonoro; (e) formas produzidas por bebê; (f) traços universais e (g) traços tipologicamente comuns.
Sabendo disso, Campbell e Poser (2008) e outros linguistas históricos aqui já mencionados, para comprovar se as línguas comparadas possuem relações genéticas, nos aconselham a fazer um estudo cuja análise nos possibilite eliminar todas as outras formas de explicações a cerca das semelhanças entre as línguas.
Para Jeffers & Lehiste (1979), o Método Histórico-Comparativo é baseado em duas hipóteses: uma é a hipótese genética, a outra é a hipótese da regularidade. A primeira tenta explicar similaridades óbvias entre palavras que pertencem a línguas diferentes por assumir que esses sistemas linguísticos sejam aparentados, isto é, que tais línguas descendem de uma língua ancestral comum (proto-língua). A segunda acepção ajuda a reconstruir a proto-língua baseando-se no fato de que as mudanças ocorridas nas línguas obedecem a uma certa regularidade. Isso implica dizer que cada som de uma dada língua muda semelhantemente em todas as suas ocorrências nas mesmas circunstâncias. Um exemplo disso pode ser visto em Rodrigues (1986, p. 30) em que o
autor estabelece um quadro comparativo entre Tupí Antigo e Guaraní Antigo e que nos mostra claramente as correspondências regulares entre tais línguas.
Tabela 2.3 – Comparação lexical: Tupí Antigo e Guarani Antigo (cf. RODRIGUES, 1986)
Nº Glosa Tupí
Antigo Guaraní Antigo
1. „pedra‟ itá itá
2. „tatu‟ tatú tatú
3. „mão dele‟ i-pó i-pó
4. „mão dele mesmo‟ o-pó o-pó
5. „pé dele‟ ipý ipý
6. „pé dele mesmo‟ o-pý o-pý
7. „eu e ele dormimos‟ oro-kér oro-ké
8. 9 „eu dormi‟ a-kér a-ké
9. „eu e ele dissemos‟ oro-‟é oro-‟é
10. „eu disse‟ a-‟é a-‟é
11. „eu o quis‟ a-i-potár a-i-potá
12. „você o quis‟ ere-i-potár ere-i-potá
13. „eu fiquei‟ a-pytá a-pytá
14. „você ficou‟ ere-pýtá ere-pytá
15. „eu e ele ficamos‟ oro-pytá oro-pytá
16. „eu sarei‟ apweráb akwerá
17. „eu o ultrapassei‟ aiopwán aiokwã
18. „eu corri‟ aián aiã
19. „eu o escutei‟ asenúb ahenú
20. „eu o experimentei‟ asa‟áng aha‟ã
Tabela 2.4 – Correspondências sonoras entre T e GA (cf. RODRIGUES, 1986)
TA GA Exemplos t : t 1, 2, 11, 13 p : p 3, 6, 11, 13 r : r 7, 12 C # : 7,11, 16, 17, 19, 20 pw : kw 16, 17 s : h 19, 20
O Método Comparativo consiste, então, no exame de palavras com significados semelhantes nas línguas suspeitas de descenderem de uma proto-língua em comum, na esperança de descobrir correspondências sonoras e reconstruir a proto-língua (JEFFERS & LEHISTE, 1979).
Ao apontarmos os critérios de análise comparativa, supomos que as línguas em estudo sofreram modificações ao longo do tempo. Dentre as modificações que supostamente ocorreram (fonético-fonológicas, léxico-semânticas, morfossintáticas), destacamos nos próximos tópicos as mudanças sonoras das quais temos estudos que formalizaram os tipos de transformações que podem ocorrer durante a existência de uma língua.