Nasci e me criei dentro desse Padauiri. Já vi passar muita gente por aqui. Gente que é bom lembrar e que traz saudade, mas tem outras que não é nem bom pensar. Deixa pra lá, já se foi. (Genésio Gereba, Baré, comunidade de Águas Vivas, rio Preto)
Neste tópico apresentaremos os patrões que atuaram e atuam na região do Padauiri-Preto. O levantamento foi obtido a partir de longas rodadas de conversas que tive com José Melgueiro de Jesus, Genésio Gereba e Antônio Buyawaçu. Esses três homens possuem muitas características em comum: os três são índios baré, nasceram na região do rio Preto e mantêm variadas relações na condição de freguês. O primeiro, Genésio Gereba, ainda permanece vivendo no piaçabal na condição de freguês, tentando saldar uma dívida que vem “rolando” há mais de cinco empresas. Os dois últimos deixaram a vida dos piaçabais e passaram a se dedicar ao trabalho na roça e a atividades de pesca (comercial e ornamental). José Melgueiro e Antônio Buyawaçu deixaram de trabalhar no piaçabal, mas não deixaram de manter relações com os patrões. Agora eles passaram a se relacionar mais intensivamente com os patrões na cidade, quando todos os meses negociam seus produtos por mercadorias industrializas. Os patrões da cidade são os responsáveis por gerenciar os cartões de benefício dos seus fregueses. Muitos dos patrões na cidade já foram “patrões de rio” ou “regatão”.
Para facilitar a compreensão, os meus interlocutores procuraram apresentar os patrões traçando o perfil de cada um, seus respectivos rios de atuação e os produtos com os quais trabalhavam. Eles conheceram boa parte desses patrões; aqueles que eles não conviveram, passaram a conhecer através de relatos contados pelos pais, avôs ou
viajantes. Muitos dos patrões atuais fazem parte de gerações de patrões, muito comum na região, como, por exemplo, o caso destacado no tópico acima, quando o patrão Edson Marat enfatizou: “meu pai me preparou para eu ser patrão”.
Dessa forma, o “tempo dos patrões” no Médio Rio Negro está vivo na memória dos habitantes da região, devido ao fluxo sucessório contínuo dos patrões. Todavia, não devemos deixar de atentar que existem alguns patrões que não possuem vínculo nenhum com a região.
O Médio Rio Negro já foi cenário de muitos eventos relacionados aos patrões. A região concentra grandes áreas de seringais, castanhais e piaçabais. Esses produtos passaram por processos de oscilação de demanda. A seringa, como já elencado anteriormente, foi um produto muito promissor na região, mas devido a circunstâncias diversas, hoje praticamente é um produto sem atratividade,182 tanto no mercado externo quanto para usos práticos dos indígenas. A castanha, um produto sazonal, possui apenas uma safra durante o ano, é um produto que exige o trabalho coletivo e, portanto, um deslocamento prolongado (três meses) de famílias inteiras (pai, mãe, filhos, noras, netos). Com a fixação dos indígenas em comunidades e a implantação de escolas, o trabalho da coleta da castanha tornou-se inviável para as pessoas, que optam em deixar a família na comunidade para que os filhos possam frequentar a escola. Os patrões da castanha se distanciaram dos rios. Hoje para as pessoas negociarem sua produção de castanha, elas têm que se deslocar até as cidades e ainda enfrentar a falta de procura por este produto. Dessa forma, a coleta da castanha está se tornando uma atividade esporádica no Médio Rio Negro. Os grandes patrões gostam de frisar que o “tempo da castanha” já passou e agora eles “estão vivendo o tempo da piaçaba”.
Os patrões que atuam e atuaram na região do Médio Rio Negro são, na grande maioria, pessoas com os quais os indígenas mantêm longas relações, mas nem por isso deixamos de encontrar relatos em que eles aparecem como malfeitores, perversos, violentos e repressores; mas também encontraremos relatos em que fregueses preferem ser cativos de patrões do que viver na cidade e exposto às devassidões da cidade, tornando-se cativos do dinheiro. Para os fregueses que compactuam com essa ideologia
182 Por exemplo, o governo do Amazonas, através da Secretaria de Desenvolvimento Social (SDS), vem incentivando o trabalho nos seringais, subsidiando o preço do produto. Mesmo com todo o incentivo do Governo, os indígenas e os regionais não indígenas não se sentem atraídos para voltar ao trabalho nos seringais. No rio Preto é unânime por parte dos indígenas a postura de não se submeter ao trabalho nos seringais.
é muito comum se ouvir: “a vida na cidade é guiada pelo dinheiro, pois para tudo se precisa usar dinheiro”. Dessa forma, preferem viver cortando piaçaba.
Desde o início do século XX se corta piaçaba no Padauiri. O Sargento Guilherme aparece como o patrão mais forte do Médio Rio Negro nesse período. Esse patrão migrou do rio Xié para o Padauiri, onde protagonizou massacres de indígenas e espalhou violência em toda a área. O Sargento Guilherme era dono de muitos seringais, e depois passou a dominar os piaçabais na cabeceira do Padauiri. Contudo, devido à violência com que tratava as pessoas, semeou muitas intrigas, gerou muitas desavenças. Sua saída do Padauiri se deu após ter assassinado por motivo banal183 um índio baniwa cuja família mantinha certo prestígio. Esse fato desestabilizou os negócios do Sargento. Com medo de ser vingado pelos Baniwa e com a aproximação dos Yanomami que eram tidos como “índios selvagens”, o patrão se retirou para Manaus, deixando um encarregado de sua confiança à frente dos negócios. Este passou a negociar com os índios e a tomar conta dos fregueses do Sargento Guilherme no Padauiri. Depois de algum tempo, os negócios do militar haviam se arruinado.
Paralelamente às ações do Sargento Guilherme, outro militar, conhecido como Lopes de Souza, também migrando do Xié, abriu uma frente de trabalho no rio Padauiri. Esses dois militares praticamente dominavam toda a calha do Padauiri no período em que a seringa entrava em decadência e a piaçaba já apontava com um produto promissor no final da década de 1950. É interessante observar o quanto os militares abusavam do poder. Eles utilizavam a força do Estado para ameaçar indígenas que descumpriam obrigações impostas por eles. O tempo do Sargento Guilherme e de Lopes de Souza no Padauiri é lembrado pelos indígenas como o “tempo do sangue”.184
Meu pai não chegou a trabalhar para o sargento Guilherme, ele trabalhava para um patrão que era da mesma patota do Sr. Lopes de Souza, só que não era perverso, nem militar. O nome do patrão do meu pai era José Bento, o primeiro patrão a explorar o rio Preto. José Bento trabalhou muito tempo no rio Preto e enquanto ele esteve bem nos negócios meu pai esteve ao lado dele, mas aconteceu uma tragédia na vida do meu pai e então ele teve que deixar um patrão bom que
183 O Sargento Guilherme havia cometido muitos assassinatos na região. No entanto, o assassinato do índio baniwa teve muita repercussão devido a sua banalidade. Os meus interlocutores informaram-me que somente porque o Baniwa, em estado de embriaguez, lhe direcionou a palavra. O sargento não gostou e disparou à queima-roupa um tiro na cabeça do índio. Essa ação revoltou os fregueses indígenas que trabalhavam no Padauiri.
184 O rio Padauiri e Preto é apontado por Meira (1993) como o celeiro da morte, devido à mortandade de pessoas vitimadas de malária e pelas atrocidades encampadas pelo militar Sargento Guilherme e Lopes de Souza.
havia trabalhado por muito tempo. Depois ele foi resgatado por outro patrão [Sr. Araquém]. O negócio do papai era com o Sr. José Bento, que nunca foi um patrão violento. Mesmo ele sendo amigo do Sargento Guilherme e do Sr. Lopes de Souza, ele não aprovava as coisas que esses homens faziam com os índios, mesmo porque Sr. José Bento conhecia todos nós daqui do rio Preto. Toda vez que Sr. Bento subia o rio Preto, ele trazia notícia que freguês do Sargento Guilherme estava quase morrendo, foi espancado. No tempo do Sargento Guilherme, os velhos contam que foi o tempo do sangue e foi a época em que morreu muita gente no Padauiri (José Melgueiro de Jesus, comunidade Campinas do Rio Preto, setembro de 2013).
Mais acima da boca do Padauiri, na região Lamalonga e Ximbaru antigas freguesias, o patrão Júlio Martins dominava outra frente de trabalho. Ele não era militar, mas praticava com os seus fregueses as mesmas técnicas dos patrões do Padauiri. Júlio Martins chegou a empreender em outras atividades, como a criação de gado, a plantação de café e cana-de-açúcar. Esse patrão foi proprietário de escravos, indígenas e negros. Em seu sítio funcionava um porto de referência comercial no Médio Rio Negro, pois esse local era um dos poucos portos que atracavam os principais vapores vindos de Manaus. Júlio Martins mantinha uma parceria com a firma J. G. Araújo, que controlava a distribuição de mercadorias para patrões menores na região.
Júlio Martins contraiu uma doença que lhe deixou fragilizado. Os fregueses baniwa foram acusados de enviar veneno para o patrão e, este fato aumentou o ódio de muitos patrões da região, porque dentre os indígenas que estavam na condição de fregueses, os Baniwa eram vistos como pessoas perigosas, temidas, por isso eles sentiram na pele a brutal violência dos patrões, sobretudo, após o falecimento do patrão Júlio Martins, quando os patrões passaram a tratar os Baniwa com mais severidade. Muitos Baniwa deixaram de trabalhar para os patrões nessa época. Muitas famílias baniwa retornaram para o Içana, sobretudo, apostando na ação missionária pentecostal, que nesse período se fortalecia entre as principais fratrias baniwa no Içana. Os indígenas içaneiros que não seguiram o chamado dos missionários passaram a habitar em pequenos sítios ao longo dos rios Padauiri e Preto, aguardando o findar do “tempo do sangue” e os sentimentos da família do patrão Júlio Martins se acalmar.