De acordo com Galvão (1955, p. 167), o mastro foi introduzido na região amazônica com a festa do Divino Espírito Santo, generalizando-se mais tarde para as outras festas de santo. No Médio Rio Negro, o mastro é um objeto presente em todas as comunidades que festejam algum santo, portanto pode ser considerado como elemento intrínseco e generalizado nas festas de santo na região.
Os cerimoniais que circundam os mastros marcam uma série de situações, desde temporal, quando marca o início e o fim do festejo, até a representatividade de classes de pessoas, fertilidade e elementos agregadores. O levantamento ocorre no primeiro dia da chegada dos convidados. Todo o processo cerimonial é realizado por pessoas da comunidade anfitriã, diferentemente da derrubada, quando todos os convidados participam, principalmente da distribuição das frutas presas aos mastros.
Enquanto as crianças esmolavam pela comunidade, dois homens adultos foram escolhidos para abater os mastros na floresta. Logo quando os primeiros raios do sol
128 Boa parte dos Fregueses piaçabeiros que trabalham nos piaçabais do rio Preto esmolam pacotes de piaçaba ao santo. Os pacotes são negociados com os patrões que concedem em troca objetos industrializados, principalmente foguetes e cachaça.
apontaram sobre a comunidade, os dois homens escolhidos como abatedores adentraram a mata para escolher três árvores que seriam transformadas em mastros129. Depois das árvores abatidas, retiram-se as ramagens e raspa-se a casca, deixando-as lisas e retas. Realizado o serviço, os homens regressam à comunidade e comunicam aos juízes da festa a localização das árvores abatidas. No final da tarde, após o catequista ter recebido as frutas esmoladas pelas crianças, o sino da capela soa, indicando que as pessoas (homens, mulheres e crianças) começam a se reunir para adentrar a floresta com a finalidade de buscar os mastros130. Forma-se uma rodada de correrê e em seguida todos adentram a mata para resgatar os mastros, que são trazidos nos ombros das pessoas e colocados em frente à capela, onde serão ornamentados. Quando as pessoas retornam da mata trazendo o mastro, rojões são lançados. Nesse momento ocorre uma nova rodada de correrê, solicitada por um grupo de homens que ajudaram a resgatar os mastros na mata. Eles expressam a solicitação do correrê através de um cântico seguido de um coro dos presentes:
Passarinho tá com sede; Sede de beber água; Quero beber. Ôh dono das águas; Vem matar a minha sede; Passarinho tá com sede; Sede de beber água; Ôh dono das águas; Vem matar a minha sede; Passarinho quer beber. {bis}
Depois dessa cantiga, o tamboreiro, acompanhado dos dois bandeireiros e dos juízes de mastros, distribui cachaça, caxiri ou suco de frutas silvestres (patauá, pupunha, açaí, etc.) para aqueles que manifestarem a vontade de beber. Após esse ato, os mastros são entregues aos juízes, mordomos e festeiros, que iniciam os preparativos para os ornamentos.
Os mordomos são responsáveis por “vestir a roupa” dos mastros, com o auxilio dos promesseiros de todas as classes131. Primeiramente, os mastros recebem uma
129 São dois mastros com alturas iguais (oito metros) e outro com altura inferior (seis metros). As árvores de preferências para mastros são os marupá, árvore que não tem muitas copas, porém cresce em demasia. 130 No baixo amazonas, de acordo com Galvão (1955), a busca do mastro é exclusivamente realizada por pessoas do gênero masculino.
131 Existem vários tipos de promesseiros. O mais comum são aqueles que fazem promessa para o Santo livrar de algum infortúnio. Outros são promesseiros de agradecimento, principalmente os patrões que pagam suas promessas ajudando a festa, mantendo a fartura de comida, cachaça e animação. Um tipo de
roupagem. Colam-se sobre o tronco, folhas de açaí e folhas de murta, um arbusto cujas folhas são pequenas, cheirosas e resistentes à força da luz do sol, pois os mastros vão permanecer por quatro dias expostos aos raios do sol. Após adornar a roupagem do mastro, começam a amarrar as frutas em torno do tronco e nas extremidades superiores de cada mastro é fincada uma bandeira de cor branca com a imagem de Santo Antônio.
A gente tem que cuidar do mastro como se cuida de uma pessoa. Tem que vestir bem bonito porque os mastros são como pessoas que estão ali pra ajudar o santo a enxergar melhor a comunidade e as pessoas. As frutas presas no tronco é a mesma coisa da bondade do santo. As frutas que a gente coloca não agride ninguém, igual o santo, sabe. Os velhos diziam que os mastros representavam os ajudantes do santo que ficam escutando a gente; outros que estudaram na escola dos padres já falam de outro jeito, falam que é tal de Santa Trindade. Eu mesma não sei o que é essa tal de Santa Trindade sabe. (Valdiza de Jesus, comunidade de Campinas do Rio Preto)
Desde quando me entendi, escutei da minha finada mãe que os mastros são importante igual ao altar do santo. Só que os mastros são iguais a nós, quando termina o festejo a gente corta e depois deixa o tempo desgastar, por isso que ele está só de passagem. Agora o altar não, ali é os olhos do santo mesmo. O altar é para toda a vida, os mastros envelhecem iguais a nós, pessoas que vive na terra, por isso que se diz que são pessoas que ajudam o santo, mas não é o santo não. O mastro é para o santo. Ali tá toda bondade, tem frutas que as pessoas pode se alimentar. Ele é alto para ficar mais próximo do céu. É para o santo escutar a gente melhor. (Aelton Baré, comunidade Campinas do Rio Preto)
“Os mastros são pessoas que ajudam o santo”, como enfatizam meus interlocutores. Nesse sentido, usando a categoria de Wawzyniak (2004, 2012), os mastros são “engerados132” em pessoas quando se dá a passagem do objeto (planta) a promesseiro pouco comum nos dias atuais são aqueles dados como escravos do santo. Este caso é quando um parente doa seu filho para o santo. Esse, enquanto viver deverá prestar serviço ao Santo e durante todos os dias do festejo.
132Categoria utilizada por Wawzyniak (2012) para compreender as representações de pessoas, corpo e saúde no contexto das populações amazônicas. De acordo com o autor, o seu significado pode ser compreendido no interior de um sistema cosmológico que postura a permutabilidade dos seres entre si – homens, animais, plantas e demiurgos.
sujeito emissário do santo, ratificando a perspectiva em que plantas, animais e pessoas são seres multifacetados.
Figura 18: Mordomos e promesseiros adornando os mastros.
Após os três mastros serem ornamentados, inicia-se o cerimonial do levantamento do mastro, quando um grupo de homens é responsável por fincar os mastros em frente à capela. Após esse movimento, o sino da capela soa conclamando a reunião das pessoas para participar da ladainha. A ladainha é coordenada pelo catequista, auxiliado pelo rezador e pala parteira da comunidade. Cada um desses especialistas se posiciona próximo a um dos três mastros que correspondem a três categorias de pessoas: homem, mulher e criança, que recebem as ordens do santo para participar dos festejos. O catequista explicou que para a igreja católica os três mastros representam as três pessoas da Santa Trindade. No entanto, desde os tempos antigos, as pessoas no rio Negro entendem os mastros como sendo os três tipos de pessoas: o homem, a mulher e as crianças.
Cada mastro tem uma força. As festas de santo não dá brecha para perturbação de encantado e bicho do mato. Mesmo porque o santo sabe que o movimento é todo para ele. As pessoas que fizeram compromisso com Santo Antônio se esforçaram para a festa ficar bem bonita e agradar a todos e mais mesmo o Santo que é o dono de tudo isso. Então é gente de verdade que tá fazendo e não bicho sabe? Tem
que marcar. Os mastros são gente também, é o homem, a mulher e a criança que ajudam o santo a olhar para as pessoas. O mastro vem da natureza. (Suzete Pereira – Baré, parteira da comunidade, Campinas do Rio Preto)
Os santos são seres eternos porque sempre viverão no mundo celestial e não envelhecem, porém estão sempre presentes de formas diferentes no cotidiano das pessoas, sendo considerados seres que somente observam ao longe, mas que são cientes de tudo que acontece no mundo terreno, pois as imagens e outros objetos, como os mastros são emissários e estão sempre com os olhos e ouvidos do Santo:
Eles ficam só observando a gente lá de cima. Eles não descem, mas a sua imagem está aqui para lhe representar, os mastros, as fitas está ligada a imagem e são coisas que está ligado diretamente nele lá em cima. Eles escutam tudo que acontece aqui, eles acompanham as ladainhas e vê se está tudo certo. A gente faz a ladainha nos pés dos mastros e também em frente ao altar, firmando nossa força com o santo. (Suzete Pereira Baré, comunidade Campinas do Rio Preto)
A ladainha segue uma estrutura bem misturada, que se inicia pela oratória de Santo Antônio escrita e distribuída pela igreja católica, finalizando com a parteira e o benzedor orientando de maneira bem peculiar a relação das pessoas com o santo135. Segue abaixo, respectivamente, a ladainha de Santo Antônio e a orientação da parteira e do benzedor no cerimonial de levantamento do mastro:
I
Santo Antônio; Rogai por nós! Intercedei a Deus por nós! Pregador do Evangelho; Intercedei!
Pelo povo abandonado, Intercedei! Para sermos mensageiros, Intercedei! Da justiça e da esperança, Intercedei!
Santo Antônio; Rogai por nós! Intercedei a Deus por nós! Mestre sábio da verdade; Intercedei!
Pela Igreja peregrina, Intercedei! Pelos jovens namorados, Intercedei!
Pelos lares em perigo, Intercedei!{todos repetem} II
Nós pessoas que vivemos na floresta; Com toda nossa força;
Pedimos a sua proteção;
Que a nossa bondade abra os nossos sentimentos;
135 Antes de iniciar a ladainha, o catequista distribui para os jovens letrados, um guia com letras para o acompanhamento da ladainha. Outras partes da ladainha orientadas pela parteira e rezador são aleatórias, porém todos acompanham.
Das nossas maldades pedimos sua atenção;
Que a nossa natureza nos permita o nosso sustento; Na mata, no rio, nas roças e em nossas casas; Que a nossa natureza nos permita os outros a viver; Os peixes, as plantas, os animais;
Aqui reunidos, pedimos gratidão. {todos repetem} III
Santo Antônio (Rezador); Reunimos (participantes); Nossa Senhora (Rezador); Reunimos (participantes); Todos os presentes (Rezador); Reunimos (participantes);
O mundo em nossa volta (Rezador); Reunimos (participantes),
Os peixes, os animais e todos da nossa vida (Rezador); Reunimos (participantes);
Santo Antônio nos escuta (Rezador); Nós reunidos (participantes);
Santo Antônio nos protege (Rezador); Nos reunidos;
Da força das águas (Rezador); Nós reunidos (participantes); Dos olhos dos inimigos (Rezador); Nos reunidos (participantes); Do espírito do mal (Rezador). Nos reunidos (participantes); Com a graça do senhor (Rezador); Nós reunidos (todos).
Após a ladainha, inicia-se uma sessão de rojões. Cessados os rojões, as pessoas presentes na ladainha deram três voltas em torno dos três mastros, cada classe (homem, mulher e criança) parou em frente aos mastros agregando as respectivas classes. Depois todos adentram na capela, onde, junto ao altar, se curvavam, tocavam e beijavam uma das fitas coloridas que ornamentavam a ara. As fitas coloridas ornadas ao altar têm um poder muito marcante no Médio Rio Negro136:
136 O ritual de se curvar diante das fitas chamou a atenção do biólogo José Cândido Carvalho quando este incursionou o rio Negro no ano de 1949. “Mais tarde, alguém veio chamar para rezar. Foi então que ouvi, numa capelinha ao lado, o som penetrante de uma flauta de bambu acompanhada pelo rufar de uma caixa surda. Ao penetrar na capela, notei que os homens ficavam de um lado e as mulheres do outro. Foi então rezada uma ladainha cantada, intercalada com petições e orações improvisadas no momento. Terminada esta, voltou a flauta a se fazer ouvir, num compasso de música oriental. Era o momento de beijar o santo (São Filipe). Uma a um, lá se foram todos, beijando os pés do santo e as fitas que caíam de seus braços. Fui o último a realizar esse ato, sob os olhares curiosos de todos que, parece, se sentiram um tanto honrados com essa demonstração”. (CARVALHO, [1949], 1983, p. 90)
Tudo no santo é importante. Você tem que ter responsabilidade e saber o que tá fazendo. Cada pessoa se apega naquilo que ela sente, mas aqui no rio Negro, as fitas parecem ter um poder maior, uma força que realiza. A gente tem muito cuidado com as fitas. Fazer compromisso com elas pode resultar em força, mas se quebrar, você vai sentir tanta fraqueza que nenhum santo pode olhar. (Valdiza de Jesus, Baré, comunidade Campinas do Rio Preto)
As fitas coloridas também são utilizadas a favor na proteção os olhos dos encantados, as fitas envultam as pessoas da visão dos encantados além de outras atribuições. Elas são disputadas entre os devotos e participantes da festa. Por exemplo, durante uma partida de futebol feminino disputado durante o festejo de Santo Antônio no ano de 2014, as mulheres da equipe de Campinas do Rio Preto esconderam todas as fitas do altar temendo que as equipes adversárias também se apegassem à força das fitas de Santo Antônio equilibrando, assim, a partida. Uma mulher de uma equipe adversária chegou a questionar que ela era também devota do santo e por isso teria também o direito de se apegar às fitas do santo. Sem a posse das fitas, mulheres de equipes adversárias e aquelas devotas do santo, ora e outra, adentravam na capela para se apegar com a ajuda do santo.
A entrada na capela e o toque no altar e nas fitas encerram o cerimonial do levantamento do mastro. Neste momento, a maioria das embarcações dos convidados começa a atracar no porto da comunidade. A cada embarcação atracada, uma sequência de estrondos de foguetes é lançada pelos anfitriões, anunciando as boas vindas e demonstrando que a festa vai ser animada. A cada embarcação atracada, os anfitriões amarram uma fita, que no plano simbólico corresponde ao aprisionamento da embarcação, sendo esta liberta somente no último dia da festa.
Uma festa é boa quando se solta muitos foguetes. Além de animar, tem o poder de chegar bem no alto do céu, despertando todos os santos. Eles escutam e ficam sabendo que tudo isso aqui é para fazer agrado, porque lá no céu eles cuidam dos nossos que partiram da vida aqui. O foguete mesmo é para animar, por festa sem foguete parece que não vai ser bem animada. (Antônio Campos Baré, comunidade Campinas do Rio Preto)
Os mordomos e os juízes de mesa convidam as pessoas presentes e os convidados para o jantar coletivo, que é servido na cozinha comunitária. Durante os três dias do festejo, mordomos, juízes e promesseiros se alternam para coordenar os
preparos dos alimentos, embora existam cozinheiras fixas da comunidade. Após o termino do jantar, inicia-se os bailes que vão perdurar por três noites adentro.