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Overall results from the study

7 MARKET AND CONSUMER RELATIONS WITH ANIMAL WELFARE

8.1 Overall results from the study

Ao lidarmos com as estratégias de tradução, observamos elementos que compõem o texto traduzido, como tempos verbais e organizadores textuais, por exemplo. Esses elementos são responsáveis pela mobilização da capacidade de linguagem linguístico-discursiva em textos, segundo Bronckart (1999[2009]). Consequentemente, acreditamos que essa mobilização acontece também em textos traduzidos (pois são uma unidade de produção de linguagem situada), assim como na interação entre tradução, aluno e leitor. Foi através da ocorrência de mecanismos referentes à coesão nominal e verbal, à conexão e aos mecanismos enunciativos que o estudante PA mobilizou tal capacidade em sua tradução.

Quanto aos mecanismos de textualização, encontramos na tradução termos que caracterizam a coesão verbal, por exemplo, a utilização de elementos em sintagmas verbais que asseguram a organização temporal no texto. Encontramos também a conexão e a coesão nominal, sendo a conexão responsável pela articulação e pela

progressão do conteúdo temático, introduzido ou retomado pela coesão nominal (BRONCKART, 2009[1999], p. 263).

No tópico anterior, relativo às análises das estratégias, notamos uma diferença na tradução dos determinantes verbais: em francês, o presente foi utilizado (“Vous faites47 quoi à Paris?”) e, em português, ao utilizar a coesão verbal, o estudante

PA utilizou a forma nominal do gerúndio (“Fazendo o que em Paris?”). A construção “Que é que tu quer?”, também ocorre no presente, no entanto, o estudante PA utilizou a 3ª pessoa do verbo querer (ele) ao invés da 2ª pessoa (tu), uma característica do português produzido em conversas no dia a dia, como essa do filme. Essas decisões de PA evidenciam o uso de verbos no presente, situados em simultaneidade com relação ao ato de produção, conferindo caracterizar o discurso como interativo. E o processo tem valor aspectual de ação em desenvolvimento no momento da produção conversacional entre os personagens.

Com relação à coesão nominal, PA realizou a entrada imediata no assunto com “Fazendo o que em Paris?”, através da omissão do pronome “você” dessa construção. Colocando o tal elemento na oração junto ao verbo “estar”, resultaria em “Você está fazendo o que em Paris?”. Essa omissão, semelhante à omissão no tópico das estratégias, pode ser considerada, de acordo com a categoria estabelecida por Bronckart (2009[1999]), uma elipe, pois que há a supressão do pronome de tratamento de 2ª pessoa “você”.

Em “Por causa de ‘uma’ papel ‘numa’ filme” temos um sintagma nominal (doravante SN) indefinido, “‘uma’ papel ‘numa’ filme”, introduzindo o tema da conversa, que gira em torno do filme que Liz faz. Já a conjunção “Por causa de” caracteriza a conexão, pois marca a articulação entre as fases de um discurso interativo e colabora para a progressão temática do texto.

Quanto aos mecanismos enunciativos, identificamos poucas ocorrências dos tipos de vozes e modalidades presentes na tradução de PA. Durante a leitura do texto, percebemos a voz do estudante PA, por exemplo, na frase “Que é que tu quer?” cuja utilização da forma pronominal “tu” ao lado de “quer”, constata a maneira como PA se

47 As construções verbais que nos interessam para esclarecimento dessa categoria da coesão verbal estão sublinhadas em todas as análises.

comunica no cotidiano, através da queda da desinência de 2ª pessoa do singular em “querer”.

A voz do personagem também está presente em outros momentos do texto, por exemplo, “‘uma’ papel em ‘uma’ filme”, “‘todo’ a noite” e “é ‘uma’ número

‘americana’”. Vimos no tópico anterior que o estudante PA utilizou a estratégia literal

para conservar a característica de Liz, uma estrangeira que comete erros em língua francesa. Ao utilizar a estratégia, PA também deixou a voz da personagem predominar nesse excerto do texto, para dar mais vivacidade à característica dela na tradução. Para identificar essa marca da personagem PA observou tanto o texto, quanto a cena do filme.

A construção “de época” caracteriza a conexão, pois se trata de um grupo preposicional que articula a pergunta “De que tipo”, referente ao filme, à resposta.

Há ocorrências, de um lado, de verbos no futuro perifrástico (“Vai gravar à

noite?”, “Vou poder entrar?”) e, de outro lado, de verbos que evidenciam o futuro,

embora registrados no presente (“Eu chego lá em uma hora”, “Posso ir?” e “Pode

me ligar”). Esses verbos localizam, de um lado, o processo como posterior ao momento

da fala dos personagens, anunciando ações que se efetuarão em um futuro próximo e contínuo e, de outro lado, o eixo de referência local criado no processo interativo através do sintagma temporal “em uma hora”.

O pronome “Você” pode ser resgatado no início de “Ø48 Vai gravar à

noite?”; essa elipse constitui um traço da coesão nominal e é tipicamente realizada em

língua portuguesa, em conversas do cotidiano. Apesar de subentendido, podemos reconhecer que o pronome “você” retoma a personagem do diálogo, Liz. Quando lemos “à noite”, podemos substituir essa construção por “esta noite”, logo, compreendemos que há uma retomada do tema por esse SN demonstrativo (subentendido).

Em “Eu chego lá em uma hora” temos o advérbio “lá” e a locução adverbial “em uma hora” que se articulam ao local onde Liz grava o filme (em Paris), o qual é tema da conversa (os dois organizadores textuais são uma unidade de conexão).

As construções “Se quiser”, em resposta à pergunta “Posso ir?”, e “Se eu

for, vou poder entrar?” possuem verbos no futuro do subjuntivo, que denotam 48

Ø: Símbolo que representa a elipse.

localização de posteridade do processo em relação ao momento da produção de fala. Da mesma forma, identificamos em “Se quiser” a retomada do personagem Ken pelo pronome “você” que está subentendido, “Se Ø quiser”.

O estudante PA omitiu o pronome pessoal “Eu” na construção “Ø Posso

ir?”; essa omissão, inclusa no plano da coesão nominal, retoma o personagem Ken. Por

outro lado, a mesma construção nos permite compreender que está subentendido que o personagem deseja visitar Liz em seu local de trabalho. A omissão pode ser identificada após o verbo “ir”, “Posso ir Ø?”, se resgatarmos o dêitico “lá”, que retoma, como anteriormente falamos, o local de gravação do filme que Liz interpreta.

Em “Se eu for, vou poder entrar?” temos a mesma retomada, do personagem Ken, porém, desta vez, pelo pronome pessoal “eu”: “Se eu for, Ø vou poder

entrar?”. Os dois exemplos caracterizam a coesão nominal mobilizada por PA; essa

retomada através da elipe acontece, como já falamos, por conta da informalidade atrelada ao caráter dialogal e não compromete o entendimento da mensagem textual.

Nesse mesmo exemplo, “Se eu for, vou poder entrar”, reconhecemos a voz do personagem Ken, implicado na qualidade de agente, durante essa ação do conteúdo temático do texto, reforçando a característica de um discurso interativo dialogado, por meio da relação entre os interlocutores envolvidos na cena. Nesse mesmo exemplo, PA utilizou o auxiliar de modalização49 “poder” para explicitar a responsabilidade do personagem, agora agente, Ken, em relação a sua ação de “poder entrar” onde Liz grava o filme de época. Conforme descrito em nosso referencial, esta modalização é classificada como pragmática.

Os sintagmas verbais “Me dá o número” e “Coloque 001.” estão no modo imperativo, localizando o processo como posterior em relação ao momento da fala; durante a cena do filme, Liz anota o número do telefone e entrega-o para Ken, dizendo que ele deve ligar depois, confirmando a caracterização do processo posterior ao momento de fala.

Em outras construções, como em “Ø Pode me ligar” e “Me dá o Ø número”, podemos identificar os pronomes de tratamento “você” e o possessivo “teu”, que

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Outras formas de modalizações estão presentes no texto traduzido, mas já estavam compondo o texto em francês, por conta disso não consideramos uma modalidade própria do aluno PA.

retomam, por sua vez, os personagens Ken e Liz, respectivamente. O pronome “me”, utilizado pelo estudante PA, também retoma a personagem Liz, além disso, dá a ideia de que Liz faz referência a si mesma. Ainda em “Me dá o número Ø”, há a omissão do SN “de telefone”, introduzindo o subtema no diálogo.

Retomando os verbos sublinhados nos sintagmas “É ‘uma’ número

‘americana’” e “Ela é forte.”, vemos que se encontram no presente. O aluno PA

escolheu esse tempo verbal, semelhante à mesma realização do texto em francês, como vimos na estratégia literal. Isso quer dizer que PA permaneceu com os verbos no presente; além da simples permanência, nessa parte do texto, o momento de produção linguageira está em localização simultânea com relação ao momento do processo. Ademais, o verbo “ser” está focalizando as características do telefone e do entorpecente, sendo possível situá-los em um espaço de tempo ilimitado.

Para finalizar os mecanismos de textualização, no exemplo “Cuidado. Ela é

forte”, PA retomou o entorpecente, “a droga”, pelo pronome pessoal “ela”. Essa

referência foi possível por causa de todo o processo dialogal e imagético vivenciados na cena entre os personagens. Apesar de selecionarmos uma cena do filme, relembramos que isso não comprometeu o entendimento do enredo, pois exibimos o filme na íntegra (ver metodologia). Essa retomada pronominal também concluiu a conversa entre os personagens, pois fecha o turno de fala com um conselho.

Podemos identificar uma voz social em “Cuidado. Ela é forte”, ou seja, uma voz exterior ao conteúdo temático textual. Nesta voz há uma advertência com relação ao uso do entorpecente. Nesse momento da produção linguageira, o estudante PA (re)criou a advertência em sua tradução e fez a interação entre a voz social, ao aconselhar, e a voz do personagem que se torna o agente da comunicação.

As pistas linguísticas escolhidas na tradução textual de PA são fundamentais para que possamos perceber que o estudante manteve a interatividade que deve, a

priori, existir em um diálogo. Notamos que suas intervenções, materializadas nos

elementos linguísticos que acabamos de ver, são semelhantes ao seu agir linguageiro em sala de aula observados durante o acompanhamento que fizemos nas disciplinas de Tradução I e II. Desta forma, o estudante PA mobilizou a capacidade linguístico- discursiva através desses mecanismos de textualização e enunciativos. Além disso,

complementamos nossas análises com uma breve discussão sobre os repertórios mobilizados por PA nessa tradução.