Para se ter a exata compreensão do ambiente, antes é preciso compreender a noção das relações de trabalho na sociedade capitalista. Durante toda a história das sociedades até a atual, os homens agiram sobre a matéria prima (a natureza) para criar instrumentos necessários à sua sobrevivência. Para isso, precisavam realizar trabalho para transformar esta matéria prima em ferramentas, instrumentos e mercadoria de que necessitavam.
É por meio de sua ação sobre os recursos naturais (trabalho) que ele vem transformando o ambiente natural, através dos tempos. As relações de trabalho vêm, sistematicamente, se tornando complexas à medida que surgem novos modelos de sociedade, principalmente pelo desenvolvimento das ciências e das técnicas.
Para iniciar esta discussão faz-se necessário, em primeiro lugar, situar a noção de capital e a lógica de sua reprodução. Para tanto parte-se da formulação de David Harvey (2005, p.307):
O capital é um processo, e não uma coisa. É um processo da vida social por meio da produção de mercadorias em que todas as pessoas do mundo capitalista avançado estão profundamente implicadas. Suas regras internalizadas de operação são concebidas de maneira a garantir que ele seja um modo dinâmico e revolucionário de organização social que transforma incansável e incessantemente a sociedade em que está inserido. O processo mascara e fetichiza, alcança crescimento mediante a destruição criativa, cria novos desejos, transforma espaços e acelera o ritmo da vida. Ele gera problemas de superacumulação para os quais há apenas um número limitado de soluções possíveis.
Na sociedade capitalista da modernidade, a mercadoria ganha importância crucial, a partir do momento em que lhe é atribuído um valor. Aparece aí a idéia de riqueza, a qual é constituída por intermédio da mais-valia (lucro), razão de ser do capitalismo. Na verdade, a riqueza é produzida pelo acúmulo de capitais resultante da sua própria reprodução na economia de mercado. Em resumo, essa mercadoria nada mais é do que o trabalho humano materializado, cristalizado:
A mercadoria é em primeiro lugar, como dizem os economistas ingleses, “qualquer coisa de necessário, útil ou agradável à vida”, objeto de necessidades humanas, um meio de subsistência no sentido mais amplo do termo. Este modo de existência da mercadoria enquanto valor de uso coincide com o seu modo de existência física tangível. [...] O valor de uso só tem valor pelo uso e só se realiza no processo de consumo. [...] Todavia,
o seu modo de existência de objeto dotado de propriedades determinadas, contém a soma das possibilidades de utilização. Além disso, o valor de uso não é só determinado qualitativamente, mas também quantitativamente. [...] Os valores de uso são, de modo imediato, meios de subsistência. Mas por seu lado, estes meios de subsistência são eles próprios produtos da vida social, o resultado de um dispêndio de força vital humana, são trabalho
materializado13 (MARX, 1977, p.31-32).
O desenvolvimento da sociedade capitalista, ou seja, sua superestrutura econômica criou a divisão social do trabalho, para garantir a produção da mais-valia. O trabalho humano, convertido em mercadoria essencial, passou a ser a base de sustentação da reprodução do capital. Para tanto, ele passou a adquirir valor, numa relação direta com o desenvolvimento das técnicas e das ciências. Desta forma, tentou-se criar a dicotomia entre trabalho braçal e trabalho intelectual, como se fosse possível medir o trabalho humano segundo o conhecimento técnico adquirido por cada ser humano.
Quais são os limites “máximos” da acepção de “intelectual”? É possível encontrar um critério unitário para caracterizar igualmente todas as diversas e variadas atividades intelectuais e para distingui-las, ao mesmo tempo e de modo essencial, dos outros agrupamentos sociais? O erro metodológico mais difundido, ao que me parece, consiste em se ter buscado este critério de distinção no que é intrínseco às atividades intelectuais, ao invés de buscá-lo no conjunto do sistema de relações no qual estas atividades (e, portanto, os grupos que as personificam) se encontram, no conjunto geral das relações sociais (GRAMSCI, 1979, p.6-7)
Antonio Gramsci (1979) tenta fundamentar seus estudos sobre as atividades intelectuais, reafirmando que o trabalho humano não pode se dividir dessa forma. Assim, ele afirma que “todos os homens são intelectuais, poder-se-ia dizer então; mas nem todos os homens desempenham na sociedade a função de intelectuais” (GRAMSCI, 1979, p.7).Ele continua sua argumentação:
Não existe na atividade humana da qual se possa excluir toda intervenção intelectual, não se pode separar o homo faber do homo sapiens. Em suma, todo homem, fora de sua profissão, desenvolve uma atividade qualquer, ou seja, é um “filósofo”, um artista, um homem de gosto, participa de uma concepção de mundo, possui uma linha consciente de conduta moral, contribui assim para manter ou para modificar uma concepção de mundo, isto é, para promover novas maneiras de pensar (idem, 1979, p.7-8).
As formulações de Gramsci (1979) são fundamentais para se ter a compreensão do viés ideológico constituído para fundamentar a idéia da separação entre trabalho mecânico ou instrumental do trabalho dito “intelectual”. Esta concepção tanto mais se difundia e se propagava, quanto mais o capitalismo desenvolvia e dirigia o processo técnico-científico. Dessa forma, o processo de industrialização capitalista foi um dos principais responsáveis para a propagação desta concepção. Aí aparece a noção de desenvolvimento e de civilização das várias nações. Daí advêm os parâmetros para se medir o grau de “civilização” de um determinado povo. Gramsci (1979, p.9) discorre sobre a questão da industrialização:
A industrialização de um país se mede pela sua capacidade de construir máquinas que construam máquinas e na fabricação de instrumentos cada vez mais precisos para construir máquinas e instrumentos que construam máquinas, etc. O país que possuir a melhor capacitação para construir instrumentos para os laboratórios dos cientistas e para construir instrumentos que fabriquem estes instrumentos, este país pode ser considerado o mais complexo no campo técnico-industrial, o mais civilizado, etc.
Então o desenvolvimento das técnicas vem introduzir valores e conceitos ligados, de maneira a justificar a produção do conhecimento dirigida para a expansão e reprodução do capital.