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4.3 P RIMÆRFELLESSKAP

4.3.3 Laget

Como venho demonstrando ao longo da tese, a relação patrão-freguês é muito marcante na região do Médio Rio Negro. Essa relação compõe um campo relacional amplo que perpassa relações econômicas, políticas, mitológicas, pessoais e ritualísticas. Durante a realização do primeiro Censo do Piaçabeiro aplicado nas comunidades indígenas do Médio Rio Negro no ano de 2013, ficou evidente que em raríssimos casos se encontrou uma pessoa que não experimentou passar pela condição de freguês. Como gosta de frisar o meu principal interlocutor Antônio Buyawaçu: “no rio Negro só não é freguês quem agora está na condição de patrão”, portanto, a posição de freguês se estende a boa parte da população local (indígena e não indígena).

“A dança dos fregueses piaçabeiros” ou “a dança da piaçaba”, como é genericamente conhecida, sugere uma vez mais a ambiguidade da relação patrão- freguês. Esta dança foi inventada e organizada por um grupo de fregueses do rio

138 Até o final dos anos noventa, Campinas do Rio Preta realizava “a dança do inajá” que foi substituída pela dança dos fregueses piaçabeiros. A dança do Inajá é realizada por muitas comunidades ao longo do rio Negro.

Preto139. Durante as festividades de Santo Antônio, a dança é apresentada na madrugada da primeira noite de festa. No meio da madrugada, quando as músicas estilizadas ressoavam no centro comunitário, um homem interrompeu o som para sinalizar a entrada no salão dos fregueses piaçabeiros, alguns vestidos com roupas rasgadas, bonés e terçados nas mãos; outros vestidos de animais (onça, macaco, tukano, etc.) e bichos (mapinguari e curupira). A partir desse momento, o som eletrônico cessa e as pessoas que bailavam ao som do forró se dispersaram do salão, dando lugar para a entrada dos fregueses piaçabeiros que, estilizados, vão bailando e cantado, manifestando as habilidades que possuem, assim com a postura perante o patrão e a convivência com outros seres.

O cerimonial comporta um conjunto de elementos que segue uma organização estruturada que envolve cântico, dança e ornamentos corporais, além de seguir uma sequência espaço-temporal (entrada, espaço, permanência, fartura-fertilidade e saída). A ornamentação corporal é confeccionada a partir da fibra da palmeira da piaçaba e os bailados são bem específicos, pois as coreografias fazem alusão ao manejo do terçado abrindo caminhos no meio da mata grande, à maneira de carregar a piaçaba, entre outros, bem como fazem alusões aos animais e aos bichos que participam da socialidade do piaçabal, configurando uma performance, nas palavras de Strathern (1990), “de obliteração e revelação que faz do instante cerimonial algo singular”.

Na primeira parte, os fregueses expressam, através de técnicas corporais, o trajeto que percorrem até chegarem aos piaçabais, assim como uma cadeia de cânticos é entoado numa linguagem conectada às diversas ações pragmáticas: chegada aos piaçabais; o racho como elemento de dignidade de um piaçabeiro; os encontros com outros seres sobrenaturais; as ações de intervenções nesse campo e as práticas mágicas utilizadas para espantar espíritos considerados malignos ou inimigos.

Canto da primeira parte:

Vou bailando vou bailando com o meu terçado na mão; Vou bailando vou bailando abrindo igarapé;

Benzendo meu corpo, meu terçado e o pé; Minha canoa está com rancho;

Porque eu vou também bailar;

Fazendo tora, piraiba e penteada para o meu patrão levar.

139 Grupos de dança da piaçaba anualmente são convidados para se apresentar em Santa Isabel do Rio Negro durante as festividades de comemoração ao aniversário da cidade.

Vou bailando vou bailando com o meu terçado na mão; Vou bailando vou bailando com meu saldo eu vou bailar. {bis}

Nessa primeira parte, o piaçabeiro demonstra o quanto a habilidade de “faca” é singular, bem como explicita elemento essenciais da dignidade do piaçabeiro, como, por exemplo, ter rancho, tirar saldo e bailar nas festas de santo com fartura.

Na segunda parte permeiam as relações de identidade, ressaltando o “ser índio” piaçabeiro. Também se alude à questão temporal, quando demonstram o tempo de permanência dentro dos piaçabais; a qualidade e a especialidade de cada freguês (faca amolada, faca sega, etc.), porém sem deixar de pensar nas festanças aos santos e tirar o saldo da mão do patrão, pois é enfatizado que nesse período de festa dedicada aos santos, tirar o saldo é agradar a todos, inclusive o santo e os patrões que alegremente conduzem seus fregueses para as comunidades festeiras.

Durante as festas de santo, principalmente aquelas que acontecem no mês de junho, o patrão libera os fregueses, no entanto esses estão sob a custódia do patrão, inclusive fornecendo mercadorias para aqueles fregueses que demonstraram rendimento nos trabalhos. No final da festa, os fregueses retornam endividados para os piaçabais.

Canto da segunda parte: Sou índio piaçabeiro;

Trabalho o tempo inteiro dentro do piaçabal; Sou faca amolada não deixo o patrão sem fé; Tiro saldo e tenho rancho e posso arrastar o pé; Na festança do piaçabeiro regrado com muito mé;

Sou índio piaçabeiro;

Trabalho o tempo inteiro dentro do piaçabal; Enfrento chuva, enfrento sol;

Enfrento noite, enfrento dia; Não deixo a faca cegar; Sou índio piaçabeiro; E nunca fico só;

Sou, sou! Índio piaçabeiro.

Na sequência, segue o bailado, ainda com ênfase à fartura do piaçabal, bem como às relações dos fregueses com seres de diversas ordens, tais como os bichos do mato (mapinguari e curupira), os encantados e o Deus primordial Purominari.

Canto da Terceira parte:

Tem privora, pacu e mandi; Tem curupira, mati e mapinguari; Eu danço, eu danço, eu danço, eu danço; Danço com o terçado, alegro Purominari; Danço com a tora alegro nossa senhora; Danço com piraiba e espanto curupira; Danço com penteada e espanta matiwara.

Danço com aruanã e espanto saruã.

Na quarta parte, a fartura ainda é enfatizada, assim como a relação com os bichos e a presença do “caboclo”. A cantiga demonstra implicitamente que as pessoas que estão no interior da mata são mais propícia ao “encontro” com seres outros, assim como estão mais vulneráveis aos fenômenos do campo da sobrenatureza, como é o caso de “fazer saruã” e do “fazer matiwara” ou receber ataques dos bichos e encantados. Todavia, os fregueses demonstram reconhecer os caminhos para se livrar dos encontros e as práticas para afastar qualquer eventualidade.

Canto da quarta parte Privora, pacu e mandi; Tem fartura cara e abacaxi;

Tem fartura, tem fartura, tem fartura; Lá na mata eu vi;

La na mata eu vi;

O curupira, o mati e o mapinguari; Cutucando o caboclo que fez saruã; Ei caboclo sai da mata;

Ei caboclo sai da mata; Vai pescar aruanã; Pra te livrar do saruã; Ei caboclo sai da mata; Ei caboclo sai da mata; Vem assar aruanã; Pra te livra do saruã140.

O aruanã é considerado um peixe de muita força. Ele é classificado como pertencente aos bichos, um termo local para designar peixes valentes que possuem poderes suficientes para quebrar armadilhas de pescadores141. Devido à sua força, assar aruanã é ingerir substâncias que contêm forças. Dessa forma, usam-se o aruanã para se

140 Essa cantiga foi transcrita e complementada por um garoto baniwa de dez anos de idade apelidado de Pato.

141 Os turistas da pesca esportiva vêm ao rio Negro para pescar os “bichos”, neste caso, os tucunarés, porém na ausência desse peixe, os guias, na maioria indígena, sugerem o aruanã, peixe com os mesmos poderes e forças dos tucunarés.

livrar da força do saruã e de outros ataques similares como, por exemplo, os ataques de encantados e botos142.

Na parte final da dança, os fregueses convidam as pessoas presentes para entrarem no salão. Nesta ocasião, os fregueses piaçabeiros entoam um cântico em nheengatu. Eles se movimentam fazendo gestos chamando as pessoas que se encontravam por perto a adentrarem o salão. Os bailadores se retiram do salão cantando e fazendo um movimento até a beira do porto e depois se retirando para o interior da comunidade.

Parte final Poracé, poracé, poracé143; Munbaka, munbaka, paka? Kwim wirãde;

Wato episika akwena; Apegáwa piasawá.

Vem dançar; vem dançar, vem dançar; Acorda, acorda, acordou?

Vem sentir o cheiro; Do freguês piaçabeiro144.

O canto final é marcado pela autovalorização dos piaçabeiros, pois as pessoas da cidade difundem a ideia pejorativa que os fregueses possuem cheiros diferentes, cheiro de peixe, cheiro de fumaça, cheiro de caça entre outros, por isso, a ênfase na frase “wato apisika akwena apegáwa piasawá” – vem sentir o cheiro do freguês piaçabeiro. O uso do nheengatu é utilizado para demarcar fronteiras entre índios piaçabeiros e aqueles que só vêm para o piaçabal para tirar proveito econômico, sem se preocupar com as outras coisas invisíveis e tangíveis, como me demonstrou um interlocutor, assim que cessou a dança dos piaçabeiros:

Tá vendo seu Augusto? Isso é coisa nossa mesma. É nossa invenção, mas é de índios mesmo, sabe, Não é coisa de trabalhador da cidade não que não conhece o nosso lugar. Essa dança é igualzinho mesmo o que nós facas labutam no meio do piaçabal. A gente sabe de mais coisa. (Genésio Gereba, comunidade Campina do Rio Preto, junho de 2014)

142 O Aruanã (Osteoglossum bicirrhosum) costuma dar grandes saltos de até dois metros para apanhar aranhas e insetos ou fugir de predadores como os Botos. Essa sua habilidade justifica seu poder de se livrar de ataques dos bichos e encantados, por isso assar aruanã é um antídoto contra ataque oriundos da sobrenatureza.

143 Barbosa Rodrigues (1890) traduz literalmente poracé por danças. 144 Tradução Antônio Buyawaçu e Susete Pereira .