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2.2.2 Hva er ERP?

Machado faz mais de uma centena de referências à Bíblia, cuja edição encontrada em sua biblioteca era uma versão da Vulgata, traduzida pelo português António Pereira de Figueiredo e publicada em 186620. Dentre os livros bíblicos, o preferido do escritor é aquele que tende a mostrar que as opiniões, planos e empreitadas dos homens são todos em vão e estéreis – o Eclesiastes.

Há uma frase do Eclesiastes que porventura seja a mais frequentemente convidada a participar da prosa machadiana: “vaidade das vaidades, tudo é vaidade”. A sua recorrência é muito significativa, seja concordando, como o cronista de “A Semana”, para quem o livro bíblico “tem resposta para tudo”21, ou discordando, como um personagem de Iaiá Garcia: “O Sr. Antunes, que não era de extremas filosofias, tinha a convicção de que debaixo do sol, nem tudo são vaidades, como quer o Eclesiastes”22. Predomina a concordância, ainda que com a pena da galhofa. Ao escrever seu “Elogio da Vaidade”, publicado na revista O Cruzeiro em 28 de maio de 1878, Eleazar faz com que a própria Vaidade, personificada e empertigada, pronuncie o louvor de si mesma para o grande público:

Que eu sou a Vaidade, classificada entre os vícios por alguns retóricos de profissão; mas na realidade, a primeira das virtudes. Não olheis para este gorro de guizos, nem para estes punhos carregados de braceletes, nem para estas cores variegadas com que me adorno. Não olheis, digo eu, se tendes o preconceito da Modéstia; mas se o não tendes, reparai bem que estes guizos e tudo mais, longe de ser uma casca ilusória e vã, são a mesma polpa do fruto da sabedoria; e reparai mais que vos chamo a todos, sem os biocos e meneios daquela senhora, minha mana e minha rival23.

Enquanto a sabedoria, sua irmã e rival, seria para poucos, a Vaidade do texto machadiano gaba-se de ir do salão do rico ao albergue do pobre, do palácio ao cortiço, de tal modo que raros poderão afirmar que ela não os tenha alçado ou consolado. Assim, o cronista reelabora o paradoxo proposto por Erasmo em seu Elogio da Loucura, onde a loucura pronuncia o seu próprio encômio.

20 Uma compilação das citações bíblicas feitas por Machado e seus narradores pode ser encontrada em

BRANDÃO; OLIVEIRA. Machado de Assis leitor, p. 175 – 187.

21 ASSIS. A Semana, p. 1196. 22 ASSIS. Iaiá Garcia, III, p. 522. 23 ASSIS. Miscelânea, p. 1253.

Já na última série de crônicas escrita por Machado, o desencanto é o sentimento do cronista que já perdeu todas as ilusões e recorre constantemente ao Eclesiastes. A crônica de 15 de janeiro de 1893 revela a convicção, patente na escritura, de que nada há de novo debaixo do sol e todas as coisas não passam de vaidade:

Onde há muitos bens, há muitos que os comam, diz o Eclesiastes, e eu não quero outro manual de sabedoria. Quando me afligirem os passos da vida, vou-me a esse velho livro para saber que tudo é vaidade. Quando ficar de boca aberta diante de um fato extraordinário, vou-me ainda a ele para saber que nada é novo debaixo do sol24.

O livro do Eclesiastes, segundo as tradições judaica e cristã, teria sido escrito por Eclesiastes (Salomão), filho de Davi, rei de Jerusalém. Contudo, os exegetas, tanto protestantes quanto católicos, divergem sobre a sua autoria e a data de sua publicação, que oscila entre os séculos X a. C. e III a. C. O único consenso é em relação ao significado do seu título, que, em grego, remete àquele que fala perante uma assembleia, ekklesía. O título original em hebraico, Qohélet, ou Coheleth, significa o pregador, o sábio, o-que-sabe, sendo este o qualificativo com o qual o autor se autodenomina.

O primeiro capítulo do Eclesiastes pontifica que as coisas mundanas são vãs, repletas de vaidade e sem novidade, incluindo a ciência e a sabedoria humanas, que só fazem aumentar trabalhos e aflições: “Eu vi tudo que se passa debaixo do sol, e eis que achei que tudo era vaidade e aflição de espírito”25.

No capítulo II, o autor relata sua própria experiência de entrega aos prazeres materiais, à vaidade dos deleites, das riquezas e das construções humanas. Após edificar palácios, plantar vinhas, cultivar jardins, possuir serviçais e rebanhos, acumular prata e ouro, comer e beber do bom e do melhor, o autor constata que a sua vida se tornou fastidiosa, vendo que toda sorte de males há debaixo do sol, e que tudo é vaidade e aflição de espírito. Em seguida, conclui que só encontrou alegria ao servir a Deus:

Deus ao homem bom na sua presença deu sabedoria, e ciência, e alegria; mas ao pecador deu aflição e cuidado supérfluo para que ele ajunte mais e adquira bens sobre bens, e os deixe a um homem que lhe agradou a ele Deus; mas ainda isto é verdade, e um tormento do espírito bem inútil26.

24 ASSIS. A Semana, p. 951.

25 ECLESIASTES. Eclesiastes, I, §14, p. 28. 26 ECLESIASTES. Eclesiastes, II, §26, p. 36.

O terceiro capítulo pontifica que a providência divina dispõe todas as coisas em seu tempo, alertando que o ser humano não pode alterar as disposições de Deus, mas deve aproveitar devidamente os dons da vida, resignando-se ante as injustiças deste mundo, porque “Deus julgará o justo e o ímpio, e então será o tempo de todas as coisas”27. Nesse sentido, seus fins autoritários e irracionais não podem ser alcançados por meio de convicções racionais, mas somente na salvação religiosa, pela fé.

O capítulo IV aborda os sofrimentos provenientes das calúnias, violências e ciúmes dos homens uns contra os outros, da ociosidade dos insensatos, da loucura dos avaros e da vaidade do poder soberano. Conclui que a obediência é preferível aos sacrifícios: “Porque muito melhor é a obediência do que as vítimas dos insensatos que não conhecem o mal que fazem”28.

Os capítulos V e VI insistem na precariedade dos bens materiais e na vacuidade da vida mundana, porque do mesmo modo que saímos nus do ventre de nossas mães, nus morreremos, sem levar nada conosco. Logo, indica alguns meios para que o ser humano possa desfrutar da tranquilidade: circunspecção nas palavras; moderação no falar e no prometer, mesmo a Deus; não se admirar ou espantar com as injustiças, as ambições e a perda das fortunas; contentar-se com o necessário, resistindo aos desejos. Por fim, ensina que devemos nos abandonar à providência divina.

O sétimo e o oitavo capítulos ensinam os supostos verdadeiros valores da vida: a boa reputação, a seriedade, a paciência em face da contradição, a pouca importância do dinheiro, a bondade para com o próximo, a utilidade das correções, a obediência a Deus, a espera dos julgamentos divinos e a consciência de que só Deus pode discernir o bem e o mal dos homens. Ainda apresenta um niilismo metafísico, desvalorizando a vida na Terra em nome de outra, no além: “Melhor é o bom nome do que os bálsamos preciosos, e o dia da morte do que o dia do nascimento”29.

O capítulo IX pontifica que apenas Deus conhece o íntimo do ser humano, pois na vida mundana todas as coisas acontecem igualmente ao justo e ao ímpio, ao bom e ao mau, ao puro e ao impuro, de tal modo que ninguém sabe se é digno de amor ou de ódio – o que não nos deve desencorajar, mas estimular à virtude, a qual, contudo, nem sempre é recompensada na Terra.

27 ECLESIASTES. Eclesiastes, III, §17, p. 40. 28 ECLESIASTES. Eclesiastes, IV, §17, p. 46. 29 ECLESIASTES. Eclesiastes, VII, §2, p. 55.

O décimo capítulo avalia as consequências funestas da imprudência e aconselha a cautela. Que os homens de bem tomem cuidado com as palavras e ações dos insensatos, especialmente quando estes ocupam posições elevadas, de cujos erros são cúmplices aqueles que os elevaram. Ensina, ainda, a não criticar as autoridades: “Não digas mal do rei, ainda no teu pensamento, e não fales mal do rico, ainda no retiro da tua câmara; porque até as aves do céu levarão a tua voz, e o que tem penas dará notícia do teu sentimento”30.

O autor do livro, monarca e milionário, esbanjando riqueza enquanto o povo vivia na pobreza, porventura seja um demagogo que doutrina os súditos a desprezarem os bens materiais, a resignarem-se ante as injustiças do mundo e a não maldizerem os nobres e abastados. Nesse sentido, o Eclesiastes pode ser lido como material de propaganda preocupado com questões políticas concretas e tangíveis. Para obter o apoio dos fiéis para objetivos altamente incompatíveis com seu autointeresse racional, só pode fazê-lo criando artificialmente o vínculo com Deus – um amor a Deus moldado em obediência.

O padrão reaparece nos dois últimos capítulos, que não apelam à consciência própria de seus potenciais seguidores, mas invocam incessantemente valores externos, convencionais e salvacionistas, os quais são tomados como certos e tratados como autoritariamente válidos sem jamais serem submetidos a um processo de experiência viva ou a um exame discursivo. Tal fenômeno é expresso adequadamente na fórmula do capítulo XII: “Ouçamos todos juntos o fim deste discurso. Teme a Deus e observa os seus mandamentos, porque isto é tudo do homem”31.

O autoritarismo salomônico retorna no Novo Testamento, que ensina a rendição da vontade individual à vontade de Deus. Exemplar é um discurso de Paulo de Tarso, que prega que os cristãos submetam-se servilmente às instituições estabelecidas, que seriam representantes de Deus na Terra:

Cada qual seja submisso às autoridades constituídas, porque não há autoridade que não venha de Deus; as que existem foram instituídas por Deus. Assim, aquele que resiste à autoridade, opõe-se à ordem estabelecida por Deus; e os que a ela se opõem, atraem sobre si a condenação. Em verdade, as autoridades inspiram temor, não porém a quem pratica o bem, e sim a quem faz o mal! Queres não ter o que temer a autoridade? Faze o bem e terás o seu louvor. Porque ela é instrumento de Deus para o seu bem32.

30 ECLESIASTES. Eclesiastes, VII, §20, p. 77.

31 ECLESIASTES. Eclesiastes, XII, §13, p. 84. Grifo original. 32 BÍBLIA. Epístola de São Paulo aos romanos, 13, 1-4, p. 1462.

Paulo de Tarso fomentou a visão tradicional de que o cristianismo, por ser uma religião e não um programa social ou político, não tinha nada a mudar na sociedade. Como todos teriam sido resgatados pelo Cristo, todos participariam da mesma condição metafísica e estariam aptos para a salvação. Seríamos todos irmãos, mas “em Cristo” e quanto à nossa alma imortal. Dessa unanimidade religiosa não decorre que a mulher, o homem, o senhor e o escravo sejam iguais neste mundo cá de baixo. Considerando o preço da salvação o respeito à moral nesta vida, Paulo prescreve às mulheres que obedeçam aos seus maridos e aos escravos que obedeçam aos seus senhores:

As mulheres sejam submissas a seus maridos, como ao Senhor, pois o marido é o chefe da mulher, como Cristo é o chefe da Igreja, seu corpo, da qual ele é o Salvador. Ora, assim como a Igreja é submissa a Cristo, assim também o sejam em tudo as mulheres a seus maridos. [...] Servos, obedeceis aos vossos senhores temporais, com temor e solicitude, de coração sincero, como a Cristo, não por mera ostentação, só para agradar aos homens, mas como servos de Cristo, que fazem de bom grado a vontade de Deus. Servi com dedicação, como servos do Senhor e não dos homens. E estai certos de que cada um receberá do Senhor a recompensa do bem que tiver feito, quer seja escravo quer livre33.

As religiões judaico-cristãs, sob a máxima “Seja feita vossa vontade”, pregam a rendição da vontade individual à vontade de Deus, aceito como uma entidade suprema que personificaria a ordem do Universo. Para que seja obedecida a vontade divina, essas religiões impõem mandamentos na forma de escrituras sagradas e regras sob a administração dos sacerdotes. Assim, os fiéis esperam que um poder exterior (Deus) justifique o mundo, obedecendo às vontades alheias em detrimento de suas vontades individuais.

Blaise Pascal, em sintonia com Paulo e o Eclesiastes, acredita que a providência divina dispõe todas as coisas em seu tempo, aceitando que o ser humano não pode alterar as disposições de Deus, mas deve aproveitar devidamente os dons da vida, resignando-se ante as injustiças deste mundo: “A justiça é o que está estabelecido; e assim todas as nossas leis estabelecidas serão necessariamente tidas como justas sem ser examinadas, visto que estão estabelecidas”34.

Machado de Assis, como consta de sua biografia, seguiu parcialmente a orientação do Eclesiastes na condução de sua vida pessoal, vivendo com sobriedade, ponderação e prazeres moderados. Entretanto, recusou a extrema-unção e demonstrou ser cético em relação às autoridades terrenas, ao julgamento divino e ao determinismo cósmico

33 BÍBLIA. Epístola aos efésios, 5, 22-24; 6, 5-8, p. 1502. 34 PASCAL. Pensamentos, §645 (312), p. 273.

que torna todas as coisas vãs. Exemplar é o cronista de “A Semana”, que não quer outro manual de sabedoria e endossa que nada há de novo debaixo do sol e que tudo é vaidade, mas recusa veementemente a obediência cega a um poder totalitário: “Não que eu tenha ódio à lei; mas não tolero opressões de espécie alguma, ainda em meu benefício”35.

É possível concluir que a prosa machadiana parece corroborar alguns dos principais temas tratados pelo texto bíblico, como a vaidade do conhecimento, a vaidade dos prazeres, a certeza da morte, a incerteza do futuro, a insignificância da reputação pessoal (supervalorizada pela sociedade brasileira oitocentista) e o mistério insondável da existência, por vezes tratando-os com a pena da galhofa.