John Marmysz, em Laughing at nothing: humor as a response to nihilism (2003), defende explicitamente a tese de que o humor é a melhor resposta ao niilismo. A atitude humorística envolveria uma capacidade de criar e adotar novas e inesperadas perspectivas a partir do qual as dolorosas, frustrantes e ameaçadoras incongruências da vida podem ser reveladas como potenciais objetos de alegria, trazendo prazer ao invés de dor. Aproximar-se da experiência do niilismo com uma atitude bem-humorada não serve para eliminar ou acabar
221 PESSOA. A segunda vida de Brás Cubas, p. 260. 222 REGO. O calundu e a panaceia, p. 175.
com o sofrimento do niilista, mas ajuda a dar um sentido ao sofrimento, permitindo que o niilista suporte as inevitáveis frustrações da vida223.
O humorista entende a realidade, mas se recusa a ser coagido por ela. Em vez disso, ele se esforça na busca do prazer, ainda que em circunstâncias arrasadoras. Ao se recusar a sentir as dores do mundo como dores, ao exigir os prazeres do mundo e repelir o sofrimento diante das adversidades, o humorista rebela-se contra a ordem natural das coisas, libertando-se dos grilhões da natureza. A esse propósito, Machado escreveu – em carta a Salvador de Mendonça, de 29 de agosto de 1903 – que “Eu, apesar do pessimismo que me atribuem, e talvez seja verdadeiro, faço às vezes mais justiça à Natureza do que ela a nós”224.
Opondo-se ao espírito de seriedade e gravidade que marcou a maioria das discussões a respeito do tema, Marmysz avalia que o niilismo pode ser concebido como um estímulo potencialmente útil, tanto para a teoria quanto para a prática, na medida em que ele lembra que os homens não são deuses, e que, apesar de todas as conquistas e maravilhas da civilização, não se pode alterar o fato de que possuímos apenas uma quantidade finita de domínio e controle sobre nossos próprios destinos. Nesse caso, o niilismo pode ser pensado como um bem – basta encará-lo com bom humor.
Com humor, reconhecemos que os sentimentos angustiantes ocorrem, mas que ainda somos capazes de transformá-los em ocasiões de prazer. Ao fazê-lo, afirmamos a vida e convertemos em prazer o que de outro modo seria simplesmente agonizante. Esse talvez seja o principal serviço que o humor pode desempenhar em confronto com o niilismo. Embora desespero e frustração sejam aspectos inegavelmente associados com fenômenos niilistas, em última instância o niilista não precisa se render a essas sensações. Com humor, mesmo o problema do niilismo pode aparecer dentro de seu contexto apropriado como um doloroso, mas em última instância valioso fenômeno na história do nosso mundo225.
Rosana Suarez, em Nietzsche comediante: a filosofia na ótica irreverente de Nietzsche, avalia que o riso seria a chave de interpretação para os grandes temas da crítica nietzschiana e endossa que o humor é uma resposta ao niilismo. Apesar de não trabalhar explicitamente com essa tese, ela avalia que “O saber enigmático e assustador que pede proteção à alegria é o saber da extrema solidão, o saber sobre o niilismo”226. A crítica do filósofo ao niilismo teria como correlato a defesa de uma postura bem-humorada que afirma a
223 Cf. MARMYSZ. Laughing at nothing, p. 2-4. 224 ASSIS. Correspondência, p. 1389.
225 Cf. MARMYSZ. Laughing at nothing, p. 161. 226 SUAREZ. Nietzsche comediante, p. 22.
vida integralmente, mostrando que a moral faz parte de uma comédia. Expondo a filosofia nietzschiana sob a ótica cômica, ela conclui que “o riso tem papel corretivo e revitalizador”227. O coetâneo Eça de Queirós, inserido na “tradição de escrita que sempre usou o riso enquanto arma filosófica”228, endossa a tese nietzschiana e diz que é preciso certa coragem para fazer o público rir do ídolo, sacudindo e incomodando o repouso da velha tolice humana: “O riso é a mais antiga e ainda a mais terrível forma da crítica. Passe-se sete vezes uma gargalhada em volta d’uma instituição, e a instituição alue-se”229.
Em relação ao humor, Machado e Nietzsche são filhos de seu tempo. Georges Minois, em História do riso e do escárnio, afirma que no século XIX o riso adquire dimensão filosófica, se transformando num poder que ataca os ídolos. O final do Oitocentos é cenário de cômicos do absurdo e niilistas do burlesco que riem de tudo. Chamados fumistas, eles são aqueles que zombam de tudo e de nada. Antiburgueses, anticonformistas, antilógicos, hostis a todos os credos e religiões, eles praticam a suspeita generalizada. Seu riso é de desintegração:
O espírito positivista e cientista também não cessa de progredir. Destruidor de mitos, ele extermina tanto as crenças diabólicas quanto as divinas, e o destino desses dois super-homens está ligado: quando “Deus está morto”, o diabo não demora muito para morrer. É claro que seus fantasmas vão pairar por muito tempo, veiculados por palavras cada vez mais vazias de sentido. A morte do diabo não é a morte do riso, mas anuncia a era do nonsense, do absurdo, do niilismo. Se o mundo não é nem divino nem diabólico, se o “por quê?” não tem mais sentido, que pilhéria! Na segunda metade do século XIX, emerge o riso do nonsense absoluto230.
O final do século XIX, época de apoteose do riso insensato e da derrisão, com popularização do uso de palavras espirituosas, máximas cômicas, histórias engraçadas, fábulas curtas e paródias de versos clássicos, ressaltou o nonsense da comédia humana, desintegrando a lógica e desqualificando a noção de importância. Assim, esse século corroído pela crise de sentido se encerrou com uma gargalhada fúnebre.
Nietzsche já alertava para os riscos desse riso inconsequente e desfocado, que zomba a torto e a direito. Ele avalia que a ironia é adequada como instrumento pedagógico, mas fora da relação de formação entre mestre e discípulos ela é um “mau comportamento, um afeto vulgar”231. Ou seja, nas mãos de um mestre que, através da ironia, produz a formação em direção à afirmação da existência, a ironia é adequada. Mas, nas mãos de um
227 SUAREZ. Nietzsche comediante, p. 12.
228 FREITAS. Eça de Queirós e a tradição luciânica, p. 196. 229 QUEIROZ. Notas contemporâneas, p. 36.
230 MINOIS. História do riso e do escárnio, p. 544.
desencantamento niilista, a ironia nos tornará “iguais a um cão mordaz que aprendeu a rir, além de morder”232.
Machado de Assis, o mestre na periferia do capitalismo, também inserido na tradição do riso filosófico, endossa a tese de que o humor é o melhor modo de encarar o niilismo, usando a ironia como princípio democrático de aperfeiçoamento e não como instrumento de negação absoluta.
A pena da galhofa machadiana – cujas características foram descritas no capítulo I – não erradica a voluptuosidade do nada, mas tem o intuito de romper com a gravidade do niilismo, mostrando que, com bom humor, somos capazes de ver a realidade de uma perspectiva alegre e afirmativa, criadora de valores. Nesse sentido, a galhofa pode ser considerada uma resposta promissora para os impasses gerados pelo niilismo:
Há pessoas que não sabem, ou não se lembram de raspar a casca do riso para ver o que há dentro. Daí a acusação que me fazia ultimamente um amigo, a propósito de alguns destes artigos, em que a frase sai assim um pouco mais alegre. Você ri de tudo, dizia-me ele. E eu respondi que sim, que ria de tudo, como o famoso barbeiro da comédia, de peur d’être obligé d’em pleurer233. “Apresso-me de rir de tudo com medo de ser obrigado a chorar” é uma frase espirituosa do barbeiro Fígaro, da ópera-bufa O barbeiro de Sevilha, ou a precaução inútil, do compositor italiano Gioachino Rossini, com libreto de Cesare Sterbini, baseado na comédia Le Barbier de Séville, do dramaturgo francês Pierre Beaumarchais. Lelio dos Anzóis Carapuça apressa-se a rir do niilismo com medo de ser obrigado a chorar, transformando o fenômeno ameaçador em ocasião de diversão. Por isso, poderia ser acusado de fomentar o riso a qualquer preço, o humor nonsense, niilista. Porém, como já visto no primeiro capítulo, Machado, como humorista, quer denunciar, intervir, fazer avançar, abalar e destronar os valores socialmente partilhados – para construir, não destruir.
O escritor torce a pecha de pessimista e aponta uma profícua via de criação estética, marcadamente irônica e autorreflexiva, que nasce justamente de uma consciência autocrítica: “Em resumo: sou da opinião de Petrópolis: antes deitar as manguinhas de fora que chorar. O riso é saúde”234.
O cinismo grego – sátira menipeia – pode ter fornecido a Machado a figura desse riso de estatuto ambíguo e caráter não moralizante, que se afirma como força criadora, se transformando em modo privilegiado de relação com uma realidade que perdeu toda a sua
232 NIETZSCHE. Humano, demasiado humano, p. 215. 233 ASSIS. Balas de Estalo, p. 580.
substancialidade. A pena da galhofa machadiana é capaz de afirmar, sem com isso petrificar as afirmações em explicações sobre a positividade ou negatividade do estado do mundo, colocando sua obra como uma ficção que se afirma como criadora.
O mundo dos personagens machadianos é, em geral, irrestritamente irônico, porque “o folhetim requer um ar brincão e galhofeiro, ainda tratando de coisas sérias”235. Esse princípio de composição baseado na galhofa, como visão compreensiva do mundo, é a base do seu pensamento ficcional. Nesse sentido, os narradores machadianos transformaram, cada um a seu gosto (como será visto nos próximos capítulos), as filosofias para zombar da filosofia, de tal modo que a galhofa mata o niilismo pelo ridículo.