O meio ambiente não é muito fácil de definir, como imagina a maior parte das pessoas. Por exemplo, a gente vê a televisão fazer propaganda de preservação ambiental e, ao mesmo tempo, nos intervalos dos programas ela faz a propaganda massiva do consumismo. Se a gente for fazer as contas do tempo real de propaganda na TV, vai notar que num filme de uma hora e meia, temos acrescido a este tempo, mais uma hora ou mais de propaganda consumista, o que vai acarretar o aumento da produção de embalagens e de resíduos industriais. Aí está uma enorme contradição. Para mim, meio ambiente se refere a tudo que está relacionado com a natureza, de maneira geral. Aí, deve se levar em conta os fenômenos naturais, as paisagens naturais e as modificadas pelo homem. O ambiente deve ser enxergado em sua totalidade e não como nos mostra a TV, somente as coisas bonitas.
2 – Como você acha que devem ser tratados os conteúdos ligados às questões ambientais em sala de aula?
Os temas ambientais devem ser aproveitados em classe, para desenvolver a consciência crítica dos alunos, principalmente em relação às atitudes que a humanidade vem tomando em relação aos recursos do planeta. A escola deve ser uma das responsáveis por transmitir aos alunos a noção de desenvolvimento com controle dos recursos naturais. Uma questão bastante importante, para não dizer fundamental para se trabalhar os conteúdos ambientais, em sala de aula seria a utilização do Trabalho de Campo, como recurso pedagógico. Mas, a escola não tem a mínima condição de desenvolver este tipo de atividade, principalmente a escola pública de comunidades pobres, como é o nosso caso. Uma situação possível é o trabalho com coleta seletiva e reciclagem de materiais.
3 – Como você vê a possibilidade de se relacionar os conteúdos do currículo oficial com a realidade extra-classe dos educandos?
Sobre este assunto, temos que imaginar soluções hipotéticas. Se tivéssemos condições ideais de trabalho, com uma carga horária e um salário que nos permitisse dedicação a poucas turmas e, ainda com a vontade política do governo para resolver os problemas da educação, com certeza teríamos condições de entender a realidade do aluno e, diante disso, contextualizar os conteúdos dados em sala de aula.
Poderíamos desenvolver trabalhos de campo, tirar o aluno da rotina da sala de aula. A disciplina de Química, por exemplo, tem um conteúdo que permite fazer bem esta contextualização, pois tudo ou quase tudo no mundo depende da química. Mas, o que vemos por aí a ligação da química com as coisas ruins, ou seja, a velha frase: “Tudo que tem química não presta”. Partindo desta idéia, os alimentos, a água, a própria natureza não prestam, pois são compostos químicos. Dentro das limitações da escola pública eu tento fazer esta ligação.
4 – Para você, qual (quais) a(s) maior(es) dificuldades dos alunos das escolas públicas, em sala de aula, para a assimilação dos conhecimentos?
Sem dúvida nenhuma os nossos alunos, como alunos de escolas públicas de comunidades pobres, são alunos mais que especiais. A maioria deles vem para a sala de aula com uma grande carga de problemas que trazem de casa. Isto prejudica a concentração deles, acarreta atos de rebeldia, de indisciplina. O pior é que as pessoas responsáveis pela legislação educacional não conseguem, ou não querem ver as particularidades destes alunos. Os conteúdos dos livros didáticos, que foram feitos para alunos em condições normais de sobrevivência, não refletem estas particularidades presentes nas comunidades carentes. Para mim, este é maior problema, que interfere diretamente no nosso trabalho docente.
5 – Você acha que os problemas ambientais urbanos, tais como desemprego, alimentação deficitária, problemas de saúde, higiene, habitação, violência urbana e familiar, falta de lazer, carência de afetividade, dentre outros, podem afetar a aprendizagem do educando em classe? Como?
Esta pergunta já é a realidade de nossas escolas da periferia. Já tem mais de oito anos que eu trabalho nestas escolas e gosto do que faço. Todos esses pontos que você citou fazem parte desta realidade. Os nossos alunos já saem atrás da maioria das escolas, pois, a desigualdade social é uma marca, que por si só já discrimina nossos estudantes. Alunos com esta carga de problemas nas costas não deveriam pagar pelo fracasso escolar, pois eles, além de superar as dificuldades normais da aprendizagem, têm ainda que superar o preconceito e a discriminação.
6 – Como esses problemas, citados acima, podem ser trabalhados em sala? Como relacioná-los com os conteúdos curriculares?
Esta pergunta leva novamente aos problemas enfrentados pelos professores das escolas das comunidades pobres, ao problema da sobrecarga de trabalho, da falta de tempo para conhecer a realidade de nossos alunos, da falta de material didático, da dificuldade de preparar uma boa aula, enfim, é extremamente difícil fazer esta relação, devido a esta série de problemas.
Simplesmente eles não podem ser tratados com fidelidade em sala de aula. Isto, justamente pela incapacidade do professor em conhecer de perto a realidade do aluno em seu local de moradia, em seu emprego, em seu divertimento, etc. os baixos salários e a sobrecarga de trabalho que recaem sobre nós professores, nos impossibilita totalmente de conhecer tal realidade. Impossibilita-nos inclusive de participar de cursos de capacitação. Com isso, temos que ficar satisfeitos, quando conseguimos trabalhar o livro didático e terminá-lo, até o final do ano letivo.
7 – Sabe-se que os professores, principalmente os da rede pública, enfrentam uma série de problemas, tais como: baixos salários, ausência de materiais didático-pedagógicos, salas de aulas superlotadas, alunos indisciplinados, pressão institucional do estado, dentre outros. Esses problemas podem afetar o desempenho dos professores nas aulas? Como?
A nossa profissão deveria ser a mais valorizada no país. Mas, é justamente o contrário o que acontece. Se o Estado resolvesse, pelo menos metade dos problemas que você citou nesta pergunta, o problema da educação seria solucionado em um tempo médio. Os vários problemas citados, apesar de serem mais graves na rede pública de ensino, não são privilégios dela. As escolas particulares passam por situações semelhantes, mas propositalmente, para aumentarem seus lucros. Existe um fato interessante: as escolas particulares querem elevar, cada vez mais, seus lucros com a educação. Já nas públicas, o estado quer se descomprometer com ela. Resultado: não existe educação de qualidade nem na rede particular, nem na rede pública. O ensino virou mercadoria e fonte de riqueza para alguns poucos.
8 - Qual a concepção geral que você tem da educação nos dias atuais? Quais as possibilidades e perspectivas de melhoria do processo educacional no Brasil?
Quais as propostas que você acha que poderiam auxiliar na melhoria deste processo educacional?
A educação nos dias de hoje passa pela sua pior crise. Talvez seja reflexo da crise política que acontece no mundo todo. Eu vejo a educação como um importante fator para o desenvolvimento de qualquer nação. Ela é uma questão política. Porém, no Brasil a política não é coisa séria, basta olhar a onda de corrupção que tomou conta de nosso país nos últimos tempos. Em época de política, de eleição, todos os candidatos falam de educação, mas fica só no discurso. A solução só poderá vir a partir de uma grande briga, que seja compartilhada entre professores, alunos e a sociedade em geral. Fora disso, não vejo nenhuma saída possível.
ENTREVISTA COM O PROFESSOR DE GEOGRAFIA.