Desde 1825, quando ocorreu a primeira viagem de trem na Inglaterra – no Brasil a primeira estrada de ferro foi implantada em 1854, pelo então futuro Barão de Mauá – o novo veículo passou a substituir as bestas de carga, as tropas de burros e mulas, que até então eram o único meio possível de trânsito para o escoamento das safras e abastecimento das fazendas e cidades. Revolucionando a emergente economia industrial, levou o comércio para as mais longínquas regiões, “aumentando o espaço geográfico da economia capitalista através do aumento das transações comerciais internas e externas”2.
Os trens e as estradas de ferro, por seguirem rotas preestabelecidas e obedecerem a horários precisos, contando-se inclusive os segundos, são símbolos da era industrial do século XIX. A invenção da locomotiva revolucionou os modos de produção e circulação de mercadorias, encurtando as distâncias e acelerando o tempo, rompendo com os limites fixados pela tradição. Assim, intensificou a difusão do sistema capitalista em direção ao limite máximo de um mercado global que será alcançado no século XX, disseminando cultura e barbárie:
Por meio de muitos testemunhos literários sabemos como as primeiras estradas de ferro revolucionaram a experiência de espaço e tempo dos seus contemporâneos. A estrada de ferro não criou a moderna consciência do tempo, mas, no curso do século XIX, torna-se literalmente o veículo por meio do qual a consciência moderna do tempo se apodera das massas; a locomotiva torna-se o símbolo popular de uma mobilização vertiginosa de todas as relações da vida, interpretada como progresso3.
Não por acaso, um dos eventos mais importantes da narrativa de Quincas Borba, que desencadeia todos os acontecimentos subsequentes, o decisivo primeiro encontro com Palha e Sofia, que Rubião recorda no capítulo III, aconteceu em um vagão de trem. Durante a conversa, o mineiro afirma que “a estrada de ferro cansava e não tinha graça; não se podia negar, porém, que era um progresso”, no que o outro concorda e acrescenta: “Progresso e grande”4.
2 QUINTÃO. Estradas de ferro no limiar do século XIX, p. 57. 3 HABERMAS. O discurso filosófico da modernidade, p. 85
4 ASSIS. Quincas Borba, XXI, p. 776. Vale lembrar que a narrativa desloca para 1867 uma viagem que só se
Marcus Vinicius de Freitas avalia que a investigação da passagem brasileira à modernidade, seja ela literária, política, econômica ou cultural – passagem desde sempre marcada pelo signo das contradições – parece demandar um retorno ao marco temporal da década de 1870, quando o Brasil iniciou o longo e complexo processo de mudança em direção à modernidade:
... os elementos de continuidade vêm à tona quando se abordam temas relativos ao contraditório surgimento da modernidade no Brasil, tais como a emergência do paradigma científico numa sociedade ainda escravocrata; a identificação simples e direta entre nação e conhecimento demarcado do território; a romantizada permanência da literatura como espaço de construção da identidade nacional, em um momento em que a arte já não era mais romântica; a continuidade e a reiteração da centralização de poder, a despeito da mudança de Império a República; e, por último, a permanência do conflito entre, por um lado, o modelo socioeconômico agrário e, por outro, o crescimento das cidades e das classes médias urbanas, conflito este associado à expectativa, por parte dessas camadas emergentes, de mais participação política e da implantação de um modelo econômico baseado em industrialização, o que só viria a ocorrer de maneira decisiva com a Revolução de 19305.
Esse paradoxo da nossa passagem à modernidade, tal qual configurado ficcionalmente em Quincas Borba, mostra que a transição à modernidade no Brasil foi feita de encontros e desencontros. Tal processo tem como uma de suas características principais a “postura acomodatícia que presidiu a relação entre os primeiros republicanos e os fazendeiros escravagistas, signo da nossa modernidade capenga”6.
As bases do edifício social estavam na escravidão, de certa forma protegida pelas leis, consoante a moral e abençoada pela religião vigente no país, de tal modo que se operava um desvio de prática e de sentido, em que moderno e arcaico, barbárie e civilização, atraso e progresso se contaminavam mutuamente, trocando de lugar, de função e de sentido:
Machado discerniu que nosso pitoresco, nossa cor local e nossa originalidade estavam no funcionamento estrambótico e disparatado da moderna civilização ocidental num país escravista, periférico, atrasado. Isso, sendo tratado com humor e comicidade, era também posto como melancolia e ruína, formando assim um problema de fundo de extrema relevância7.
Entre Rios (atual Três Rios). O trecho até Juiz de Fora só foi entregue ao tráfego em 1875 e o prolongamento a Barbacena, em 1880. Cf. MACHADO. A viagem de Machado de Assis a Minas e o Quincas Borba, p. 301.
5 FREITAS. Contradições da modernidade, p. 16.
6 FREITAS. Contradições da modernidade, p. 97. Grifo meu. 7 FACIOLI. Um defunto estrambótico, p. 48.
Nessa perspectiva de análise das contradições inerentes à passagem incompleta à modernidade, Marcos Rogério Cordeiro avalia que o romance Quincas Borba configura literariamente os percalços da implantação do capitalismo financeiro no Brasil, ainda dependente de formas de relação e de produção pré-capitalistas (ou até anticapitalistas) e as ambiguidades e contradições criadas a partir da justaposição de estruturas históricas díspares, que ligavam e antepunham impulsos modernizadores e reações conservadoras:
Elemento fundamental na economia moderna e no enquadramento ficcional de Quincas Borba, o capital chega às mãos de Rubião mediante herança, que recebe do amigo Quincas Borba (capítulo quatorze), que, por sua vez, recebeu de um velho tio de Minas (capítulo cento e nove de Memórias póstumas de Brás Cubas). Este dado não é casual nem secundário: uma vez que vigorava o trabalho escravo no Brasil, existe grande dificuldade em identificar a gênese e o desenvolvimento do processo de acumulação primitiva; logo, como não se observa os mecanismos de formação de riqueza, ela já aparece pronta. O fato de não encontrarmos este processo exposto em Quincas Borba, ou em qualquer outro livro de Machado de Assis, mostra como ele identificou um problema de ordem econômica e como ele o internalizou, tornando-o elemento estruturador da trama romanesca8.
Pode-se perceber que o movimento ambíguo e contraditório da modernização brasileira e a justaposição de estruturas históricas díspares constituem o nervo do livro, que apresenta Rubião como um sujeito sem lugar entre o Brasil arcaico e o moderno, pois sua imaginação ou sua reminiscência o deslocam de uma situação para outra e vice-versa:
O Brasil não aparece chapado, como uma montoeira de dados e eventos, mas de maneira estruturada, apresentando um conjunto de dados escolhidos, regidos por forças que pendem entre a tradição e a modernidade, entre o arcaísmo e o progresso: de um lado, a periférica cidade de Barbacena apresenta economia ligada a formas de produção estabilizadas e quase estagnadas, vida cultural e social sem atrativos, hábitos arraigados que cultivam a convivência íntima e invasiva entre as pessoas; de outro, a cidade do Rio de Janeiro apresenta o dinamismo comercial e financeiro dos centros econômicos ligados ao mundo, a vida cultural é levada com educação e elegância, a vida mundana é marcada por sociabilidades de salão, sem intimidades, mas constantes e proveitosas. Essa configuração serve como representação da estrutura ambígua, desigual e dual de realidades históricas justapostas. Machado de Assis foi o primeiro escritor a perceber esta justaposição e torná-la um viés de composição, uma tarefa nada fácil que ele foi aprimorando aos poucos. Acredito que o grau mais elevado, o resultado mais perfeito desta forma de composição ficcional aparece justamente em Quincas Borba9.
8 CORDEIRO. A herança de Rubião, p. 113-114. 9 CORDEIRO. A herança de Rubião, p. 123.
Nesse sentido, é forçoso notar que as contradições não são exclusivas do processo de modernização oitocentista. A economia colonial, segundo Maria Sylvia Carvalho Franco, já constituía uma unidade contraditória: produção para subsistência e produção para mercado externo – “dois princípios reguladores da atividade econômica que são essencialmente opostos”10 – foram práticas constitutivas uma da outra. O estudo de Franco indica que essa unidade contraditória dos princípios antagônicos de ordenação das relações econômicas, determinada na gênese do sistema colonial, sustentou, com suas ambiguidades e tensões, boa parte da história brasileira. Da mesma maneira, Emilia Viotti da Costa afirma que:
O setor de exportação da economia era “moderno” e internamente a economia era “tradicional”. Os proprietários de terras brasileiros, divididos entre valores aristocráticos e burgueses, governavam suas propriedades tanto como senhores feudais quanto como empresários. A maioria da população livre, marginal à economia comercial, dedicada à produção de alimentos para a sua própria subsistência, não via muito sentido na ética capitalista. E aquilo que oferecia pouco sentido aos pequenos proprietários, significava ainda menos para os escravos11.
Tendo em vista que “a colonização é um feito do capital comercial”12, a “tensão entre valores aristocráticos e burgueses era inerente à estrutura da sociedade colonial desde os seus primórdios”13. Tal tensão, que faz parte do processo histórico de consolidação do capitalismo enquanto um sistema mundial, alcançou um ponto de crise no período histórico configurado literariamente em Quincas Borba. Essa crise, estado de incerteza, distúrbio ou declínio, dotada de impulsos de destruição e autodestruição, força uma ruptura com os valores estabelecidos, incluindo aqueles considerados mais elevados, isto é, os das tradições religiosa, metafísica e humanista, que dão uma finalidade e, portanto, um sentido à existência. Na medida em que tudo aparece como sendo “em vão”, a prosa machadiana ironiza os consolos metafísico-religiosos e morais da tradição ocidental, revelando “a impossibilidade do capitalismo de fornecer um sistema de crenças”14, porque a burguesia “afogou os arrepios sagrados do arroubo religioso [...] nas águas gélidas do cálculo egoísta”15.
Se, como visto no capítulo anterior, uma das características da contraditória modernidade é o estado de coisas criado pelo advento do capitalismo, o processo de dessacralização do mundo presidido pelo sistema econômico deixa marcas na ficção de
10 FRANCO. Homens livres na ordem escravocrata, p. 11. 11 COSTA. A revolução burguesa no Brasil, p. 181. 12 SCHWARZ. Ao vencedor as batatas, p. 17. 13 COSTA. A revolução burguesa no Brasil, p. 182. 14 SAFATLE. Cinismo e falência da crítica, p. 140.
Machado: “Rubião era mais crédulo que crente; não tinha razões para atacar nem para defender nada: – terra eternamente virgem para se lhe plantar qualquer coisa. A vida da Corte deu-lhe até uma particularidade: entre incrédulos, chegava a ser incrédulo...”16.
O niilismo, como venho tentando demonstrar, é a questão para a qual convergem muitos problemas referentes à crise dos valores da modernidade. O tema ocupa posição central nos romances da maturidade de Machado, tendo em vista que o niilismo aparece como elemento maior do diagnóstico de uma época na qual vigora a experiência do elemento “nadificante” – a voluptuosidade do nada, a arquitetura de ruínas, o naufrágio da existência, como será visto a seguir.