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Blaise Pascal não é dos autores mais citados por Machado de Assis. Considerando que os mais mencionados são a Bíblia, Shakespeare e Homero, o autor de Pensamentos disputaria o quarto lugar com Goethe, Shelley e Voltaire36. Por conseguinte, não se pode exagerar a vinculação do autor brasileiro ao matemático e teólogo francês. Até porque, Machado, longe de ser um leitor passivo dos clássicos, criou, a partir do que leu, novos textos e saberes, tornando-se ele próprio um clássico.

Não se pode exagerar, tampouco desprezar. As afinidades eletivas entre o francês e o brasileiro são reconhecidas pelos críticos e admitidas por Machado de Assis, que possuía em sua biblioteca uma edição de 1861 dos Pensées. O próprio escritor declara, em carta a Joaquim Nabuco, de 19 de agosto de 1906, que a leitura da obra de Pascal foi intensa e frequente, desde a juventude:

Erro é dizer como v. diz em uma destas páginas, que “nada há mais cansativo que ler pensamentos”. Só o tédio cansa, meu amigo, e este mal não entrou aqui, onde também teve acolhida a vulgaridade. Ambos, aliás, são seus naturais inimigos. Também não é acertado crer que, “se alguns espíritos os leem, é só por distração, e são raros”. Quando fosse verdade, eu seria desses raros. Desde cedo, li muito Pascal, para não citar mais que este, e

35 ASSIS. A Semana, p. 939.

36 Uma lista com as referências de citações feitas por Machado nos romances consta de BRANDÃO;

OLIVEIRA. Machado de Assis leitor, p. 169-242. Outra fonte de pesquisa de citações e alusões em romances e contos é o site <http://machadodeassis.net>. Acesso em: 13 dez. 2014.

afirmo-lhe que não foi por distração. Ainda hoje, quando torno a tais leituras, e me consolo no desconsolo do Eclesiastes, acho-lhes o mesmo sabor de outrora. Se alguma vez me sucede discordar do que leio, sempre agradeço a maneira por que acho expresso o desacordo37.

A influência de Pascal na visão de mundo de Machado de Assis, além de ser assumida pelo autor, como já visto, perpassa toda a sua obra, da juventude à maturidade. A primeira menção do escritor ao pensador francês apareceu em 1866, em resenha crítica do livro Culto do dever, de Joaquim Manuel de Macedo, no qual indica concordar com o enunciado do filósofo sobre o conteúdo de uma produção literária, que deve ter a “alma” de seu autor: “Dizia acertadamente Pascal que sentia grande prazer quando no autor de um livro, em vez de um orador, achava um homem”38.

No mesmo ano, o Jornal das Famílias, onde o escritor publicou quase todos os seus contos dos anos 1860 e 70, apresenta o conto “Felicidade pelo casamento”, atribuído a Machado, mas não incluído em suas Obras completas. O narrador, F., relata como suas leituras o chamam à contemplação ascética e às reflexões morais, por um lado, e por outro levam seu espírito às mais elevadas regiões da fantasia: “Sobre a mesa tenho duas pilhas de livros. De um lado a Bíblia e Pascal, do outro Alfredo de Vigny e Lamartine. É obra do acaso e não parece: tal é o estado do meu espírito”39.

Em suas crônicas, o filósofo francês é citado em pelo menos duas ocasiões. Em anedota de 13 de fevereiro de 1889, o filósofo, chamado de sonhador, é confundido com um confeiteiro chamado Pascoal40. No dia 20 de junho de 1864 ele é citado no original: “é esta alteração dos princípios segundo as regiões, que faz dizer com Pascal: Plaisante justice qu’une rivière ou une montagne borne! Verité au deca des Pyrénées, erreur au dela!” [“Justiça engraçada essa que um rio limita. Verdade aquém dos Pirineus, erro além”]41.

A frase supracitada faz alusão aos montes Pirineus e ao rio Biddassoa, onde os franceses trocaram Isabela de França (futura esposa de Filipe IV) por Anna de Áustria (futura esposa de Luiz XIII) para selar a paz entre França e Espanha. Os montes marcam a fronteira sul entre os dois países, enquanto o rio define a fronteira ao norte. O pensamento pascalino, se valendo da dupla acepção do termo justiça, refere-se a uma discussão da relatividade das leis jurídicas. Enquanto a justiça positiva, humana, difere em países diferentes, sendo relativa, a universalidade da virtude como atributo divino não admite relatividade.

37 ASSIS. Miscelânea, p. 1342-1343. 38 ASSIS. Miscelânea, p. 1108.

39 ASSIS. Felicidade pelo casamento, p. 2. 40 ASSIS. Bons dias!, p. 855.

Pascal também é mencionado no conto “O lapso”, de 1883: “Temo que se me argua de comparações extraordinárias, mas o abismo de Pascal é o que mais prontamente vem ao bico da pena”42. A expressão abismo de Pascal, que se refere à alucinação que Blaise sofria com frequência, vendo aparecer sempre diante de si um abismo aberto para tragá-lo, também alude à dificuldade que certos problemas sociais ou morais oferecem em sua elucidação.

Em carta a Magalhães de Azeredo, de 21 de julho de 1897, Machado recomenda ao jovem amigo que “vá completando e multiplicando os seus trabalhos, sem precipitação, com a paciência velha de Chateaubriand, de Pascal, de Flaubert. Nem por isso produzirá menos; a questão é que produza bem”43.

Nos romances, Pascal aparece somente em Memórias póstumas de Brás Cubas. O defunto autor avalia que Nhã-loló exprimia inteiramente a dualidade de Pascal, para quem o ser humano não é nem anjo nem animal: “l'ange et la bête, com a diferença que o jansenista não admitia a simultaneidade das duas naturezas, ao passo que elas aí estavam bem juntinhas, – l'ange, que dizia algumas coisas do Céu, – e la bête, que... Não; decididamente suprimo este capítulo”44. Essa dualidade anjo/besta, que Pascal retira da Bíblia45, é crucial em sua antropologia filosófica, segundo a qual o caos de contradições em que consistem os homens é devido à participação em seu ser de duas realidades incomensuráveis: a perfeita, sobrenatural, e a corrupta, natural, após a queda. Essa seria a condição miserável do homem, dilacerado entre o nada de onde saiu e o infinito que o envolve, compondo uma imagem da humanidade como caos de conflitos insolúveis. Nem anjo, nem animal, o ser humano vive numa circunstância existencial dilacerada, na tensão entre grandeza e miséria, saber e ignorância.

Em outra passagem, o personagem Quincas Borba, “com a discrição própria de um filósofo”, foi ler a lombada dos livros de uma estante da casa de Brás Cubas, tirando um volume. Era uma obra de Pascal, a quem proclama um de seus avôs espirituais:

Pascal é um dos meus avôs espirituais; e, conquanto a minha filosofia valha mais que a dele, não posso negar que era um grande homem. Ora, que diz ele nesta página? – E, chapéu na cabeça, bengala sobraçada, apontava o lugar com o dedo. – Que diz ele? Diz que o homem tem “uma grande vantagem sobre o resto do universo: sabe que morre, ao passo que o universo ignora-o absolutamente”. Vês? Logo, o homem que disputa o osso a um cão tem sobre este a grande vantagem de saber que tem fome; e é isto que torna grandiosa a luta, como eu dizia. “Sabe que morre” é uma expressão profunda; creio todavia que é mais profunda a minha expressão: sabe que

42 ASSIS. Histórias sem data, p. 356.

43 ASSIS. Correspondência de Machado de Assis tomo III – 1890-1900, p. 254.

44 ASSIS. Memórias póstumas de Brás Cubas, XCVIII, p. 719. Cf. PASCAL. Pensamentos, §678 (358), p. 279. 45 Cf. BÍBLIA. Gênese, 22, 11-12; Apocalipse, 11, 7 – 19, 20.

tem fome. Porquanto o fato da morte limita, por assim dizer, o entendimento humano; a consciência da extinção dura um breve instante e acaba para nunca mais, ao passo que a fome tem a vantagem de voltar, de prolongar o estado consciente. Parece-me (se não vai nisso alguma imodéstia) que a fórmula de Pascal é inferior à minha, sem todavia deixar de ser um grande pensamento, e Pascal um grande homem46.

A despeito da evidente galhofa, ou até mesmo por causa dela, já que o riso também é próprio do ser humano, retomo aqui a já mencionada réplica de Brás Cubas à visão pascalina do homem como um caniço pensante. O caniço, cana delgada e comprida, por analogia refere-se ao indivíduo excessivamente magro, isto é, frágil. O ser humano é frágil, mas tem uma vantagem – a consciência da morte:

O homem não é senão um caniço, o mais fraco da natureza, mas é um caniço pensante. Não é preciso que o universo inteiro se arme para esmagá-lo; um vapor, uma gota de água basta para matá-lo. Mas, ainda que o universo esmagasse, o homem seria ainda mais nobre do que aquilo que o mata, pois ele sabe que morre e a vantagem que o universo tem sobre ele. O universo de nada sabe47.

O homem é frágil, mas pensante. O valor do pensamento reside no fato de que por ele somos capazes de pensar a nossa própria condição, ainda que isso não implique poder alterá-la. O mesmo vale para a fome, Pascal poderia responder a Borba, mas esta não é exclusividade do homem – pois se o ser humano é o único que sabe que morre, não é o único que sabe sentir fome.

A perspectiva machadiana da vida social e do ser humano traz elementos essenciais da antropologia pascalina48. Tanto em Pascal quanto em Machado pode ser encontrado o trágico da condição humana, inquieta e desconsolada, dividida e contraditória, em conflito consigo mesma, à procura de autossatisfação e encontrando o tédio. A seguir, serão vistas as categorias básicas do filósofo francês, tais como o divertimento, que iluminam o pensamento machadiano.

46 ASSIS. Memórias póstumas de Brás Cubas, CXLII, p. 748. 47 PASCAL. Pensamentos, §200 (347), p. 86.