7 MARKET AND CONSUMER RELATIONS WITH ANIMAL WELFARE
7.1 Farmer – consumer/society
No quadro que acabamos de ver, temos o diálogo e a respectiva tradução, produzida pelo estudante PA. Em alguns exemplos retirados do texto de PA, “De que
tipo”, “De época”, “Vai gravar à noite?”, “Posso ir?”, “Se quiser”, “Quê?”, “Pode me ligar”, “Merci” (sem tradução), “Cuidado” e “Até”, tivemos casos do
procedimento omissão. Essa estratégia acontece, quando retiramos algum elemento desnecessário ou repetitivo no texto de chegada (BARBOSA, 2004). Retomamos um excerto da entrevista, quando PA descreve como procedeu para criar seu texto, tocando superficialmente no assunto da omissão. Vejamos,
Fragmento 1
PA - Vi o filme, a cena, e, aí, eu fui adequando a::: cena à fala da pessoa, mesmo, pra palavra, pro discurso, pra frase não ficar muito grande, tentar colocar assim mais:: de acordo com o ambiente e também de acordo com a velocidade da fala.
M41 - Como você deixou seu texto menor?
PA - Eles falam mesmo rápido, sabe? É muito rápido, eles falam, são frases curtas assim (indicando no papel o texto), e quando a gente lê, a gente tem a impressão que vai ficar maior, mas aí quando a gente vê falado é mais rápido, aí eu fui adequando para o português assim falado, mesmo, mais rápido, aquela coisa do português bem cotidiano.
Podemos interpretar que tal estratégia foi utilizada para omitir elementos repetitivos no texto de chegada, o que poderia ser desnecessário ao leitor. Por exemplo, no texto em francês temos “Je pourrais y voir?” e, em português, PA traduziu como “Posso ver?”, omitindo o pronome pessoal “Eu” e o pronome de lugar francês “Y” que designaria em português, nesse caso, “lá”. Esse tipo de omissão é frequente em língua portuguesa, principalmente, na oralidade, quando se tem nas desinências verbais a marca do sujeito, como o verbo “posso”, utilizado por PA, indicando a primeira pessoa.
Quando PA foi questionado sobre essa ação de deixar o texto mais condensado, perguntamos se era em função do contexto audiovisual e sua resposta foi,
Fragmento 2
PA - É porque é pra filme, se fosse só a tradução textual, talvez eu tivesse deixado da primeira forma, mais longa, como eu traduzi, né? Era uma linguagem informal, mas não tão informal
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Preferimos nos identificar por M de mestranda.
como eu deixei por causa do filme.
Neste caso, PA considerou o fato de seu texto se materializar tanto no registro informal da língua, quanto em um filme, optando por discursos mais “rápidos”, indo de encontro ao texto produzido em uma conversa corriqueira em um bar. Nos exemplos, também podemos perceber que certos termos foram omitidos por não afetarem a compreensão do texto em português. A omissão de outros elementos, como sintagmas nominais e verbos, também podem ocorrer. Para visualizar o procedimento da omissão realizado por PA, listamos todos os termos, sugerimos elementos, que podem ter sido omitidos, e os colocamos destacados entre parênteses, no quadro seguinte,
Quadro 13: Exemplos de estratégia omissão do estudante PA
De que tipo (Que tipo de filme)? (É um filme) De época. (Você) Vai gravar à noite?
(Eu) Posso ir (ver)? Se (você) quiser...
(O) Quê? (Você) Pode me ligar. “Merci” (sem tradução)
(Tome) Cuidado Até (mais tarde).
No caso da omissão de “Merci”, PA omite a tradução, mas toma por empréstimo a própria fórmula de agradecimento da língua francesa. Todavia PA realize essa ação, acreditamos que não é possível qualificar o procedimento como “empréstimo”, pois o vocábulo não é dicionarizado em língua portuguesa, por mais que seja falado, entre os interlocutores brasileiros42 que estudam a língua.
Nesse momento, também podemos encontrar um uso no nível pragmático43. Ou seja, o estudante pressupõe que, qualquer que seja o interlocutor (embora ele saiba que o material está direcionado para a pesquisa e, consequentemente, a pesquisadora lê
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É comum entre os estudantes e os professores de FLE, no curso de Letras/Francês e/ou de idiomas da cidade (referimo-nos à Fortaleza), a prática da língua nesse convívio.
43 Ver ARMENGAUD, F. A pragmática. São Paulo: Parábola, 2006. A autora az um apanhado geral dos conceitos da Pragmática. Apesar de citarmos, não é nossa intenção tratar do plano pragmático nesta pesquisa.
Omissão
em francês), ele compreenderá o texto em francês, segundo os conhecimentos que tem nessa língua e a situação em que acontece a cena.
O estudante PA verbaliza sua ação:
Fragmento 3
PA – “Merci” é um termo “comum”, conhecido. Qualquer leitor com conhecimentos mínimos em francês pode identificar.
Consideremos, agora, outra estratégia bastante utilizada na tradução do diálogo de PA. Ao lermos o texto, percebemos que as orações “Bonsoir, qu’est-ce que
tu veux?”, “Un demi”, “Deux demis, s’il vous plaît!”, “Si tu veux” e “Elle est forte”
foram traduzidas literalmente por “Boa noite”, “Que é que tu quer”, “Um chope”,
“Dois chopes, por favor” e “Ela é forte”. A estratégia literal acontece, quando
queremos respeitar a estrutura, a forma e a estilística da língua de partida, sem comprometer o sentido da mensagem.
Assim como elas, a oração “Vous faites quoi à Paris?” também foi traduzida literalmente por “Fazendo o que em Paris?”, porém, neste último exemplo, houve mudança na forma nominal do verbo, que passou do indicativo (“vous faites”) para o gerúndio (“fazendo”). Em língua francesa, ao dizer que estamos fazendo algo, podemos utilizar tanto o presente do indicativo, quanto o gerúndio. Neste caso, a tradução ficaria você faz ou você está fazendo, como no texto de PA.
Nas orações “Por causa de ‘uma’ papel ‘numa’ filme”, “‘Todo’ a noite” e
“É ‘uma’ telefone ‘americana’” o estudante também utilizou o procedimento literal,
enfatizando o erro ocasionado pela falta de fluência na língua estrangeira, possivelmente porque a personagem não é francófona ou não domina o francês.
Durante a entrevista, PA descreve como procedeu:
Fragmento 4
PA - A:::ssim, eu conservei porque ela fala “j’ai une rôle dans une film” e ela fala errado, né? É uma americana falando francês e ela faz essas trocas e aí pra conservar essa característica da personagem, né? Porque eu acho que isso não foi colocado à toa, aí na tradução, eu coloquei “uma papel numa filme” pras pessoas, em português, entenderem que ela tava falando um francês meio errado, um português meio confuso, entendeu? Por isso que eu quis conservar.
M - E você conservou esse procedimento, essa estratégia durante todas as falas?
PA - Sim, dela (de Liz), sim. Durante todas as falas dela, que ela faz, por exemplo, “oui, ‘tout’ la nuit”, eu coloquei “‘todo’ a noite” e aqui quando ela fala “parce que c’est ‘une’ téléphone ‘américaine’”, eu coloquei “é ‘uma’”, isso tudo, as palavras que estavam entre aspas erradas eu coloquei entre aspas, “é ‘uma’ número ‘americana’”, pras pessoas entenderem, né? Que ela tava falando de uma forma bem confusa, que ela não sabia falar francês, enfim. A característica da personagem, né? Pra conservar... a característica da personagem, né? Porque é:: faz parte da construção da personagem, ela ser uma americana que tá vindo à França e que não sabe falar.
Neste caso, constatamos que o aluno PA traduziu algumas partes do texto, fazendo uso, em geral, da estratégia literal, para que guardasse certas semelhanças com o texto de partida. Assim, PA conservou o “erro” da personagem e interagiu com o leitor, ao se preocupar com a sua compreensão. O quadro resume os excertos literais da tradução de PA,
Quadro 14: Exemplos de estratégia tradução literal do estudante PA
Boa noite, que é que tu quer? Um chope.
Dois chopes, por favor. Fazendo o que em Paris?
Por causa de “uma” papel “numa” filme. “Todo” a noite.
Pode me ligar.
É “uma” telefone “americana”. Ela é forte.
A estratégia chamada modulação também foi utilizada na tradução de PA. Ela acontece, quando o foco do texto de partida é modificado no texto de chegada. Nas traduções “Eu chego lá em uma hora”, “Se eu for, vou poder entrar?” e “Me dá teu
número”, o procedimento pode ser identificado. No primeiro exemplo, correspondente à
oração em francês “Je vais aller là-bas dans une heure”, o estudante PA traz em sua interpretação a construção “Eu chego”. Se fôssemos traduzir literalmente, ficaria “Eu vou”, porém a estratégia que PA utilizou aproxima mais o texto àqueles produzidos em uma interação cotidiana, pois o estudante selecionou, dentro de sua bagagem linguística e cultural, elementos familiares de seu dia a dia.
No segundo exemplo, “Si je viens, je vais pas me faire jeter”, o olhar do intérprete está, possivelmente, voltado para o verbo “jeter”, que tem como acepções
Tradução Literal
dicionarizadas44: jogar fora, lançar e a expressão “se faire jeter”45 que permite ser traduzida por: ser rejeitado, ser expulso, ser excluído etc. No entanto, percebemos que PA utilizou o verbo “entrar”, ao invés do verbo “ser expulso”. A tradução de PA nos possibilitou compreender que o verbo utilizado focaliza o ato de “entrar”, que é anterior à ocorrência de “expulsar”, além de fazer com que o personagem se torne agente e não paciente por sofrer a ação de ser expulso. Ademais, há também a troca da expressão negativa “je vais pas46 me faire jeter?” (que, literalmente, poderia ser traduzida como
“não vou ser expulso?”) pela afirmativa “vou poder entrar?”, confirmando a mudança de foco da mensagem.
No terceiro exemplo, que corresponde em francês a “J’ai pas ton numéro”, o tradutor ao utilizar a modulação, elaborou a afirmativa “me dá”, ao invés de uma mensagem literal na negativa “não tenho”. Logo, constatamos que o foco da mensagem do TP mudou durante a tradução da mensagem para o TC, ocasionando o que chamamos de modulação. Reafirmamos, segundo Vinay e Darbelnet (1996[1958]), que essa estratégia ocorre de acordo com o modo como o agente-produtor interpreta a realidade.
Vejamos o quadro-resumo, a seguir, com o uso da modulação:
Quadro 15: Exemplos de estratégia modulação do estudante PA
Je vais aller là-bas dans une heure Eu chego lá em uma hora. Si je viens, je vais pas me faire jeter? Se eu for, vou poder entrar?
J’ai pas ton numéro. Me dá teu número.
Ao longo de todo o texto do estudante PA, vemos que, assim como a omissão, a tradução literal também foi recorrente. Isso quer dizer que, muito embora PA soubesse que o texto é uma produção completa e realizada em um contexto, utilizou, em algum trecho do texto, o procedimento de tradução literal. PA também esclarece no
44MAROTE, d’Olim. Minidicionário francês-português/português-francês d’Olim Marote. Org. João Teodoro d’Olim Marote. 6.ed. São Paulo: Ática, 2003.
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LE ROBERT micro dictionnaire de la langue française. Dirigé par Alain Rey. Paris: Le Robert, 2007. LE DICTIONNAIRE de l’argot et du français populaire. Dirigé par Jean-Paul Colin. Paris: Larousse, 2010.
46 A ocorrência da negação em francês se dá pelas partículas “ne pas”; no discurso falado pode acontecer apenas com o “pas”, como no exemplo do diálogo do filme que selecionamos em nosso corpus.
Modulação
excerto a seguir, que não buscou uma semelhança total com o texto em francês, o que justifica o uso, em grande parte, da omissão, vejamos:
Fragmento 5
PA - Me preocupei em não fazer uma tradução tão literal, porque eu tinha essa noção de que era pra um audiovisual, né? Então, eu me preocupei em fazer algo que não fosse literal, na verdade algumas coisas, como “bonsoir” e “boa noite”, têm que ser. Mas, assim, eu não fiquei com aquela preocupAÇÃO de que fosse tudo literal. Então, se era uma linguagem de uma situação num bar e tudo, então, eu adequei realmente ao que seria no português no Brasil. Me preocupei muito com o contexto, com a fala dos personagens.
Como vimos, PA utilizou em sua tradução os conhecimentos que tem de sua língua materna, reconheceu a importância do contexto para a materialização da língua em textos. Apesar de seu texto (de chegada) ter ficado bastante semelhante ao texto de partida, com relação aos elementos que tecem o conteúdo temático, PA compreendeu que a tradução literal, assim como as outras estratégias, é utilizada conforme a situação e a ação de linguagem.
Para compreender que recursos da língua foram utilizados no diálogo traduzido, veremos, agora, a capacidade linguístico-discursiva.