A compilação de fragmentos póstumos aos quais se deu o título de Pensées consiste no esboço de uma obra que Blaise Pascal planejou escrever, considerando-a capaz de realizar a esperança de conferir um sentido à sua vida de intelectual cristão: a Apologia da Religião Cristã. Tal obra consistiria de exegese da Bíblia e meditação sobre as exigências transcendentes da condição humana, com o duplo objetivo de compreender e justificar a fé.
Os Pensamentos constituem uma coletânea póstuma de textos que, de acordo com a organização de cada edição publicada, mudam a percepção do pensamento pascalino. São muitos os autores que o leitor pode ter em vista: o Pascal ortodoxo apresentado pelos editores de Port-Royal, o cético que emerge da edição de 1776 de Condorcet e o apologético da edição de 1851 de Havet49.
Não é possível entender a obra de Pascal sem ter em vista a sua visão de mundo e história, uma perspectiva na qual a Bíblia era considerada o único documento histórico autorizado, limitando o alcance da investigação e o campo de ação. Os franceses cultos de sua época, por exemplo, acreditavam que Deus teria criado o mundo no ano 4004 a.C. e determinavam a data exata do dilúvio50.
É no contexto do jansenismo, controvérsia religiosa mais importante do século XVII, que se desenvolve o pensamento de Pascal. Os jansenistas acreditavam que os vícios que a humanidade veio adquirindo no processo de civilização têm como única causa o pecado original enquanto afastamento voluntário do homem em relação a Deus:
... o pecado original comprometeu irremediavelmente a natureza original do homem, de modo que a sua condição atual o coloca muito distante da bondade primitiva e completamente despojado de meios próprios para recuperá-la. Essa insuficiência tornou-se característica da condição humana, que é a do pecado, de modo que a superação dessa condição não pode dar-se sem a ajuda de Deus, isto é, sem a dispensação da graça, concedida àqueles que ele escolheu para contemplar, de maneira gratuita e devida unicamente à sua misericórdia, já que o homem livremente renunciou ao merecimento. Concordam com a afirmação de uma bondade primitiva, pois o homem, criado por Deus à sua imagem e semelhança, teria de refletir, no estado de criatura, a perfeição do criador. Criatura perfeita no seu gênero, uma das perfeições de que o homem dispunha era a liberdade. Ele a usou para afastar- se de Deus, sendo assim o responsável pela sua própria queda. Esta seria em princípio definitiva, porque o homem, dada a sua condição inferior, não poderia por si mesmo reparar a ofensa feita a um ser infinitamente superior.
49 Cf. VOEGELIN. Nietzsche and Pascal, p. 130. 50 Cf. WETSEL. Pascal and holy writ, p. 162.
A gravidade da ofensa se mede pela dignidade do ofendido e não do ofensor: de acordo com tal princípio, a humanidade, que pecou em Adão, estaria, de maneira inteiramente justa, porque por sua própria escolha, destinada à danação. No entanto, Deus, movido pela sua misericórdia, que nesse caso superou a justiça, ofereceu a possibilidade de salvação por meio da única reparação devida, o sacrifício do próprio Deus na pessoa de Jesus Cristo, que trouxe aos homens, por via da paixão, a possibilidade de recompor a união com Deus. Trata-se de uma graça, isto é, de algo que Deus oferece independentemente do merecimento humano e por isso é somente através dessa graça que o homem pode triunfar sobre o pecado51.
Para justificar a sua apologia do cristianismo, Pascal lança mão de argumentos falsos (e até ingênuos), como o de que “Nenhuma seita ou religião esteve sempre sobre a terra, a não ser a religião cristã”52. Não obstante, o estilo de Pensamentos, que inclui diálogos e cartas, foi concebido para persuadir uma grande variedade de interlocutores e leitores – podendo ser considerada, até mesmo, um manual de autopersuasão. Longe de ser uma apologia tradicional da religião cristã, não só confronta como também assume muitas das ideias apresentados pelos céticos e descrentes com o qual dialoga53.
Para Pascal, se trataria de entender o sentido histórico e transcendente da religião cristã, investigando as origens de todas as contradições que vivenciamos, buscando no próprio mistério da fé a luz que ilumine as oposições que dividem a nossa consciência, porque Deus concederia clareza suficiente aos que o procuram de coração aberto, mas também corroboraria a cegueira daqueles que não desejam conhecê-lo: “A religião é uma coisa tão grande que é justo que aqueles que não quisessem dar-se o trabalho de procurá-la, se ela é obscura, fiquem privados dela. De que se queixam então, se ela é tal que pode ser encontrada quando se procura?”54
O Deus absconditus (abscôndito, escondido) é o nome que Deus teria dado a si mesmo nas Escrituras55, indicando que os homens estão nas trevas e no afastamento da divindade, que permanece oculta. Não obstante, o criador do universo teria colocado marcas sensíveis na Igreja para se fazer reconhecer por aqueles que o buscam com sinceridade, com o coração:
Há quem veja claramente que não existe outro inimigo do homem a não ser a concupiscência que o desvia de Deus, e não (inimigos), nem outro bem senão Deus, e não a terra rica. Aqueles que acreditam estar na carne o bem
51 SILVA. Pascal: Condição Trágica e Liberdade, p. 343 52 PASCAL. Pensamentos, §421 (606), p. 164.
53 Cf. HAMMOND. Pascal’s Pensées and the art of persuasion, p. 235-240. 54 PASCAL. Pensamentos, §472 (574), p. 194-195.
55 “Verdadeiramente um Deus se esconde em tua casa, o Deus de Israel, um Deus que salva!” (Vere tu es Deus
do homem e o mal naquilo que os desvia dos prazeres dos sentidos, que se embriaguem deles e que morram. Mas aqueles que buscam a Deus de todo o coração, que só têm desprazer em estarem privados de sua vista, que só têm desejo de possuí-lo, e [que só têm] como inimigos os que os desviam dele, que se afligem por estar rodeados e dominados por esses inimigos, que se consolem, eu lhes anuncio uma feliz notícia; há um Libertador para eles; eu os farei vê-lo; eu lhes mostrarei que há um Deus para eles; não o mostrarei aos outros56.
Os maiores inimigos dos homens que procuram Deus seriam as paixões e a cobiça de bens materiais e prazeres carnais. Essa concupiscência, cobiça natural do homem pelos bens terrenos, consequência do pecado original, produz desordem dos sentidos e da razão. O remédio seria a ascese, isto é, a disciplina e o autocontrole estritos do corpo e do espírito, conduzindo ao caminho em direção a Deus, à verdade e à virtude.
Somente Deus poderia preencher a ausência constitutiva que se manifesta em nossa insuficiência existencial. E seu filho Jesus Cristo, o Deus humilhado, libertador dos homens, traria aos homens não a justiça legal, terrena, mas sim a justiça eterna, e somente para aqueles que têm fé e praticam a ascese. Tem-se, assim, a “Miséria do homem sem Deus” e a “Felicidade do homem com Deus”57.
A antropologia pascalina conclui que o homem é miséria e grandeza. Alimentada tanto por uma aguda observação mundana quanto por uma interpretação rigorista da Bíblia, compreende que o caos de contradições em que consistem os homens é devido à participação em seu ser de duas realidades incomensuráveis: a perfeita, sobrenatural, e a corrupta, natural, após a queda – o anjo e a besta, já mencionados.
Tentando fugir da circunstância existencial dilacerada, os homens elaboram toda sorte de distrações, condutas desviantes e artifícios – o famoso divertissement (divertimento). Incluem-se, nessa categoria, as convenções sociais tão ironizadas por Machado: as honrarias, os títulos honoríficos, o apego aos bens materiais, a opinião pública, o jogo, o entretenimento com as mulheres, a guerra e até mesmo a ciência e a filosofia: “As misérias da vida humana foram o fundamento disso tudo. Como viram isso, assumiram o divertimento”58.
O divertimento, para Pascal, conduz para o terreno das sensações imediatas, nos desviando do bom caminho. Isto posto, a única saída para o homem é a imitação de Cristo, a obediência aos ensinamentos da tradição cristã e a apologia da única religião que, segundo ele, seria verdadeira e capaz de conduzir à salvação:
56 PASCAL. Pensamentos, §269 (692), p. 106. Ver também: §427 (194), p. 165. 57 PASCAL. Pensamentos, §6 (60), p. 4.
Dessa falta de coerência entre os mais aturados esforços do pensamento para obter a verdade pode-se obter a disposição necessária para transitarmos até a última ordem, o coração. O fracasso como estímulo para a ascese: humilhados o orgulho e a autossuficiência dos homens – indevidamente reverenciados pela modernidade, pois tudo o que a ciência nova diz saber não vale nada diante do mistério da criação, impenetrável por nossas razões –, resta a admissão de que os textos sagrados estão com a verdade. Se a aceitação do absurdo contido na noção de pecado original é chocante para a chamada sã consciência, que outra explicação esta mesma consciência tem a dar para a loucura da existência diária? É escândalo para os bem pensantes aceitar a palavra dos profetas, que exigem renúncia ao mundo. A resposta pascaliana para isso é que os resultados do próprio bem pensar nunca justificaram, em última análise, qualquer das opções de adesão ao mundo neles apoiadas. Para um animal tão disparatado como o homem, só a loucura maior do sacrifício misericordioso por todos na cruz pode prover salvação59. O autor de Pensamentos ensina que o homem deve amar em si mesmo a condição miserável que mereceu a complacência divina. E apenas quando nos isolamos do mundo é que conseguimos sentir intensamente a miséria advinda da corrupção da nossa natureza. A partir dessa consciência poderíamos esperar da misericórdia divina – gratuita, porque de forma alguma a merecemos – a salvação da alma tornada possível pela graça redentora.
Pascal, ao caracterizar com tanta clareza o estranhamento metafísico do homem moderno, antecipa, de longe, a razão mais profunda do aparecimento do niilismo: a falta de sentido da existência. Evidentemente, o filósofo analisa e enfrenta essa nova condição para refutá-la. Mesmo que o homem seja um nada esmagado pelas forças cósmicas, ele ainda pode transcender o condicionamento das leis naturais e proclamar-se cidadão do mundo do espírito.