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No que se refere aos estudos sobre literatura de folheto desenvolvidos pela historiografia canônica do cordel, como já apontamos, podemos perceber um discurso dominante que surge a partir de um processo intelectualizado que ignora o cordel como sendo plural e dinâmico e o coloca em uma visão distorcida de sua essência. Uma vez que tais estudiosos, imbuídos por um projeto político de construção da identidade nacional, apresentaram métodos, definições impositivas, criando uma visão capaz de responder a questões de gênero, raça e cultura.

Aos pesquisadores da historiografia do cordel, foi possibilitado, ao mesmo tempo, trabalhar sobre cultura popular e não ter que sair de seus gabinetes ou mesmo renunciar às comodidades oferecidas pela moradia nas grandes cidades. A distância geográfica da região do Nordeste com relação as outras regiões do território brasileiro separa os pesquisadores do Sudeste dos poetas populares, dos gráficos que compõem e imprimem, do público consumidor tradicional o que permitiu grandes generalizações e abstrações. Mas o que definiu a postura desses pesquisadores foi o projeto político de identidade nacional vigente na época. No entanto, outros pesquisadores foram a campo, como Raymond de Cantel.

Muitas pesquisas a respeito do cordel foram empreendidas dentro desses gabinetes. Um dos motivos pode ser a grande circulação dos folhetos e, assim, sua

facilidade de acesso, como também dos livros teóricos, distanciando o pesquisador cada vez mais da voz do poeta, dos sujeitos e atores sociais pesquisados.

Esse tipo de estudo, desenvolvido por um grupo restrito, contribuiu para uma visão distorcida do poeta, de sua região e de seu público, constituindo um discurso muitas vezes incorporado pelos próprios poetas, discurso esse que vem sofrendo transformações em função da dinâmica social e cultural que é capaz de criar, recriar e transformar padrões estéticos e comportamentais, tanto no poeta como no público receptor.

No que diz respeito a poesia, para Paul Zumthor (2010), “Toda poesia aspira a se fazer voz; a se fazer, um dia, ouvir: a capturar o individual incomunicável, numa identificação da mensagem na situação que a engendra, de sorte que ela cumpra um papel estimulador, como apelo à ação” (p. 179). Essas vozes estão presentes nos folhetos. Por essa materialidade, os pesquisadores constroem suas teses e conclusões. A crítica literária, para Zumthor (1993), ainda não dissocia da “ideia de poesia a de escritura” (p. 8).

2.4.1. Novas configurações do conhecimento

O que faz com que novos pesquisadores voltem um olhar diferenciado aos estudos do cordel? A própria conjuntura cultural e social que envolve a construção do conhecimento explica esses fatores. Boaventura de Sousa Santos (2008) aborda grandes transformações na gênese do conhecimento. Segundo o autor:

Não há apenas conhecimentos muito diversos no mundo sobre a matéria, a vida e a sociedade; há também muitas e muito diversas concepções sobre o que conta como conhecimento e os critérios da sua validade. Nem todas são incomensuráveis entre si (p. 144).

O autor trabalha com a pluralidade de saberes nas Ciências e postula que “conhecer as circunstâncias e condições particulares em que se produz o conhecimento é fundamental para poder aferir a diferença que esse conhecimento faz” (p. 147). O cordel apresenta-se como um modo de conhecimento capaz de fazer desse meio uma

realidade social. Ignorar suas condições históricas e socioculturais de produção é mutilar sua heterogeneidade, procurando estabelecer uma unidade. As novas transformações ocorridas no campo das Ciências permitirão interrogar as condições e os limites da autonomia das atividades científicas, tornando explícitas a sua relação com o contexto social e cultural em que ocorrem.

Nessa perspectiva, os estudos sobre o cordel envolvem um trabalho sobre os objetos tecnológicos, seja no sentido de transformá-los em objetos de conhecimento reconhecíveis no quadro do que já existe, os estudos atuais, seja no sentido da sua redefinição enquanto parte de uma redefinição mais geral dos espaços de conhecimento, produzindo novas configurações de saberes.

Mesmo quando iam a campo, a postura de superioridade mantida por pesquisadores envolvidos em um projeto político da construção de uma identidade nacional por meio da cultura popular servia para reforçar o complexo de inferioridade do poeta. A metodologia de pesquisa geralmente desenvolvida consistia em questionários prontos com o intuito de absorver o que era de interesse para a própria pesquisa. Contudo, a postura que deve assumir o pesquisador engajado com os valores da literatura das vozes encontra no ambiente a fonte direta dos dados. Esse tipo de pesquisa é caracterizado pela obtenção de dados descritivos, no contato direto do pesquisador com a situação estudada, valorizando-se mais o processo que o produto, preocupando-se em retratar a perspectiva dos participantes, isto é, o significado que eles atribuem ao seu fazer poético. Nesse sentido, destacamos as pesquisas desenvolvidas por Raymond de Cantel ao longo de suas viagens pela região do Nordeste brasileiro.

2.4.2. Novos olhares, novos rumos

No campo acadêmico, as discussões sobre literatura de folhetos vêm ganhando novos rumos e novos pesquisadores. Esses pesquisadores assumem novas posturas diante do poeta e da literatura de cordel, tomando, esta última, como uma evolução da poética das vozes situada, na sua forma escrita, na passagem da oralidade para a escrita.

A voz, cantada ou declamada, tendo o corpo como único suporte, passa a ser considerada como um meio de produção de obras literárias, mas nem sempre foi assim considerada pela historiografia do cordel, que criou com base na cultura escrita, um preconceito em torno da poética das vozes.

Segundo Eric Havelock:

[nos festivais], os versos de uma sociedade oral descobrem os seus meios de “publicação”, um termo exato para o processo, embora hoje se pense nela apenas em termos letrados, visto que a imprensa e a editora suplantam situações orais do passado, ao ocasionarem uma circulação documentada entre leitores (1996, p. 96).

As próprias transformações sociais ocorridas no tempo possibilitaram o surgimento de gráficas de folhetos que, aos poucos, foram imprimindo e publicando as formas de expressão oral. Ao mesmo tempo em que ampliavam os moldes de publicação criava-se também a divisão de práticas poéticas orais e escritas, o que pode ser percebido na separação da cantoria e do folheto de cordel, poéticas convergentes, mas comumente separadas pelos pesquisadores.

Ana Maria Galvão (2001) aponta que não somente vivenciaram a oralidade e a escrita como formas de acesso a essa poética os produtores de cordel, mas também os leitores e ouvintes da mesma. Dessa forma, por meio de um sistema de editoração, a literatura de folhetos passou e passa por um processo de transição da oralidade para a escrita. Francisca Pereira dos Santos (2009, p. 19)) aponta três fatores que proporcionaram a fixação do folheto como um sistema produtivo de editoração. Segundo a autora, foram:

a) A existência, já amadurecida, de uma poética cantada;

b) A presença das máquinas tipográficas no Nordeste, responsáveis pelo impulso das condições concretas para o estabelecimento de focos de produção de folhetos populares; e

c) A apropriação, por parte dos poetas cantadores – emergentes poetas de cordel -, dessas novas tecnologias de informação e comunicação.

Os poetas se apropriam das tecnologias, tanto da escritura quanto da tipografia, de modo que os folhetos surgem de um processo de transformação, de apropriação e de criação. Por muito tempo, os estudos sobre o cordel basearam-se sob um ponto de vista escriptocêntrico, tendo o folheto como objeto de estudo, considerando-o como uma manifestação escrita de literatura. Não era contemplada a sua produção, transmissão e

recepção, etapas baseadas na leitura em voz alta, no canto ou declamação, ou seja, no encontro do produtor e receptor, o que Zumthor chama de performance.

Para os estudos tradicionais da historiografia do cordel, é possível estudar o folheto com os critérios e os métodos utilizados pela literatura canônica como se fosse somente um texto escrito e impresso, separando-se, assim, as características da oralidade e do folheto. A mudança de paradigma, pelos pesquisadores atuais, objetiva um regresso a essa origem, ao mundo da oralidade e à consciência de que essa forma impressa – o folheto – está presente nesse mundo. Desse modo, o folheto de cordel não é configurado como um livro escrito e impresso, no sentido moderno da palavra, mas como um produto da fase da oralidade mista proposta por Zumthor (1993, p. 18).

Existe um número crescente de pesquisadores que trabalham com essa nova perspectiva, dentro dessa geração de estudiosos, que assumem posturas conscientes do estado evolutivo da poética das vozes, sem dispensar a dimensão oral ligada a essa manifestação literária. Destacamos os trabalhos desenvolvidos por Francisca Santos (2011, 2009), Ana Galvão (2001), Ria Lemaire (2002, 2007, 2008), Gilmar de Carvalho (1994, 2002) e Simone Mendes (2011).

As pesquisas desenvolvidas por tais estudiosos trazem inovadoras contribuições aos estudos da literatura de cordel, inovadora no sentido de colocar em foco sua produção, transmissão e recepção, descobrindo as formas de acesso, as situações de interação dessa poética, o papel atribuído à sua leitura e os significados construídos a partir dos textos. Desse modo, com suas pesquisas, desmistificam a falsa dicotomia oralidade-escrita.

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