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Cotidianamente, a mídia, seja ela falada, escrita ou televisada, tem tratado as questões ambientais, de forma fragmentada, focalizando casos isolados, como se fossem regra geral. Desta maneira, as temáticas são tratadas sob o viés ideológico ditado pela mídia capitalista.

É preciso contextualizar os aspectos que levaram a sociedade a se deparar com o atual estágio de degradação ambiental do planeta. Neste sentido, para estudar os problemas ambientais ligados à urbanização, faz-se necessário um resgate histórico, social, econômico e epistemológico deste processo. Isto significa fazer uma análise, principalmente da sociedade capitalista e dos processos desenvolvidos por ela, os quais incidem diretamente sobre a urbanização e, conseqüentemente, constituem-se nas principais causas dos problemas ambientais urbanos, que marcam o início do século XXI.

Diante destas preocupações, neste capítulo faz-se uma abordagem histórica e social da sociedade capitalista, enfatizando a situação conjuntural que marca a modernidade, as contradições, conflitos e crises, presentes nesta sociedade. Faz-se ainda uma abordagem epistemológica da evolução das relações sociedade-natureza, do processo de industrialização/urbanização no Brasil e das mudanças nas relações de trabalho, gestadas no atual estágio de desenvolvimento deste modelo de produção econômico.

1.1 A crise civilizacional dos tempos modernos

Para analisar a crise que permeia a modernidade, é preciso, antes de tudo, fazer uma breve reflexão acerca do atual modelo de desenvolvimento que move a sociedade nos dias de hoje: o capitalismo. Para tanto, é necessário ensaiar uma pequena retrospectiva histórica do movimento dialético dos fatos e acontecimentos que propiciaram o surgimento da sociedade capitalista.

Para iniciar esta discussão, ninguém melhor do que aquele que passou toda sua vida estudando a sociedade capitalista: Karl Marx. No prefácio à “Introdução à Crítica da Economia Política”, ele conceitua a sociedade capitalista, ao mesmo tempo em que abre a perspectiva para sua superação:

A conclusão geral a que cheguei e que, uma vez adquirida, serviu de fio condutor dos meus estudos, pode formular-se resumidamente assim: na produção social da sua existência, os homens estabelecem relações determinadas, necessárias, independentes da sua vontade, relações de produção que correspondem a um determinado grau de desenvolvimento das forças produtivas materiais. O conjunto destas relações de produção constitui a estrutura econômica da sociedade, a base concreta sobre a qual se eleva uma superestrutura jurídica e política e a qual correspondem determinadas formas de consciência social. O modo de produção da vida material condiciona o desenvolvimento da vida social, política e intelectual em geral. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser; é o seu ser social que, inversamente, determina a sua consciência. Em certo estágio de desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes ou, o que é a sua expressão jurídica, com as relações de propriedade no seio das quais se tinham movido até então. De formas de desenvolvimento das forças produtivas, estas relações transformam-se no seu entrave. Surge então uma época de revolução social. A transformação da base econômica altera, mais ou menos rapidamente, toda a imensa superestrutura (MARX, 1977, p.24- 25).

Já nesta formulação, Marx (1977) sintetiza o nascimento, o desenvolvimento e prevê a falência do atual modelo econômico. Esta análise não se dá por meio de premonições ou de qualquer forma de adivinhação, mas por meio do estudo meticuloso e minucioso das diversas formas de sociedade que antecederam a capitalista. Ele concluiu que todas as sociedades, até os dias de hoje, nasceram, cresceram, evoluíram e morreram. Concluiu ainda que a falência de quaisquer modelos de sociedade se deu pela agudização das mesmas contradições que propiciaram seu surgimento.

Neste sentido, por intermédio do estudo científico das sociedades passadas, Marx previu a falência da sociedade capitalista, a qual ele presenciou em vida o seu nascimento. Mais adiante, esta dissertação lançará mão da obra do pensador húngaro contemporâneo Ístvan Mészáros, que faz a releitura do marxismo para os dias atuais, trazendo à tona a perspectiva de superação da crise capitalista da modernidade.

1.1.1 Estudando os tempos presentes: contradições, conflitos e crise

Os tempos modernos são marcados pela crise intensa da técnica e da ciência, pelas opacidades, pela coisificação do homem e da natureza. São tempos em que os projetos de homem e de natureza, se perdem no “buraco negro” resultante da crise capitalista dos tempos modernos. Vive-se um período em que coexistem dois mundos: o primeiro, trata-se de um submundo virtual dirigido por tecnocratas, os quais são responsáveis por ditar os destinos e os rumos da humanidade. Pairam sobre ela como juízes supremos, intocáveis, que a todos podem julgar e por ninguém podem ser julgados. O segundo, trata-se de um submundo real, habitado pela grande maioria da população global, imersa no gigantesco lamaçal da corrupção, da miséria, do desemprego, da fome, da violência.

Trata-se de uma sociedade “altamente informatizada”, mas que, ao mesmo tempo, desinforma e atomiza as pessoas como partículas insignificantes no colossal universo da degradação ambiental e da degradação econômica, política e cultural do ser humano. Trata-se de uma sociedade que coloca o homem na luta contra sua própria espécie e, em última instância, o coloca na luta pela derrocada de todo o ecossistema planetário, para, enfim glorificar e fazer triunfar a mais valia como mola mestra do modo de produção capitalista.

Boaventura de Sousa Santos (2001, p.58) realça, com muita propriedade, esta situação:

Como é que a ciência moderna, em vez de erradicar os riscos, as opacidades, as violências e as ignorâncias, que dantes eram associados à pré-modernidade, está de facto a recriá-los numa forma hipermoderna? O risco é actualmente o da destruição maciça através da guerra ou do desastre ecológico; a opacidade é actualmente a opacidade dos nexos de causalidade entre as ações e as suas conseqüências; a violência continua a ser a velha violência da guerra, da fome, da injustiça, agora associada à nova violência da hubris7 industrial relativamente aos sistemas ecológicos e à violência

simbólica que as redes mundias da comunicação de massa exercem sobre as suas audiências cativas. Por último, a ignorância é actualmente a ignorância de uma necessidade (o utopismo automático da tecnologia) que se manifesta com o culminar do livre exercício da vontade (a oportunidade de criar escolhas potencialmente infinitas).

É neste contexto que se situa a sociedade moderna, na qual o homem coisificado e atomizado, luta desesperadamente em busca de um novo paradigma, o qual resgate a sua dignidade e dê a ele nova significação e uma razão real para sua existência. É, ainda, neste contexto que se degladeiam as forças oriundas do racionalismo/positivismo e da gestação de um novo paradigma que resignifique a existência humana.

A falsa justificativa do atual modelo de desenvolvimento cria um imenso abismo que define a concentração da riqueza material no hemisfério norte e a concentração da pobreza no hemisfério sul. Tal justificativa, em nome do progresso técnico e científico, na chamada “sociedade globalizada”, aniquila a cultura, as etnias, os costumes e as tradições dos povos, criando, assim, um conjunto de populações totalmente desprovidas de identidade cultural.

1.1.2 Modernidade, capitalismo e crise

O aumento da velocidade da informação, dos transportes, das telecomunicações e da rede mundial de computadores “diminui” as distâncias entre os povos. A relação espaço/tempo configura-se de acordo com a lógica da velocidade. Estes são aspectos que caracterizam os tempos modernos, que marcam a “derrubada” das fronteiras econômicas entre os diversos povos. A “sociedade global”, por meio da tecnologia de última geração descortina também a crise, sem precedentes, que marca os tempos modernos.

A pretensão desse modelo, que emerge do pensamento positivista é aparar as arestas das diferenças e desigualdades entre os povos, considerando-os como se fossem coisas, objetos moldados e talhados por um instrumento qualquer. O homem nesta sociedade, não passa de um objeto, descartável, cuja única função é vender sua força de trabalho em troca do florescimento da mais valia: fio condutor e ponto nevrálgico do modelo de desenvolvimento da sociedade capitalista contemporânea.

O epicentro da chamada “sociedade global” localiza-se exatamente sobre a necessidade urgente da expansão e reprodução do capital e, para isso não se medem esforços, nem conseqüências. Observa-se a brutalidade da expansão e reprodução do capital por meio da fome e da miséria absolutas que se espalham por todo o planeta. No mundo todo são milhões e milhões de desempregados e famintos, um exército de

zumbis8 que compõem a reserva de mão de obra barata e descartável a serviço do