Na inauguração da Sociedade dos Cordelistas Mauditos, foi realizada uma leitura por seus integrantes do que teria sido os 500 anos do “descobrimento” do Brasil, com o intuito de desconstruir paradigmas sociais cristalizados e predominantes no meio social, estabelecendo um crítica às desigualdades presentes no Brasil desde o seu “suposto” descobrimento.
Os 12 cordéis apresentados com o título principal “Agora são outros 500!” seria, segundo os Mauditos, realmente o retrato do Brasil. Em sua obra seguinte, o grupo busca constituir um novo paradigma para se pensar o cordel, com base em uma evolução temática, incluindo temas antes não tratados.
O Brasil, no ano de 2000, estava voltado para as celebrações dos 500 anos de seu “descobrimento”, marcado pela chegada do homem europeu ao “novo” mundo. A história oficial brasileira preocupou-se com heróis da classe poderosa, nomes importantes da mesma classe, datas a decorar, fatos que não refletiram e não refletem a verdadeira realidade do povo que foi, e ainda é, massacrado. Frente a isso, a Sociedade dos Cordelistas Mauditos propõe recordar “outros” 500 anos fazendo uma crítica por meio de sua produção de cordel, não somente os poemas, mas as próprias capas que os acompanham.
Apresentaremos algumas capas e folhetos produzidos pelos Mauditos, na ocasião da inauguração da sociedade, entendendo a imagem como um poderoso articulador de discursos e de grande circulação na atualidade. Nesse sentido, é impossível separar as imagens, que compõem as capas, dos versos do poema.
Entretanto, as materialidades do verbal e do visual exigem a mobilização de conceitos capazes de considerar suas especificidades. Assim, analisar imagens exige compreender como elas funcionam e significam. Nesse sentido, Courtine (2008, p. 17) ressalta o papel da memória específica das imagens, a intericonicidade, na construção de sentidos dentro de um arquivo que se estende às imagens evocadas.
Desse modo, a imagem é tomada como uma produção sócio-histórica que articula uma memória e um esquecimento na atualidade de seu acontecimento. Portanto, as imagens não são tomadas em si mesmas como estrutura fechada, mas sim no processo discursivo de composição do folheto: não é suficiente descrever como os elementos compositivos das imagens se relacionam, é necessário analisar os possíveis efeitos de sentido produzidos por eles.
As imagens inscrevem-se numa discursividade e operam uma memória regida pela ordem do discurso que determina o que pode ser visto em oposição ao que não pode ser visto em uma data época. Nesse sentido, cada época traz suas características na materialidade das imagens e faz com que elas entrem em redes de memória como condição para produzir efeitos de sentido.
Na perspectiva discursiva, toda imagem concreta traz em sua materialidade características de sua época, numa articulação com a memória. Trata-se de uma maneira sócio-historicamente determinada de recriar o real, a fim de produzir efeitos de sentido.
Nesse sentido, observaremos algumas imagens que acompanham a produção da Sociedade dos Cordelistas Mauditos, na ocasião de sua inauguração, como lugar de resistência voltado, inicialmente, para apresentar “outros” 500 anos do Brasil.
Tomaremos a capa do folheto intitulado “Agora são outros 500! – Os quinhentos anos que invadiram o Brasil”, de Hamurábi Batista, (2000):
Figura 4: Folheto “Agora são outros 500! – Os quinhentos anos que invadiram o Brasil”.
A imagem representa uma invasão ao Brasil, podemos perceber a forma brutal com a qual a nação é tomada por meio das espadas e lanças que atravessam o mapa do país, assim como a corda que o segura, enforcando-o. A ideia de invasão perpassa a imagem, que é, por sua vez, retomada no poema.
Ô mentira cabeluda
que chamam descobrimento já vieram com o intento quem for trouxa que se iluda o que a criança estuda não passa de enganação pois fizeram uma invasão dizendo: se descobriu Invadiram o Brasil no ano mil e quinhentos da Coroa Portuguesa tomaram nossa riqueza e devolveram em tormentos.
Os “outros” 500 anos narrados pelos cordelistas Mauditos como plenos de mentiras e de violência, constituem-se como dicotômico ou contra discurso à ideia de descobrimento reforçada nas aulas de História, ministradas na Educação Básica. O mapa do país pode ser visto dentro de um coração ferido, simbolizando a dor da mentira e do engano do descobrimento, as espadas e as lanças encravadas na terra flagelada. Dessa maneira, o Brasil é mostrado como um território que foi invadido e não descoberto. Uma invasão que, metaforicamente representada pela imagem de capa, feriu muitos peitos, o peito de uma nação. Visão representada, como podemos observar, nos versos a seguir:
Que esses quinhentos anos sejam então quinhentas salvas por cada uma das almas daquelas vidas molambos por cada chacina e engano violentos e desmedidos há muito peitos feridos (...)
O folheto “Agora são outros 500! Tupy or not Tupy”, de autoria de Francisca Pereira (2000), conhecida como Fanka, apresenta grandes inovações. A poeta transgride a forma tradicional do cordel ao inserir, no lugar do verso, linhas que representam uma partitura musical, aludindo, estrategicamente, à dimensão musical/oral do cordel. A inovação empreendida por Fanka pode ser percebida não somente na forma, mas na própria capa do folheto com xilogravura assinada por Hélio Ferraz, também integrante da Sociedade dos Cordelistas Mauditos.
Figura 5: Folheto “Agora são outros 500! – Tupy or not Tupy”
Segundo Courtine (2005), “as imagens correspondem a memórias sociais do indivíduo”. Com base nesse postulado, iremos, a seguir, levantar duas possibilidades de análises da capa do folheto “Agora são outros 500! – Tupy or not Tupy.”
Ao observarmos o título do folheto, podemos perceber um ato de canibalização que representa a dúvida shakespeariana no plano de um sujeito antropofágico, que é agora dono de sua própria história. Um desejo de se apropriar do valor do “inimigo”, no lugar de eliminá-lo. “Só a antropofagia nos une”, propondo deglutir o legado cultural europeu e digeri-lo sob a forma de uma arte tipicamente brasileira, como podemos perceber nos versos a seguir:
Salve a língua Guarani vibrando na aquarela Policarpo e o Cariri a cor verde e amarela nossa dança e escultura poesia e xilogravura passando em passarela.
Outra possibilidade de análise está diretamente relacionada à frase to be or not to
be vinculada à imagem da capa. Originária da peça A tragédia de Hamlet, príncipe da
Dinamarca, de Willian Shakespeare, a expressão carrega um fundo filosófico profundo sobre os efeitos da morte sobre o corpo. A gravura de Hélio Ferraz traz a figura do colonizador, carregando no peito o brasão de Portugal, mas com a face, aparentemente, de um canibal. Este, por sua vez, segura uma espada apoiada sobre o solo e um estandarte com a Cruz de Malta. O estandarte, com destaque na imagem, traz as ideologias e a cultura de Portugal, a cruz de Malta ou cruz de São João é identificada como o símbolo do guerreiro cristão. É uma cruz com oito pontas e tem a forma de quatro braços em V, que se juntam em suas bases, anunciando o processo de catequização dos nativos, vinculado pela simbologia da cruz e remetendo às cruzadas.
A antropofagia dos Mauditos não está na formação de sua identidade, mas para desfazê-la e depois refazê-la. Uma identidade que é nômade, inacabada, movente. A antropofagia maudita consistirá na transformação através da negação, da preservação e da transcendência. Negando todas as particularidades, assim como preservando-as e integrando-as, dialeticamente, num universo concreto das diversas linguagens.
Francisca Pereira dos Santos convida o leitor a fazer a diferença nos próximos 500 anos que hão de vir, preservando a cultura nacional, fugindo da exploração, protestando e questionando os valores impostos pela história oficial.
Agora é mais quinhento espere você pra ver o povo não é jumento condenado a viver perdido na ignorância na fila da tolerância esperando pra morrer. A verdade aparece quando vem é pra ficar esclarece não esquece a história do lugar
mesmo com toda omissão da história da nação a verdade surgirá.
A crítica que a Sociedade dos Cordelistas Mauditos faz aos 500 anos do “descobrimento” do Brasil não está somente ligada aos poemas de cordel da coleção
“Agora são outros 500!”, mas está também nas capas e na postura assumida por cada poeta maudito. As capas dos folhetos carregam as memórias de cada autor referente a esses 500 anos, memórias que são representadas de forma imbricada entre concepção de linguagem dos poetas e “as memórias sociais do indivíduo” (COURTINE, 2005).