Um dia, quando eu era criança de uns sete anos de idade, meu pai e minha mãe me trouxeram para o piaçabal. Uma coisa eu nunca me esqueço de quando cheguei lá. Perguntei para minha mãe: o que era essa planta piaçaba? Ela me respondeu: ela é uma planta amiga que ajuda todos nós daqui do rio Negro. Com a sua folha nós cobrimos as casas e barracos. Suas frutas alimentam gente e os animais. Sua barba [a fibra] é que nos sustenta, é o nosso poder. Ela faz a gente feliz. Quem se acostuma a viver no meio dos piaçabais, meu filho, não se acostuma mais com outro tipo de serviço. Pergunte a seu pai se ele quer sair de dentro do piaçabal? Não! Ele não quer. É aqui, meu filho, que está a alegria dele, mesmo com toda a sovinice do patrão. Aí, seu Augusto, depois de ouvir isso, eu fui entender que o freguês é feliz no que ele faz, cortando a fibra, cuidando da palmeira para não morrer e vivendo de frente com a mata bruta. (Genésio Gereba, Baré, comunidade de Águas Vivas, agosto de 2010)
Muitas terminologias temporais159 foram criadas para marcar o predomínio ou a decadência de determinado ciclo econômico na região amazônica. O período das “drogas do sertão” foi muito difundido através dos relatos dos administradores coloniais Charles-Marie de La Condamine ([1745] 1999) e Alexandre Rodrigues Ferreira ([1792] 2008). Esses dois administradores e pesquisadores, a serviço da coroa portuguesa, adentraram a região amazônica mapeando lugares, povoados, malocas, rios, igarapé, identificando nomes de “tribos indígenas”, bem como identificaram os principais produtos naturais que rendessem lucros para a empreita colonial. Santos ([1977] 2009) e Teixeira (2009), por exemplo, chamam de o “tempo da seringa”, o período em que o extrativismo do látex era predominante em toda a Amazônia. O boom da borracha foi um período longo da história econômica da Amazônia e começa a entrar em decadência na metade do século XX em decorrência das oscilações do mercado internacional (Segunda Guerra Mundial, depreciação dos preços de produtos primários, etc.). Meira (1993; 1996) fala em “tempos dos patrões”160 para refletir sobre a posição dos indígenas no regime de aviamento, cujo principal elemento propulsor é a extração da fibra da piaçaba.
Bonilla (2004, 2007), analisando a relação no Médio Purus entre patrões e fregueses, a partir do ponto de vista dos indígenas, traça uma linha sucessória para
159 A questão do tempo e das temporalidades é muito marcante nas reflexões antropológicas contemporâneas. O sentido empregado aqui está envolvido em qualquer relação possível entre o discurso antropológico e seus referentes.
160Wright (1999, p. 171), fala em “época dos patrões”, abordando a trajetória de vida dos Baniwa, que de acordo com o autor foi marcada, no espaço e no tempo, por suas relações com os comerciantes.
marcar o tempo entre os Paumari: o “tempo dos antigos”, que corresponde ao tempo dos ancestrais; o “tempo dos patrões”, marcado pela invasão colonizadora dos comerciantes brancos (jara); e, atualmente, a “Era cristã”, quando os patrões saíram de evidência devido a presença missionária.161Esses marcos temporais também é asseverado pelo movimento indígena local, como demonstrado na citação abaixo:
É fato que o rio Negro sempre foi uma região com um grande potencial para o extrativismo, que contribuiu e muito na economia da região durante muitos anos. Houve várias fases, muitos produtos tiveram seus momentos, no entanto existe um produto que superou todos os momentos. Lógico, estamos falando da fibra da piaçava. (ACIMIRN, Seminário de apresentação dos potenciais econômicos da região do Médio Rio Negro, Santa Isabel do Rio Negro)
O relato acima me inspirou a marcar o tempo atual na região em estudo como “o tempo da piaçaba162”. A depreciação da borracha foi um fator fundamental que intensificou a migração de indígenas para a região do Médio Rio Negro para trabalhar no extrativismo da piaçaba, que se tornou um dos principais produtos de exportação. Atualmente, no Médio Rio Negro e nas cidades de Barcelos e Santa Isabel existe uma concentração considerável de indígenas de diversas etnias trabalhando no extrativismo da piaçaba. No contexto do “tempo da piaçaba”, procuro traçar o perfil dos fregueses que labutam na extração da piaçaba e demonstrar o quanto o piaçabal corresponde a um espaço de agregação e constituição de identidades. Busco entender os processos de sociabilidade que se verifica no espaço do piaçabal – a colocação –, uma estrutura formada pelo barraco, oficina, varadouro, galhas; rebolado, os igarapés e habitado por todos os tipos de gente.
Desde os primeiros anos da invasão dos europeus à região amazônica, a piaçaba já havia sido cobiçada pelos administradores coloniais: a palmeira aparece na lista como um dos produtos de interesse econômico.163 Primeiramente, utilizada no
161 “Au contraire, c’est lorsque l’on parle du changement et de la transformation que les Paumari se souviennent de l’un ou l’autre récit en évoquant alors soit ‘le temps des anciens’, soit ‘le temps des patrons’, soit ce que nous appelons ‘l’ère chrétienne’ qui correspond au temps présent” (BONILLA, 2002, p. 30).
162 Quando designo o tempo da piaçaba é em considerações à marcação de tempo que os moradores do rio Preto se referem para destacar o período histórico que iniciou suas atividades na extração da palmeira da piaçaba. O tempo da piaçaba também nos orienta sobre os processos de ocupações da região do rio Preto, como foi abordado no segundo capítulo.
163 Ferreira ([1792] 2008, p. 231) a respeito da piaçaba e da agricultura no Médio Rio Negro comenta: “Concluo o artigo da agricultura de Thomar com outra pequena reflexão sobre nenhum apreço, que na dita Villa se faz da piassaba, que tem perto, nas terras da consta fronteira, e dentro do Padauiri, donde a pôde tirar e propagar pela capitania […] devo reservar o resultado das minhas observações; bastará
fabrico de cordas para embarcações, teve seu apogeu quando a administração colonial instalou no Médio Rio Negro, nas proximidades da vila de Thomar (próximo à foz do Padauiri), uma base para industrialização de cabos. Essa empreitada contou com a mão- de-obra escrava indígena, principalmente, os Baré e aqueles considerados “arredios” que eram capturados nas chamadas “guerras justas” que se tornavam escravos dos colonizadores e passavam a trabalhar compulsoriamente nos empreendimentos coloniais (MEIRA, 1990; 1993; WRIGHT, 1996; 1999; ANDRELLO, 2006).
Com o surgimento de outros produtos de interesse econômico e o aparecimento das cordas de nylon no mercado internacional, a piaçaba perdeu espaço, nesse contexto, como empreendimento econômico colonial. No entanto, para os indígenas, a piaçaba manteve seu valor multifacetado, pois eles continuaram utilizando a fibra da palmeira para fabricar diversos utensílios (artesanato, peças domésticas que auxiliam no trabalho da roça, armadilhas de pesca, etc.), assim como as folhas era utilizada para fazer as coberturas das casas.
Somente com o declínio da borracha, a piaçaba entrou em cena como um dos principais produtos de exportação no Médio Rio Negro. Incorporando o antigo regime de aviamento que era praticado nos seringais, as relações de produção continuaram centradas na relação dual entre patrão e freguês, porém com maior abertura para ambos os lados, pois, para o patrão, as linhas de crédito se abriram, diferentemente do “tempo dos seringais”, quando a maioria dos patrões eram “aviados” das grandes firmas, como, por exemplo, a J. G. Araújo e a Hugson. Atualmente, na cadeia da piaçaba, o grande patrão muitas das vezes é o exportador e quem dispõe de capital de giro, portanto, achatou-se a cadeia vertical, quando as firmas eram tidas como a cabeça da cadeia e monopolizavam as relações comerciais na região.
A diversidade de produtos industrializados multiplicou-se. Todavia, o acesso a alguns produtos ainda é bem restrito para a maioria dos fregueses, como, por exemplo, o motor de centro e o motor de popa. Além dos preços exorbitantes, percebo que o patrão dificulta “aviar” tais bens para evitar a qualquer momento a saída do freguês do piaçabal. Mesmo com a abertura para outros produtos (geladeiras, aparelhos de TV, fogão, equipamentos de som), as negociações à base do aviamento continuam ocorrendo
por agora, que uma só coisa advirta, e que, fiados no uambé e no timbó-titica, tem deixado os índios das povoações superiores, não digo já perder, mas inter-se pelo mato a piassaba”.
com uma limitada circulação de moeda, ou seja, ainda existe uma relação direta entre o patrão e o freguês no que tange às negociações entre eles.
Pelo lado do trabalho do freguês no piaçabal, apesar das interpretações que consideram essa atividade como similar a escravidão ou semiescravidão, muitos estão no trabalho porque consideram que o piaçabal é um espaço que foi se constituindo como referência. Basta atentar para a citação do freguês Genésio Gereba, no início desse tópico, para perceber que conhecer e viver dentro do piaçabal é como viver em um local a que se pertence, e com isso o freguês não consegue viver em outro local, “prefere viver em frente à mata bruta”164. Por outro lado, boa parte dos fregueses, quando não seus filhos, passou a ter acesso à informação, a participar de programas do governo, do movimento indígena, assistência social, e isso motivou alguns fregueses a questionar a sua posição dentro da cadeia da piaçaba. Mas, mesmo assim, há muitos fregueses que consideram o trabalho extrativista da piaçaba como a única coisa que existe, mesmo com toda adversidade que o freguês enfrenta no seio do piaçabal165.
Os piaçabais166 estabelecem ampla rede de relações que não se restringe apenas ao econômico, embora seja o fator econômico que determina, em muitos casos, o deslocamento de grupos domésticos inteiros para trabalhar durante períodos prolongados na extração da fibra da palmeira da piaçaba, principalmente no período de inverno quando o acesso aos piaçabais se torna menos desgastante, pois os igarapés estão cheios, possibilitando, assim, a navegação das canoas até o local de trabalho, bem como maior facilidade no escoamento do produto – os pacotes de fibras de piaçaba até o porto do patrão ou até à comunidade do freguês.
Quando um grupo de homens ligados por laços de parentesco chega ao piaçabal, geralmente financiado por um patrão, eles se dedicam, nos primeiros dias, à montagem da empreita de trabalho que se constitui em escolher o espaço do “barraco” para dormir e guardar os pertences; bem como abrir varadouro - caminho que leva até o local de
164 Muitos fregueses têm como ponto de referência residencial a cidade, onde moram os filhos e esposa. O freguês piaçabeiro durante o ano deve passar no máximo três meses junto da sua família na cidade. Quando os filhos recebem férias da escola, toda a família muda, nesse período, para o piaçabal. 165 Durante a segunda etapa do trabalho de campo, colaborei na aplicação do “Censo do piaçabeiro”. O
questionário padrão, em uma das 39 questões, perguntava por que a pessoa estava trabalhando no extrativismo da piaçaba. As respostas mais evidentes foram as seguintes: “eu nasci no piaçabal e a única coisa que eu sei fazer é tirar piaçaba”; “meu pai era piaçabeiro e me trouxe para cá, então é isso que ele me ensinou e o que eu sei fazer”; “é a única coisa que nós sabemos fazer, na cidade não tem emprego para indígenas não, então nós temos mesmo é que ficar em nosso lugar”.
incidência das palmeiras de piaçaba denominado de rebolado. Também as pessoas montam uma oficina próxima ao barraco, onde as fibras da piaçaba serão organizadas em pacotes. Depois de toda essa estrutura pronta, inicia-se o trabalho do corte e gradativamente vão se construindo as galhas, que são ramais que saem do rebolado, em direção perpendicular ao varadouro. As galhas são fundamentais porque a produção é escoada para o varadouro e depois é conduzida para a oficina. Essa estratégia economiza energia e tempo, pois o freguês abre as galhas para encurtar a distância e se livrar de transitar com a sua produção pelo longo percurso do varadouro, pois a distância do rebolado para o barraco e a oficina geralmente dura em torno de uma hora de caminhada. O freguês indígena trabalha no corte da fibra no período da manhã, reservando o período da tarde para trabalhar em sua oficina ou para caçar ou pescar, no intuito de complementar a alimentação. A alimentação na colocação é compartilhada entre grupos de fregueses167. Depois de um mês de labuta no piaçabal, se constrói uma estrutura de trabalho – a colocação - semelhante a uma árvore, sendo o varadouro o caule; os galhos formam a copa e o barraco168 e a oficina são as raízes desta árvore de trabalho.
As oficinas são espaços compartilhados, geralmente entre dois fregueses. Construída ao lado do barraco, a oficina constitui-se de três ferramentas básicas, fabricadas artesanalmente pelos fregueses: 1) aparador, 2) amarrador e 3) batedor.
O aparador, fabricado a partir de pedaços de madeira entre 30 a 50 centímetros fincados no chão na posição vertical, serve para a mensuração das fibras a serem aparadas, ou seja, cortadas para ficarem num mesmo tamanho. Os pedaços de madeiras são fincados no chão em posição vertical, tendo como apoio duas varas pequenas pregadas na horizontal entre cada par na vertical. Apoiado nas varas horizontais está uma tábua que serve como base para apoiar as fibras que serão medidas e aparadas.
O amarrador é um instrumento elaborado a partir de três ou quatro varas pequenas na posição vertical, uma ao lado da outra, firmadas no chão. O chão é revestido com palhas de modo a proteger as fibras da piaçaba. O objetivo desse
instrumento é auxiliar no processo de compactação das fibras para serem organizadas em fardos e assim amarradas.
O batedor é um pequeno instrumento de madeira que é desenhado manualmente, semelhante a uma palmatória, tendo uma das extremidades em formato circular que serve para o freguês bater as fibras para manter uma padronização das mesmas. Somente depois desse processo, o produto já pode ser encaminhado para o patrão que financiou o freguês ou ser vendida para o primeiro regatão que aparecer, caso o freguês não esteja amarrado a algum patrão.
Figura 21: estrutura de uma colocação.
No espaço entre o rebolado e o barraco existe um campo perigoso e intersubjetivo é o espaço onde os fregueses constantemente se deparam com “bichos do mato”, “donos da floresta”, encantados e animais peçonhentos e ferozes, como as onças, que ora partilham amorosidade, participando de cerimoniais entre os fregueses, ora se tornam agressivas numa relação ambígua, mas sempre fazendo parte dos processos de sociabilização no espaço do piaçabal.
É interessante do ponto de vista analítico que o trabalho extrativista da piaçaba não parece ser uma simples atividade por meio da qual os fregueses procuram suprir necessidades elementares, ou um simples recurso que utilizam para ir dominando o meio em que vivem. Tudo parece indicar que o trabalho que o freguês piaçabeiro desenvolve no interior da mata significa, antes de tudo, uma extraordinária manifestação do seu domínio no interior de um espaço ou um território que vem sendo construído por
eles, cujos referenciais de sociabilidade perpassam por diversas orientações, como, por exemplo, a sociocosmologia local. Portanto, não está em pauta que a vida no piaçabal seja meramente uma ação para sobreviver numa perspectiva econômica. Pelo contrário, vai muito além do retirar o sustento, pois existe um amplo campo relacional com seres de diversas ordens, como, por exemplo, os animais peçonhentos e agressivos, os não humanos, como os bichos do mato (curupira, mapinguari, mati, caricawara, etc.), e determinadas piaçabeiras que se transformam em gente. Esses e outros seres fazem parte da vizinhança do espaço complexo do piaçabal ou da colocação.
Como estou tentando demonstrar, o piaçabal não é um espaço meramente de exploração de recursos, ele é considerado um espaço de sociabilidade. As gentes dos piaçabais constituem-se de especialidades com marcas distintas, como, por exemplo, os fregueses piaçabeiros, que são tidos como conhecedores de uma vasta diversidade de puçangas, rezas e benzimentos para fins diversos, isso porque eles conhecem com profundidade os espaços do seu território.
Durante o trabalho de campo, quando estava na comunidade de Campinas do Rio Preto, observei várias vezes mães de crianças pequenas enfermas aguardarem na beira do rio a descida de um piaçabeiro para que este lhe prestasse uma reza para espantar o mau agouro que impregnava a sua criança, mesmo a comunidade tendo bons rezadores. Isso demonstra a força dos piaçabeiros enquanto portadores de conhecimentos especializados que vão além das habilidades de cortes -- que somente eles sabem fazer de forma que não maltratem as palmeiras da piaçaba.
Os piaçabeiros [fregueses] que vivem embrenhados no mato têm mais conhecimento, porque eles parecem que vivem mesmo perto dos outros bichos, parece que eles sabem amansar coisas que vem do mato. Aquele que passa muito tempo aqui na comunidade parece que perde o conhecimento, a força da natureza. Eles rezam, rezam, mas às vezes não dá jeito. Por quê? Porque eles estão perto de mulheres, estão comendo coisa “gordurosa” e fazendo coisa que não deveriam estar fazendo. Isso faz esquecer. Agora no meio do piaçabal parece que os piaçabeiros ganham força (Derly Tipa, Baré, comunidade de Campinas do Rio Preto, agosto de 2014).
Pelo viés pragmático da produção, o freguês piaçabeiro adquire qualidades e habilidades específicas. Sem a intenção de criar um ranking entre piores e melhores fregueses, sobretudo devido à inconstância dos fregueses quando se trata da sua produção, os patrões criaram uma taxonomia para os fregueses piaçabeiros de acordo com a habilidade que cada um demonstra. Por exemplo, do ponto de vista da produção
existem três tipos169 de fregueses piaçabeiros: 1) o freguês “faca170 de curupira”; 2) o freguês “faca de ariranha”; e 3) o freguês “faca de jabuti”. O primeiro é aquele que trabalha arduamente e consegue tirar saldo do patrão. Geralmente esse tipo de freguês se isola no meio do rebolado, abandonando o barraco, e só aparece quando a sua produção é suficiente para entregar para o patrão. O “faca de curupira” é muito questionado, e acusado de fazer pacto171com “bicho do mato”:
O pessoal fala que esses que ficam embrenhados lá dentro dos rebolados sem tomar café, sem bicar uma dose [cachaça], sem falar com gente, se alimentando só de coisa do mato, parece que não é gente não. O produto que eles trazem não foi força deles não, é coisa dos bichos. Sabe lá o que eles fazem! Só sei que eu quero trabalhar mesmo do meu jeito, com a minha força, mas não quero acordo e ajuda desses bichos não; o senhor sabe, né (Genésio Gereba, Baré, comunidade Águas Vivas, outubro de 2010).
Geralmente, o freguês “faca de curupira” consegue extrair entre quatro a cinco toneladas de piaçaba por fabrico.172 Esse tipo de freguês normalmente consegue tirar o saldo, que volta para as mãos do patrão, que estrategicamente facilita o acesso à mercadoria. Então, ao invés de ter saldo, o freguês passa a dever novamente ao patrão, e este seduz o freguês apresentando mercadorias novas de acesso restrito como, por exemplo, relógios, aparelhos de som moderno, celulares de última geração, bens que poucos fregueses conseguem adquirir. Ter acesso a bens restritos passa a significar a diferenciação de um freguês.
O freguês no geral é bondoso, não é sovina. Quando ele tira saldo quer extraviar, demostrar para os parceiros que ele pode bancar algo porque ele tem condição de pagar, mostrar que ele pode enfrentar o patrão e conseguir qualquer mercadoria. Às vezes bebe tudo de cachaça, mas ele satisfaz a sua vontade. Isso é para todo tipo de freguês, do forte ao mais fraquinho. Eles não são sacatinas [sovinas], eles são generosos (Edson Marat, comunidade Malalahá, novembro de 2014).
169Também existe uma classificação dada pelos patrões: 1) freguês “faca de ouro”, aquele que corta bem o produto e produz o suficiente para retirar saldo; 2) o “faca de prata”, que é um freguês regular; e o “faca de lata”, que tem sua produção abaixo da média.
170 A faca é um dos principais instrumentos de trabalho do piaçabeiro. O modelo do instrumento faz a diferença no corte da fibra – inclusive há modelos de faca que matam a palmeira da piaçabeira. O corte também é muito importante para a manutenção da piaçabeira. Uma regra geral: não se podem cortar com terçado as fibras, nesse sentido o freguês decreta a morte da palmeira.
171 Sobre o pacto de fregueses com “seres perigosos”, abordaremos em outro tópico da tese.
172 Os períodos de trabalho nos piaçabais são chamados de fabrico ou empresas. Esse período é muito variável, mas comumente um fabrico dura em torno de três a quatro meses.
O segundo tipo de freguês piaçabeiro, o “faca de ariranha”, mais comum na