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Dentre todas as características que distinguem o desenho animado japonês (Anime) do seriado de ação (Tokusatsu), a mais cara a este trabalho de pesquisa é a forte distinção de gênero que o primeiro tem em relação ao último, muito em parte devido à sua maior produção para o mercado de entretenimento televisivo mundial.

44 As séries de Tokusatsu não possuem uma divisão de gênero nítida e delimitada, pois são prioritariamente produzidas para o público masculino. Seus enredos são baseados em heroísmo, coragem e perseverança, e possuem um teor de inocência, presente nos ideais e objetivos de seus personagens, que dá o tom de romantismo às séries em si. Não um romantismo no que diz respeito à relação entre homens e mulheres, mas um romantismo no sentido de conceder ao universo Tokusatsu uma forte dose de idealismo: os heróis dos seriados japoneses de ação são estereótipos de um padrão masculino de simplicidade e honestidade, aliados a uma tendência geral que parte para a inocência dos protagonistas da trama. O herói japonês de Tokusatsu não compactua com o mal; ele pode recorrer aos últimos recursos para fazer valer sua missão, inclusive matar o vilão ou inimigo, o que, na maioria das vezes, é feito. Diferentemente do padrão norte-americano de herói (como Super-Homem ou Homem-de-Ferro), o herói japonês das séries de Tokusatsu, como Jaspion, Jiraiya, Jiban, ou mesmo o clássico National Kid, não sofrem os efeitos psicológicos de arrependimentos ou códigos morais. Eles não têm que proteger a vida de todos: têm que proteger a vida de quem merece ser protegido (o povo japonês, e, especialmente, as crianças, às quais os heróis de Tokusatsu são intimamente ligados através de sua inocência). Nesse hall de proteção, os vilões, quase sempre sórdidos, mesquinhos e com táticas de ação “sujas”, não merecem piedade alguma; por isso, não são presos, e sim exterminados.

Com esse tipo de conduta moral, as séries de Tokusatsu foram criadas ao longo de mais de três décadas (60, 70 e 80), tendo como foco maior os homens. A divisão de categorias concernente ao estilo de séries Tokusatsu diz mais respeito ao perfil dos heróis em si mesmo que à oferta das séries por sexo (masculino e feminino). Somente a partir da década de 2000, as séries de Tokusatsu passaram a ser mais direcionadas ao público feminino, com a produção ou adaptação de séries de Anime pertencentes aos estilos femininos de produção daquele tipo de programa. Esse estilo de Tokusatsu, mais “feminino”, com menos cenas de ação (luta) e uma dose maior de romantismo, ficou conhecido como séries Live-Action (adaptações em Tokusatsu de Animes direcionados ao público feminino). Um dos exemplos desse tipo de seriado é a versão Tokusatsu do desenho animado japonês Sailor Moon.

Os Animes, ao contrário das séries Tokusatsu, possuem uma nítida delimitação de gênero em sua produção, pois são provenientes dos quadrinhos japoneses (Mangás) que, por sua vez, possuem uma gama de oferta riquíssima. Há Mangás de todos os tipos e para todos os gostos, oferecendo uma gama de opções para cada parcela de público a que esse mercado se propõe trabalhar. Públicos adultos consomem mais Mangás adultos, com temas mais

45 ligados à sobrenaturalidade (espíritos, planos de existência, energias invisíveis), ou mesmo sexo propriamente dito (chamados Hentai). Públicos mais jovens (ou mesmo infantis) consomem estilos de quadrinhos japoneses totalmente direcionados para suas faixas etárias e seus sexos.

De uma forma geral, crianças em idade escolar (Educação Infantil e Ensino Fundamental) consomem Mangás chamados Shogaku. Esses quadrinhos japoneses consistem de pequenas histórias didáticas, relacionadas às matérias vistas na escola durante o período formal de ensino. O objetivo dos Shogakus é orientar o estudo de uma forma lúdica, focando a atenção das crianças nos conteúdos escolares e estimulando a leitura dos futuros consumidores de Mangás.

A partir de 12 anos de idade, a oferta de Mangás se divide drasticamente entre meninos e meninas. Durante a fase adolescente, a produção de quadrinhos japoneses é totalmente focada no público-alvo da investida comercial. Essa investida dos quadrinhos japoneses passa também para o universo dos desenhos animados (Animes), já que, segundo Luyten, “os Mangás bem-sucedidos originam roteiros para Animes que estimulam a venda de mais revistas seguidas de reedições, pocket-books (“livros de bolso”), merchandising e assim por diante” (2000, p. 225). É um mercado poderoso.

Os quadrinhos japoneses consumidos pelas meninas chamam-se Shoujo. A palavra “Shoujo” significa “garotas” e designa todo tipo de produção escrita ou visual orientada para o público feminino japonês. Esse tipo de quadrinho (ou Anime) é caracterizado por uma forte tendência à emoção e ao romance, como marcas primordiais da identificação da mulher japonesa. Trata-se, na verdade, de mais um estereótipo irreal, ou melhor, surreal, perfeito demais; de um universo fantástico, infalível, onde as meninas são apresentadas como princesas a serem conquistadas com muito carinho e afeição, sempre à espera de um belo cavalheiro, educado, atencioso e romântico. O universo Shoujo é doce demais, recheado de um sentimentalismo profundo e inquestionável.

Como toda produção capitalista, os Shoujo Manga (quadrinhos japoneses para meninas) também vendem um universo de possibilidades (e produtos), especialmente pensados para o público feminino: produtos de beleza, roupas, acessórios, papelarias. Tudo que possa proporcionar a beleza tão desejada e almejada nas páginas (e episódios) das revistas e dos desenhos animados japoneses. E esse desejo só pode ser compreendido pelos produtos de Shoujo Manga, porque os próprios desenhistas das revistas em quadrinhos femininos são

46 mulheres. É o processo classificado por Luyten como da mulher-desenhista para a mulher consumidora, geralmente adolescente (2000, p. 51).

Os homens não participam de processo algum dentro do universo Shoujo, nem na produção das revistas, nem no próprio enredo das histórias. A pouca presença masculina nos enredos e tramas dos quadrinhos femininos se dá, somente, através de personagens “desfigurados” (ou reconfigurados para um universo totalmente feminino). Os homens não passam de “caricaturas de homens” (ocidentalmente falando): seres completamente afeminados, desenhados em traços meigos, representando um sonho de afeição e carinho dedicado à figura masculina em si mesma. Um perfil quase “divino”, irretocável, que tem como única função contribuir para a felicidade do personagem protagonista (que é sempre feminino), nada mais que isso.

As revistas em quadrinhos japonesas (e, consequentemente, os desenhos animados japoneses) dedicadas ao público masculino procuram balancear o romantismo e a fantasia do universo feminino, concentrando atenção nas cenas de ação e de aventura; são os chamados Shonen, que significa “garotos”.

Da mesma forma que as revistas em quadrinhos femininas procuram vender um universo caro às meninas, as revistas masculinas orientam os meninos sobre todos os acontecimentos e fatos considerados primordiais para eles. Ao invés de se fazer alusão a perfumes, roupas e bijuterias, as histórias masculinas enfatizam enredos sobre esportes, competição e rivalidade. Essa rivalidade, muitas vezes, ultrapassa os limites do comum e ganha ares sobrenaturais, através de batalhas entre homens de forte “energia” (ou Ki, como chamam os japoneses). O romantismo dos Animes e dos Shoujo Manga é agora substituído por tramas dramáticas, em que o protagonista tem que costumeiramente se superar, física e emocionalmente, para cumprir seus objetivos. Entra em ação o perfil de obstinação do homem japonês, oprimido após a derrota na 2ª Guerra Mundial, mas valente e persistente.

A violência também é marca registrada nos Shonen Manga e, muitas vezes, essa violência pode vir caricaturada com traços de sexualidade, seja através de um beijo ou de carícias, sem, no entanto, chegar ao ato propriamente dito. Vale lembrar que o sexo, no Japão, é visto de forma diferente dos países ocidentais: os órgãos genitais são tidos como sagrados e o ato sexual por si só é uma ação puramente física e instintiva (se executada sem sentimento, o que não é incomum). Por isso, as histórias em quadrinhos dedicadas para meninos sofrem censura em cenas que, porventura, possam exibir ou fazer alusão ao erotismo.

47 Os Mangás, tanto masculinos como femininos, apresentam arquétipos irreais e surreais que não correspondem em sua totalidade à realidade vivenciada pelos japoneses. A violência, a fantasia, o romantismo, a ficção, todos são características exacerbadas nos quadrinhos japoneses, que, mais tarde, ganham movimentos e cores nos Animes (desenhos animados). Trata-se de uma espécie de “fantasia reprimida”: os japoneses leem nos Mangás aquilo que não podem ou não conseguem vivenciar ou reproduzir em suas vidas. Trata-se de uma catarse necessária a um povo reprimido historicamente, já que, para Luyten, “vivenciando na fantasia o que não se pode concretamente realizar na realidade, o leitor encontra no Mangá um meio comportado de canalizar e extravasar suas emoções” (2000, p. 223).