Os dados apresentados por Palácio (1984, p. 40) e por Postigo (2009, p. 122) para exemplificar “a inserção de um segmento, um glide palatal” contêm, em nossa análise, um marcador de não-contiguidade que ocorre em verbos transitivos iniciados por vogal (temas da classe II):
(5.158) n- E( j- o9kI( IND- 3sg NCNT- beber „ele bebe‟
(5.159) n- E( j- o9gwa( IND- 3sg NCNT- lavar „ele lava‟ (5.160) n- E( j- o9ko(Éo( IND- 3sg NCNT- coçar „ele coça‟
A função desse dispositivo morfológico é o de estabelecer dependência sintática entre o verbo transitivo e seu objeto não-contíguo. Infelizmente, não há mais dados disponíveis com verbos transitivos iniciados por vogal nos trabalhos analisados62. Sendo esses, portanto, os únicos exemplos com o marcador de não-contiguidade i- em sintagmas verbais.
Já para os casos de verbos iniciados por consoante, inferimos a existência de um marcador de não-contiguidade -, ocorrendo apenas na terceira pessoa, pois consideramos que o não tenha se tornado um prefixo pessoal, diferentemente das outras marcas de pessoas que já se comportam como tal63, tendo em vista que co-ocorre com um relacional: (5.161) n- E - kIÊ9 IND- 3sg NCNT- cortar „ele corta‟ (5.162) n- E - kuÊ9 IND- 3sg NCNT- ouvir „ele ouve‟
(5.163) n- E - ro g- e9gI9ti9 go- tSi9ada9 IND- 3sg NCNT- comer DET- peixe DET- fruta „peixe come fruta‟
62 Palácio (1984) e Postigo (2009).
63 Cogitamos a possibilidade de as formas pessoais, exceto para a terceira pessoa do singular, terem sido
clíticos em um estágio anterior da língua Guató e que se comportam, no estado atual da língua, como prefixos.
(5.164) n- E - ro go- rI IND- 3sg NCNT- comer DET- carne „ele come carne‟
(5.165) do9ki -ga9de go- ti9 i9 E - do9ma -ga9de trazer -HAB DET- farinha que 3sg NCNT- dar a
você
-HAB „ele trazia farinha que dava a você‟
(5.166) E9kage E - ga9po9yeni go- ta primeiro 3sg NCNT- acender DET- fogo „primeiro ela acende o fogo‟
(5.167) g- o9hadòa ma- E - ka9guÊ i- o9da9 g- afo9 DET- mulher IMPF- 3sg NCNT- por 3sg- cesta DET- chão „a mulher pôs sua cesta no chão‟
(5.168) gwa- E - tuÊyoha go- ro- dei9tSa9 g- o9da9 PROG 3sg NCNT- tirar DET- comida dentro DET- cesta „ela está tirando a comida da cesta‟
(5.169) ma- E - ta9 go- ve g- otSa9dòa9 IMPF- 3sg NCNT- morder DET- cachorro DET- cobra „o cachorro mordeu a cobra‟
(5.170) ma- E - ta9 g- otSa9dòa9 go- ve IMPF- 3sg NCNT- morder DET- cobra DET- cachorro „a cobra mordeu o cachorro‟
(5.171) ma- E - ta9 g- otSa9dòa9
IMPF- 3sg NCNT- morder DET- cobra
„a cobra mordeu (ele)‟
(5.172) ma- E - pu$9ni g- a9tu$9
IMPF- 3sg NCNT- roubar DET- pote
(5.173) na- E - baga9ki go- dE9 g- o9hadòa IND- 3sg NCNT- bater DET- homem DET- mulher „o homem bate na mulher‟
(5.174) ma- E - ro g- E9pagu g- E9ki IMPF- 3sg NCNT- comer DET- onça DET- coelho „a onça comeu o coelho‟
(5.175) ma- E - do9ka g- o9tSa i- tSa IMPF- 3sg NCNT- dar-
lhe
DET- tijela 3- marido „ela deu a tigela ao seu marido‟
(5.176) n- E - do9ma g- a9ki9 IND- 3sg NCNT- dar a você DET- vara de pescar „ele dá a vara de pescar a você‟
(5.177) g- o9di9dòeti9 na- topu$9 E - ro DET- criancinha IND- muito 3sg NCNT- comer „a criancinha come muito?‟
(5.178) ma- E - gu$ go- ve IND- 3sg NCNT- matar DET- cachorro „ele matou o cachorro‟
Apresentamos aqui exemplos de orações transitivas com sujeitos de 1sg, 2sg, 1d, 1pl e 3pl, extraídos de Palácio (1984) para demonstrar que os marcadores de pessoas se comportam como afixos e, provavelmente, por isso não exigem a presença de um marcador de contiguidade para estabelecer a relação entre o determinante e o determinado:
(5.179) n- o9kI -o g- o9kIda9 IND- beber -1sg DET- chicha „bebo chicha‟
(5.180) na- gw- o9kI g- o9kIda9 IND- -2sg beber DET- chicha „você bebe chicha‟
(5.181) go9ko9 ma- ga- baga9ki 1d- IMPF- 1d bater „nós batemos nele‟
(5.182) ma- dòa- kayE9 -dòiÊ IMPF- 1pl- chamar -GEN „chamamos todos‟
(5.183) na- bE- baga9ki -o IND- 3pl- bater -1sg „batem em mim‟
Por outro lado, há bastantes exemplos em Palácio (1984) onde o i- atua como marcador de não-contiguidade em sintagmas nominais, tanto em temas iniciados por consoante (classe I), quanto por vogal (classe II), mas a pesquisadora o interpreta como sendo um alomorfe do marcador de terceira pessoa, estando em distribuição complementar com E.
A seguir, apresentamos os exemplos extraídos de Palácio (1984), mas agora reconhecendo neles a existência de flexão relacional de não-contiguidade.
Exemplos com temas da classe I:
(5.184) i- tSa9 NCNT- intestino „intestino dele‟ (5.185) i- kwa NCNT- dente „dente dele‟ (5.186) i- gi9 NCNT- mãe „mãe dele‟
(5.187) i- tana NCNT- raiz „raíz‟
(5.188) i- tSa9dòa NCNT- língua „língua dele (órgão)‟
(5.189) i- ku9 NCNT- folha „folha‟ (5.190) i- kI$ NCNT- pai „pai dele‟ (5.191) i- rE NCNT- olho „olho dele‟ (5.192) i- ra9 NCNT- mão „mão dele‟ (5.193) i- bO NCNT- pé „pé dele‟ (5.194) i- kI$ g- obe NCNT- pai DET- menino „o pai do menino‟
(5.195) na- E- dabo9hi i- gi9 da kI$ni IND- 3sg- abraçar NCNT- mãe para dormir „ele abraça a mãe dele para dormir‟
Exemplos com temas da classe II:
(5.196) i- o9jE- vaca9 NCNT- cria vaca „a vaca dele‟
(5.197) yo9ki9vI$tSa i- o9vI dentro NCNT- casa „dentro da casa dele‟
(5.198) g- o9hadòa ma- E- ka9gu$ i- o9da9 g- afo9 DET- mulher IMPF- 3sg- por NCNT- cesta DET- chão „a mulher pôs sua cesta no chão‟
(5.199) ki9gwadòagani i- o9vi i- gi9 sentado NCNT- colo 3- mãe „ele está sentado no colo de sua mãe‟
(5.200) adi- o9pi9gIri i- o9gwa DN- bem vermelho NCNT- sangue „o sangue dele é bem vermelho‟
A seguir, apresentamos exemplos de construções genitivas com os marcadores pessoais de 1sg, 2sg, 1d, 1pl, 3pl extraídos de Palácio (1984), lembrando que se trata de afixos, logo não necessitam de uma flexão relacional para se ligarem ao núcleo – um marcador de contiguidade):
(5.201) a9- ka9 -ru 1sg- neta -1sg „minha neta‟
(5.202) gwi- tSa9 2sg marido „teu marido‟
(5.203) gi- o9vi 1d- casa „nossa casa‟ (5.204) hadòi- rO9ga 1pl- joelho „nossos joelhos‟ (5.205) bi- rE 3pl- olho „olhos deles‟
Como sabemos, Palácio (1984) considerou o -i como um marcador de terceira pessoa muito produtivo nos nomes e com pouca ocorrência em verbos. Sobre a ocorrência desse morfema em orações, verificamos que se restringe a tipos de orações sem verbos (orações nominais); sendo um deles, oração nominal possessiva: “as orações possessivas são constituídas por dois sintagmas nominais, dos quais o primeiro, que é o predicado, é marcado pelo prefixo modal na- e pelo prefixo de terceira pessoa” (PALÁCIO, 1984, p. 99):
(5.206) na- i- kI9 go- ga9redòayE9 IND- 3sg- ovo DET- galinha „a galinha tem ovo‟
(5.207) na- i- dòe9 E- gI$9 IND- 3sg- fruto 3sg- planta „a planta tem fruto‟
(5.208) na- i- tI9dòi9 E- gI$9 IND- 3sg- flores 3sg- planta „a planta tem flores‟
(5.209) na- i- pa9na g- a9kwo IND- 3sg- rabo DET- macaco „o macaco tem rabo‟
(5.210) na- i- ti9 g- odòa9ho IND- 3sg- flor DET- mato „há flor no mato‟ „o mato tem flor‟
(5.211) na- gu i- o9vI IND- ter 3sg- casa
„ele tem casa‟ „existe a casa dele‟ „há a casa dele‟
Como o predicador continua sendo um nome64, e é a ele que o i- está ligado, chegamos à conclusão de que se trata ainda de um morfema que exerce uma função diferente do E, pois este sistematicamente ocorre em orações com verbos transitivos ativos para representar um sujeito de terceira pessoa do singular; e o i-, por sua vez, está ocorrendo apenas em sintagmas nominais para indicar que o seu referente não está contíguo. Portanto, os morfema i- e não estão em distribuição complementar na classe de verbos transitivos.
Os três exemplos dos dados de Palácio (1984) que poderiam trazer obstáculos à nossa análise foram reproduzidos abaixo65:
(5.212a) na- i- gI$ ginE g- afo9 IND- 3sg- plantar aqui DET- terra „ele planta aqui na terra‟ (tem planta aqui na terra) (5.213a) ma- i- o9gwa i- ra9 E- tO9ra
IMPF- 3sg- lavar 3sg- mão 3sg- filho „ela lavava as mãos do seu filho‟
(5.214a) i- o9gwa 3sg- lavar „ele lava‟
No exemplo (5.212a), Palácio considera o g como se fosse o verbo „plantar‟, mas a estrutura da sentença é a mesma para as orações possessivas que vimos reproduzidas nos exemplos (5.206)-(5.211); por conseguinte, consideramos g como um
64 Nomes podem predicar assim como verbos, logo o status de oração não é dado somente pela presença
de um verbo.
65 O exemplo (64a) corresponde ao exemplo (3.59) da página 97 da tese de Palácio (1984), e o exemplo
nome „planta‟. Com isso, mantemos nossa hipótese de que o i- seria um morfema de não-contiguidade que ocorre nos nomes das classes I e II e em verbos da classe I. Temos, então:
(5.212b) na- i- gI$ ginE g- afo9 IND- NCNT- planta aqui DET- terra „tem planta aqui na terra‟
Quanto aos exemplos (5.213a e 5.214a), verificamos que Palácio interpreta gwa como „lavar‟. Se assim o fosse, estaríamos diante de um verbo transitivo iniciado por vogal que, além da marca de não-contiguidade i-, seria necessária a presença do indicador de terceira pessoa do singular, E (assim como no exemplo (5.159) reproduzido novamente a seguir):
(5.215) n- E( j- o9gwa( IND- 3sg NCNT- lavar „ele lava‟
Mas não é isso que ocorre nos exemplos (5.213a e 5.214a). No entanto, se postularmos que não se trata do verbo gwa „lavar‟ e sim do nome gwa „sangue‟,
teremos uma estrutura nominal, semelhante à estrutura (5.216) reproduzida abaixo e às estruturas correspondentes aos exemplos (5.206)-(5.211) já apresentadas66:
(5.216) adi- o9pi9gIri i- o9gwa DN- bem vermelho NCNT- sangue „o sangue dele é bem vermelho‟
Com isso, as estruturas (5.213a) e (5.214a) ficariam como em (5.213b) e (5.214b):
(5.213b) ma- i- o9gwa i- ra9 E- tO9ra IMPF- NCNT- sangue 3sg- mão 3sg- filho „tinha sangue nas mãos do filho dele‟
(5.214b) i- o9gwa NCNT- lavar „sangue dele‟
A conclusão à que chegamos até aqui é de que o Guató teria um i- como marcador de não-contiguidade tanto para os nomes da classe I e II quanto para os verbos da classe II; e teria - para os temas verbais da classe I, conforme a distribuição abaixo:
Tabela 5.14 – Distribuição dos marcadores de não-contiguidade do Guató
NÃO-CONTIGUIDADE EM GUATÓ